ENTREVISTA DE DOMINGO
Responsável técnica pelo Centro de Controle de Doenças Infecciosas de Santos, ela também comentou sobre casos de dengue, chikungunya, sarampo, Aids e sífilis
Por Alexandre Fernandes - Redação BS9
23/04/2022 — sábado às 18h00
Elisabeth Dott Consolo diz que a idade não é um fator determinante para se desenvolver a Síndrome Pós-Covid - Reprodução/Instagram
Trocar o pneu com o carro andando. Essa expressão parece se aplicar a tudo o que se refere à Covid-19. Os estudos sobre a doença, o vírus e suas variantes, a forma mais adequada de tratamento, a corrida por uma vacina, tudo.
Aos poucos, pacientes se livravam do vírus, mas logo na sequência tinham de lidar com os estragos que ele causava no organismo delas. Traz mais um estepe e o macaco hidráulico aí!
Assim os médicos buscam entender a Síndrome Pós-Covid. No início achava-se que ela atingia apenas os pacientes mais graves. Conforme o tempo passava, mais e mais pessoas começavam a se queixar de vários sintomas.
Nesta Entrevista de Domingo, a infectologista Elisabeth Dott Consolo, responsável técnica pelo Controle de Doenças Infecciosas de Santos, enumera alguns desses sintomas que, apesar de associados a uma síndrome, não são tratados da mesma forma.
Não bastasse trocar o pneu com o carro da Covid andando, infectologistas como ela não podem se descuidar de outras doenças não menos preocupantes, como dengue, chikungunya e até o sarampo, considerada erradicada no Brasil até pouco tempo atrás.
Sobre essa última doença, a médica não esconde sua indignação com a ignorância dos pais que se recusam a vacinar os filhos. Assim como os casos de Aids e sífilis, fruto do desleixo de parte da população com as formas de prevenção.
1 - É possível apontar quantos sintomas podem ser associados à Síndrome Pós-Covid? Quais os mais comuns?
De cima para baixo, vamos lá. Dor de cabeça. Alteração do paladar e do olfato. Uma tosse seca, constante. Refluxo... Pode ter falta de ar, cansaço aos médios e mínimos esforços. Aí você põe mais para baixo: taquicardia, arritmia, a pressão descontrolada. Pode ter problemas gastrointestinais, tipo enjoo que vai e que volta. Você tem quadros de diarreia, problemas renais, de circulação, insuficiência circulatória, dores articulares... Suadouro. Você sua de noite e quando vai ver, a temperatura está normal. Muita queda de cabelo. Outra coisa muito grave: pânico, estresse, ansiedade, angústia, insônia, pesadelo, ideias perturbadoras. Você não se reconhece, tem perda de memória. As pessoas falam que parece uma ansiedade, mas não é. Parece uma depressão, mas é diferente. Bem complicado, bem pesado.
2 - Pelo simples fato de a pessoa apresentar um sintoma já é possível afirmar que ela sofre de Síndrome Pós-Covid? Como se chega a esse diagnóstico?
Tudo isso é muito novo para nós. Ainda requer muito estudo para fechar diagnósticos. Mas o que temos visto é isso tudo se repetindo com muita, muita frequência. Porque a síndrome é um conjunto de sintomas de uma patologia. É quando são várias coisas acontecendo. Às vezes você pode ter só um problema. Por exemplo, um cansaço extremo, uma perda de memória absurda, ou uma ansiedade que não passa de jeito nenhum, ou arritmia. Pode ser isolado? Pode, pode ser isolado. Então, a Síndrome pós-Covid é uma coisa muito genérica. Esse nome é muito genérico e ele vai ter que ser aprimorado.
3 - Todas as pessoas infectadas pelo coronavírus têm predisposição para desenvolver essa síndrome? Ou apenas os pacientes mais graves, que chegaram a ser internados?
Todos os pacientes podem ter um sintoma pós-Covid, sim. Todos. Desde aquele que teve só um nariz entupido, um resfriadinho, até aquele que ficou entubado. Tem de tudo. Desde os mais leves até os mais graves, tipo (Síndrome de) Guillain Barré, por exemplo. Então, você pode ter absolutamente de tudo.
4 - E quanto à idade? Pacientes mais idosos correm mais riscos?
Não, não tem a ver com a idade, não. Inclusive temos visto isso com maior frequência nos adultos jovens, não nos mais idosos. É muito interessante isso. Os pacientes mais jovens têm tido muito mais esses sintomas.
5 - O tratamento para a Síndrome Pós-Covid varia de acordo com os sintomas apresentados?
O tratamento é de acordo com os sintomas. Nós ainda não conseguimos fechar esse diagnóstico para fazer um tratamento único. Não temos esse ponto de partida para tratar tudo de uma vez como se fosse uma coisa só. Então, temos que tratar os sintomas em separado. Tratamos de acordo com a sintomatologia ainda, infelizmente. Diferentemente, por exemplo, de uma fibromialgia, uma outra síndrome que você pode ter vários sintomas. Você faz um tratamento que abrange tudo. Nessa você não consegue isso.
6 - Quais sequelas da Covid-19 requerem mais atenção?
A gente está trocando o pneu do carro com ele andando. A gente está catalogando dados. Somando esses sintomas, observando para ver onde isso vai levar. Tem gente que com um mês fica tudo bem, uma semana fica tudo bem. Tem gente que com dois anos não está bem. O que você vai ouvir das pessoas é "eu nunca mais fui o mesmo" ou "isso nunca me aconteceu". Ou "fiquei muito estranho depois disso tudo". Muitos atribuem à pandemia, à situação... Muitos casos de ansiedade, de angústia, de pânico. Em alguns casos é a situação, mas na grande maioria não. Foi um ataque direto do vírus. Um ataque encefálico.
7 - Quando começou a se falar em tratamento pós-Covid, víamos algo mais focado na fisioterapia. Dada a essa variedade de sintomas, esse tratamento foi ampliado?
No começo falava-se de pós-Covid somente dos pacientes que tinham sido internados. Tinham tido Guillain Barré, tinham ficado muito tempo no tubo. Então num primeiro momento, a gente correu para quê? Para a fisioterapia, fisioterapia respiratória, fisioterapia geral, para recuperar esses pacientes. Foi a coisa mais emergencial e evidente. Só que a gente foi vendo com o tempo que outros pacientes começaram a apresentar coisas que nunca tiveram e esse pós-Covid teve que ser ampliado. Então saiu dos casos gravíssimos para casos médios e casos muito muito leves. Às vezes o cara não teve absolutamente nada durante a presença do vírus e depois que ele foi embora, foi um estrago.
8 - Como infectologista, a senhora certamente acompanha o aumento de casos de dengue e chikungunya, não só na região como no Brasil. Quais as suas impressões sobre isso?
Quanto à dengue e à chikungunya, o que aconteceu? Na pandemia ninguém estava cuidando de nada. Então, estavam juntando as poças, as piscinas estavam abandonadas, a água parada... Não estava tendo agente de saúde indo fiscalizar as casas. Então, houve um abandono da fiscalização em relação aos criadouros do mosquito. Que foi de 2020 pra 2021. Os casos multiplicaram violentamente. Quando foi agora, de 2021 para 2022, os casos caíram muito. As pessoas retomaram os cuidados e isso é muito importante. É sempre importante lembrar que a dengue pode matar e a chikungunya é uma doença que pode manter dores articulares por seis meses até um ano, com enrijecimento, prejudicando a movimentação.
9 - E sobre o sarampo, que voltou a ter casos registrados? O que a senhora pode falar e qual a sua recomendação?
O sarampo é uma doença facilmente controlável com vacina. A gente tem vacina há muito tempo. Em 2016 a gente tinha quase que erradicado o sarampo do do Brasil. E voltam os casos. Quer dizer o quê? Não estão vacinando as crianças. Isso é uma barbaridade, isso é uma grande sacanagem. Não proteger seu filho de uma doença grave que nem essa. Então, é um movimento negacionista que se expande pra outras vacinas. Por exemplo, a do corona. Para eles a desculpa é que a vacina é nova. E pro sarampo a desculpa é que a vacina é velha. Você vê que é o mesmo perfil. É o cara absurdamente ignorante, que não protege a sua família, não protege seus filhos e aí os casos de sarampo começam a pontuar outra vez. Sarampo é uma doença grave, é uma doença pesada, pode matar, pode criar problemas intelectuais, mentais físicos de uma forma geral para as crianças e para os adultos.
10 - Tem mais algum alerta sobre doenças que não foram citadas nas questões anteriores?
O que vale a pena é a gente sempre reforçar o problema do HIV e da sífilis. Quanto ao HIV, lógico, diminuiu né a velocidade de transmissão. Mas a gente continua tendo muitos casos por ano. E a sífilis é a mesma coisa. Não tem cabimento essas duas doenças que você tem como prevenir, como se não se contaminar. É o uso do preservativo. Para as duas é a mesma coisa. E ainda pro HIV você tem a PrEP (Profilaxia Pré-Exposição). Você pode tomar um comprimido por dia para se prevenir de pegar. Então o que acontece? É o descaso do ser humano com tudo. O cara não usa máscara, não toma vacina, não usa preservativo, não se protege. E essas doenças estão aumentando. Depois de 40 anos de epidemia de Aids já não era para a gente não ter mais quase nenhum caso? Não. A gente continua tendo muitos por ano. Tem mais ou menos umas setecentas mil pessoas no Brasil tratando o HIV. Fora as que a gente não sabe. Tem uma montanha de gente tratando sífilis. E tem as DSTs, tem a hepatite B... Então você vê que tem que reformular todo o pensamento da humanidade porque a coisa ainda não está indo muito bem, não.
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