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POLÍTICA E ORÇAMENTO

Obras públicas em ano eleitoral aumentam chances de reeleição, aponta estudo

Estudo acadêmico analisa 78 ciclos eleitorais em capitais brasileiras e identifica forte relação entre aumento de investimentos em infraestrutura e sucesso político de incumbentes

Robson de Castro

26/04/2026 - domingo às 23h18

O comportamento dos gestores públicos em anos eleitorais sempre esteve no centro do debate político brasileiro, especialmente quando o assunto envolve obras de infraestrutura. Um novo estudo do jornalista, especialista em parcerias público-privadas e mestrando em Ciência Política e Relações Internacionais, Maurício Juvenal, lança luz sobre essa dinâmica ao analisar três ciclos eleitorais consecutivos nas capitais brasileiras.

 

O artigo, desenvolvido no âmbito do Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa, o IDP de Brasília, sob orientação do professor doutor Erick Elysio Reis Amorim, investiga se o aumento de investimentos em obras públicas influencia diretamente o sucesso eleitoral de prefeitos e seus grupos políticos .

 

A pesquisa examinou dados de 26 capitais brasileiras, excluindo Brasília, ao longo dos pleitos de 2016, 2020 e 2024, totalizando 78 ciclos eleitorais. Utilizando informações oficiais do SICONFI e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o estudo focou nas chamadas despesas liquidadas, que refletem a execução real das obras, e não apenas sua previsão orçamentária. Essa escolha metodológica confere maior robustez aos resultados, ao evidenciar aquilo que efetivamente chegou à população em forma de infraestrutura visível .

 

Os dados revelam um padrão consistente: em 68% dos casos analisados houve aumento dos investimentos em infraestrutura no ano eleitoral. Mais do que isso, quando esse aumento ocorreu, o incumbente foi reeleito ou conseguiu eleger seu sucessor em 64% das disputas. Na prática, isso significa que, a cada dez situações em que houve ampliação de gastos com obras, sete resultaram na manutenção do grupo político no poder, indicando uma forte associação entre investimento público visível e desempenho eleitoral .

 

Outro dado que chama atenção é o comportamento do orçamento após as eleições. Em 82,7% dos ciclos analisados, houve queda significativa dos investimentos em infraestrutura no ano seguinte ao pleito. Esse movimento reforça a lógica dos chamados ciclos político-orçamentários, nos quais os gestores concentram esforços e recursos no período imediatamente anterior à eleição, reduzindo o ritmo logo após o encerramento da disputa .

 

Apesar da correlação identificada, o estudo ressalta que a estratégia não garante vitória em todos os cenários. Fatores como crise econômica, desgaste político, escândalos ou alta competitividade eleitoral podem neutralizar os efeitos positivos das obras. Ainda assim, segundo Maurício Juvenal, a persistência desse comportamento indica que os próprios gestores acreditam na eficácia da estratégia, o que acaba retroalimentando o ciclo de decisões orientadas pelo calendário eleitoral.

 

A pesquisa também dialoga com evidências internacionais sobre ciclos político-orçamentários. Em países desenvolvidos, como Estados Unidos, Reino Unido e Alemanha, estratégias eleitorais tendem a se concentrar mais em políticas fiscais, como redução de impostos ou ampliação de transferências diretas, em razão de regras fiscais mais rígidas e maior fiscalização institucional. Já em países em desenvolvimento, como Brasil, Índia e México, o padrão predominante envolve o aumento de investimentos em obras públicas visíveis, que funcionam como sinal imediato de ação governamental ao eleitorado. Esse contraste reforça a ideia de que o uso da infraestrutura como ferramenta eleitoral está associado ao grau de maturidade institucional e ao nível de acesso à informação por parte da população .

 

O trabalho também aponta diferenças regionais relevantes. Nas capitais do Nordeste, por exemplo, o impacto das obras sobre o resultado eleitoral tende a ser mais expressivo, enquanto no Sudeste há maior volatilidade e menor previsibilidade dos resultados. Já nas regiões Norte e Sul, os padrões variam, seja por menor volume de investimento, seja por maior alternância política, o que evidencia que o contexto local desempenha papel decisivo na relação entre gasto público e voto.

 

Ao final, o estudo conclui que a infraestrutura se consolida como uma ferramenta estratégica de sinalização política no Brasil, especialmente em democracias em desenvolvimento. Contudo, essa prática levanta questionamentos sobre a qualidade do planejamento público, uma vez que decisões orçamentárias passam a ser orientadas mais pelo calendário eleitoral do que por critérios técnicos. Nesse sentido, a pesquisa contribui para o debate sobre transparência fiscal e governança, ao evidenciar como o uso político do orçamento pode impactar diretamente a dinâmica democrática. O artigo recebeu a nota máxima: 10.

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