Esporte transforma rotina e reforça autonomia na terceira idade em São Vicente
Prática do karatê tem proporcionado saúde física, autoestima e bem-estar emocional para idosos
16/06/2026 - terça às 13h00Envelhecer com saúde, autonomia e qualidade de vida vai muito além dos cuidados médicos. O acesso ao esporte, ao lazer e a atividades que promovam bem-estar físico e emocional também faz parte desse processo e representa uma importante ferramenta de valorização da pessoa idosa. Em São Vicente, histórias como a de Gisnalia de Fátima Santos, de 67 anos, mostram como o movimento pode ser sinônimo de superação, independência e fortalecimento pessoal em qualquer fase da vida.
Em alusão ao Dia Mundial de Conscientização da Violência contra a Pessoa Idosa, celebrado em 15 de junho, trajetórias como a dela ajudam a ampliar o debate sobre o envelhecimento ativo e lembram que cuidar da população idosa também significa garantir oportunidades, incentivar a autonomia e combater formas silenciosas de violência, como o abandono, a exclusão e a ideia equivocada de que a idade representa um limite para novas experiências.
Aluna de karatê no Ginásio Luiz Gonzaga, Gisnalia construiu uma relação com a atividade física muito antes de iniciar na arte marcial. Segundo ela, a necessidade de manter o corpo em constante movimento surgiu ainda na infância, período em que enfrentou desafios importantes relacionados à saúde.
"A minha trajetória até chegar ao karatê é que, devido à minha infância, eu tive paralisia infantil. Naquela época, a vacina ainda estava em teste, mas eu tomei e hoje estou aqui, bem, graças a Deus. Então eu sempre tive que fazer atividades e, de uns seis anos para cá, acrescentei ainda mais atividades para poder me manter. E o karatê veio para somar".
A decisão de iniciar na modalidade não aconteceu por acaso. Mesmo já mantendo uma rotina intensa de exercícios, ela buscava algo que trouxesse desafios diferentes, trabalhando não apenas o físico, mas também aspectos emocionais e comportamentais que considerava importantes no dia a dia.
"O que me motivou a praticar o karatê foi a disciplina, o autocontrole, a contenção da minha ansiedade e exigir mais de mim. Eu não queria ficar apenas nas outras atividades porque essa é muito diferente. Eu acho que me encontrei. Tenho dificuldades, mas sou muito focada e tenho confiança em mim".
Apesar da determinação, o começo foi marcado por inseguranças. Como acontece com muitas pessoas idosas ao iniciar uma atividade nova, a idade apareceu como um fator de intimidação inicial. O acolhimento recebido durante as aulas, no entanto, foi fundamental para que ela permanecesse e seguisse evoluindo dentro da modalidade.
"Eu me senti intimidada por causa da minha idade, mas a minha sensei, Beth, me passou segurança e confiança para continuar. E eu já estou no karatê há um ano e meio".
Com o passar do tempo, os resultados começaram a aparecer não apenas durante os treinos, mas principalmente na rotina diária. Segundo Gisnalia, a prática trouxe ganhos importantes em disposição e energia, refletindo diretamente na qualidade de vida.
"As mudanças que o karatê me trouxe foram disposição, energia e disciplina para as minhas atividades diárias, que não são poucas".
Para ela, no entanto, os benefícios ultrapassam o aspecto físico. A experiência dentro do esporte fortaleceu sua autoestima e consolidou uma visão muito clara sobre independência, especialmente em relação às mulheres e ao processo de envelhecimento.
"Os benefícios físicos são, sem sombra de dúvidas, os melhores. E o que representa para a minha autoestima é que a mulher pode estar onde ela quiser, fazer o que quiser, independentemente da idade, independentemente até do poder aquisitivo. É focar, ter força de vontade. Obstáculos existem, você tem que vencê-los. Ficar parada pensando não vai te levar a lugar nenhum. Para mim, está sendo muito bom e eu sempre recomendo".
A decisão de iniciar no karatê também surpreendeu pessoas próximas. Segundo Gisnalia, quando a família descobriu a novidade, ela já estava na semana de conquistar sua primeira graduação na modalidade, o que tornou o momento ainda mais especial.
"Quando ficaram sabendo, eu já estava na semana de pegar a primeira graduação. Tomaram um susto e disseram: 'Nossa, eu não acredito'. E eu disse assim: a tendência é continuar até o dia que Deus permitir. Tive apoio de uns, susto de outros. Faz parte".
A disciplina que aplica no karatê acompanha uma rotina intensa de autocuidado. Muito além da arte marcial, Gisnalia mantém uma agenda dedicada ao próprio bem-estar, conciliando diferentes atividades físicas ao longo da semana e cuidados voltados ao fortalecimento muscular e à saúde como um todo.
Atualmente, ela pratica musculação, hidroginástica, pilates e exercícios funcionais em diferentes níveis de intensidade, além de utilizar suplementação alimentar para auxiliar na recuperação física.
"Eu faço musculação, dois funcionais, um leve, um mais ou menos e um pesado, faço hidro, pilates e o karatê. Também tomo creatina todos os dias, independentemente de fazer exercício ou não. Tomo whey, que é ótimo depois do treino, magnésio, colágeno e ômega 3. As atividades são bastante intensas, então tudo isso ajuda".
A experiência acumulada ao longo dessa trajetória fez com que ela desenvolvesse uma mensagem clara para outras pessoas idosas que acreditam que o tempo já passou para aprender algo novo, iniciar uma atividade física ou buscar mudanças na própria rotina.
"Sempre é tempo de aprender, principalmente quando o benefício é para você, para o seu bem-estar e qualidade de vida. Seja por um exercício leve, alongamento, funcional ou musculação. O importante é começar, ter foco e não desistir".
Ela também reforça que o cuidado com a saúde deve ser completo e acompanhado de hábitos consistentes, lembrando que o envelhecimento saudável depende de um conjunto de fatores construídos diariamente.
"Mas também lembrando: tem que ter controle alimentar e ir ao médico regularmente".
Celebrado mundialmente em 15 de junho, o Dia Mundial de Conscientização da Violência contra a Pessoa Idosa busca alertar a sociedade sobre diferentes formas de agressão enfrentadas por essa população, que vão desde a violência física até a negligência, o abandono, a exclusão e a limitação de direitos básicos.
Nesse cenário, exemplos como o de Gisnalia ajudam a mostrar que respeitar a pessoa idosa também significa incentivar sua autonomia, reconhecer sua capacidade de continuar aprendendo e garantir acesso a atividades que promovam saúde física, fortalecimento emocional e qualidade de vida.
Aos 67 anos, ela representa justamente essa quebra de paradigmas: a certeza de que envelhecer não significa parar, mas continuar descobrindo novas possibilidades, superando limites e construindo novas versões de si mesma.
Mais do que uma prática esportiva, o karatê se tornou, para Gisnalia, a prova concreta de que determinação, disciplina e vontade de evoluir não têm idade.