Memories Of Murder: o filme que transformou assassinatos reais em uma obra-prima do suspense
Como Bong Joon-ho conseguiu através de um filme, expor a corrupção e a incompetência dentro da polícia coreana dos anos 80
16/04/2026 - quinta às 15h05Memories of Murder é um filme que não se resume a apenas contar uma história, mas deixa uma marca e uma reflexão dura em quem assiste. Inspirado em um caso real ocorrido na Coreia do Sul na década de 1980, o filme mergulha em uma série de assassinatos violentos e brutais que vão completamente além da capacidade da polícia local, que é obrigada a convocar um novo detetive da cidade grande para solucionar o caso.
Já no começo, o filme constrói um suspense contínuo, não baseado apenas em sustos ou reviravoltas fracas, mas em uma atmosfera de incerteza e medo. Cada pista que os agentes descobrem parece levar a um beco sem saída e deixa ainda mais perguntas do que antes, e essa frustração de nunca saber o que esta acontecendo é transmitida para o telespectador, que em nenhum momento do filme consegue saber se o assassino será pego ou não.
Uma das melhores partes do filme é também uma das mais polêmicas, a crítica aos métodos de investigação da época. A polícia é retratada de forma corrupta, muitas vezes, incompetente, recorrendo à violência e suposições fracas ao invés de evidências sólidas. Apesar de exagerada, a crítica faz sentido quando o telespectador percebe que alguns dos policias não se importavam em achar o real culpado, mas só em achar alguém que parecesse culpado, para ter o credito e a fama de quem resolveu um caso midiático. Essa crítica não é apenas um detalhe sutil, mas uma alfinetada real do diretor para a investigação que atuou na época dos assassinatos.
A direção de Bong Joon-ho é simplesmente fantástica, ele que se popularizou através do filme “Parasita”, mas que já fazia obras de excelência antes mesmo da fama chegar. Ele equilibra momentos de humor com uma tensão crescente, criando um contraste que torna tudo ainda mais perturbador. Mais do que resolver um crime, o filme foca em explorar o impacto psicológico da ausência de respostas na mente dos investigadores.
E no final o filme frustra o telespectador mais uma vez, quando não oferece a captura do assassino e ao invés de dar um desfecho feliz para a história, dá um desfecho real e impactante, deixando nítido o sentimento de impotência nos investigadores. Esse final reflete a realidade do caso que o inspirou e deixa claro que, às vezes as perguntas permanecem sem respostas. E na sua ultima cena quando anos após o fim da investigação, o detetive Park Doo-man visita o local dos crimes e descobre que o assassino esteve ali, ele percebe que na verdade, ele nunca chegou nem perto do real culpado.