Orçamento e contratos expõem ruptura política entre Mourão e Raquel Chini
Discurso de ontem do prefeito na Câmara provoca reação dura da ex-chefe do Executivo
04/02/2026 - quarta às 05h00Cenário de guerra
Na abertura da primeira sessão do ano da Câmara de Praia Grande, realizada na manhã de ontem, o prefeito Alberto Mourão (MDB) fez um discurso duro e sem rodeios ao retratar o cenário encontrado ao reassumir o comando do Município, em janeiro do ano passado. Sem citar nominalmente a antecessora, Raquel Chini (Republicanos), o chefe do Executivo deixou claro que não tinha conhecimento real da situação orçamentária da Cidade.
Conta que não fecha
Segundo Mourão, o orçamento de 2025 previa despesas fixadas em R$ 2,416 bilhões, enquanto a receita corrente líquida estimada era de R$ 2,317 bilhões, ou seja, um situação que levaria o Município a encerrar o ano no vermelho. Ele revelou, ainda, que contratos essenciais estavam sem cobertura orçamentária adequada: o da coleta de lixo tinha dotação garantida apenas até junho, e o do Hospital Irmã Dulce, somente até agosto. “Isso eu não via há muitos anos. Não colocar no orçamento um contrato de ordem continuada”, criticou, ao justificar a necessidade de fazer o contingenciamento de 8% nas despesas.
Austeridade forçada
Um dos relatos mais simbólicos do prefeito foi a insuficiência de recursos para a compra de material escolar. De acordo com Mourão, pela primeira vez na história de Praia Grande, não havia dotação orçamentária prevista para esse fim. “Nós começamos a raspar papel, caneta, lápis… Isso nunca tinha acontecido. Por esse motivo, tive de tomar medidas radicais”, reiterou.
Luz no fim do túnel
Apesar das críticas severas à condução da gestão anterior, Mourão encerrou essa parte do discurso em tom mais otimista. Segundo ele, o esforço da equipe permitiu cobrir o deficit inicial e ainda gerar resultado positivo. “Nós chegamos, cobrimos tudo e ainda tivemos uma receita corrente líquida R$ 33 milhões maior”, revelou, atribuindo o desempenho à perseverança e à adoção de medidas impopulares, porém necessárias.
Contratos estranhos
As declarações do prefeito não ficaram sem resposta. Na noite de ontem, Raquel Chini divulgou um vídeo nas redes sociais para rebater o atual gestor. Um dos principais pontos levantados por ela foi a existência de “contratos estranhos”, como o da coleta de lixo. “Mourão, explique por que você fez um contrato usando índices de reajuste que ultrapassavam 13%, 14%, sendo que o nosso orçamento é corrigido pelo IPCA. Essa conta nunca fechou, e eu tentei fechar em seu nome, sem falar no seu nome”, afirmou.
Desafio público
Outro ponto sensível abordado pela ex-prefeita se referiu às verbas anunciadas por Mourão publicamente como disponíveis no período em que ainda estava como deputado federal, mas que nunca se materializaram. “Você anunciou milhões para obras, disse que o dinheiro estava em caixa. Que caixa?”, questionou. Em tom de desafio, sugeriu que o atual prefeito cobrasse explicações do próprio secretário de Finanças, Cristiano de Mola, que integrou sua gestão e foi mantido no cargo.
Rompimento exposto
Raquel também contextualizou o rompimento político entre os dois, lembrando que aceitou ser candidata em 2020 a pedido de Mourão, quando ele corria risco de perder a eleição. “Aceitei porque acreditei que fazia parte de uma família política”, afirmou, deixando claro que hoje se posiciona como oposição. “Sou oposição aos seus métodos, às suas falsidades, às suas falas. Não à cidade que eu amo e escolhi para viver”, completou.
Placas x pessoas
No trecho mais simbólico do pronunciamento, a ex-prefeita criticou o que classificou como obsessão de Mourão por visibilidade. “Põe as suas placas, que é o que importa para você. Para mim, o bem maior sempre foram as pessoas”, disse. “Placa não enche barriga. Fazer o bem para as pessoas é o que me interessa”, frisou.
Saída turbulenta
O prefeito de Guarujá, Farid Madi (Pode), exonerou ontem o médico epidemiologista Fábio Mesquita da Secretaria de Saúde. Em nota, a assessoria do agora ex-titular da pasta informou que a saída do cargo ocorreu em razão de "diferenças irreconciliáveis na condução da gestão pública". Ele integrava a Administração Municipal desde janeiro do ano passado, inicialmente como secretário adjunto. Dois meses depois, assumiu o comando dessa área.
Nova passagem curta
Professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e ex-diretor do Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde, Mesquita atuou como secretário municipal de Saúde por algumas semanas, em 2007, durante a primeira gestão de Farid. Naquela ocasião, a passagem dele também foi breve: o médico deixou o cargo para atuar na regional Ásia e Pacífico da Organização Mundial de Saúde (OMS).
Pediu o boné
O arquiteto e urbanista Marcelo Gomes da Silva pediu exoneração da Secretaria de Urbanismo de Itanhaém. Ele já vinha balançando no cargo desde novembro do ano passado, quando a coluna revelou a abertura de um inquérito policial para apurar denúncia de que o então titular da pasta estaria solicitando o pagamento de propinas para a aprovação de projetos e regularizações imobiliárias. À época, ele negou as acusações.
Sindicância em andamento
No início da noite de ontem, a Administração Municipal informou que a sindicância aberta para apurar possíveis irregularidades atribuídas a Silva seguirá em tramitação, com garantia ao contraditório e à ampla defesa, conforme previsto em lei. A Prefeitura também garantiu que as atividades e projetos da secretaria continuam em andamento, sem qualquer prejuízo à população.
Debate necessário
A Câmara de Santos realiza hoje, a partir das 19 horas, audiência pública sobre estratégias e desafios diante do aumento da população em situação de rua no Município. A iniciativa, que aborda um dos temas mais sensíveis e recorrentes entre os munícipes, foi proposta pelo vereador Sérgio Santana (PL).
Portas abertas
O deputado estadual e presidente estadual do PSB, Caio França, disse que a ex-senadora por Mato Grosso do Sul e atual ministra do Planejamento e Orçamento, Simone Tebet (MDB), seria muito bem-vinda ao partido em São Paulo. Ela é apontada como um dos nomes avaliados para disputar o Senado ou o Governo do Estado com o apoio do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Reforço de peso
"Simone Tebet é séria, preparada e equilibrada. Ao lado de Geraldo Alckmin, Márcio França e Tabata Amaral, e alinhada ao plano nacional do PSB, com João Campos e o presidente Lula, fortalecerá nosso projeto no cenário estadual e nacional", ressaltou o parlamentar. Curiosamente, assim como a ministra, o atual chefe do Executivo paulista, Tarcísio Gomes de Freitas (Republicanos), não possuía domicílio eleitoral em São Paulo, mas fez essa mudança de última hora em 2022 e acabou eleito para comandar o estado mais populoso do Brasil.