PESQUISA BADRA 2025 - SÃO VICENTE

Aprovação de Kayo Amado despenca em São Vicente e reprovação supera 46%, aponta Badra

No balanço de um ano de gestão, pesquisa mostra virada no humor do eleitor: nota "regular" domina avaliação, serviços públicos recebem médias abaixo de 4,5 e maioria diz que a cidade está "parada no tempo"

21/01/2026 - quarta às 22h58

Um ano depois de eleito com expectativa alta e capital político em mãos, o prefeito de São Vicente, Kayo Amado, chega ao fechamento de 2025 enfrentando um dado que, em política, costuma falar mais alto do que qualquer discurso: a mudança de temperatura nas ruas. É isso o que revela o caderno de dezembro da série “Avaliação de Governo 2025”, do Instituto Badra, que ouviu 1.060 moradores-eleitores no município no dia 3 de dezembro, em entrevistas presenciais, com margem de erro de três pontos percentuais e intervalo de confiança de 95%.

A fotografia do momento coloca o governo municipal sob pressão, uma vez que  34,3% aprovam a forma de Kayo Amado governar, contra 46,1% que reprovam, enquanto 19,6% dizem não saber opinar. É um desenho em que a desaprovação não apenas lidera, ela se impõe com folga, num município onde a política local sempre foi marcada por disputas duras, alternâncias de poder e um eleitor que costuma cobrar resultado com impaciência, sobretudo quando o cotidiano aperta: ônibus lotado, posto de saúde cheio, escola com estrutura precária e o centro pedindo mais cuidado.

E é justamente no gráfico que mede a evolução do desempenho, a peça central desta rodada, que a pesquisa encontra seu principal achado narrativo, ou seja, o que era “lua de mel” virou cobrança. No levantamento, a Badra registra que Kayo Amado foi eleito em outubro de 2024 com 87,6% de percepção positiva; depois, aos 100 dias, em abril de 2025, o índice cai para 64,5%, desce mais um pouco em agosto (8 meses) - para 58,1%, e despenca novamente em dezembro (1 ano) para 34,3%.

A curva, por si, conta uma história que indica que a gestão até ensaiou recuperação no meio do caminho, mas o fechamento do ano aponta um desgaste acelerado e, ao que tudo indica, mais conectado ao peso do cotidiano do que a um episódio isolado. Em cidades com identidade popular, alta circulação em bairros centrais e uma rotina muito marcada pelo deslocamento diário (muita gente que trabalha fora, ou vive a cidade no “bate-volta” regional), a régua é simples: melhorou ou não melhorou? Está andando ou travou?

Na avaliação geral do desempenho do prefeito, a maioria posiciona a gestão como um governo que ainda não saiu da zona morna ou da zona de dúvida. 40,9% classificam como “regular”, enquanto 17,1% consideram “bom” e 4,7% avaliam como “ótimo”. Na outra ponta, 18,8% dizem que é “ruim” e 5,8% “péssimo”, além de 12,6% que não souberam responder. Na soma, a gestão tem 21,8% de avaliação positiva (ótima/boa) e 24,6% negativa (ruim/péssima) com a maior parte da cidade estacionada no “regular” e como se dissesse: “não é terra arrasada, mas também não convenceu”.

O problema é que o “regular”, em política, raramente é um colchão de conforto. Em São Vicente, cidade que vive entre a memória histórica (a mais antiga do Brasil) e a urgência social de quem depende do serviço público, o “regular” muitas vezes funciona como uma antessala do desapontamento, sobretudo quando a percepção de progresso não acompanha o discurso oficial.

E a pesquisa mostra que, para boa parte do eleitorado, o sentimento dominante não é o da virada, mas o da estagnação. Ao responderem sobre o rumo do município, 51,2% dizem que São Vicente “está parada no tempo e estagnada”, enquanto 27,1% enxergam crescimento e desenvolvimento, 13,0% afirmam que a cidade regrediu e 8,7% não souberam opinar.

É um dado que ecoa com força em qualquer conversa de esquina, no ponto final do ônibus, na porta da escola ou na fila de atendimento: a sensação de que a cidade segue carregando problemas antigos e que, quando o morador compara promessa com entrega, o saldo não fecha.

Na parte mais concreta do levantamento, a Badra pede notas de 1 a 10 para serviços que definem o humor urbano: saúde, educação, zeladoria e transporte. O resultado é um recado duro já que nenhuma área ultrapassa média 4,1. A saúde pública recebe nota média 3,9 e ainda tem 7,5% que não souberam avaliar. Já o ensino público aparece com nota média 3,8, com 11,5% de “não sabe”.

No dia a dia, o “chão da cidade”, onde política vira experiência, dois serviços empatam como os mais bem avaliados, mas ainda assim sem empolgar: zeladoria e limpeza pública aparecem com nota média 4,1 (e 5,8% de não sabe), assim como o transporte público, também com nota média 4,1 (e 10,0% de não sabe). Em outras palavras, até os itens que “ganham” no comparativo interno ainda estão abaixo do que se consideraria minimamente confortável.

O recorte demográfico ajuda a entender por que a régua é tão exigente. A amostra da Badra reflete uma São Vicente de maioria feminina (53,9%) e de população concentrada em faixa adulta , 39,5% têm entre 25 e 44 anos, grupo que tipicamente vive o peso do trabalho, do transporte e dos custos domésticos. Na escolaridade, predomina o ensino médio (77,8%), e na renda, 57,8% estão até R$ 2.800, retrato de uma cidade onde qualquer falha no serviço público vira impacto direto na vida.

Quando o orçamento aperta, a paciência encurta. E, quando a sensação é de que “a cidade não anda”, a desaprovação tende a ganhar terreno não necessariamente por ideologia, mas por sobrevivência cotidiana: o eleitor cobra resultado, sem muito espaço para explicações técnicas.

O cenário se estende ao Legislativo municipal. Na pergunta espontânea sobre o “melhor vereador atual”, os números mostram um traço típico de cidades em que a população não se sente representada: 26,7% dizem que nenhum vereador se destaca, e 22,2% afirmam não saber dizer. Mesmo assim, há nomes que emergem: Tiago Peretto lidera com 20,7%, seguido por Jhony Sasaki (7,9%) e Adilson da Farmácia (4,9%). O restante aparece pulverizado, sinal de baixa centralidade política e de um eleitorado que, em muitos casos, parece falar mais por sensação do que por fidelidade.

No fim, a pesquisa de dezembro fecha o ano com uma frase silenciosa por trás dos percentuais: São Vicente está julgando o governo Kayo Amado menos pelo que ele diz que é, e mais pelo que o morador sente que está vivendo. A queda acentuada na aprovação ao longo de 2025, após um começo ainda sustentado por expectativa e depois por uma breve recuperação, sugere que a gestão chegou ao limite da “tolerância inicial” e entrou, de vez, na fase em que o eleitor cobra entrega, presença e respostas.

E numa cidade que mistura turismo e periferia, mar e morro, história e urgência, a política raramente é abstrata: ela mora no detalhe. Na rua varrida ou não. No ônibus que passa ou atrasa. No posto que atende ou empurra. Na escola que acolhe ou improvisa. E é nesse “Brasil real”, em que o município se mede menos por slogan e mais por rotina, que os números da Badra parecem deixar um recado incômodo, mas claro: o governo ainda tem tempo de virar o jogo, mas o relógio político de São Vicente já começou a correr mais rápido.