Entre o "bom governo" e o desafio do cotidiano, pesquisa Badra mostra avaliação da gestão de Cubatão
Levantamento aponta 61,3% de aprovação ao governo municipal e Câmara sob baixa identificação popular
14/01/2026 - quarta às 00h11Cubatão sempre carregou um simbolismo peculiar no imaginário paulista. A cidade que um dia foi conhecida nacionalmente como “Vale da Morte”, em referência ao colapso ambiental que marcou a Baixada Santista, também virou exemplo de reviravolta: recuperação, reorganização, reconstrução urbana e, sobretudo, resistência.
Mas toda cidade tem sua prova diária e que passa pelo que funciona na vida real, quando o morador sai de casa, pega transporte, busca atendimento na saúde, enfrenta demandas de zeladoria e tenta enxergar futuro nos serviços públicos.
É nesse ponto que a pesquisa do Instituto Badra, aplicada no início de dezembro, traz um dado central: o governo municipal é avaliado majoritariamente como regular e, ainda assim, tem aprovação ampla, indicando um cenário típico de gestão em fase de consolidação: a população não rejeita o comando, mas espera confiante por entregas.
Avaliação geral: predominância do “regular” e aprovação acima de 60%
A primeira fotografia do levantamento é bem clara e mostra que o conceito “regular” domina a percepção do eleitor sobre a gestão municipal. Ao responderem como classificam o desempenho do prefeito Cesar Nascimento, os entrevistados apontaram: regular, 45,1%; bom, 37,9%; ótimo, 5,5%; ruim, 7,5%; péssimo, 3,0%; e não sabe avaliar, 0,9%.
O dado sugere uma leitura típica de cidades onde o governo se mantém em zona de conforto, no sentido positivo da expressão, junto ao eleitor, isto é, não há reprovação generalizada, mas existe um julgamento prudente, de expectativa ainda em aberto.
Essa impressão ganha contorno mais político quando a pesquisa troca o “conceito” pela pergunta decisiva. Então, você aprova ou reprova? O resultado aponta um governo com aprovação consolidada. Aprova, 61,3%; reprova, 18,5%; e não sabe dizer, 20,2%.
Aqui mora uma das chaves interpretativas da rodada. Cubatão aprova mais do que classifica como “bom/ótimo”. Em outras palavras, há um eleitor que diz “regular”, mas não vira oposição, ele mantém o governo no crédito.
E quando se olha o desempenho de forma longitudinal, o governo parece atravessar 2025 com oscilação, mas sem ruptura. O gráfico de evolução, medido a cada quadrimestre, mostra que em abril, com 100 dias de governo, a aprovação era de 67,2%, passando em agosto de 2025 (8 meses) para 63,0%, e dezembro, com um ano de gestão, para 61,3%. Um patamar positivo produzindo uma constante cujo recado é contundente: houve queda no meio do caminho, mas a gestão mantém status ao final do primeiro ano.
E é justamente aí que Cubatão “conversa com Cubatão”: a cidade que aprendeu, ao longo das décadas, que nenhum projeto se sustenta apenas com promessa — e que a recuperação sempre exige continuidade — parece estar dando ao governo o que dá a si mesma historicamente, ou seja, uma chance de confirmar a virada na prática!
Serviços ficam na faixa do “mediano”, com zeladoria em melhor posição
Quando a pesquisa desce do plano político para o território do cotidiano, a conclusão é quase um consenso estatístico: os serviços públicos avaliados ficam concentrados na faixa intermediária, girando em torno de notas médias entre 5 e 6 pontos.
Na saúde pública, a nota média registrada foi 5,4. Na educação (ensino público), a nota média ficou em 5,3. Já a zeladoria e limpeza pública aparece como melhor desempenho entre os quatro setores e nota média de 5,7. Por fim, o transporte público registra nota média de 5,5.
Essa faixa, por si só, é um diagnóstico político. Cubatão não está dizendo que “tudo vai mal”, mas também não entrega ao governo um selo de excelência. E há um aspecto bastante simbólico nisso.
Porque, em cidades industriais e estratégicas como Cubatão, onde o contraste entre desenvolvimento econômico e desafios urbanos sempre esteve no centro do debate, o cidadão costuma ser objetivo. A régua é pragmática. O eleitor avalia o governo menos pelo discurso e mais pelo resultado perceptível, o que quer dizer unidade de saúde funcionando, escola atendendo, rua limpa, ônibus passando.
Nesse contexto, o fato de zeladoria liderar o bloco é, muitas vezes, sinal de gestão que consegue imprimir presença no que é visível e imediato. Já saúde e educação, por serem políticas mais complexas e lentas de “aparecer”, costumam carregar cobranças persistentes. Os números da pesquisa refletem isso.
Topete lidera, mas o “ninguém” e o “não sei” viram maioria silenciosa
Se o Executivo recebe aprovação, o Legislativo enfrenta um fenômeno clássico de muitas cidades brasileiras que é o da baixa identificação do eleitor com seus vereadores.
Na pergunta espontânea sobre “qual vereador atual tem melhor desempenho”, o maior grupo não escolhe ninguém: nenhum deles, 30,6%; e não sei dizer, 21,3%. Mais da metade do eleitorado (51,9%) não aponta nenhum nome, por desapontamento direto ou por distanciamento.
Ainda assim, entre os nomes lembrados, há um trio que se destaca com folga. Topete (Alexandre Mendes), 16,0%, na liderança isolada. Rony Martins, 7,7%, mais que dobrando o terceiro colocado, consolida um segundo lugar sólido. Jair do Bar, 3,0%, empatado tecnicamente com Cleber do Cavaco. Essas são as três, ou quatro, primeiras posições no ranking espontâneo, ou seja, o respondente não recebeu lista, disco ou qual material de apoio para fazer a sua manifestação.
O interessante aqui é que, em Cubatão, onde a política municipal costuma ser marcada por lideranças comunitárias, apelidos populares e forte presença territorial, o ranking revela uma dinâmica antiga: mandatos que conseguem “existir” no imaginário do eleitor sobrevivem melhor ao desgaste geral da Câmara.
“O desempenho na pesquisa reforça que a força de Topete não é apenas eleitoral, mas, sim, é de presença e reconhecimento, algo que nem sempre acompanha o número bruto de votos”, argumenta Maurício Juvenal, analista de dados do Instituto Badra.
O que a rodada de dezembro mostra é uma Cubatão com uma postura típica de cidade que já viveu extremos: o eleitor não se deixa levar apenas pelo entusiasmo, mas também não reage com pessimismo automático.
Ao final de um primeiro ano, Cesar Nascimento aparece aprovado por uma maioria, recuperando patamar após oscilação ao longo de 2025. Mas o “regular” dominante na avaliação por conceito reforça que, para transformar aprovação em convicção, o governo vai precisar avançar no que mais pesa no dia a dia, isto é, serviços que, hoje, seguem em nota intermediária, com destaque positivo para zeladoria e desafio permanente em áreas como saúde e educação.
E se a Prefeitura ainda tem o tempo político a seu favor, a Câmara enfrenta um recado mais duro: mais da metade do eleitorado não aponta sequer um vereador como referência de bom desempenho, um sinal direto de distanciamento, cobrança e falta de identidade política.
No fim, Cubatão repete seu próprio diálogo histórico. Uma cidade que não se define pelo rótulo que recebe, mas pelo que consegue provar com o tempo, e que, mais uma vez, olha para o poder público com uma mistura de expectativa e cobrança.