Jamir Lopes
Jamir Lopes - Gestor e produtor cultural
05/06/2021 — sábado às 12h01
A pandemia começou a atingir o campo da cultura e das artes no Brasil quando ela já passava por muitas dificuldades: perda do status de ministério para secretaria, rede de difamação de vários dos nossos mais importantes artistas e a demonização geral dos profissionais da cultura, seguidas tentativas de censura, além da recessão política e econômica do país. Todas as ações são orquestradas pelo projeto do governo federal de desmonte e asfixia dos diversos setores artísticos, projeto que ainda esta em curso.
Sabemos que a ideia de cultura sempre foi moldada conforme as visões e objetivos políticos de cada tempo, detendo em si as chaves que podem abrir portas para o diálogo, a liberdade, a equidade e o respeito. Mas que também podem fechá-las, cedendo ao controle, à discriminação e à intolerância. A cultura tem o poder de entrelar às dinâmicas sociais, conseguindo permear todo o espaço da sociedade, tanto como alimento da alma individual tanto como forte elemento agregador e transformador de realidades coletivas. Não por acaso, marcadamente na história todos os governos com perfil autoritário, seja de esquerda ou de direita, sempre priorizaram perseguir, controlar e calar artistas e as manifestações da cultura popular. Pois é cultura que possui a capacidade de uma ampla comunicação criativa, que seduz, questiona, empodera e liberta. A cultura que é o mais forte cimento social existente, não a religião ou a ideologia.
Desde março de 2020, há 15 meses, quando a primeira morte de Covid-19 foi detectada por aqui e a OMS já declarava a pandemia mundial, de forma bem compreensível foi a cultura o primeiro setor econômico a ser atingido. Pois logo, em efeito cascata, todas as casas de shows, cinemas, galerias, bibliotecas e teatros começaram a ser fechados até a interrupção total das atividades presenciais. Este isolamento impossibilitou a realização de grandes festivais, o Carnaval, eventos religiosos e outras festas tradicionais que movimentavam bilhões em recursos financeiros das indústrias culturais brasileiras e empregam milhares de profissionais em todo o país. Segundo recente pesquisa do Observatório Itaú Cultural, o setor da economia criativa perdeu 458 mil postos de trabalho na comparação do último trimestre de 2020 com o mesmo período do ano anterior. O levantamento leva em consideração funções em diversas áreas que dependem da criatividade para serem desempenhadas, não sendo uniformizadas ou passíveis de serem substituídas por máquinas. Eram 7,1 milhão de pessoas trabalhando nesse tipo de função nos últimos três meses de 2019. Número que foi reduzido para 6,6 milhões no quarto trimestre de 2020.
Diante desse quadro atual do campo da cultura, o imperativo é sobreviver. E esta sobrevivência não tem sido nada fácil, por mais que editais emergenciais, como a conquista da Lei Federal Aldir Blanc, editais da Secretaria de Estado da Cultura e da Economia Criativa de São Paulo e ações pontuais das prefeituras locais estejam mitigando os efeitos desta crise no setor das artes.
Infelizmente o retorno à sonhada “normalidade" ainda está um pouco distante, tanto para a cultura como na economia em geral. Para a fruição de atividades culturais que exigem presença física e ambientes específicos para sua realização, só poderão voltar a acontecer de forma responsável e segura, quando mais de 70% da população do país for vacinada contra o coronavírus. Atualmente no Brasil até a primeira semana do mês de junho de 2021, foram imunizados com as duas doses da vacina cerca de 10% apenas da nossa população.
Segundo a pesquisa "Hábitos Culturais da Cultura na web durante a pandemia", realizada pelo Itaú Cultural e Instituto Datafolha em setembro de 2020, detectou, o desejo do brasileiro de continuar com o hábito online após a reabertura dos espaços culturais. O cenário ainda é incerto para o futuro póspandêmico, mas podemos enumerar que alguns aprendizados vieram para ficar. A capacidade de democratização de produtos culturais através da internet e a valorização da arte como aliada à saúde mental são dois dos principais. O neurocientista Sidarta Ribeiro afirma que ao lado da ciência, a arte e a cultura podem ajudar na superação da crise sanitária. "Observo que as pessoas que se voltaram para o seu mundo interior com cultura, sejam livros, músicas ou filmes, estão com mais saúde mental. A arte é curativa." Já este novo nicho digital não poderá ser abandonado mesmo com a volta do grande público aos espetáculos culturais, após atingirmos a imunidade coletiva com a vacina. Mas a utilização dos meios remotos deverá ser mais criteriosa e planejada, indo além das transmissões. É preciso agregar por meio desse hibridismo e não sobrepor, com muita interação, qualidade e profissionalismo, são o que deverá ficar no pós-pandemia. É oportuno lembrarmos também que a cultura e a educação tiveram papel fundamental na reconstrução social depois da Segunda Guerra Mundial.
A diplomacia da paz, comprometida com a cooperação internacional, resultou na criação da ONU, e, na sequência quase imediata, foi instalada a UNESCO como agência dedicada à educação e à cultura. Em vários países atingidos profundamente pela guerra, como na França e na Coreia, a valorização da educação pública universal e a implementação de políticas culturais foram decisivas para superar a tragédia e a miséria. Especialmente onde as memórias da dor e da violência eram incontornáveis, a educação e a cultura restabeleceram o gosto pela convivência humana e pela criação coletiva, traduzindo a capacidade de resiliência dos povos.
Como dizia o mestre, dramaturgo e poeta Ariano Suassuna, "o otimista é um tolo. O pessimista, um chato. Bom mesmo é ser um realista esperançoso". Com este pensamento termino este texto, desejando que quando nos encontrarmos no pós-pandemia, onde o isolamento social será apenas uma lembrança, que a cultura seja fundamental para a reconstrução do nosso país. Reafirmando a sua missão de importante cimento social, ajudando aos brasileiros a voltar à razão, reatando os laços que se tornaram distantes e permitindo um novo convívio. Uma sonhada reconstrução nacional com base na verdade, na inclusão, no pluralismo, na equidade, com mais respeito e afeto.
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