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Lúcio Nunes

O amanhã tem que ser hoje...

Lúcio Nunes - Jornalista, colaborador da Liga Cultural Independente das Escolas de Samba de Santos (LICESS) e do Conselho do Samba de Santos

03/06/2021 — quinta-feira às 11h54

O amanhã tem que ser hoje...

... E que não só o Carnaval, mas todas as manifestações culturais que lutam para existir – e resistir – na Baixada Santista possam ser retomadas com segurança, estrutura e devidamente valorizadas.

É torcendo por isso que passo a ocupar este espaço no portal BS9 a partir deste mês, lembrando momentos marcantes da passarela do samba santista.
 
Para mim, que ainda menino saía logo cedo com minha mãe para passear entre as alegorias na orla da praia, resgatar essas histórias e personagens não será uma missão, mas, sim, um alento em tempos tão difíceis.

* * *

Bem, o título desta coluna remete a uma dessas manhãs.

Para ser mais exato, a de 10 de fevereiro de 1986, quando ele ainda ecoava por toda cidade.

É uma frase de “Assim Diz O Poeta”, composição de Ricardo Peres para a União Imperial, a partir do enredo criado por Zenaide Zampieri e lapidado pelo premiado dramaturgo Carlos Alberto Soffredini.
 
Quem desfilou ou assistiu à Verde e Rosa naquela ocasião ainda guarda muitas recordações.
 
Da bela comissão de frente feminina coreografada por Antonio Vargas ao girar do pavilhão conduzido pelo casal Regina e Valdir, passando pelos figurinos da concorridíssima ala 'costurada' pelo trio Paulo Schiff, Miriam Bernardes e Irani Silva, todas se conectam por algo em comum: um samba-enredo arrebatador, cantado em uníssono por mais de 3,5 mil componentes e marcado pela cadência poderosa de 336 ritmistas - dois recordes na época.

“Mais do que poesia, a União Imperial mostrou que chegou para marcar uma nova época no Concurso Oficial das Escolas de Samba de Santos” – Jornal Cidade de Santos, 11/02/1986.

35 anos depois, ainda é um privilégio conversar com alguns dos que lá estiveram. E trazer à tona outras histórias, menos conhecidas, mas igualmente saborosas, que precederam aquela catarse.

O próprio Ricardo Peres puxa a fila: ele se diverte ao lembrar que levou quase dois meses para redigir metade da letra, mas que a parte final foi escrita em apenas 15 minutos.

Nada mal para um compositor estreante que, por ironia do destino, enfrentaria dois grandes amigos na finalíssima do concurso de sua escola do coração: de um lado seu primo, Daniel Ferreira Barbosa (Zinho); do outro, seu parceiro Jorge Jeremias de Campos (Simonal); todos integrantes do Grupo Tempero, posteriormente alçado à fama nacional.

“Lembro da Quadra abarrotada naquela final. Minha torcida não era tão numerosa, mas, o samba foi abraçado pela escola. Foi uma fase muito boa da minha vida e ainda hoje recebo relatos emocionados, pois ele marcou a juventude de muita gente” – Ricardo Peres.

 (imagem: panfleto original do samba-enredo de 1986; acervo: Ricardo Peres)
 
Do estúdio ao barracão
Ricardo ainda revela que tanto Simonal, como Zinho – que já eram, respectivamente, mestre de bateria e intérprete da escola –, colaboraram com a versão final da obra: do primeiro veio a sugestão do termo ‘rima rica do meu verso’; e do segundo, o ‘ô ô ô’ que embala o refrão central – improviso que surgiu durante a gravação do disco oficial.
 
A presença do cantor em estúdio, por sinal, pôs fim a um boato que deixou o Marapé sob tensão. 
 
Tudo porque os compositores Carlinhos de Pilares e Almir de Almeida, consagrados um ano antes na Marquês de Sapucaí – graças ao famoso ‘tem bumbum de fora prá chuchu’, da Caprichosos de Pilares – resolveram inscrever um samba-enredo na disputa da X-9 santista, que preparava o enredo ‘Currupio dos Mestres’. E convidaram Zinho para defendê-lo no Concurso, em plena Bacia do Macuco.
 
Não deu outra. O samba concorrente foi escolhido pela Pioneira e as especulações sobre a ida do intérprete para a arquirrival se tornaram inevitáveis.
 
“Depois fui saber que a diretoria da União até pensou em me dar um ‘sumiço’ para que eu não me apresentasse na X-9 (risos). De fato, fui sondado para desfilar por lá, eles estavam bem confiantes. Mas decidi ficar e pude dar voz a este samba, que foi muito cantado na avenida” – Zinho. 
 
Refeita do susto, a União precisava transformar sua inspiração musical em realidade. Para isso, contou com o talento do carnavalesco Marco Aurélio Bezerra, o Marcão.
 
Bati um papo com um de seus filhos, Marcos Roberto (Marquinhos), com o intuito de resgatar um pouco da trajetória do artista, falecido em 1998. 
 
Ele conta que o pai ainda trabalhava na extinta Favoritas do Sultão, em 1983, quando impressionou diretores da União em um desfile em São Vicente (SP). Procurado ainda na concentração, não hesitou: disse que a escola do Marapé só seria campeã se o contratasse.
 
Dito e feito. O carnavalesco assinou seu primeiro trabalho em 1984 (o elogiado “Vira, Gira, vem Girando”) e viu sua própria previsão se cumprir já no ano seguinte, comemorando o título com o tema “Amanheceu, Hoje é Ontem”. 
 
Então com 10 anos, Marquinhos viu aquela rotina se intensificar em 1986, graças à expectativa criada pela conquista inédita. Por algumas vezes dormiu em cima de blocos de isopor no barracão, enquanto esperava o pai encerrar o expediente. 
 
No fim, tomou gosto pela coisa. E se juntou a outros familiares para ajudar na produção de adereços e fantasias para aquele desfile. 
 
“Meu pai tinha uma personalidade forte, mas era muito reservado. Evitava fotos, entrevistas... O negócio dele era desenhar, soldar, esculpir, decorar. Dizia sempre que preparava a festa não para ele, mas, sim, para o povo” – Marcos Roberto Bezerra.
 
A dedicação valeu a pena. Marquinhos, hoje engenheiro civil, ainda se emociona ao lembrar do imponente carro abre-alas, guardado em segredo até a véspera, que trazia a tradicional águia a sete metros de altura. Ao centro, sua irmã, Maísa, materializava o amor dos Bezerra – e de tantas outras famílias ali presentes – pelo Carnaval da Verde e Rosa.
 
Uma imagem certamente ainda hoje guardada na retina de muitos santistas. 
 
E que eternizou a conquista de um bicampeonato incontestável.


(O abre-alas de 1986, com Maísa, filha do carnavalesco Marcão, ao centro; acervo: Heldir Lopes Penha) 

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