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A erosão do cuidado

Maurício Juvenal

14/06/2026 - domingo às 13h25

A morte de uma jovem de apenas 21 anos durante uma atividade de bungee jump, neste fim de semana, provocou comoção e perplexidade. Naturalmente, a Justiça deverá apurar responsabilidades e definir se houve negligência, imprudência ou mesmo crime. Mas, para além dos autos e dos laudos, o episódio parece lançar luz sobre uma inquietação mais ampla: o que está acontecendo com nossa relação com a responsabilidade?

 

Há algo no espírito do nosso tempo que parece ter se distanciado perigosamente do cuidado. Cuidado com o trabalho, com a palavra dada, com a vida alheia e até com a própria vida. Tudo corre. Tudo é urgente. Tudo precisa ser feito, entregue, publicado, compartilhado. E, nesse ritmo acelerado, a atenção aos detalhes,  justamente aquilo que separa a segurança do desastre, tornou-se um bem escasso.

 

Curiosamente, uma das palavras mais celebradas da contemporaneidade é "experiência". Já não viajamos; vivemos experiências. Não compramos produtos; adquirimos experiências. E até  o espetáculo esportivo ou artístico deixou de ser  espetáculo para se tornar uma experiência. A educação, o lazer, os relacionamentos, tudo foi reembalado sob essa lógica.

 

Mas há uma ironia inquietante nisso. De experiência em experiência, estamos construindo uma sociedade de experimentos. E experimentos, por definição, envolvem riscos. O problema surge quando a busca incessante pelo novo, pelo impacto e pela sensação substitui o compromisso com a preparação, a competência e a prudência.

 

O sociólogo Zygmunt Bauman observou que a modernidade líquida dissolveu muitas das estruturas estáveis que organizavam a vida social. O filósofo Byung-Chul Han descreve uma sociedade exausta pela necessidade permanente de desempenho. Talvez ambos estivessem descrevendo, cada um a seu modo, um mundo em que o cuidado deixou de ser virtude para se tornar obstáculo.

 

A consequência não aparece apenas em acidentes trágicos. Ela se manifesta nas pequenas violências cotidianas. Na promessa feita sem intenção de cumprir. Na tarefa delegada sem reconhecimento. No favor exigido com urgência e imediatamente esquecido, depois de realizado. Na incapacidade crescente de perceber o outro como alguém dotado de expectativas, sentimentos e dignidade.

 

Hannah Arendt alertava para a banalização do mal, expressão frequentemente mal compreendida. O mal nem sempre se apresenta sob a forma de grandes atrocidades. Muitas vezes ele nasce da ausência de reflexão, da incapacidade de se colocar no lugar do outro, da simples renúncia ao dever de pensar sobre as consequências dos próprios atos.

 

Talvez estejamos assistindo à banalização da indiferença.

 

A pedra que machuca alguém na calçada permanece onde está porque seu proprietário concluiu que removê-la não é problema seu. O erro evidente deixa de ser corrigido porque alguém acredita que a responsabilidade pertence a outra pessoa. O compromisso assumido perde valor tão logo o interesse particular seja satisfeito.

 

Se o individualismo foi uma das marcas do século XX, o que parece emergir agora é algo mais severo: o exclusivismo. Não apenas o indivíduo no centro, mas apenas o indivíduo. Meus interesses primeiro. Minha ascensão primeiro. Minha conveniência primeiro. Mesmo que, para isso, seja necessário sacrificar a verdade, a consideração ou a ética.

 

O resultado é uma sociedade progressivamente desprovida de confiança. E nenhuma comunidade sobrevive por muito tempo sem confiança. O contrato social de que falavam Rousseau e tantos outros pensadores não é apenas um conjunto de leis. É um pacto invisível de responsabilidade recíproca. É a convicção de que alguém verificou a corda antes do salto. De que alguém conferiu os números antes da assinatura. De que alguém removerá a pedra do caminho porque sabe que outra pessoa pode tropeçar nela.

 

Quando esse pacto se rompe, resta apenas a convivência desconfiada entre indivíduos que dividem o mesmo espaço, mas já não compartilham os mesmos deveres.

 

A pergunta que fica não é apenas qual foi o erro que levou à morte daquela jovem. A pergunta é mais desconfortável: quanto estamos perdendo, como sociedade, ao substituir o cuidado pela pressa, a responsabilidade pela conveniência e o compromisso pela performance?

 

Talvez o preço final ainda não tenha sido totalmente calculado. Mas os sinais da conta já começaram a chegar. E a sociedade da experiência vai se apresentando, cada vez mais, como a sociedade da indiferença.

 

Maurício Juvenal é jornalista, mestre em Letras e mestrando em Ciências Políticas e Relações Internacionais pelo IDP-Brasília

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