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Nova pesquisa temática Badra aponta que a mentira está no cotidiano da sociedade

Levantamento mostra que as pessoas valorizam a verdade, mas há um custo para sustentá-la

Robson de Castro

01/04/2026 - quarta às 10h53

As equipes do Instituto Badra mais uma vez foram às ruas ouvir a população sobre um tema que afeta diariamente a vida de toda a sociedade - a mentira.

 

Da mesma forma que nas pesquisas recentes sobre o que as mulheres de várias gerações pensam sobre assuntos sensíveis (Elas por Elas) e sobre como os paulistanos lidam com um dos festejos mais tradicionais da cultura brasileira (Quem é você no Carnaval?), esse estudo do cotidiano compila dados que mostram um cenário onde a mentira e a verdade são usadas para manter, de certo modo, a sociedade em funcionamento.

 

Segundo o jornalista e analista de dados Maurício Juvenal, os brasileiros não operam com uma moral rígida, mas com uma ética situacional, marcada por ambiguidades, justificativas e adaptações.

 

Ele pontua que: “Se na tradição filosófica clássica, de Kant a Santo Agostinho, condena a mentira como uma violação absoluta do dever moral, a vida concreta parece se aproximar mais de Maquiavel, ou mesmo das interações descritas por Erving Goffman, em que a gestão da verdade é parte do jogo social. Isso mesmo: gestão da verdade!”.

 

Todos mentem, disse Dr. House

De acordo com a pesquisa Badra, mais de 70% dos entrevistados acreditam que as pessoas mentem sempre ou frequentemente no dia a dia.

 

Parafraseando o personagem que marcou época em uma das séries icônicas, todos mentem, o que muda são as motivações.

 

No resultado da Badra, fica claro que quando se é observado o indivíduo, cerca de 38% admitem mentir com frequência. “Essa dissociação sugere um fenômeno clássico da psicologia social que é a tendência de atribuir ao outro comportamentos moralmente questionáveis, preservando a própria autoimagem”, destaca Juvenal.

 

Os fins justificam os meios quando a situação envolve verdade e mentira?

Outros dados relevantes mostram que as pessoas consideram justificável faltar com a verdade para exercer função social para evitar conflitos (29,9%) e proteger alguém do sofrimento (26,2%).

 

É algo que remete ao excelente filme de comédia “O Mentiroso”, com Jim Carrey, onde seu personagem Fletcher Reede é um advogado bem-sucedido que tem o hábito de mentir compulsivamente, tanto no trabalho quanto na vida pessoal, principalmente para o próprio filho. Cansado das promessas quebradas do pai, o garoto faz um pedido de aniversário: que Fletcher não consiga mentir por 24 horas.

 

O desejo misteriosamente se realiza, e Fletcher passa a ser incapaz de dizer qualquer mentira, o que vira sua vida de cabeça para baixo. No meio de um caso importante no tribunal, ele é obrigado a falar apenas a verdade, gerando situações caóticas, constrangedoras e muito engraçadas.

 

No fim, a experiência faz Fletcher perceber o quanto suas mentiras estavam prejudicando sua relação com o filho, levando-o a repensar suas atitudes e tentar se tornar uma pessoa melhor.

 

“Aqui, o dado empírico dialoga diretamente com práticas cotidianas reconhecíveis. Por exemplo, a chamada ‘mentira piedosa’, aquela que diz que um presente agradou, suaviza um diagnóstico ou omite uma crítica para não ferir alguém. Nesses casos, a mentira deixa de ser vista como falha moral e passa a ser interpretada até mesmo como ato de empatia. Essa lógica se confirma quando analisamos um dado concreto: 85,8% dos entrevistados afirmam já ter mentido para proteger alguém de uma notícia negativa. Ou seja, aquilo que é justificado em teoria é amplamente praticado na vida real”, afirma Maurício Juvenal, ao analisar os resultados desse importante levantamento estatístico.
 

 

O peso da verdade e as consequências da mentira

O personagem Pinóquio, de Carlo Collodi e que ganhou vida no universo Disney, mostra que esse paradoxo entre verdade e mentira gera consequências - e isso também fica evidente na pesquisa Badra.


De acordo com o levantamento, a grande maioria reconhece que a verdade fortalece a confiança (83,8%) e constrói relações sólidas (89,5%). Ao mesmo tempo, 72,3% afirmam que dizer a verdade pode causar problemas ou prejudicar alguém.

 

Juvenal enfatiza que essa dualidade se expressa também na experiência pessoal. “O dado é impressionante! Exatos 73,1% dizem já terem se arrependido, em algum momento, de dizer a verdade.  Aqui, o dialogismo com a vida real é evidente. A verdade pode ser virtude, mas também pode ser violência. Um comentário honesto pode fortalecer relações ou destruí-las; uma revelação pode libertar ou ferir. O dado empírico confirma aquilo que a literatura já apontava: a verdade, assim como a mentira, é uma prática situada”.
 

 

Uma conclusão verdadeira - você também mente

Essa pesquisa temática Badra com foco em entender o cotidiano e dar voz ao que pensam as pessoas sobre um tema tão espinhoso conclui que não existe uma única moral da verdade e da mentira no Brasil.

 

Maurício Juvenal conclui sua análise dos dados destacando que a revelação é clara: você também mente. “Se a filosofia buscou respostas universais, a pesquisa revela algo mais próximo da vida real: a verdade e a mentira são menos categorias fixas e mais instrumentos situados de gestão das relações humanas. E com certeza o dado mais profundo consagra que não é que as pessoas não valorizem a verdade, é que aprenderam, pela experiência, que nem sempre é possível sustentá-la sem custo”.
 

 

DADOS CRUZADOS

Entre norma e contexto: a arquitetura social da mentira e da verdade

A análise cruzada dos dados revela que a relação dos indivíduos com a mentira e a verdade não é homogênea, mas estruturada por variáveis sociais que modulam tanto a percepção quanto a prática. Idade, renda, escolaridade, ocupação e religião não apenas influenciam opiniões, elas organizam diferentes “regimes morais” dentro da sociedade.

 

1. A percepção da mentira: jovens mais céticos, renda mais alta mais crítica

A crença de que “as pessoas mentem o tempo todo” não é distribuída de forma uniforme.

 

Entre jovens de 16 a 24 anos, 47,1% afirmam que as pessoas mentem várias vezes ao dia, patamar significativamente acima dos idosos (29,1%) .

 

Já entre os mais ricos, digamos assim, com renda superior a R$ 8 mil/mês, esse índice cai drasticamente para 19,1%, enquanto nas faixas de menor renda chega a 35%. Qual a interpretação disso?

 

Há aqui dois padrões distintos. O primeiro, o geracional, indica que os mais jovens parecem mais desconfiados do tecido social, possivelmente refletindo maior exposição a ambientes de alta circulação de informação (e desinformação);

 

O segundo padrão, socioeconômico, carimba que indivíduos de maior renda demonstram menor percepção de mentira constante, o que pode indicar maior inserção em ambientes institucionais mais regulados ou maior confiança nas interações.


2. O paradoxo moral: quem mais percebe a mentira não é quem mais admite mentir

Ao cruzar percepção (P01) com prática (P02), surge uma tensão importante. Jovens são os que mais percebem a mentira como frequente (47,1%), mas também apresentam níveis elevados de autorreconhecimento de mentira frequente (cerca de 45% entre sempre + frequentemente).

 

Já os mais velhos (60+) percebem menos mentira e também admitem mentir menos (apenas 8,6% dizem mentir sempre).

 

A partir daí, fica impossível não concluir que nos jovens há uma coerência cínica: reconhecem a mentira como regra e se inserem nela. Nos mais velhos, há uma coerência normativa: menor percepção e menor prática. Pesadão, né? Que nada. Isso na prática sugere dois regimes éticos, um mais realista/adaptativo (jovens), e outro mais normativo/idealizado (idosos).


3. A moral da justificativa: religião e renda moldam limites da mentira

A questão sobre quando a mentira é justificável (P03) permite cruzamentos especialmente reveladores.

 

Evangélicos, por exemplo, apresentam maior rigidez moral ao 22% deles afirmam que a mentira nunca é justificável. Os católicos são mais flexíveis, ou pelo menos parecem, visto que apenas 15% sustentam essa posição .

 

Mas é óbvio que essa rigidez convive com nuances que merecem melhor reflexão ou reflexão mais detida. Evangélicos também aparecem com índices relevantes na justificativa por proteção emocional (28,4%). Uma leitura mais sofisticada desse fenômeno vai indicar que não se trata de moral rígida versus flexível, mas de moral com tensão interna, onde princípios fortes coexistem com adaptações práticas.

 

Em termos de renda, entre os mais ricos, a mentira para proteger alguém cai para 13,8%, enquanto nas faixas mais baixas ultrapassa 27%. Já a ideia de que “nunca é justificável” cresce entre os de renda mais alta. A verdade é que classes mais altas tendem a uma ética mais formalizada, menos baseada em mediação emocional, enquanto as classes mais baixas operam com uma ética mais relacional, onde preservar o outro pesa mais que a regra.

 

4. Hierarquia moral das mentiras: intenção importa mais que o ato

Ao cruzar os diferentes tipos de mentira (P04 a P08), emerge uma estrutura clara:

 

Tipo de mentira

Grau de condenação

Para vantagem pessoal

Altíssima (mais de 70% grave/muito grave)

Para desafiar regras

Alta

Para adequação social

Moderada

Para proteger alguém

Baixa

 

E o cruzamento por ocupação e renda aprofunda isso. População não ocupada tende a ver menos gravidade nas mentiras em geral. População ocupada é mais rígida, especialmente em mentiras associadas a regras e autoridade.

 

Isso inspira que o vínculo com estruturas institucionais (trabalho, regras, hierarquias) aumenta a sensibilidade moral a certos tipos de mentira, ou seja, a moral também é funcional ao lugar social do indivíduo.
 

 

5. O caso da omissão: estratégia moral intermediária (com forte variação educacional)

O debate sobre a omissão (P10) é um dos pontos mais sofisticados da pesquisa. Entre pessoas com ensino superior, apenas 3,6% consideram omissão tão grave quanto mentira. Entre os menos escolarizados, esse número sobe para 13,5% .

 

Além disso, quanto maior a escolaridade, maior a tendência de considerar a omissão como algo “dependente da situação”. Na prática, a escolaridade parece aumentar a capacidade de operar com nuances morais, legitimando zonas cinzentas. Se fosse para desenhar, seria mais ou menos assim:

- Maior capital cultural → maior relativização ética

- Menor capital cultural → maior tendência à moral dicotômica (certo/errado)

 

 

6. Verdade como risco: mulheres, baixa renda e ocupação revelam maior cautela

O reconhecimento de que a verdade pode causar problemas (P12) é quase consensual (72,3%), mas há variações. Entre pessoas de baixa renda, chega a 80,9%. Já entre população não ocupada, cai para 56,3%. Parece um sinal de que quanto maior a vulnerabilidade social, maior a percepção de risco associado à verdade. A verdade, nesses contextos, deixa de ser apenas um valor e passa a ser uma decisão estratégica com potencial de dano real.

 

7. Experiência vivida: mentira e arrependimento revelam coerência prática

Os dados de experiência (P29 e P30) também são especialmente, e interessantemente, reveladores. Nada menos do que 85,8% dos entrevistados dizem  que já mentiram para proteger alguém. Até aí tudo bem. Tudo bem? Ao mesmo tempo, 73,1% disseram ter se arrependido de dizer a verdade, em algum momento. Quando cruzamos isso com idade, os adultos (25–44) apresentam os maiores índices em ambos os casos.

 

Isso não quer dizer outra coisa senão que esse grupo vive o auge das responsabilidades sociais (família, trabalho), onde os dilemas éticos são mais frequentes. Aquela coisa que podemos chamar de ética da responsabilidade relacional. A ética que interessa!?

 

8. O núcleo decisório: princípios versus consequências

Na decisão final (P32), 54,2% dizem agir por princípios; 21,8% consideram o impacto sobre os outros; e 16% consideram o próprio benefício .

 

Mas o cruzamento revela que entre os mais escolarizados e ocupados, cresce o peso dos princípios (até 65%) e entre renda mais baixa, cresce a lógica consequencial. É um dado que dá para entender e até para explicar. O primeiro grupo trata da moral declarada (princípios) e o segundo da moral operacional (consequências). E essa diferença varia conforme posição social.
 
 

Síntese interpretativa: três regimes morais coexistentes

A partir dos cruzamentos, é possível identificar três grandes padrões:

 

1. Regime normativo (mais presente em idosos, religiosos e renda alta)

- Maior rigidez moral declarada

- Menor aceitação da mentira

- Maior valorização de princípios

 

2. Regime relacional (mais presente em baixa renda e adultos)

- Mentira como ferramenta de cuidado

- Forte peso das consequências sociais

- Ética baseada em proteção e convivência

 

3. Regime pragmático-adaptativo (mais presente em jovens)

- Alta percepção de mentira no ambiente

- Maior naturalização da prática

- Menor dissonância entre discurso e comportamento

 

Conclusão ampliada

Os cruzamentos mostram que não existe uma única moral da verdade e da mentira no Brasil urbano. O que existe é um campo de negociação ética, onde diferentes grupos operam com lógicas distintas, ora baseadas em princípios, ora em consequências, ora em adaptação ao ambiente.

 

Se a filosofia buscou respostas universais, a pesquisa revela algo mais próximo da vida real: a verdade e a mentira são menos categorias fixas e mais instrumentos situados de gestão das relações humanas. E com certeza o dado mais profundo consagra que não é que as pessoas não valorizem a verdade, é que aprenderam, pela experiência, que nem sempre é possível sustentá-la sem custo.

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