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Pernambuco em transição eleitoral?

Maurício Juvenal

11/06/2026 - quinta às 19h59

A recuperação de Raquel Lyra, a resistência de João Campos e os fatores que transformaram uma eleição aparentemente definida em uma das disputas mais competitivas do país.

 

A disputa pelo Governo de Pernambuco entrou definitivamente em uma nova fase. Se há poucos meses predominava no ambiente político estadual a percepção de que João Campos caminhava para uma eleição relativamente confortável, os números da Pesquisa de Intenção de Votos, do Instituto Badra, mostram que a realidade eleitoral se tornou muito mais complexa e competitiva. O que se observa agora é um cenário de equilíbrio, marcado menos por uma redução consistente da vantagem do pré-candidato socialista e muito mais pela consolidação da recuperação eleitoral da governadora Raquel Lyra.

 

No principal cenário estimulado do levantamento, João Campos registra 44,2% das intenções de voto, enquanto Raquel Lyra aparece com 41,1%. A diferença de apenas 3,1 pontos percentuais está integralmente inserida na margem de erro da pesquisa, de três pontos para mais ou para menos, configurando um quadro de empate técnico. Mais do que a fotografia isolada do momento, o dado revela uma mudança importante na dinâmica da disputa, uma vez que a eleição que parecia caminhar para uma confirmação antecipada de favoritismo transformou-se numa competição aberta, sem vencedor definido.

 

Politicamente, esse talvez seja o principal fato produzido pelo levantamento. Em campanhas majoritárias, não é apenas a distância numérica entre os candidatos que importa, mas a percepção coletiva sobre a competitividade da eleição. E Pernambuco passou a viver exatamente esse momento. A simples existência de uma disputa equilibrada altera comportamentos, reorganiza alianças, estimula mobilizações e aumenta a disposição de lideranças regionais em aguardar o desenrolar dos acontecimentos antes de assumir compromissos definitivos.

 

João Campos continua apresentando atributos relevantes. Seu desempenho espontâneo alcança 29,3%, índice elevado para uma eleição ainda distante do dia da votação e que demonstra força de imagem, reconhecimento popular e associação direta entre o eleitorado e sua candidatura. Trata-se de um patrimônio político construído a partir de sua trajetória à frente da Prefeitura do Recife, da força histórica do PSB em Pernambuco e do capital simbólico associado ao legado político da família Campos.

 

Entretanto, os números sugerem que a candidatura socialista já não navega em águas tão tranquilas quanto no início do ciclo eleitoral. A diferença observada na espontânea, de 6,6 pontos sobre Raquel Lyra, reduz-se para apenas 3,1 pontos quando os nomes são apresentados ao eleitor. Isso indica que parte importante do eleitorado que ainda não associa imediatamente seu voto a um candidato demonstra disposição para considerar a atual governadora quando confrontada com os nomes efetivamente colocados na disputa.

 

Do outro lado, Raquel Lyra parece colher os frutos de uma estratégia política construída com disciplina e persistência. Desde o início do ano, a governadora intensificou agendas regionais, ampliou a exposição institucional do governo e passou a combinar duas narrativas simultâneas. A primeira é a da gestora firme, da mulher que assumiu o comando do Estado e enfrentou dificuldades administrativas relevantes. A segunda é a da liderança acessível e próxima do cotidiano da população, imagem reforçada pela comunicação digital que frequentemente a mostra em situações de interação espontânea com os eleitores.

 

Os números sugerem que essa estratégia vem produzindo resultados. Raquel alcança desempenho particularmente competitivo entre eleitores mais velhos, segmento tradicionalmente mais propenso a valorizar atributos relacionados à experiência administrativa e estabilidade. Entre os eleitores com 60 anos ou mais, ela registra 48,3% contra 42,0% de João Campos. Também apresenta desempenho expressivo entre eleitores de renda mais elevada, onde chega a 41,4%, mantendo competitividade em praticamente todos os segmentos analisados.

 

João, por sua vez, preserva vantagens importantes entre eleitores de renda mais alta e sobretudo entre o eleitorado evangélico, onde alcança 46,6% contra 40,8% da governadora. Também mantém desempenho robusto entre os eleitores de 45 a 59 anos, segmento em que supera Raquel por larga margem. Os cruzamentos revelam, portanto, que ambos possuem bases eleitorais relativamente sólidas e distribuídas, reforçando o caráter competitivo da disputa.

 

Outro dado relevante é o nível de consolidação das escolhas. Entre os eleitores que já declararam voto em algum candidato, 70,5% afirmam que sua decisão é definitiva, enquanto apenas 23% admitem a possibilidade de mudança até a eleição. O percentual é elevado e sugere que a campanha tende a ser menos uma disputa por conversão de adversários e mais uma batalha pela conquista dos eleitores ainda não plenamente engajados ou que permanecem em posição de neutralidade política.

 

As taxas de rejeição também ajudam a explicar o equilíbrio observado. João Campos aparece com 22,8% de rejeição e Raquel Lyra com 22,7%, configurando praticamente um empate absoluto nesse indicador. Em termos práticos, isso significa que nenhum dos dois carrega hoje um passivo eleitoral capaz de inviabilizar sua expansão. Ambos possuem espaço para crescimento e ambos encontram limitações semelhantes para avançar sobre parcelas do eleitorado ainda indecisas.

 

Há ainda uma variável que continua pairando sobre toda a disputa pernambucana: o posicionamento do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Em poucos estados brasileiros essa questão possui peso tão relevante quanto em Pernambuco. João Campos construiu sua estratégia de aproximação permanente com o presidente e não esconde sua identificação política com o campo lulista. Raquel Lyra, por outro lado, enfrenta uma equação mais delicada. Embora tenha buscado manter uma relação institucional positiva com o governo federal, sua posição política exige equilíbrio para não produzir desgastes junto a parcelas de seu eleitorado que rejeitam uma associação explícita ao presidente.

 

Essa situação cria um cenário singular. Lula permanece potencialmente capaz de influenciar a disputa, mas ao mesmo tempo encontra dificuldades objetivas para escolher um único lado sem gerar custos políticos relevantes. A percepção predominante entre observadores da política pernambucana é que o presidente tende a buscar uma convivência pragmática com ambos os campos, adiando ao máximo qualquer definição que possa produzir rupturas locais. A depender do momento e da forma como essa equação for resolvida, o impacto eleitoral poderá ser significativo.

 

Por fim, a lembrança de voto da eleição de 2022 ajuda a compreender a força da atual governadora. Entre os entrevistados, 47,8% afirmam ter votado em Raquel Lyra no segundo turno daquele pleito, contra 32,4% que declaram voto em Marília Arraes. Mais importante do que isso, observa-se que Raquel retém 55,8% dos seus antigos eleitores, enquanto João Campos captura impressionantes 75,6% dos que afirmam ter votado em Marília. O desafio da governadora nos próximos meses será ampliar sua capacidade de reconquistar parte desse eleitorado progressista e popular que migrou para a candidatura socialista. Já João precisará preservar sua elevada capacidade de agregação sem permitir que a narrativa de crescimento da adversária continue se consolidando.

 

Em síntese, Pernambuco vive hoje uma das disputas estaduais mais interessantes do país. João Campos segue liderando numericamente, mas já não desfruta da sensação de inevitabilidade que cercava sua candidatura no início do processo. Raquel Lyra, por sua vez, transformou uma condição inicialmente defensiva em uma posição de efetiva competitividade. O cenário permanece aberto, o ambiente político encontra-se em crescente polarização e os próximos meses tendem a ser decisivos para definir qual das duas narrativas prevalecerá junto ao eleitorado pernambucano.

 

Maurício Juvenal

Consultor em Análise de Dados do Instituto Badra

É jornalista, Mestre em Letras, e Mestrando em Ciências Políticas e Relações Internacionais no IDP-Brasília

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