Curtindo a vida off-line: curso de fotografia analógica resgata experiência e memória afetiva
Com mais de 40 anos de experiência, fotógrafo argentino José Alberto Sarquis será o professor do curso, a ser realizado em estúdio no bairro Boqueirão
03/06/2026 - quarta às 10h37Em tempos dominados por telas, filtros e pela busca incessante da imagem perfeita, Santos abre espaço para desacelerar. A partir de junho, a cidade recebe uma experiência que vai além do aprendizado técnico: um mergulho na fotografia analógica como convite a redescobrir a imagem de forma mais sensível, tátil e, sobretudo, off-line.
Com duração de três meses, o "Curso de Fotografia Analógica: do Registro à Cópia" será conduzido por José Alberto Sarquis, renomado fotógrafo argentino radicado na cidade, com 40 anos de trajetória e uma história que começa longe do litoral paulista. Nascido em 1949 e criado em Villa Celina, bairro formado por trabalhadores em Buenos Aires, construiu uma carreira marcada pela persistência e paixão pela imagem.
"Meus pais eram pessoas sensíveis, mas não tiveram acesso a grandes estudos. O interesse artístico foi algo que nasceu comigo", relembra.
Antes da fotografia, vieram as palavras. Ainda jovem, encontrou na escrita uma primeira forma de expressão. "Era uma coisa de adolescente, poemas, tentativas de expressar sentimentos, mas na verdade, continuo escrevendo até os dias de hoje", conta. Foi apenas na década de 1970, ao ingressar em um curso de Cinema e Fotografia, que a imagem passou a ocupar o centro de sua trajetória.
Entre dois empregos durante o dia e as aulas à noite, descobriu o elemento que definiria sua carreira. "A grande sacada da fotografia é a luz. Foi ali que comecei a entender isso".
A fotografia surgiu como alternativa possível diante das limitações e dificuldades do cinema, mas rapidamente se transformou em linguagem própria. Ele montou um laboratório em casa, revelou filmes, ampliou imagens e construiu um vínculo direto com o processo. "Eu fazia tudo. Fotografava, revelava, ampliava. Era um processo inteiro dentro de casa".
No final da década de 1970, decidiu por uma mudança radical. Chegou ao Brasil e, logo no início, enfrentou dificuldades. Começou, de forma improvisada, fotografando famílias em um modelo que hoje parece distante: fazendo parte de uma equipe que batia de porta em porta nos condomínios, pedindo para retratar famílias. No momento da autorização, Sarquis adentrava nas residências e transformava cliques em lembranças memoráveis. "Lembro que fazia uma foto de cortesia para o zelador do prédio, como uma forma de agradecimento por permitir a nossa entrada", recorda.
Até então, residia em São Paulo. A empresa em que trabalhava também ampliou seu portfólio em outras cidades do Estado de SP. Até chegar a Santos, nos anos 1980. Sarquis lembra que, logo que terminaram os trabalhos, gostou da cidade e resolveu ficar. Com o tempo, descobriu o Clube Foto Amigos de Santos. Um espaço de troca e pertencimento, onde se tornou diretor e começou a lecionar. "Ensinar acabou se tornando uma parte fundamental da minha vida", afirma. Ao longo dos anos, estima ter formado cerca de mil alunos e fotografou centenas de pessoas, lugares na Baixada Santista, além de eventos históricos, como a Encenação da Fundação da Vila de São Vicente, considerado o maior espetáculo em areia de praia do mundo.
É justamente essa experiência, acumulada em décadas, que ganha um novo formato. Com turmas reduzidas e duração de três meses, as aulas serão realizadas em seu próprio estúdio, no bairro Boqueirão: a proposta é uma imersão completa, do clique à ampliação. Um dos destaques é o laboratório criativo, chamado por ele de "O Photoshop do século XX", onde os participantes poderão interferir manualmente nas imagens e entender a fotografia como processo artístico e criativo, e não apenas técnico.
Para Sarquis, o resgate da fotografia analógica não é apenas uma volta ao passado, mas uma reconexão com a origem, a essência da imagem. "Ver a imagem aparecer no papel, aos poucos, é algo quase mágico. É muito diferente de apertar um botão e ter tudo pronto na hora", explica. "Quando falo dessa volta às origens, prefiro pensar menos como passado e mais como reencontro. A experiência da fotografia analógica tem esse valor. Para quem já viveu isso, é uma retomada muito prazerosa, quase afetiva, de algo que ficou lá atrás. Para quem nunca teve contato, especialmente os mais jovens, existe uma curiosidade inicial que pode se transformar em descoberta".
Mais do que aprender fotografia, a proposta é oferecer uma pausa no ritmo acelerado do digital. Uma chance de olhar com mais atenção, de errar, de esperar, de construir. "Para além de profissão, a fotografia é linguagem. É a forma como eu me expresso, como vejo o mundo, como me vejo e como vejo as pessoas. Isso, para mim, é essencial. É comunicação, é construção de olhar, é interpretação da realidade", afirma Sarquis.
Em tempos de excesso de imagens e conexões constantes, o curso surge como um convite raro: desligar um pouco do imediato para redescobrir o prazer do processo e da socialização. Afinal, às vezes, é no tempo mais lento que a imagem ganha mais sentido. "Mesmo quem nunca viveu essa prática pode sentir uma espécie de nostalgia.
Parece estranho falar nisso, mas é como se houvesse uma conexão com algo que não foi experimentado diretamente, mas que faz sentido de alguma forma. E, ao mesmo tempo, esse retorno traz ganhos concretos para o presente. Processos e técnicas superadas comercialmente, mas que são resgatadas em termos artísticos nos dias de hoje", conclui.
Serviço
Curso de Fotografia Analógica: do Registro à Cópia
Professor: José Alberto Sarquis
Formato: presencial, turmas reduzidas
Quando: a partir de junho de 2026
Inscrições: Instagram - @josealbertosarquis | (13) 99611-0472