Mario Gocchi
Mario Gochi - Advogado e poeta
27/06/2021 — domingo às 12h28
Por Mario Sergio, um dos meus muitos heterônimos, este o mais próximo de mim
(em homenagem a Mario Jorge, por ocasião do seu primeiro aniversário)
De ti, filho meu, espero um poeta.
Daqueles que escrevem com os pés
a poesia da vida.
Filho meu,
Domina com tal precisão as palavras
Sobre as folhas verdes,
Que cada verso seja um chute
Primoroso, ou de soslaio
E as estrofes uns dribles.
Uma finta de corpo
É mais bela porque sutil.
Põe métrica nos lançamentos,
pois eles têm a beleza dos sonetos.
Passa com rimas consoantes.
Dá preferência às preciosas, às raras.
Quando escritas, elas
Brilham como as estrelas
Para que todos possam vê-las.
Se imperfeitas, você não esqueça,
Vá nas toantes, é um gosto.
Saiba, porém, usar a cabeça
Nas cruzadas, não é grosso.
Faz rondó francês,
Ou dobrado, ou português,
Um madrigal, uma ode,
De tudo pode,
Trova, balada...
Se a palavra vem quadrada,
Solta de um estourão,
Ergue ao alto a tua destra
E a traz no pé, suave, ao chão,
Como quem rege a orquestra.
Não desprezes os versos brancos,
Dá-lhes, entretanto, certa cadência,
Certo ritmo,
A torcida sempre quer cantá-los.
Mata as palavras no peito.
Amorteça-las bem é um requinte,
Ficarão confortáveis quando descerem à folha.
Este recurso facilita a distribuição,
E como peças de um jogo
Saberão ocupar os espaços.
Toca de letra,
É um lance estético,
Uma plasticidade singular
Que enche os olhos de quem lê.
Estuda a gramática,
Visita a fonética,
conhece os sons da bola.
Escolhe um bom treinador ortográfico.
Tudo isso compõe o espetáculo
E a palavra se arredonda e rola.
Desse modo, filho meu,
Quando, do prelo, tu saíres
E ganhares as edições
Cada gol que tu fizeres
Terá a beleza de um poema,
Como os escritos, sem garrancho,
Por um tal de Mané Garrincha,
Que brincava de poeta sobre a cancha.
(mario sergio)

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