Maurício Juvenal
Maurício Juvenal - Jornalista, especialista em Pesquisa Social e mestre em Letras
07/06/2021 — segunda-feira às 12h03
É possível que alguns achem que há um certo exagero, mas, hoje, o mundo enfrenta uma outra pandemia – é verdade, com efeitos menos danosos que a do coronavírus – e que tem assolado, sobretudo, as relações humanas. Trata-se da surdez providencial ou seletiva.
Na prática, ela se resume à imensa incapacidade que as pessoas demonstram em ouvir as outras pessoas: por vezes por impaciência, por vezes por ansiedade, por vezes por menosprezo, por vezes por pura e absoluta surdez valorativa.
E essa última, a mim me parece, é a mais grave de todas, mesmo que não seja a de maior incidência. É aquela cujo diagnóstico mostra que você até ouve o interlocutor, mas não o escuta. A audição, como um dos cinco sentidos até se estabelece, o ouvido capta o som, mas o escutar, enquanto ato de ouvir, de entender o que está sendo captado pela audição, não é compreendido e muito menos a informação é processada.
Há, então, um bloqueio? Exatamente. Os valores acumulados, a bagagem de vida, os sofrimentos vividos, as possíveis más experiências anteriores com a pessoa que está falando, o prévio conhecimento e julgamento das características que o outro possui, funcionam como uma espécie de filtro transformador de conteúdo. A pessoa fala pau e você entende pedra. Mas a pessoa falou pau, e você continua entendendo pedra.
Um exemplo engraçadinho dessa surdez valorativa é um vídeo que circula na internet e que mostra um marido, com todo jeitinho, explicando para a esposa que está saindo para encontrar um amigo, para jogar futebol, que vai demorar no máximo uma horinha e que ela pode ligar quando quiser. A mulher, no entanto, ouve que ele está indo encontrar a ex, para ir ao motel, que vai virar a noite fora e que nem adianta telefonar porque o celular estará sem bateria. E o pau come!
Ainda que esse possa ser apenas um exemplo cômico, mas que vive acontecendo, fica clara a necessidade de pararmos para ouvir o que o outro tem a nos dizer, sem que seja essa uma ação desafiadora àquilo que sentimos e acreditamos. Comunicação efetiva, e afetiva, diga-se de passagem, requer antes de mais nada disposição para entender e valorizar o real conteúdo do que está sendo dito. Ouvir vem antes do falar. É o bem ouvir, com os dois ouvidos que temos, que nos possibilita relações mais consistentes.
Já a surdez por menosprezo é bem mais fácil de entender. Não é aquela em que você se distrai, viaja na maionese, e não presta atenção. É aquela que a pessoa está ali na sua frente ou ao seu lado, falando, e você prefere atender ao telefone, ficar no joguinho do celular, ou simplesmente dizer hã hã, sem prestar qualquer atenção ao conteúdo. Pior, em geral você termina o “diálogo” pedindo para que a pessoa repita o que disse ou perguntando se é possível vocês falarem em outro momento. Um recado: isso dói na alma do outro.
A surdez por ansiedade é literalmente uma loucura. Em geral, é você quem provoca a conversa, ou a proposta de conversa, fazendo uma pergunta. O interlocutor começa a explicar, a responder ao questionamento que você fez. Mas, antes mesmo que ele termine a primeira frase, você já o interrompe com falas do tipo “não, eu sei”, ou “isso tá claro”, ou “não é bem assim”. Opa, não é bem assim? Ora, se você já sabe a resposta, por que perguntou? O pior é que na prática você pergunta e você mesmo responde ao que perguntou, o que, convenhamos, não faz o menor sentido.
“Diz logo”, acelera você revelando toda o seu grau de surdez por impaciência. Em geral você quer determinar o ritmo, a forma, a fluidez do pensamento e do argumento do outro, impondo uma espécie de vá direto ao ponto, sem rodeios. É o famoso vamos lá, desembucha. Para cada pessoa, a construção do pensamento e, portanto, da fala é um processo que se dá de maneira diferente. E se é diferente, é preciso aprender a respeitar o modo, a forma e o tempo do outro.
Por mais óbvia pareça a afirmação, e ela realmente o é, ouvir está intrinsicamente ligado à fala e é o significado das palavras que une pensamento e linguagem. Assim, é por meio das palavras que o ser humano pensa. E isso merece ser respeitado.
A grande verdade é que todos querem muitos ser ouvidos, mas poucos demonstram a mesma disposição em escutar. E se engana quem acredita que bem ouvir é um exercício passivo. Não, não é. Bem ouvir requer pulsação, curiosidade e até imaginação. Dispensa julgamentos, opiniões e, sobretudo, interrupções.
A boa notícia é que há sim um certo grau de doação por parte de quem ouve. Mas há, também, uma bela retribuição, representada pela satisfação do outro em perceber e sentir que você se importa com ele e que mantém o dom de partilhar ideias.
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