Santista que se sentia inseguro com a aparência inspira artista e tem rosto grafitado em São Paulo

Por muito tempo Rafael Sales esteve longe de se ver como modelo; agora quer ser referência para outras pessoas

A obra está localizada na loja do Instituto Resgatando Vidas, no Peri Alto, em Brasilândia (foto: Andrey Haag)

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Por Isabela dos Santos
Redação BS9

O modelo independente santista Rafael Sales, de 23 anos, tem um desejo: “Quero ser referência para muitas pessoas que precisam trabalhar sua autoestima”. Morador do Saboó, ele conta que se sentia inseguro com a própria aparência - até que iniciou a carreira no ano passado e teve a surpresa de ver seu rosto grafitado em um muro de Brasilândia, na Zona Norte de São Paulo, pelo artista Difavela.
 
“Desde pequeno até a minha adolescência, sempre tive insegurança quanto a minha aparência e autoestima. Até por ser preto e da periferia, não confiava muito em mim”, afirma o modelo.

Com a surpresa, não só Rafael se sentiu realizado, como viu sua mãe emocionada. Ele conta que pessoas de seu bairro, além de seus amigos, também viram o graffiti (grafia mais usada dentro desse movimento artístico e cultural, em vez de grafite) e ficaram muito felizes.
 
“Para mim é uma realização, só me fez acreditar que posso almejar coisas maiores. Quero ser referência para muitas pessoas sobre essa questão da autoestima. Mostrar que somos todos notáveis, como diz meu amigo Augusto Pakko (rapper santista), e é isso que importa”.
 
Rafael conta que não conhecia o artista que fez seu graffiti, mas falou com Difavela após saber que teria seu rosto estampado em Brasilândia. “A gente trocou uma ideia. Ele quis representar a favela, ainda mais em Brasilândia, que é um local periférico. Como tenho fotos no morro e em lugares assim, ele pegou uma das imagens que o fotógrafo Andrey Haag fez de mim e usou como referência”.
 
Difavela diante do muro grafitado com a imagem do santista Rafael Sales: identificação (foto: reprodução Instagram) 

Arte periférica
O grafiteiro Ederson Pereira dos Santos, o Difavela, é do bairro Brasilândia e explica que se identificou com a foto de Rafael Sales. “Quando o Andrey Haag postou a foto, foi identificação na certa, um homem negro periférico como eu, retratado de forma linda. Admiro muito o trabalho do Andrey, pois ele sempre traz a questão da cultura periférica como ponto central. E essa foto do Rafael Sales, em especial, foi como se houvesse uma conexão direta comigo. A seleção de imagens faz parte do meu processo de criação artística, tanto na xilogravura como no graffiti, e atualmente tenho buscado cada vez mais me conectar com artistas que estejam próximos da minha realidade. Isso é realmente inspirador”.
 

Rafael Sales em mais uma imagem que compõe ensaio do fotógrafo Andrey Haag
 
A obra está localizada na loja do Instituto Resgatando Vidas, no Peri Alto, em Brasilândia. A entidade trabalha com cultura, esporte e geração de renda para comunidades da Zona Norte de São Paulo. “Recentemente, criaram o Resgatando Vidas Store, uma loja/brechó de qualidade na quebrada. Quando fui contatado para realizar esse trabalho, o único pedido do cliente era que a quebrada da Zona Norte entrasse como tema principal, então adaptei o cenário do fundo e usei a foto do Rafael como personagem”.
 
Para o fotógrafo Andrey Haag, que mora em São Vicente, ver que sua foto serviu de inspiração para o artista foi motivo de afirmação do seu trabalho. “Eu conhecia o Difavela, só que não conversávamos muito. Um dia acordei e tinha uma marcação no Instagram: ele com uma parede rascunhada e com a foto do Rafael na mão. Foi muito doido ver isso, porque naquela semana eu estava triste".
 
Ele conta que refletia sobre seu trabalho devido às dificuldades, mas que, após ver que sua foto tinha inspirado o graffiti, recuperou a confiança. "Ser artista na periferia não é fácil. Estava questionando se meu trabalho fazia sentido, se estava inspirando outras pessoas. Foi muito legal ver que um modelo periférico inspirou um fotógrafo periférico e ele foi projetado na periferia, no muro de um projeto periférico. Isso mostra possibilidades, eu estou em um muro e quero estar dentro de um museu, quero estar dentro de uma exposição, de uma galeria”.
 
Bons amigos
O modelo independente Rafael Sales agradece muito aos amigos por terem confiado em seu potencial e o estimulado a seguir esse caminho. “Já adulto tive o privilégio de ter amigos artistas, o Higor Carvalho, de nome artístico Brak, e Cesar Augusto dos Santos Esteves, o Augusto Pakko. Eles foram peça-chave para eu trabalhar a autoestima”.
 
Em 2020, Rafael fez o primeiro trabalho como modelo para a revista virtual Boys Don´t Cry, que falava sobre masculinidade, produzida e idealizada por seu amigo Brak. “Foi o que me motivou a começar. Eu acredito que me descobri artista a partir disso, por causa das pessoas que me incentivam a ser quem eu sou, e essa revista também falava muito sobre isso”.
 
Desde então, Rafael continua modelando de forma independente e utiliza principalmente seu Instagram como plataforma de divulgação. Além da moda, ele está planejando iniciar a carreira na música. É só o começo.

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