Jamir Lopes
Jamir Lopes - Gestor e produtor cultural
05/08/2021 — quinta-feira às 12h43
No início da noite da última quinta-feira, dia 29, os noticiários de TV mostravam as chamas que consumiram os cerca de 400 metros quadrados do galpão da Cinemateca Brasileira, localizado na Vila Leopoldina, zona oeste de São Paulo. A capitã Karina Paula Moreira, do Corpo de Bombeiros, afirmou que o princípio de incêndio ocorreu durante uma manutenção no ar-condicionado da Cinemateca, por uma empresa terceirizada (contratada pelo Governo Federal) que prestava serviço no local. Segundo ela, uma faísca foi gerada a partir de uma falha no equipamento. O fogo se alastrou rapidamente, pois rolos de filmes são altamente inflamáveis e, apesar dos esforços, não pôde ser contido. Foi descartada pela equipe de bombeiros qualquer possibilidade do caso ter sido ocasionado por algum elemento externo ao prédio, como um ato criminoso.

A historiadora Eloá Chouzal, membro da Associação Brasileira de Preservação Audiovisual (ABPA), classifica o episódio não como um “desastre”, mas um “crime”, dada a negligência do governo Bolsonaro. “A gente vem há um ano e meio alertando o governo sobre a iminência desse desastre. Para mim, é um crime. O coração da Cinemateca é o seu acervo. Se você não cuida, se não tem trabalhadores, técnicos especializados, que monitoram o que está acontecendo nesse acervo, ele está abandonado”, disse Eloá. De acordo com a pesquisadora, o galpão abrigava registros fundamentais do audiovisual brasileiro. São documentos relativos à história da Embrafilme, do Conselho Nacional de Cinema (Concine) e do Instituto Nacional de Cinema (INC). Além disso, o local também abrigava cópias únicas de negativos que já se deterioraram e não podem mais ser copiados. Nesse sentido, Eloá alerta que a sede da Cinemateca também corre perigo. Após sucessivas mobilizações da classe artística, a Secretaria Especial de Cultura liberou verbas para a contratação de serviços básicos de manutenção. Mas os técnicos que cuidavam do acervo, demitidos no ano passado, não foram substituídos. “Não adianta colocar segurança, jardineiro e manutenção predial, se o que importa o coração, a alma da cinemateca, não está sendo cuidada”.
O abandono da Cinemateca Brasileira começou em 2019, quando o então ministro da Educação, Abraham Weintraub, decidiu romper, unilateralmente, o contrato com a Associação de Comunicação Educativa Roquette Pinto (Acerp), responsável pela TV Escola e pela gestão da Cinemateca. Desde então a União não dá continuidade aos trabalhos técnicos internos da instituição. Desde julho de 2020 o Ministério Público Federal está com uma ação civil contra a União por descaso na administração da Cinemateca. Na mesma época os trabalhadores da instituição fizeram uma paralisação de 24 horas. No auge da pandemia, eles estavam sofrendo com atrasos de salários, deterioração das condições de trabalho e constante ameaça de demissões. Ao fim daquele mês, a empresa terceirizada contratada para a manutenção dos climatizadores necessários para a conservação dos filmes deixou de prestar serviço e a brigada de incêndios debandou. Até mesmo a Prefeitura de São Paulo, sensibilizada com a situação da Cinemateca, solicitou ao governo federal para assumir a gestão do espaço, mas nunca foi respondida. Em meio a tudo isso, a Cinemateca foi transferida para a Secretaria Especial de Cultura. O titular atual da pasta, Mario Frias – que substituiu na função a atriz Regina Duarte, após sucessivos choques com classe artística – chegou até mesmo a anunciar que o acervo da Cinemateca seria transferido para Brasília, mas nada foi feito.
Nesta semana, enquanto a memória do cinema nacional era destruída pelo fogo em São Paulo, o Secretário de Cultura Mário Frias viajava com a comitiva do Ministro do Turismo Gilson Machado e outros assessores federais para a Europa, mais precisamente em Roma, na Itália, para a Conferência dos Ministros de Cultura do G20.
Por aqui a atriz Fernanda Montenegro, a grande dama da dramaturgia brasileira, de 92 anos, se pronunciou referente ao incêndio e à atual gestão das artes no país: "O incêndio na Cinemateca em São Paulo é uma tragédia anunciada. Toda a nossa cultura das artes sofre um cala boca, mas vamos renascer, tenho certeza. Nós temos certeza. Das cinzas, vamos renascer. É sagrado o eterno retorno, das artes, então? Um país não existe sem cultura ligada às artes", disse a artista, bastante emocionada. Já a ex-secretária Especial da Cultura Regina Duarte não comentou o incêndio que atingiu a Cinemateca e destruiu cerca de quatro toneladas de documentos sobre a história do audiovisual no país nesta semana. Porém na semana passada a atriz classificou como "absurdo" um ato de manifestantes que colocaram fogo na polêmica e medonha escultura do Borba Gato, localizada no bairro de Santo Amaro em São Paulo.
O Instituto Lumière, sediado em Lyon, na França, se manifestou por meio de um comunicado oficial a respeito do incêndio que atingiu parte de um galpão da Cinemateca Brasileira. O órgão, que recebe o nome dos irmãos franceses que inventaram a técnica cinematográfica e que é dedicado à preservação da memória do cinema, condenou a gestão do governo Bolsonaro, que administra o órgão, afirmando que a Cinemateca foi vítima de “abandono” e que seu incêndio é mais um símbolo da “desastrosa política cultural” do Brasil. O comunicado do instituto lembra que a tragédia ocorre “menos de três anos após o incêndio do Museu Nacional”. Quando o presidente Jair Bolsonaro em resposta na época, com seu costumeiro desprezo, disse: “Já está feito, já pegou fogo, quer que faça o quê?”. E lá se vai mais um pedaço imensurável da nossa História, da nossa cultura e da nossa memória.
Eu, como a grande maioria dos profissionais da cultura e artistas consideramos que o incêndio na Cinemateca não é uma fatalidade, um mero acidente. É o resultado de um projeto em curso de sucateamento e destruição da cultura brasileira. O mesmo projeto de detonação da cultura que também passa pela memória científica. Assim o governo muda padrões de aferição do desemprego no Caged, cancela o Censo, muda a metodologia de aferição da devastação amazônica no INPE, dilapida a universidade pública, o IBGE, o IPEA e outros centros de excelência. O incêndio da Cinemateca tem o propósito óbvio de destruir a memória nacional, detonar o passado e o futuro. O sentido é o mesmo do apagão no CNPQ (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico): destruição, destruição e mais destruição. São ataques simultâneos planejados minuciosamente contra a Nação, contra a identidade cultural e a nossa inteligência. Por hora precisamos primeiro sobreviver, ficar atentos e resistir a esta destruição, mas sempre com o sentimento que “a roda girará, outro dia vai nascer, apesar de você, apesar de você”.
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