Centro POP transforma acolhimento em oportunidade de recomeço
Próximo ao Dia Internacional contra o Abuso de Drogas, equipamento de São Vicente oferece apoio, escuta e dignidade à população em situação de rua
24/06/2026 - quarta às 09h30O abuso de substâncias ainda é cercado por estigmas e preconceitos. Muitas vezes, pessoas que enfrentam a dependência química ou vivem em situação de rua são reduzidas à condição em que se encontram, sem que suas histórias, desafios e desejos sejam considerados.
Às vésperas do Dia Internacional contra o Abuso de Drogas, celebrado em 26 de junho, São Vicente destaca o trabalho desenvolvido pelo Centro POP, equipamento municipal especializado no atendimento à população em situação de rua. O serviço oferece acolhimento, orientação e acesso a direitos básicos, contribuindo para a reconstrução de trajetórias e para o fortalecimento da autonomia dos atendidos.
A coordenadora do Centro POP, Eliana Oliveira, explica que o principal serviço oferecido pela unidade é o acompanhamento técnico individualizado.
"O Centro POP é o centro de referência para pessoas em situação de rua. O coração do serviço é o atendimento técnico, por meio do qual buscamos atender as demandas de cada pessoa, como documentação, contato com familiares, questões relacionadas à dependência química, acesso à Justiça e encaminhamentos para outros serviços da rede. O objetivo é construir caminhos para a superação da situação de rua e para a retomada da autonomia", destaca.
Além do acompanhamento técnico, o equipamento oferece café da manhã, lanche da tarde, espaço para banho, distribuição de produtos de higiene pessoal, guarda-volumes, biblioteca, atividades socioeducativas e doação de roupas e cobertores.
"O serviço é de porta aberta. A pessoa chega, é acolhida e direcionada conforme sua necessidade, de segunda a sexta-feira, das 7h às 17h", completa.
Segundo Eliana, um dos maiores desafios enfrentados pela equipe é lidar com o abuso de substâncias em uma sociedade que ainda reproduz preconceitos em relação ao tema.
"A dependência possui características muito específicas e não segue uma lógica simples. Nosso trabalho é compreender esses limites, apoiar cada pessoa dentro de sua realidade e criar oportunidades para que ela volte a ser protagonista da própria história".
Quando os objetivos estabelecidos no plano de acompanhamento são alcançados, os usuários passam a ser acompanhados pelos Centros de Referência de Assistência Social (CRAS), mantendo o acesso à rede de proteção social.
"É muito comum que eles retornem para nos visitar. Temos relatos de pessoas que hoje trabalham com registro em empresas e que retomaram completamente o protagonismo de suas vidas".
A coordenadora também reforça a importância de buscar ajuda.
"A dependência é uma questão complexa, mas se torna ainda mais difícil quando enfrentada sozinha. Procure apoio profissional, seja no Centro POP, nos serviços de saúde ou em instituições parceiras. Quando existe acolhimento e acompanhamento, o caminho se torna mais possível".
Entre os atendidos está Kenny Roger Ferreira, de 36 anos, que destaca o acolhimento recebido pela equipe.
"Aqui eles tratam a gente com respeito. Eu cheguei sem roupa e sem calçado e fui acolhido. Mesmo sendo de outra cidade, eu e minha esposa fomos recebidos de braços abertos. É um lugar que ajuda muito as pessoas".
O técnico social César Augusto Leão Machado explica que o trabalho começa com a escuta da história de cada pessoa atendida.
"A partir do acolhimento, construímos um Plano Individual de Atendimento, definindo estratégias junto ao usuário para garantir mais qualidade de vida, dignidade e acesso aos seus direitos".
Entre as histórias que marcaram sua trajetória profissional, César lembra o caso de um atendido que conseguiu recuperar sua documentação após um longo processo de acompanhamento.
"Quando entreguei a certidão de nascimento, ele chorou e disse: 'Eu não vou morrer como indigente'. E eu lembro que, nesse mesmo momento, minha mãe estava me ligando perguntando se eu ia almoçar em casa. Então a gente percebe o quanto somos privilegiados e o quanto o que nos separa muitas vezes é menos do que uma mesa".
Para o técnico, o principal desafio é combater a desumanização da população em situação de rua.
"Pessoas em situação de rua são pessoas. Nosso papel é reconhecê-las como cidadãs, com direitos que devem ser acessados, e aproximá-las das políticas públicas existentes".
Centro POP
O Centro POP funciona de segunda a sexta-feira, das 7h às 17h, na Avenida Capitão-Mor Aguiar, 436, Centro. O equipamento oferece espaço para higiene pessoal, guarda de pertences, alimentação, encaminhamentos para emissão de documentos, acesso a benefícios socioassistenciais, serviços de saúde, qualificação profissional e fortalecimento de vínculos familiares e comunitários.