Por dentro dos bastidores da Encenação: o trabalho que sustenta o espetáculo
Artistas, voluntários e servidores vivem rotina de dedicação e cuidado para transformar areia em palco e história em vida
27/01/2026 - terça às 09h27Muito antes das luzes se acenderem e da história ganhar vida diante do público, um outro espetáculo acontece longe dos olhos da plateia. É nos bastidores que limpeza, segurança, produção, figurino, maquiagem e coordenação trabalham em silêncio para que a Encenação da Fundação da Vila de São Vicente possa acontecer.
Enquanto milhares de pessoas acompanham cada cena, nos bastidores o ritmo é outro: mãos suadas, passos apressados, listas sendo conferidas, figurinos ajustados, adereços passando de mão em mão. É ali, muito antes do show iniciar, que a encenação começa.
Longe do palco, mas essencial para o funcionamento de toda a estrutura, a equipe de limpeza atua de forma contínua antes, durante e após as apresentações.
Cristina Silva, integrante da equipe, explica como o cuidado com o espaço faz parte da experiência do público.
"A nossa parte é organização, é fazer com que as pessoas se sintam bem no ambiente. Poucos veem nosso trabalho, mas é fundamental para que todos cheguem, encontrem tudo limpo e saiam do espaço da apresentação da mesma forma".
Na coordenação geral dos bastidores, Flaviana de Assis, funcionária da Secretaria de Cultura de São Vicente, acompanha a Encenação há anos, e resume a complexidade do trabalho invisível.
"A gente faz de tudo um pouco: produção de roupas, adereços, listas, retirada de materiais, controle de quem pode circular pelos espaços".
"É um trabalho que ninguém vê, mas que é de uma importância surreal. Quem sustenta e dá corpo à encenação são os munícipes, muitos artistas da própria cidade", completa.
Entre figurinos, maquiagens e penteados, a caracterização também é parte fundamental da construção da narrativa. Luciana Aparecida de Almeida, que atua na área de penteados, participa da Encenação pela terceira vez.
"Eu faço os penteados e as tranças, tanto dos indígenas quanto da corte. É uma experiência muito boa e diferente".
"É emocionante saber que fui eu quem ajudou a caracterizar os personagens e ver que tudo deu certo durante o espetáculo. É algo que ninguém imagina".
Somente depois de todo esse trabalho pronto é que o elenco entra em cena. Para muitos, a experiência nos bastidores é tão intensa quanto o momento de subir ao palco.
No elenco principal, dando vida a João Ramalho, o modelo Dudu Horvat vive sua segunda participação no espetáculo, e destaca o que acontece fora de cena.
"Ano passado foi a minha estreia. Eu nunca tinha feito nada relacionado a teatro. Sou modelo, não sou ator. Estar encenando pela segunda vez é algo gigantesco pra mim".
Segundo ele, a atmosfera construída nos bastidores é o que impulsiona quem está em cena.
"A energia dessa arena, quando acende e quando a gente entra, é absurda. É isso que estimula a gente a querer mais e faz nascer essa vontade de seguir no teatro".
Mesmo nos momentos de descontração, o convívio intenso revela a humanidade por trás dos personagens.
"Os bastidores são bem peculiares. Cada um tem a sua mania. Eu gosto de ficar mais quieto, com o fone de ouvido, mas também tem o momento de invadir o camarim de todo mundo pra brincar e fazer graça".
"Aqui todo mundo brinca, zoa, se diverte. Quando entra no palco, vira personagem. Aqui embaixo, a gente é a gente mesmo", finaliza.
Para os mais jovens, os bastidores também são repletos de aprendizado. Aos 16 anos, a vicentina Yasmin Pietra participa da encenação pela terceira vez, agora no elenco indígena.
"É a minha terceira vez fazendo a Encenação, mas é a primeira no elenco indígena. É sempre uma honra participar desse espetáculo, pois conta a fundação da nossa própria cidade".
A mudança de núcleo trouxe novos desafios.
"Eu fiz dois anos de corte portuguesa, e a diferença é grande. No núcleo indígena é muita corrida, tem que ter fôlego e paciência".
Também no elenco indígena, Ana Júlia, de 12 anos, participa da Encenação pela segunda vez, e ressalta como os bastidores fazem parte da experiência.
"Ano passado eu fiz o personagem Curumim criança. Agora é bem diferente. Os indígenas entram o tempo todo, aparecem muito mais. Quando entrou, foi muito divertido. Eu sou daqui e indico muito. Tragam mais pessoas pra participar".
Ao final de cada apresentação, quando o público aplaude, os bastidores seguem em movimento. Figurinos são guardados, o espaço é reorganizado e as equipes se preparam para o próximo dia. É esse trabalho silencioso, coletivo e contínuo que sustenta a Encenação. Um esforço que começa muito antes da primeira cena e permanece vivo depois do último aplauso.
"A Encenação é muito mais do que um fenômeno cultural. É o maior evento da Cidade, que reúne milhares de pessoas ao longo de quatro dias e reafirma, ano após ano, o fato histórico de sermos a primeira cidade do Brasil", ressalta o prefeito Kayo Amado.
O evento segue até este sábado (23), a partir das 20h30, na areia da Praia do Gonzaguinha (Praça Tom Jobim). A programação também inclui uma área imersiva, proporcionando ao público uma experiência sensorial na história de São Vicente. Ao lado da arena, estará a Feira SV 360, iniciativa voltada ao fomento do empreendedorismo local.
A Encenação 2026 é incentivada via Lei Rouanet do Ministério da Cultura, com patrocínio de Brasil Terminal Portuário, GranServices, Grupo Ecorodovias e Sabesp. A iniciativa é uma realização da Associação dos Artistas e Prefeitura de São Vicente, com apoio da Secretaria de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo.