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Deraldo Silva

Pobreza menstrual: um problema que afeta milhares de jovens brasileiras

Deraldo Silva - Coordenador da Central Única das Favelas (CUFA) - Baixada Santista

13/07/2021 — terça-feira às 08h09

Pobreza menstrual: um problema que afeta milhares de jovens brasileiras

Padman, ou Homem Absorvente, é um filme indiano do diretor R. Balki. Na produção, o personagem Lakshime, morador de um vilarejo, se empenha para desenvolver um absorvente barato para que mulheres pobres possam usar. Para conter o fluxo menstrual, indianas improvisavam pedaços de pano que, juntamente com a higiene precária, acabavam trazendo sérios riscos à saúde. Pois bem, a Índia poderia ser aqui.
 
Não se espante, mas o Brasil vive problema parecido: é a pobreza menstrual que se caracteriza pela falta de acesso a recursos, infraestrutura e até conhecimento, por parte de mulheres que menstruam, dos cuidados envolvendo a própria menstruação. Segundo relatório publicado este ano pela Unicef, Fundo das Nações Unidas para a Infância, estima-se que uma a cada quatro jovens brasileiras não tem condição financeira para comprar absorventes.
 
O estudo também revela que 713 mil meninas vivem sem acesso a banheiro ou chuveiro em seus domicílios e mais de 4 milhões não têm acesso a itens mínimos de cuidados menstruais nas escolas. Acho de extrema importância eu, como homem, marido e pai de duas meninas, falar sobre o assunto. Acredito que esteja ajudando a desmistificar o tema.
 
Por ser considerado tabu e até recentemente, invisível aos olhos do poder público, nossas meninas têm pagado um preço muito caro apenas por menstruar, apenas porque o corpo responde a um ciclo natural. A pobreza menstrual está diretamente ligada à evasão escolar. Dados revelam que, em média, as meninas percam 45 dias, ao logo do ano letivo, por não conseguirem sair de casa. No lugar do absorvente, utilizam papel higiênico, pano, roupas velhas, meias e até miolo de pão. Estigmatizadas, e diante de uma questão sem solução, acabam desistindo da escola e até perdendo oportunidades no mercado de trabalho. Um passo importante foi dado, depois de o tema ter se transformado em debate nacional.
 
Em junho o governo de São Paulo lançou o programa Dignidade Íntima, que vai investir mais de R$ 30 milhões na distribuição de produtos de higiene menstrual a alunas de escolas da rede estadual. Na Assembleia Legislativa tramita o Projeto de Lei 1.177, que pretende instituir em todo o estado a política pública Menstruação sem Tabu, e universalizar o acesso a absorventes a todas mulheres em situação de vulnerabilidade social. 
 
São inúmeras as demandas. Além de comida, é preciso água tratada, sabão, álcool, absorventes, enfim, olhar atento e sensível das autoridades. Todos tem direito a uma vida digna. Está na Constituição!

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