SAÚDE

Sedentarismo e excesso de peso: uma combinação perigosa para as articulações

Falta de atividade física e excessos na alimentação aumentam riscos de problemas como a artrose

20/05/2026 - quarta às 15h00

O Brasil tem hoje mais de 80 milhões de pessoas com sobrepeso ou obesidade, segundo dados do Ministério da Saúde. Ao mesmo tempo, pesquisas do IBGE mostram que mais da metade da população adulta não pratica nenhuma atividade física regular. Individualmente, cada um desses fatores já representa um risco relevante para a saúde. Combinados, formam um cenário preocupante para as articulações, especialmente o quadril, que está entre as mais afetadas pelo desgaste prematuro.

A artrose de quadril, condição degenerativa que compromete a cartilagem articular, não é uma consequência inevitável do envelhecimento. Em muitos casos, este é o resultado de anos de sobrecarga desnecessária sobre uma articulação que não foi projetada para suportar indefinidamente o impacto de um estilo de vida sedentário e com excesso de peso.

Por isso, o Dr. Fábio Elói, cirurgião de quadril pela Sociedade Brasileira de Quadril (SBQ), especialista em ortopedia e traumatologia pela Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT) e oncologista ortopedista pela Associação Brasileira de Oncologia Ortopédica (ABOO), faz um alerta.

"A articulação do quadril é uma das mais robustas do corpo humano, mas ela requer atenção. Quando somamos peso extra à falta de musculatura de suporte causada pelo sedentarismo, estamos acelerando um processo que poderia levar décadas em apenas alguns anos. E o pior: em geral, só percebemos isso quando a dor já está instalada."

O peso que o quadril carrega

Para entender o impacto do excesso de peso sobre o quadril, é preciso considerar a física da caminhada. A cada passo, a articulação do quadril suporta uma força equivalente a até quatro vezes o peso corporal, dependendo do tipo de movimento. Isso significa que uma pessoa com 10 quilos acima do peso ideal está submetendo sua articulação a uma sobrecarga de até 50 quilos extras a cada passada.

A longo prazo, essa pressão constante acelera o desgaste da cartilagem, que é o tecido que reveste as superfícies ósseas e funciona como amortecedor natural da articulação. Uma vez desgastada, a cartilagem não se regenera. O resultado, explica o Dr. Fábio, é a artrose, que traz consigo dor, rigidez, inflamação e, nos casos mais avançados, a necessidade de substituição cirúrgica da articulação por uma prótese.

"Cada quilo a mais representa uma carga desproporcional sobre o quadril. Não é exagero dizer que perder peso é uma das medidas mais eficazes para proteger a articulação e, em muitos casos, adiar ou até evitar a cirurgia. O paciente que perde peso antes de chegar ao estágio avançado da artrose muda completamente o prognóstico."

O papel silencioso do sedentarismo

Se o excesso de peso aumenta a sobrecarga mecânica sobre o quadril, o sedentarismo compromete a estrutura que deveria protegê-lo. Os músculos ao redor da articulação, glúteos, abdutores e flexores do quadril, funcionam como um sistema de sustentação que distribui as forças e estabiliza o movimento. Quando esses músculos estão fracos, a articulação trabalha sozinha para absorver impactos que deveriam ser compartilhados com toda a cadeia muscular.

O sedentarismo também contribui para o ganho de peso, criando um ciclo que se retroalimenta: o peso extra aumenta a dor, a dor reduz a mobilidade, a mobilidade reduzida leva ao sedentarismo e o sedentarismo piora a fraqueza muscular, favorecendo o acúmulo de gordura. Quebrar esse ciclo exige intervenção e quanto antes, melhor.

"O músculo é o melhor amigo da articulação. Quando o paciente é sedentário, esses músculos enfraquecem, a articulação fica desprotegida e o desgaste acelera. A boa notícia é que a musculatura responde bem ao treinamento, mesmo em idades mais avançadas. Nunca é tarde demais para começar a se movimentar", sugere o Dr. Fábio Elói.

Sinais de alerta

A artrose de quadril raramente se instala de forma abrupta. O processo é gradual e os primeiros sinais costumam ser confundidos com cansaço ou dores passageiras. Ficar atento às manifestações pode fazer a diferença entre um tratamento conservador e uma cirurgia.

•Dor na virilha ou na lateral do quadril, especialmente após longos períodos caminhando ou em pé

•Rigidez matinal, com a sensação de que a articulação "enferrujou" nos primeiros minutos após acordar

•Dificuldade para realizar movimentos rotineiros, como amarrar o tênis, entrar no carro ou subir escadas

•Dor que piora progressivamente, mesmo em atividades que antes eram realizadas sem desconforto

•Sensação de instabilidade ou de que o quadril "trava" em certos movimentos

Esses sintomas não devem ser ignorados, especialmente por pessoas com sobrepeso, histórico familiar de artrose ou acima dos 50 anos.

"A maioria dos pacientes no consultório revela que achava que era uma dor passageira, que ia melhorar, mas isso não aconteceu. Ao contrário, a dor piorou. Neste momento, já estão com a articulação bastante comprometida. O diagnóstico precoce mudaria completamente as opções de tratamento disponíveis", explica o especialista.

Prevenção e tratamento

Mudanças de comportamento têm impacto real na saúde das articulações e nunca é tarde para começar. Entre as principais recomendações preventivas e terapêuticas estão:

•Controle do peso corporal: mesmo uma redução modesta de 5% a 10% do peso é capaz de reduzir significativamente a sobrecarga sobre o quadril e aliviar sintomas em pacientes com artrose leve a moderada

•Atividade física de baixo impacto: caminhada em terrenos planos, natação, hidroginástica e ciclismo são excelentes opções para fortalecer a musculatura sem agredir a articulação

•Fortalecimento muscular: exercícios direcionados para glúteos, abdutores e core aumentam a estabilidade articular e reduzem o impacto sobre a cartilagem

•Fisioterapia: o acompanhamento especializado ajuda a corrigir padrões de movimento inadequados que sobrecarregam a articulação e a manter a amplitude de movimento

•Acompanhamento médico: nos casos em que os sintomas já estão presentes, medicação, infiltrações ou outros recursos podem controlar a dor e a inflamação enquanto as mudanças de estilo de vida são implementadas

Quando o desgaste já está avançado e os tratamentos conservadores não são mais suficientes, a artroplastia total de quadril, que é a cirurgia de substituição da articulação por uma prótese, é uma opção segura e eficaz, com altos índices de satisfação e recuperação funcional.

"A cirurgia, quando necessária, não deve ser vista como um fracasso. É uma solução real para pacientes que chegaram a um estágio avançado da doença. Em muitos casos, chegamos a esse ponto por um longo histórico de hábitos que poderiam ter sido diferentes. A prevenção começa com escolhas do dia a dia", orienta o Dr. Fábio.

O momento certo para buscar

Seja para quem ainda não sente dor, mas reconhece fatores de risco, como sobrepeso, sedentarismo, histórico familiar, ou para quem já convive com desconforto no quadril, a orientação é a mesma: não espere.

A artrose é uma condição progressiva e não melhora espontaneamente. Com o diagnóstico correto e o tratamento adequado, é possível desacelerar significativamente sua evolução e manter a qualidade de vida.

"Qualidade de vida não é luxo, é direito. Proteger as articulações começa com decisões simples: mover o corpo, controlar o peso e não ignorar os sinais que ele dá. Uma consulta pode mudar o rumo da sua saúde articular por muitos anos."

Dr. Fábio Elói é cirurgião de quadril pela Sociedade Brasileira de Quadril (SBQ), especialista em ortopedia e traumatologia pela Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT) e oncologista ortopedista pela Associação Brasileira de Oncologia Ortopédica (ABOO).