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Entrevista de Domingo

Instituto Elos busca parcerias para construir um mundo melhor e mais justo

Natasha fala sobre as atividades da organização nesses 21 anos de existência

Por Adriana Martins - Redação BS9

29/08/2021 - domingo às 07h00

A arquiteta e urbanista Natasha Mendes Gabriel é cofundadora da organização de educação social - (foto: Isabela Senatore)

Há 25 anos, em Santos, acontecia o que a arquiteta e urbanista Natasha Mendes Gabriel chama de pré-história do Instituto Elos, organização de educação social referência em tecnologias sociais e metodologias para formação de lideranças e transformação social.
 
Reconhecido no Brasil e no exterior, o Elos surgiu a partir do movimento estudantil de Arquitetura e Urbanismo, do qual Natasha fazia parte nos anos 1990, quando era aluna da Universidade Católica de Santos (UniSantos). Como resultado, ações que impactaram diretamente mais de 500 mil pessoas ao redor do mundo. 
 
Cofundadora e diretora pedagógica, Natasha fala sobre as atividades da organização nesses 21 anos de existência, especialmente na Baixada Santista. Comenta, também, o trabalho emergencial desenvolvido durante a pandemia de Covid-19 e o gravíssimo déficit habitacional da região. “É fundamental equilibrar a participação dos diferentes atores locais, promover o diálogo e buscar uma agenda de equidade e justiça social”, defende.
 
Nesta entrevista, saiba, ainda, como poder público, empresários e população em geral podem colaborar para transformar o mundo em um lugar mais justo.
 
1- O Instituto Elos é uma organização social premiada, reconhecida no Brasil e no exterior. Como aconteceu o seu envolvimento com a entidade, como tudo começou?
O Elos tem uma história e uma pré-história, que vem do movimento estudantil de Arquitetura e Urbanismo, que discutia na época uma arquitetura construída com a participação popular. Em 1995, durante o Encontro Nacional de Estudantes de Arquitetura (Eneas) em Santos, que reuniu 2 mil pessoas, colocamos os estudantes na rua, em espaços pouco conhecidos e pouco discutidos, como o Dique da Vila Gilda, comunidades caiçaras de pescadores, morros, Centro, para debater arquitetura com a população. Depois disso, em 1996, criamos o grupo Reviver, para revitalizar o Museu de Pesca de Santos, que estava fechado havia 11 anos. Foi um projeto muito enriquecedor, que durou quatro anos, realizado em parceria com o Instituto de Pesca e outras organizações, aprovado pelo Condephaat (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo). Mais do que um patrimônio histórico, o Museu de Pesca é um patrimônio afetivo da cidade, uma referência na vida das pessoas. Ouvimos pescadores, crianças, para entender o que elas queriam, buscamos parcerias, e o museu foi entregue em 2000. Nessa pré-história, de participação social, construção coletiva, engajamento da sociedade santista na revitalização desse espaço público, que foi feita de forma colaborativa, a experiência ficou conhecida no meio da arquitetura, foi parar em congressos, encontro latino-americano...  A gente, então, sistematizou isso e criou o Guerreiros Sem Armas, antes mesmo do Elos, e levou essa experiência para comunidades como Dique da Vila Gilda, Praia do Góis e Ilha Diana.

2- Um programa que continua até hoje.
Sim. É um programa de formação de jovens, com o objetivo de transformar realidades e desenvolver habilidades. A duração é de um ano, e já recebemos jovens de 51 países, que multiplicam essa filosofia em comunidades do mundo inteiro. Há uma parte on-line e a imersão de um mês, que normalmente acontece na região da Baixada Santista. Em 1999, foi o primeiro programa, com foco na restauração de áreas degradadas. Hoje ele acontece em vários contextos, com profissionais de diversas áreas. A partir daí, em 2000, criamos o Instituto Elos, porque vimos o potencial de trabalhar com grupos comunitários. 
 
3- Como o Elos está estruturado atualmente, em relação ao número de colaboradores, abrangência e áreas de atuação?
O Instituto Elos é uma organização santista referência mundial em tecnologias sociais e metodologias para formação de lideranças e transformação social. Alinhado com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 11, da ONU, contribui para tornar as cidades inclusivas, seguras, resilientes e sustentáveis por meio da mobilização comunitária. Nesses 20 anos de atuação, teve sua metodologia disseminada em 51 países, formou mais de 3 mil lideranças e impactou mais de 500 mil pessoas diretamente em mil comunidades no mundo. É especialista na realidade social brasileira por meio da atuação em mais de 300 comunidades de 21 estados. As formações unem teoria e prática por meio de cursos, jogos sociais e vivências. A organização atua para conectar e articular governos, empresas e grupos comunitários em torno de objetivos comuns de desenvolvimento social. E isso é feito por uma equipe de 26 pessoas.
 
“Em um país com um histórico de colonização e processo de escravização como o nosso, pensamos em construção de equidade
e justiça social. Acreditamos que tudo isso é um processo de educação e transformação social” 

4- Dar o peixe e ensinar a pescar geralmente são ações vistas como antagônicas. Afinal, elas são contrárias ou devem ser combinadas?
Interessante você perguntar nestes termos. Nós não utilizamos esta comparação. Em um país com um histórico de colonização e processo de escravização como o nosso, pensamos em construção de equidade e justiça social. Acreditamos que tudo isso é um processo de educação e transformação social, que requer letramento de todos nós. É preciso construir essa visão compartilhada de uma sociedade em que cabemos todos nós, com as nossas diferenças, vivendo de forma digna. Traduzindo para a metáfora da pescaria, às vezes é preciso dar o peixe para quem não tem barco, rede de pesca, anzol... Mas tenhamos clareza que o que as pessoas buscam e precisam, antes de tudo, é ter acesso ao mar.

5- Continuando com a metáfora, quando dar o peixe se faz absolutamente necessário?
Durante a pandemia, o Elos precisou se reinventar para realizar mobilização comunitária e formação de lideranças em um contexto de distanciamento social. Somos uma organização de Educação Social, trabalhamos dentro das comunidades, e por isso mesmo não poderíamos aguardar o fim da pandemia para retomar o trabalho. Decidimos fazer o que fazemos melhor: criar Elos. Acessamos as comunidades e fizemos um mapeamento de como estavam atravessando a crise, o que nos permitiu ter um diagnóstico claro e gerar um banco de dados tanto das necessidades, quanto das oportunidades dentro de cada uma delas. Isso deu origem ao portal Rede Elos, onde é possível conhecer as comunidades e as iniciativas que estão desenvolvendo para responder aos problemas que lhes afligem. Chamamos isso de protagonismo comunitário. Claro que uma das necessidades, apontadas pelo relatório da Oxfam Brasil, é a fome, que ameaça metade dos brasileiros atualmente. Assim, foram entregues 364 toneladas de alimentos, beneficiando 63.580 pessoas. Até junho de 2021, na Baixada Santista, foram distribuídas 208 toneladas de alimentos, divididas em 6.925 cestas, para 8.203 famílias em 38 comunidades. Os recursos totais mobilizados somaram mais de R$ 2 milhões. Isso foi possível pela atuação do Elos em rede, em parceria com lideranças comunitárias e organizações sociais, e a doação de empresas e indivíduos.
 
6- O que mais engloba esse protagonismo comunitário?
Nós avaliamos o contexto. Para as comunidades tradicionais, por exemplo, especialmente as indígenas, em vez de cestas, fizemos doações do kit horta, visando a segurança alimentar dessas pessoas. Nós temos um trabalho bem próximo com a Associação de Jovens da Jureia, que foi uma das beneficiadas. E também mandamos esses kits para comunidades quilombolas e comunidades indígenas de outras regiões do País, como Acre e sul da Bahia. Mas é importante destacar que a Rede Elos também está aberta a pessoas que queiram apoiar iniciativas locais de protagonismo comunitário, para além da ajuda emergencial, por meio do Fundo Semente, de captação de recursos. Neste momento, estamos com o projeto de construção de uma biblioteca comunitária no bairro do Pilões, em Cubatão, um local que a gente apoia há bastante tempo. Já realizamos o Guerreiros Sem Armas lá, depois apoiamos a construção de um parque infantil e de uma horta comunitária, todas necessidades apontadas pela própria comunidade. 

“A Baixada Santista tem 485 assentamentos precários, 182 favelas, 221 cortiços, 270 loteamentos irregulares e 33 conjuntos habitacionais não legalizados. Esses dados estão aí para a gente questionar: que região metropolitana é essa que não consegue dar conta dessa demanda habitacional?”


7- De maneira geral, quais as principais necessidades das comunidades da Baixada Santista? Há características regionais específicas e uma demanda própria, que as diferem de outras regiões do País?
A precariedade em relação à moradia e a falta de acesso à moradia, à mobilidade, ao saneamento e à cidade em si, ou seja, a todos os equipamentos públicos e espaços de lazer, são muito parecidas em qualquer lugar. O que a gente tem na Baixada Santista é uma diversidade em relação aos tipos de moradias precárias: cortiços, em áreas de morros e risco, palafitas... Destaco, ainda, as comunidades tradicionais caiçaras e indígenas, que também requerem políticas específicas. Além disso, o nosso ecossistema é muito rico e diverso, outro ponto de atenção e cuidado característico da região. Temos uma Mata Atlântica maravilhosa, uma área de preservação superimportante de manguezal e de restinga que requerem atenção. Quando se fala em pensar, em discutir a Baixada Santista onde queremos viver, é fundamental equilibrar os diferentes atores locais, promover o diálogo e buscar uma agenda de equidade e justiça social. O processo participativo é isso. Um estudo da Agência Metropolitana da Baixada Santista em parceria com a Universidade Federal do ABC mostra que a região tem 485 assentamentos precários, 182 favelas, 221 cortiços, 270 loteamentos irregulares e 33 conjuntos habitacionais não legalizados. Esses dados estão aí para a gente questionar: que região metropolitana é essa que não consegue dar conta dessa demanda habitacional? Essa questão é urgente.
 

“O Elos se propõe a criar diálogo na sociedade e, por meio desse diálogo, criar soluções onde antes parecia não haver possibilidade”

8- Santos possui a maior favela sobre palafitas do Brasil, o Dique da Vila Gilda. Há um projeto proposto pela administração municipal, que pretende construir moradias sobre o mangue, promovendo o assentamento dos moradores. O Elos apoia a iniciativa? Qual seria o impacto dessa mudança? 
Conhecemos de perto o Dique da Vila Gilda, uma das primeiras comunidades a receber o programa Guerreiros Sem Armas, em 1999. Após o programa, realizamos em parceria com um grupo comunitário a construção da Creche da Tia Nilda, entre 1999 e 2001. Após a creche, incubamos o projeto sociocultural Arte no Dique, em parceria com o grupo cultural Olodum, com o José Virgílio, que fazia parte do Olodum e hoje é presidente do Instituto Arte no Dique, e com um grupo de mulheres incríveis do Dique. As oficinas culturais inicialmente aconteciam nas ruas, depois conseguimos um contêiner e construímos um barracão cultural, até que, em 2010, o Arte no Dique foi contemplado por uma política pública no Ministério da Cultura, o Mais Cultura, e foi criado o Instituto Arte no Dique, uma escola popular de arte e cultura muito importante. O Elos se propõe a criar diálogo na sociedade e, por meio desse diálogo, criar soluções onde antes parecia não haver possibilidade. Atuamos dessa forma, sem jamais abrir mão das nossas crenças e valores: trabalhamos por um mundo com justiça social, antirracista, antimachista, democrático. Moradia digna e direito à cidade para todas as pessoas faz parte desta agenda. Pessoalmente, não conheço o projeto Parque Palafitas. Acredito que é fundamental uma escuta aprofundada da comunidade e levar em consideração a sua percepção sobre a realidade em que vive, os seus anseios, sonhos e também os seus talentos e contribuições para gerar soluções. É importante que as políticas públicas sejam intersetoriais e que as questões colocadas pela população, universidades, organizações e movimentos sociais sejam consideradas no projeto.

9- Como poder público, empresariado e população em geral podem colaborar com as ações do instituto?
O poder público pode abrir espaço de diálogo. Temos apoiado prefeituras no Brasil e no mundo aplicando a metodologia Elos na implementação e fortalecimento de políticas públicas. Construir processos participativos não é sobre fazer a escuta para apenas legitimar o processo, mas, sim, sobre incluir as diferentes perspectivas da população no projeto, em especial, a comunidade local e sobre construir cidades mais justas. Empresas e pessoas físicas podem apoiar a ação do Elos a partir de doações pelo site da Rede Elos (https://doe.institutoelos.org/rede-elos/baixada-santista). Sabemos que não está fácil para ninguém, por isso quero reforçar que é possível apoiar a ação do Elos nas comunidades sem colocar a mão no bolso, pela Nota Fiscal Paulista. Para cadastrar uma entidade que receberá automaticamente uma doação a cada compra, é preciso fazer o login no sistema por meio do App da Nota Fiscal Paulista ou no site do programa e selecionar a opção Doação Automática Com CPF. Nesse local é só escolher a instituição e o período que deseja doar. 
 

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