Clau Moreira Ramos - Trabalha com políticas culturais e nas horas vagas escreve sobre o que vê e sente
23/06/2021 — quarta-feira às 12h24
"Mas, peraí... você já tem motivos para sorrir?
O mundo que a gente conheceu quando criança está sendo radicalmente transformado, reiventado por novas tecnologias e por novos desafios, como a pandemia de coronavírus. A vida de todo mundo está sendo afetada. E cada um precisa prestar atenção no que pode e precisa fazer para se preparar para mudar também"
O marido chega em casa mais cedo e encontra a esposa numa vídeo-ligação com uma amiga.
- Não sei... Estou tão cansada da mesmice... Acho que eu queria experimentar um mais forte, daquele tipo preto arrasador, sabe? Eu queria um preto preto, pretão encorpado, bem quente, bem gostoso... Sei lá, de repente um desses que deixam a gente com gosto de chocolate na boca? Hummm!
- Acho que você quer um capixaba, flor. Com certeza, um bom dum capixaba! Apesar de que... olha, eu conheci um aqui no interior que é assim também. Menina, que delícia de experiência!... Ele é intenso, mas também é refinado, sabe? E pensa num lugar lindo!
- Oba, e pertinho? Por que, se for vou até querer visitar quando acabar a pandemia, para arejar a cabeça de todo esse home office... Você precisa me apresentar logo!
O marido está verde, indeciso entre um ataque de fúria ou de choro, quando a esposa percebe sua presença e sorri, com a leveza das almas inocentes:
- Amor, que bom que já chegou! A Marininha está fazendo curso de barista de café e tem uma porção de recomendação legal. Você gosta mais equilibrado, né?!
Tentando se recompor, ele despenca no sofá ao lado dela e diz, num sorriso amarelo:
- Meu bem, hoje eu topava um carioca, sabe? Daquele jeito: pretinho, quentinho, só que mais fraquinho mesmo...
A piadinha acima ilustra alguns fenômenos cada vez mais presentes no nosso dia a dia. Nesse tempo de descobertas e reinvenções, quem achava que o velho telefonema ia ser substituído de vez por mensagens de texto, viu o hábito das ligações voltar à carga, repaginado por conversas com voz e imagem em tempo real. Assim, as possibilidades de interação vão se somando, renovando e multiplicando.
Quem antes da pandemia pensaria em fazer tanto curso à distância ou aprender tanta coisa por meio da internet? Sem falar nas opções híbridas (parte presenciais, parte virtuais) que estão transformando a vida escolar e universitária em boa parte do mundo.
O home office também virou presença constante em muitas casas. Embora ainda seja quase inacessível para os mais pobres, está se tornando comum em parcelas crescentes das classes média e alta. Há trabalhos que já surgem natudigitais: novas ocupações que geram renda de dentro de casa, onde a pessoa trabalhadora atua por meio da internet e às vezes nem chega a conhecer seus empregadores pessoalmente.
Essas mudanças promovidas pelo desenvolvimento tecnológico e aceleradas pela pandemia desafiam vários dos nossos conhecimentos mais tradicionais. Antigamente, um café era um café. A gente basicamente diferenciava o forte do fraco, o coado do espresso. Hoje, a agrotecnologia permite a produção de grãos especiais, com uma infinidade de sabores, texturas e aromas. A indústria cafeeira a cada dia aprimora processos de torra e moagem, além de desenvolver novos solúveis e um número cada vez maior de produtos à base de café. E se, antes, para adquirir esses produtos era preciso se deslocar até um supermercado ou shopping, hoje compra-se praticamente qualquer coisa sem sair de casa, desde que se tenha conexão à web e um meio de pagamento eletrônico. Tudo isso amplia nossa capacidade de interagir no mundo; ao mesmo tempo requer que a gente aprenda uma porção de coisas mais.
O setor de oferta de conhecimento é um dos mais afetados por essa imensa ampliação de perspectivas de interação. Atualmente há serviços de educação para pessoas de todas as idades pela internet. De atividades para bebês, que ainda demandam a supervisão de um adulto (quem sabe amanhã os robôs desempenhem esse papel?) a aulas, brincadeiras educativas e cursos para todas as idades, o leque vai de conhecimentos escolares tradicionais aos mais variados tipos de interesses. Quer ser sommelier de cerveja, de vinho ou de café? Cuidador de idosos online, um conversador à distância? Há cursos a respeito na internet. Quer aprender a namorar ou fazer uma faculdade sobre zumbis na mídia? Há opções na internet. E muitas outras devem surgir, para dar conta de funções que antes não existiam, como árbitro de VAR e agricultor digital, enquanto profissões mais antigas – (ou nem tão antigas assim) como leiteiro, cobrador de ônibus, operador de caixa e atendente de telemarketing – deixam de existir ou atravessam transformações radicais.
Tudo isso dá novos sentidos a palavras como “perto” e “distante”; “presença” e “ausência”; “junto” e “separado”. Nasce uma multiplicidade de opções e oportunidades de geração de trabalho e renda e de ocupação do tempo livre. Continuaremos precisando de grande parte dos profissionais e serviços dos quais necessitamos hoje, nos campos de educação, saúde, segurança, limpeza pública e tantos outros, mas as nossas necessidades e os nossos desejos serão diferentes. Os serviços e os profissionais precisarão ser também. Já parou para pensar na sua profissão e em como ela estará daqui a alguns anos? O que será que você precisa fazer para acompanhar ou antecipar essas transformações?
Tudo indica que a tecnologia continuará fortalecendo a presença da internet nas nossas vidas; modificando a maneira como acessamos notícias ou tomamos café. E no seu caso? Quando estiver tomando um cafezinho ou lendo uma notícia na próxima década, o que terá mudado na sua vida e no seu trabalho?
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