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Maurício Juvenal

Conta corrente espiritual: como anda o seu saldo?

Maurício Juvenal - Jornalista, especialista em Pesquisa Social e mestre em Letras

07/07/2021 — quarta-feira às 08h13

Conta corrente espiritual: como anda o seu saldo?

Em minha humilde opinião, são três os tipos principais de contas correntes que possuímos: a financeira, que em geral mantemos em um banco ou instituição financeira; a emocional, decorrente das relações que mantemos no dia a dia com as pessoas; e a espiritual, a principal delas, fruto da interação com nós mesmos e, também, com Deus.
 
Todas têm um denominador comum que é o saldo. Ora ele pode estar positivo, ora negativo.  Depende única e exclusivamente do modo como lidamos com os nossos valores.
 
Particularmente costumo dizer que por valores se entenda o resultado das perdas e ganhos que acumulamos, como experiências de vida, ao longo de nossa trajetória. E isso, de novo, vale para os três tipos de contas correntes. Valor é algo inclusive que varia no tempo e no espaço, podendo ganhar novas formas e cores a partir dos acontecimentos cotidianos e até mesmo de uma simples mudança de endereço. 
 
É o barato que de repente se torna caro. A alegria que se transforma em frustração. A ausência de fé que se traduz em medo e escuridão.
 
Dos três tipos de contas correntes a mais fácil de lidar é, sem dúvida, a financeira. Administrando bem receitas e despesas, gastando menos do que se recebe, a tendência é fechar a equação sempre no azul, com saldo positivo. É claro que no Brasil, onde tudo sobe a toda hora, a missão é mais ingrata.
 
Já a conta corrente emocional exige um esforço concentrado em praticar, mais do que qualquer outra coisa, a tolerância objetiva, algo que é maior que a tolerância. Tolerância é um termo que vem do latim, tolerare, e que significa suportar ou aceitar. Caminha pari passu com aquilo que a gente entende por contrato social, isto é, aceitar normalmente opiniões e ou comportamentos diferentes ao que você possui ou pratica. Em tempos de intolerância por qualquer coisa e à flor da pele, já parece algo muito valoroso.
 
É que a tolerância objetiva qualifica. Quando realmente manifesta, ainda que não seja dos exercícios mais fáceis, é aquela onde mais do que suportar ou aceitar o jeitão do outro, somos capazes de entender e compreender tal postura. De forma concreta, é quando a gente consegue se colocar no lugar do outro e perceber que o comportamento divergente decorre dos limites naturais que a condição humana impõe, no cômpito do enredo de vida de cada um.
 
Assim, se der para suportar e aceitar, suporte e aceite, o saldo será positivo. Mas se der para ir além e praticar a tolerância objetiva, o resultado será ainda melhor, com você conquistando uma espécie de cheque especial.
 
E a bendita conta corrente espiritual? Pois é, há de ser bendita mesmo, desde que destinemos um olhar atento para ela.
 
E o fluxo não é nada diferente do que acontece em uma conta corrente bancária. Na conta corrente espiritual os depósitos estão representados pelos exemplos de fé, de vida em comunhão, de obras e gestos concretos e, sobretudo, de orações.
 
No sentido mais conceitual da palavra dizemos que oração é o mesmo que prece ou reza. Já no mais espiritual que é um ato que visa ativar uma ligação, um diálogo, um contato com o Divino. Pode ser em forma de agradecimento, de súplica, de louvor, entre outros, mas deve ser sempre fruto de um ato consciente do relacionamento com Deus. Vai além da mecânica das mãos ao fazer o sinal da cruz quando passamos em frente a uma igreja. Ou quando respondemos instantânea e intelectualmente, e não com coração, que acreditamos em Deus. Cada oração é um depósito em nossa conta corrente espiritual.
 
Mas há também os saques, que numa análise mais objetiva seriam representados pelos pecados. Não é só isso. Na verdade, os saques são tudo aquilo que nos afasta de Deus, como a ausência de fé, o se rebelar contra Ele, a omissão na ajuda ao próximo e, sobretudo, os pensamentos negativos. Esses últimos, aliás, têm a impressionante capacidade de zerar e jogar para o vermelho a conta corrente espiritual.
 
E não são só os pensamentos negativos contra nós mesmos, que nos tiram a força e a vontade, mas principalmente aqueles em relação às outras pessoas. E, convenhamos, eles estão bem presentes em nosso dia a dia em forma de inveja, de egoísmo, de ganância, de intolerância, de ira descontrolada, de autoritarismo, de fofoca, de enganação. Saques no caixa automático, que que por vezes realizamos sem raciocinar, mas que se constituem em pensamentos-atitudes que ferem a nossa relação com o bem e com o Bem.
 
No mundo atual temos sido mestres da enganação, daquelas que julgamos pequenas e sem importância, como a alteração do nome de um contato no celular ou uma mentirinha para faltar ao trabalho, às que destroem histórias, relacionamentos, reputações e vidas. Contraditoriamente, apostamos no enganar como forma até mesmo de preservar relações, como se fosse possível que tudo passasse desapercebido. Esquecemos do Cara lá de cima, e empurramos para saldo devedor a conta corrente espiritual.
 
A dica é olhar o extrato ao início e ao final de cada dia. E então perceber que o bem-estar e o conforto espiritual são produtos da contabilidade dos bons e maus pensamentos que dispensamos ao longo daquela jornada. Precisamos observar com atenção a movimentação e analisar os saques que poderiam ter sido evitados. E, indo além, avaliar se a quantidade de depósitos realizados – caso depósitos tenham sido realizados – foram suficientes para fechar a conta no azul.
 
Longe de querer ser esse um argumento de pregação, ainda que nenhum mal eu veja nisso, mas sinceramente não sei se sou exemplo, destaco um dos trechos bíblicos que mais gosto e tento perseguir: "Finalmente, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é respeitável, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se alguma virtude há e se algum louvor existe, seja isso o que ocupe o vosso pensamento". (Filipenses 4:8)

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