MODA

Designer de São Vicente cria coleção de moda praia inspirada em pontos turísticos da Cidade

Moradora da Cidade desde a infância, Ana Lima transformou o sentimento de pertencimento pela Baixada Santista em uma coleção que valoriza a arquitetura local e a diversidade de corpos

02/07/2026 - quinta às 12h00

Mais do que roupas e tendências, a moda reflete a essência, a identidade e a forma como uma sociedade se expressa.



Segundo a Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit), o Brasil é o quinto maior mercado têxtil do mundo. O setor movimenta mais de R$ 220 bilhões por ano, gera cerca de 1,34 milhão de empregos diretos e reúne mais de 25 mil empresas espalhadas pelo País.



Mas será que é fácil retratar uma cidade em uma peça de roupa? Como fazer isso sem recorrer aos estereótipos?



Para Ana Lima, designer de moda recém-formada e moradora do bairro Catiapoã, a resposta veio justamente no Trabalho de Conclusão de Curso (TCC). A coleção DDD013 nasceu inspirada na Baixada Santista, especialmente em São Vicente, buscando representar a região de uma forma autêntica.



"A coleção DDD013 foi feita para o meu Trabalho de Conclusão de Curso em Design de Moda. Eu quis retratar uma moda praia que representasse a Baixada Santista, mas que não fosse uma moda praia estereotipada, com elementos litorâneos como conchas, coqueiros e essas coisas".



As referências escolhidas vieram de monumentos que fazem parte da identidade regional.



"As peças que eu escolhi para confeccionar foram baseadas no Mirante Niemeyer, na Ponte Pênsil e no 'S' do Emissário, em Santos".



Para Ana, a moda está longe de ser algo superficial. Pelo contrário, exige pesquisa, observação e compreensão da cultura local.



"A moda não é nada fútil. As peças foram criadas a partir de um estudo de observação, de uma pesquisa de campo baseada na região, no que as pessoas usam, no que gostam, na arquitetura e nos monumentos. Então isso foge totalmente da futilidade".



Na monografia, a designer define a coleção como uma união entre identidade urbana e litorânea.



"A coleção DDD013 é inspirada na identidade urbana e litorânea da Baixada Santista, unindo arquitetura, natureza e memória afetiva em uma estética contemporânea. O tema traduz o contraste entre o cenário urbano e as formas orgânicas presentes no litoral, trazendo referências da Ponte Pênsil, da escultura Tomie Ohtake, no Emissário, e do Mirante Niemeyer. O nome DDD013 representa pertencimento e identidade local, transformando um elemento cotidiano em conceito visual e criativo".



Além da arquitetura, o trabalho também foi desenvolvido sobre dois pilares principais: a valorização da cultura local e a diversidade de corpos.



Ao longo da pesquisa, Ana também destaca a força econômica, cultural e turística da Baixada Santista, mostrando que a região vai muito além das praias.



"A coleção é voltada para um público jovem e feminino. Eu quis retratar essa mistura entre o urbano e o litorâneo através de peças que você consegue usar fora da praia também. Na minha monografia eu falo que a Baixada Santista é formada por cidades litorâneas, mas que possuem um polo econômico e comercial muito forte. Não é só praia. A gente tem uma estrutura muito grande aqui e eu queria representar isso nas peças".



Essa proposta aparece principalmente nas saídas de praia, desenvolvidas para diferentes ocasiões.



"Tem uma calça que você pode usar para trabalhar, ir à praia, sair à noite ou onde quiser. Também tem saia, blusa e vestido, peças que podem ser estilizadas de várias formas. Eu não queria criar roupas que servissem apenas para a praia. A ideia é que elas acompanhem a pessoa em diferentes momentos".



Mais do que desenvolver uma coleção de moda praia, Ana queria despertar um sentimento de pertencimento.



"Eu observo a moda praia de lugares como Rio de Janeiro e Nordeste e vejo uma identidade muito forte. Aqui na Baixada Santista, apesar de termos uma moda praia consolidada, eu sentia falta desse sentimento de pertencimento. Isso me deu a ideia de criar a coleção".



Como referência, ela utilizou a marca Rush Praia, de Olinda, que trabalha com artistas locais para desenvolver estampas inspiradas na cultura da região.



"Percebi que faltava isso na Baixada Santista. Então procurei criar uma coleção que representasse nossa identidade, mas sem recorrer aos elementos mais óbvios".



O processo criativo passou por diversas etapas, mas a pesquisa de campo foi a principal delas.



"Os locais foram escolhidos a partir da pesquisa que fiz com moradoras da Baixada Santista. Pedi que elas citassem monumentos marcantes da região, e os mais lembrados aparecem ao longo de toda a coleção".



A pesquisa também incluiu visitas às praias da Baixada Santista para observar o comportamento do público.



"Também fiz uma pesquisa de observação nas praias da Baixada Santista para entender o que as pessoas estavam usando, quais eram as cores, as silhuetas e os estilos mais presentes. A partir disso, fui para o processo criativo. Foi um processo um pouco conturbado porque eu não queria fazer uma moda praia estereotipada. Fiz vários rascunhos, montei um moodboard com referências dos monumentos mais citados e fui extraindo linhas e formas para encaixar nos croquis".



Além do processo criativo, a coleção também valorizou a mão de obra da região.



"Na minha monografia eu falo sobre economia criativa e sobre sustentabilidade. E, quando a gente fala em sustentabilidade, não se pode pensar só em descarte correto de tecidos ou consumo consciente. Também precisamos falar sobre diversidade de corpos, ética, cultura e valorização da mão de obra local".



Para representar esses valores, Ana fez questão de trabalhar com profissionais da Baixada Santista.



"Escolhi a costureira Kessia, do ateliê Águapé Beachwear, que é daqui de São Vicente, para confeccionar as peças. Para as fotos, escolhi uma modelo magra e uma modelo gorda, porque isso também faz parte da sustentabilidade e da representatividade. Valorizar a mão de obra local também fortalece a economia criativa, porque estamos valorizando nossa cultura e movimentando a economia da região."



São Vicente ocupa um espaço especial dentro da coleção.



"A cidade aparece no meu projeto através do biquíni inspirado no Mirante Niemeyer. As fotos foram feitas no Canto da Ilha, uma praia que fez parte da minha adolescência e pela qual tenho muito carinho. Além disso, foi um ponto estratégico porque conseguimos registrar, nas fotos e nos vídeos, a Ponte Pênsil, o Mirante e também o Emissário".



Ela conta que a ligação com a Primeira Cidade do Brasil vai muito além da inspiração estética.



"Eu também tenho um sentimento meio bairrista em relação a São Vicente, porque eu amo morar aqui. Gosto muito da cidade e não teria como deixar de representá-la na minha coleção".



Mais do que criar roupas, Ana queria despertar um novo olhar sobre a Cidade.



"A principal impressão que eu queria passar é que existe beleza em São Vicente. Às vezes a cidade é muito mal retratada e as pessoas acabam não enxergando isso. Mas tem, sim. Basta olhar com mais atenção para perceber quantos elementos daqui podem ser transformados em algo bonito".


Esse sentimento de pertencimento acompanha a designer desde o início da graduação.



"O sentimento que me vem quando falo de São Vicente é pertencimento. Eu realmente sinto que faço parte desse lugar. Estudei em São Paulo durante três anos e meio, subi e desci a serra todos os dias, mas nunca cogitei morar lá. Nunca senti essa necessidade".



Segundo ela, essa decisão também foi uma forma de preservar suas raízes.



"Geralmente, o pessoal que vai para São Paulo estudar moda acaba morando lá e esquecendo de onde veio. Eu queria que isso não acontecesse comigo e acredito que consegui".



Agora, a coleção deixa de ser apenas um Trabalho de Conclusão de Curso para dar espaço a um sonho antigo.



"Depois de toda essa trajetória com o TCC, eu pretendo criar uma marca de moda praia. Já era uma vontade que eu tinha, mas depois do trabalho isso ficou muito mais forte. Meus professores e pessoas próximas também me incentivaram. Hoje tenho muita convicção de que quero criar uma marca de moda praia com identidade da Baixada Santista e que desperte esse sentimento de pertencimento".



Para acessar a monografia completa, clique aqui: https://drive.google.com/drive/folders/10SFjM7a_dgSmItG7y1dKMiqK9dTY42Q7?usp=sharing
https://drive.google.com/drive/folders/1UZkF_LGVRCf8ohpnvx5RgrHSN1PtXlCK