ENTREVISTA DE DOMINGO
A motorista que viralizou nas redes recentemente com um post bem humorado para ajudar outras mulheres conta sua história de vida e fala um pouco sobre a data comemorativa
Por Gabriella Domingos - Redação BS9
05/03/2022 — sábado às 18h00
Elizandra Cândido ultrapassou as dificuldades para realizar seus objetivos e reforça importância da mulher batalhadora - Arquivo pessoal
O Dia Internacional da Mulher, 8 de março, é uma data comemorativa oficializada pela Organização da Nações Unidas (ONU) na década de 1970. É um símbolo da luta das mulheres pela igualdade, por meio de manifestações, greves e movimentos. De início era apenas pela reivindicação de igualdade salarial, mas atualmente remete à luta contra o machismo e a violência.
Pensando na importância desse dia, o Portal BS9 - Litoral e Vale traz na entrevista deste domingo, dia 6, a artesã e motorista particular Elizandra Cândido, a Eli Laços. Recentemente, ela viralizou com seu post bem humorado nas redes sociais para oferecer seus serviços, ajudando mulheres a dar flagras em motéis e a largar o "embuste" (se você perdeu essa história, clique aqui).
Nascida em Santos, Elizandra foi criada pelos tios. Morava com eles e quatro primos. Embora tenha dois irmãos por parte de mãe, não teve a mesma criação. Seu pai (de criação) trabalhava no Japão e sua mãe criava os filhos e trabalhava, sendo pai e mãe. Sua vontade de vencer, batalhar e lutar pelo que deseja vem de sua mãe e da família que a criou.
Apesar de momentos difíceis, Eli enfrentou todas as barreiras com leveza e bom humor para realizar seus objetivos e ir atrás de sua felicidade e da de seus filhos. Confira a entrevista:
1- Como foi sua infância em relação à família?
A minha infância foi maravilhosa, porque como eu fui filha de criação. No caso, minha mãe me deixou na casa da minha tia, que me criou. Então, eu era a mais paparicada, a mais amada. Pelo fato de não ser filha, talvez achassem que eu não ia ser tão bem tratada como os filhos biológicos, mas fui muito amada, não tenho o que descrever da minha infância. Fui muito feliz.
2- Você é uma mulher batalhadora. Além do trabalho como motorista e artesã, investiu também em um disk-lanches. Quais foram as maiores dificuldades que enfrentou na vida?
Quando me separei do pai do meu filho. Vivia bem com ele, éramos de classe social média-alta, quando, de repente, me separei dele e fui morar na casa de uma amiga de favor, porque eu não queria levar problema para a minha família. Tinha vergonha, pois eles achavam que eu vivia muito bem, só que estava em um relacionamento abusivo. Ele me batia muito, era alcoólatra, e por isso me separei. A parte mais difícil foi deixar meu filho com ele para ir morar com a minha amiga, que tinha um padrão inferior ao que eu tinha. Ela não trabalhava, mas me acolheu com a minha filha mais velha.
3- Tem algum sonho que ainda não conseguiu realizar?
Tenho vários. O principal, que é o meu maior foco, é conseguir trocar meu carro para uma versão mais nova. O atual está bem velho.
4- Como você separa a sua vida pessoal da profissional? Como funciona sua rotina com a família e clientes?
Na verdade, mais trabalho do que tenho vida pessoal. De manhã me levanto, cuido da casa, ligo meu telefone, que é quando as clientes começam a chamar. Trabalho até as 18h, depois descanso, volto para casa, faço o jantar e como algo. Faço as corridas agendadas, caso haja. Tudo isso durante a semana, pois no fim de semana trabalho de madrugada. Faço meus laços, porque ainda tenho muita encomenda. Às vezes vou para algum jantar ou comemoração em família, e durante a noite como lanche com a minha mãe e minha irmã. Consigo conciliar tudo. Tem o dia de pesquisas também. Eu trabalho com pesquisas. Então, quando preciso trabalhar com isso, deixo o Uber e aviso minhas clientes, porque normalmente sei com três ou quatro dias de antecedência. Então, deixo esses dias separados.
5- Quem é a maior influência em sua vida?
Eu não me influencio em uma mulher só. Acho que a influência da minha vida são aquelas mulheres determinadas, que vão atrás do que querem. Aquelas que pensam "eu posso, eu quero e eu consigo". Na verdade, eu sou a minha maior influência, pois luto comigo mesma todos os dias, quero ser o meu melhor. Não me guio por ninguém, não tenho vergonha de trabalhar, vou à luta! Se amo, amo intensamente, passo por cima de tudo e não tenho preconceito com nada!
6- O que é ser mulher para você?
Ser mulher, para mim, é a coisa mais gostosa. Me identifico com a luta e a batalha, em rir à toa, me divertir, dançar sem perder a minha responsabilidade no dia seguinte e sem perder a noção do que é certo e errado. Ser mulher, para mim, é uma vitória nos dias de hoje. Antigamente a mulher era sexo frágil, não podia trabalhar ou dar opinião, mas de frágil a mulher não tem nada. Caso contrário não conseguiria parir e amar ao mesmo tempo.
7- Como mãe, o que você gostaria que mudasse no mundo para quando seus filhos forem adultos?
Gostaria que o mundo fosse menos violento, que tivesse menos assaltos, menos drogas, que nós pudéssemos colocar a cabeça no travesseiro e não ficar preocupada enquanto os filhos não chegam. Queria que o mundo fosse mais leve, sem essa onda de bullying. Na minha época não tinha isso, a gente brincava, xingava, mas hoje em dia tudo é bullying e processo. Além de ter muito bandido, você não pode mais ter um celular e sair na rua, ou um cordão de ouro, vive com medo de tudo. Como mãe eu temo isso, gostaria que o mundo fosse mais tranquilo, que a gente pudesse deixar os filhos saírem e ficar tranquila em casa até voltarem.
8- Como você definiria o empoderamento das mulheres e qual a importância disso atualmente?
É a mulher que vai atrás (do que quer), que vai à luta, que não tem medo. Que trabalha, busca seus ideais e não espera nada de ninguém. Que arregaça as mangas, aproveita as oportunidades da vida. Uma vez viajei ao Rio de Janeiro para fazer pesquisa, éramos 12 e uma van veio nos buscar. Fiz sanduíche natural, bolo, refrigerante, água de coco, os coloquei em um cooler e fui vendendo no caminho. Então, a mulher empoderada é essa que usa das oportunidades para o seu bem. A importância é que a mulher não precisa se esconder atrás de um marido, namorado, ou viver de favor na casa de ninguém. Pode ter seu próprio teto, o direito de ir e vir sem depender de nenhuma pessoa. É muito ruim você ter que comer o que seu parceiro quer, sair para onde seu parceiro quiser. É ruim você ter que viver com alguém porque precisa estar naquela situação por não ter onde ficar. Nós temos que ser empoderadas e correr atrás do que é nosso.
9- Por que o Dia Internacional da Mulher é importante?
Nós merecemos. De sexo frágil não temos nada! A gente sai para trabalhar, mata um leão por dia, picota, tempera, cozinha, come e ainda limpa a bagunça. Após o dia corrido, chegamos em casa para cuidar do lar e dos filhos e à noite nos arrumamos para ficarmos bonitas. Sou solteira e gosto de ficar bonita para mim, me cuido, mas acho que temos que ser reconhecidas. Fazemos coisas que muitos homens não fazem, descansamos carregando pedras. Precisamos de um dia para sermos parabenizadas e sabermos que podemos tudo!
10- Como avalia o papel da mulher nos dias de hoje?
Somos pau para toda obra, empoderadas, vamos para onde queremos, usamos o que quisermos, trabalhamos e temos a profissão que quisermos. As mulheres de hoje em dia são maravilhosas, chegamos a um nível que nenhum homem se sobressai. Se eles podem, nós também. A única diferença entre nós e os homens é a força da parte deles e a inteligência em nossa parte, mas aprendemos a usar a inteligência sem precisar da força.
11- Em suas corridas você já ouviu alguma história de mulheres que já sofreram assédio ou algum tipo de abuso?
Já ouvi uma moça que trabalhava e tinha um marido acamado e aposentado. Ela sofria abuso sexual do patrão. Eram olhares, ele passava por ela e a encostava, o que lhe dava repulsa e medo, mas ela tinha que ajudar em casa. Então ela sofreu esses abusos durante muito tempo. Tinha muita vergonha, não comentava com ninguém no trabalho, até que conseguiu outra oportunidade de emprego e pediu as contas, mas esse tempo de abuso foi bem triste para ela.
12- Você já passou por algum assédio ou momento constrangedor em sua vida? Qual conselho daria para uma mulher que está passando ou passou por tal situação?
Nunca passei por nenhum assédio porque sou uma pessoa leve. Se eu percebo algo desse tipo, lido com bom humor, dou risada, tento sair daquela situação para que não fique constrangedor. Caso aconteça, não deixo nada passar, comigo é "tomou, levou". Graças a Deus nunca passei por nenhum constrangimento. (Quanto ao conselho), acredito que depende do assédio. Falaria para tentar sair da situação o mais rápido possível.
13- Para o Dia Internacional da Mulher, você gostaria de deixar algum recado especial?
Se você tem um sonho, se é determinada e há uma situação que tem no papel, vá atrás, se jogue! Não tenha medo de ser feliz, foque no que quer. Não olhe para trás e realize seu sonho. Não tenha medo nenhum porque Deus é maravilhoso, Ele te coloca no caminho certo daquilo que o seu coração realmente quer. Lute pelo seus sonhos, não deixe homem nenhum e nem ninguém acabar com eles. Nós podemos tudo!
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