Jamir Lopes
Jamir Lopes - Gestor e Produtor Cultural
05/07/2021 — segunda-feira às 08h15
Há 53 anos, no dia 26 de junho de 1968, aconteceu o maior ato contra a ditadura militar, que estava no auge de sua repressão na época, a histórica “Passeata dos Cem Mil”, que reuniu artistas, estudantes e trabalhadores que tomaram as ruas do Rio de Janeiro para exigir liberdades democráticas no Brasil. A Passeata dos Cem Mil gerou grande tumulto na sociedade. Contra ou a favor, era impossível desviar do assunto na época. Os principais artistas e intelectuais do Brasil participaram ativamente desde movimento: Chico Buarque, Caetano Veloso, Edu Lobo, Gilberto Gil, Nana Caymmi, José Celso Martinez Corrêa, Carlos Lyra, Geraldo Vandré, Renato Borghi, Ittala Nandi, Othon Bastos, Eva Todor, Tônia Carrero, Eva Wilma, Leila Diniz, Odete Lara, Norma Bengell, entre muitos outros.

As atrizes Eva Todor, Tônia Carrero, Eva Wilma, Leila Diniz, Odete Lara e Norma Bengell em 1968 durante a Passeata dos Cem Mil em protesto contra a Ditadura Militar no Brasil no Rio de Janeiro (fotos: reprodução)
Outro movimento histórico de cunho popular que contou com grande participação de artistas e produtores culturais foi o “Diretas Já”, que começou em maio de 1983 e foi até 1984, com o objetivo da retomada das eleições diretas ao cargo de presidente da República no Brasil. O “Diretas Já” foi um movimento suprapartidário que teve como ápice a concentração de mais de 1,5 milhão de pessoas no Vale do Anhangabaú em São Paulo. O ato foi liderado por Tancredo Neves, Franco Montoro, Orestes Quércia, Fernando Henrique Cardoso, Mário Covas, Luiz Inácio Lula da Silva, Leonel Brizola e Pedro Simon. Artistas e personalidades em geral também participaram ativamente do “Diretas Já”, destacaram-se: Heráclito Fontoura Sobral Pinto, Sócrates (futebolista), Christiane Torloni, Mário Lago, Gianfrancesco Guarnieri, Chico Buarque, Taiguara, Beth Carvalho, Martinho da Vila, Milton Nascimento, Wagner Tiso, Sérgio Ricardo, Chacrinha, José Wilker, Osmar Santos, entre outros.
A cantora paraense Fafá de Belém foi considerada a “Musa do Diretas Já”, presente nos 32 comícios realizados pelo movimento em diferentes capitais e cidades pelo Brasil. Fafá se apresentou gratuitamente em passeatas e comícios, cantando os temas ”Menestrel das Alagoas’ (homenagem a Teotônio Vilela) e o Hino Nacional Brasileiro”.
A participação de artistas engajados com críticas ao sistema político sempre foi fundamental para conscientizar e motivar a população. Através da sua arte, seja na música, teatro, literatura, cinema ou artes plásticas, eles ajudaram a unir o povo para lutar por direitos, a favor da Cultura, da liberdade e contra a censura. A
redemocratização no Brasil deve muito à cultura, mesmo que só tenham ocorrido 20 longos anos depois da “Passeata dos Cem Mil” e quatro anos depois do “Diretas Já”, com a promulgação da Constituição Federal, em 5 de outubro de 1988 - época que José Sarney era o presidente da república, eleito de forma indireta. Só em 1989, finalmente, foi eleita de forma direta e democrática a chapa Fernando Collor e Itamar Franco, como presidente e vice, respectivamente.

Performance da cantora Fafá de Belém no comício “Diretas Já”, com o ator José Wilker (ao fundo) 1984
Já nos dias atuais, com a pandemia de COVID-19 levando a vida de mais de 522 mil brasileiros, trouxe também inúmeras de outras crises: econômica, humanitária, política e moral. Com as eleições de 2022 cada vez mais próximas, na internet e nas ruas, é possível ver uma clara divisão de lados: os que apoiam e os que se opõem ao atual governo. Diante dessa divisão, existem as pessoas que se permitem ficar isentas de opinião. Quando se trata de figuras públicas, porém, essa neutralidade não tem sido aceita pelos brasileiros, o que tem gerado atrito até mesmo entre os famosos.
Creio que embora não seja obrigado é importante ver um artista posicionando-se politicamente. Isso ajuda a fazer com que a arte também se torne um instrumento de consciência política, empatia e de compreensão da realidade. Senão, corremos o risco de sermos engolidos apenas pelos interesses publicitários e pelo famoso “pão e circo”.
Para mim, o youtuber Felipe Neto é o maior case. Ele é muito influente e cresceu criando conteúdo de entretenimento, mas, foi mudando o comportamento e assumindo uma postura mais crítica em relação à política nacional. Assim como fez a cantora Anitta, que possui milhões de fãs pelo Brasil e o mundo. A atriz e cantora Samantha Schmütz recentemente criticou de forma contundente os artistas e influenciadores que não se posicionam sobre acontecimentos políticos e sociais no Brasil: "Quem tem voz, tem que falar. Não é uma coisa de escolher partido ou candidato, é ficar do lado da vida dos brasileiros!”. E concluiu, “Pra que que a gente conquistou tanta voz? Pra que a gente tem milhões de seguidores? É só pra vender produto? É só pra isso? Não, gente!”. Concordo com a postura da atriz, nessa situação de vida e morte, assumir o papel de isento não deveria ser uma escolha.
Porém, em minha opinião como produtor cultural que já conviveu e convive com centenas de artistas, quem é do time dos isentões, já esta posicionado. Não importa se o artista é de direita ou esquerda, temos problemas maiores para resolver, o principal deles está no poder. Se o seu ídolo não se posiciona, você é quem deve se posicionar sobre ele. Hoje, o mínimo que cada fã ou cidadão pode, e deve cobrar daquele seu artista favorito é um posicionamento, mesmo que seja contrário ao seu.
Ele só não pode ser contrário à vida. Garanto que isso resolve. Um exemplo recente disso é a cantora e apresentadora Ivete Sangalo, que após ser cobrada por centenas de fãs e amigos, ela rompeu o silêncio de anos: “Esse governo que aí está não me representa nem mesmo antes da ideia dele existir”. Nesta última quinta-feira (1º de julho), Ivete (49 anos) tomou a sua primeira dose de imunizante contra a Covid-19 em um drive thru em Salvador, na Bahia, e voltou a se manifestar: "Um dia tão esperado. A vacina salva vidas! Viva o SUS".
Termino desejando que as palavras, a obra e a sabedoria da imortal diva do jazz Nina Simone, que é a autora da frase que serve de título para esse texto, continuem inspirando artistas e pessoas comuns de todo o mundo, em todos os tempos.

“O dever de um artista, no que me diz respeito, é refletir os tempos. Acho que isso é verdade para pintores, escultores, poetas, músicos. No que me diz respeito, a escolha é deles, mas EU ESCOLHO refletir os tempos e situações em que me encontro. Isso, para mim, é meu dever. E neste momento crucial de nossas vidas, quando tudo está tão desesperador, quando todos os dias é uma questão de sobrevivência, eu não acho que você pode ajudar, mas se envolver. Vamos moldar este país ou ele não será mais moldado. Então, eu não acho que você tem escolha. Como você pode ser um artista e NÃO refletir os tempos? Isso para mim é a definição de um artista” - Nina Simone.
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