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            "title": "Para especialista, a lei do clube-empresa, sozinha, não irá salvar os clubes",
            "url": "https://www.bs9.com.br/entrevista-de-domingo/2022/01/09/para-especialista-a-lei-do-clube-empresa-sozinha-nao-ira-salvar-os-clubes.html",
            "content_html": "<p>Mesmo quem não acompanha a fundo o noticiário esportivo viu recentemente a notícia de que o ex-atacante Ronaldo Fenômeno comprou o Cruzeiro, clube que o revelou na década de 90 e que vive hoje a maior crise financeira de sua história. Esta semana, o empresário norte-americano John Textor desembarcou no Brasil para acertar os detalhes da compra do Botafogo, outro clube que está entre os maiores devedores do futebol brasileiro.<br />\r\n <br />\r\nEssas aquisições se tornaram possíveis graças a uma lei sancionada pelo presidente Jair Bolsonaro em agosto de 2021, que permite a criação da SAF (Sociedade Anônima do Futebol), popularmente chamada de clube-empresa. Por meio dessa modalidade, os clubes de futebol poderão receber recursos de pessoas físicas, jurídicas e fundos de investimento.<br />\r\n <br />\r\nEssa Lei das SAFs ou do Clube-Empresa, como ela vem sendo chamada, tem sido vista por muitos como uma salvação da lavoura e é possível que outros clubes sigam o exemplo de Cruzeiro e Botafogo. Mas não é bem assim. \"A lei, por si só, não resolverá o amadorismo e falta de responsabilidade de dos gestores dos clubes nacionais\", diz o advogado Rafael Cobra de Toledo Piza.<br />\r\n <br />\r\nRafael Cobra tem sido cada vez mais requisitado para comentar esse e outros assuntos ligados a uma área que não é nova, mas ganhou grande destaque principalmente neste século: o direito desportivo. Para se ter uma ideia, a subseção da OAB Santos possui uma comissão voltada para esse tema, da qual ele é o presidente, e até promove cursos abertos a quaisquer interessados, não necessariamente advogados.<br />\r\n <br />\r\nAlém das SAFs, o especialista falou nesta Entrevista de Domingo do Portal BS9 sobre outras questões inerentes ao direito desportivo, mas que chamam a atenção dos torcedores no noticiário, como a atuação do Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD), atrasos de salários por parte dos clubes e até transferências de jogadores. É bom lembrar que a polêmica ida de Neymar do Santos para o Barcelona em 2013 foi parar no TAS, o Tribunal Arbitral do Esporte.</p>\r\n\r\n<p><strong>1 - O senhor ministra cursos sobre direito desportivo há alguns anos. Quando o senhor começou e o que o fez se interessar por esse tema?</strong><br />\r\nO primeiro passo foi o natural encontro de duas paixões: o Direito e o Esporte, mais precisamente o futebol. Terminei a faculdade de Direito no momento em que entrava em vigor a Lei Pelé (Lei 9.615/98), modificando grande parte da estrutura jurídica no mercado do futebol existente até aquele momento, com atenção especial ao fim do “passe” nos atletas profissionais de futebol. Abria-se um caminho muito interessante para atuação jurídica neste fascinante mercado, mas, à época, eram raras as doutrinas especializadas e, naturalmente pelo exíguo tempo, o Poder Judiciário ainda não tinha jurisprudência sobre os principais temas. Ao longo do tempo foram criados cursos, eventos, palestras sobre o Direito Desportivo, avançando para cursos de especialização lato sensu até, atualmente, termos as primeiras turmas de Mestrado específico nesta área. Honrosamente presidi a Comissão de Direito Desportivo da OAB/Santos por três oportunidades, onde buscamos ampliar o alcance e fomentar o estudo e debate dos temas ligados ao Direito e Esporte.<br />\r\n <br />\r\n<strong>2 - O direito desportivo parece ser, pelo menos para nós, brasileiros, uma área relativamente nova. O Superior Tribunal de Justiça Desportiva, por exemplo, começou a aparecer no noticiário com mais frequência na década de 90. A que o senhor atribui essa relevância que o tema ganhou de lá para cá?</strong><br />\r\nPode-se dizer que a história da Justiça Desportiva no Brasil se inicia com a Resolução do Conselho Nacional de Desportos (CND) nº 4, de 1942, que obrigava a criação de tribunais de penas à cada federação estadual, que em nada se assemelham ao formato atual de nossa justiça desportiva. Avançando no tempo, podemos dizer que o grande marco foi o reconhecimento desta justiça especializada na Constituição Federal de 88, que traz em seu artigo 217 previsões expressas neste sentido. Com a edição da Lei Pelé, regulou-se o funcionamento da Justiça Desportiva e resolução do Conselho Nacional do Esporte (CNE) de 2003 normatizou nosso atual Código Brasileiro de Justiça Desportiva, alterado ao longo dos anos, aplicável a todas as modalidades esportivas no Brasil. Em um passado não muito distante, de fato, as decisões dos Tribunais de Justiça Desportiva do futebol tiveram grande impacto nas competições esportivas, lembrando a anulação de jogos em 2005 e o “caso Lusa” em 2013. As questões relacionadas à disciplina e competição esportiva são de competência exclusiva da Justiça Desportiva e, por tal razão, suas decisões têm sido cada vez mais utilizadas pelos clubes e atletas envolvidos nos campeonatos disputados em nosso país.<br />\r\n <br />\r\n<strong>3 - Ainda sobre esse papel de destaque do STJD, parte da imprensa esportiva o critica por \"interferir demais\" nas competições e, supostamente, sempre beneficiar clubes mais tradicionais ou que teriam mais força nos bastidores. Como o senhor vê essa questão da credibilidade do STJD?</strong><br />\r\nOs Tribunais de Justiça Desportiva são formados por auditores (julgadores) indicados pelos clubes, atletas, federações, OAB e árbitros para, em tese, garantir paridade entre os envolvidos nas competições esportivas. As decisões são proferidas dentro da discricionariedade e livre convencimento dos auditores e creio na isenção e lisura dos julgamentos. Entendo ser questionável decisões distintas para casos similares, o que pode trazer sensação de insegurança jurídica para uns e falta de credibilidade para outros.<br />\r\n <br />\r\n<strong>4 - Como o senhor tem visto o papel dos clubes no direito desportivo? Eles têm colaborado ou normalmente usam a Justiça para, como se diz na gíria, jogar para a torcida?</strong><br />\r\nDesde o início de vigência da Lei Pelé, em 2001, os clubes foram se adaptando às novas previsões legais e buscando formar suas estratégias de negócio com olhar às garantias trazidas na citada lei, em especial às relacionadas à formação desportiva dos atletas. Certo que muitos clubes encontram dificuldades na melhor formatação de suas linhas de trabalho, muito fruto da ausência de continuidade no modelo de gestão dos clubes, ante as características próprias do modelo associativo que predomina na maioria dos clubes brasileiros.<br />\r\n <br />\r\n<strong>5 - A Lei Pelé prevê que clubes que devem três meses de salários estão sujeitos a perda de pontos. Apesar de esse ser um problema recorrente no Brasil, dificilmente vemos os clubes, principalmente na Série A do Campeonato Brasileiro, sofrerem esse tipo de punição. Por que isso acontece?</strong><br />\r\nA Lei Pelé prevê, em seu artigo 31, que o clube que estiver em moral salarial ou do direito de imagem, ainda que parcial, pelo período igual ou superior a três meses poderá ter declarada a rescisão indireta do Contrato Especial de Trabalho Desportivo, ficando o atleta livre para firmar contrato com qualquer outra entidade de prática desportiva e, ainda, cobrar do clube inadimplente o valor da cláusula compensatória desportiva, cujo valor usual é a totalidade dos salários que seriam devidos até o término do contrato de trabalho. Nos últimos anos, visando buscar o equilíbrio financeiro nas competições esportivas, a CBF introduziu, nos Regulamentos Específicos de Competições, a previsão de possibilidade de punição de clubes inadimplentes com seus atletas perante a Justiça Desportiva, desde que feita denúncia por algum atleta, em nome próprio, ou por meio do sindicato da classe. Para que o clube venha efetivamente a ser punido com a perda de pontos na competição, há abertura de procedimento perante o STJD e, no curso do processo, há concessão de prazo para que o clube cumpra com suas obrigações perante os atletas; caso não o faça, a punição de perda de pontos pode ser aplicada. Neste momento, há um procedimento no STJD em face do Avaí ante a denúncia feita pelo sindicato dos atletas sobre o inadimplemento salarial de alguns atletas.<br />\r\n <br />\r\n<strong>6 - Ainda sobre clubes devedores, as recentes adesões de Cruzeiro e Botafogo ao modelo SAF (Sociedade Anônima do Futebol) ganharam destaque após a sanção da chamada lei do clubeempresa. Do ponto de vista jurídico, que análise o senhor faz dessa lei?</strong><br />\r\nA Lei das SAFs tem potencial de transformação, para melhor, da atual realidade do futebol brasileiro mas, necessariamente, passa pela profissionalização das pessoas envolvidas na gestão dos clubes; a lei, por si só, não resolverá o amadorismo e falta de responsabilidade dos gestores dos clubes nacionais. As razões que podem levar um clube a criar ou se transformar em uma SAF são variadas e nos exemplos citados na sua pergunta, há o forte componente do estado de insolvência que os clubes se encontram; nestes casos, o poder de negociação dos clubes se enfraquece e a sua valuation pode ser aquém do efetivo valor da marca. Outro aspecto importante é a quebra de paradigma com o modelo atual, onde os dirigentes pensam no imediato, contraindo dívidas impagáveis pensando na montagem de elencos que não se enquadram no orçamento do clube; uma SAF, como o Cruzeiro, passa a ser gerida com análise fria e objetiva quanto a viabilidade econômica do projeto, o que muitas vezes conflita com a paixão do torcedor, como visto no recente caso da não permanência do goleiro Fábio. No entanto, o modelo das SAFs potencialmente trará segurança jurídica e comercial para que investimentos sejam feitos nos clubes brasileiros que adotarem este formato societário, o que entendo ser muito positivo.<br />\r\n <br />\r\n<strong>7 - A transferência de Neymar do Santos para o Barcelona em 2013 foi muito polêmica, com o Santos recebendo menos da metade do que embolsou a empresa da família do jogador. O que foi que mais chamou a atenção do senhor nesse caso?</strong><br />\r\nA transferência do atleta Neymar do Santos para ao Barcelona é permeada de muitas polêmicas e pontos de vista. Sem entrar em análise jurídica sobra a transferência, até por não ter acesso aos contratos firmados, um fator precisa ser lembrado: o Santos optou, na relação com o Neymar, muito mais o retorno técnico e financeiro proporcionado pelos anos de atuação do atleta no futebol brasileiro do que buscar o melhor valor para a sua transferência. Inegavelmente que, no aspecto desportivo e comercial, enquanto o atleta esteve atuando no futebol brasileiro, o sucesso das partes envolvidas foi evidente.<br />\r\n <br />\r\n<strong>8 - Na sua opinião, há algum item nas leis esportivas, tanto do Brasil como internacionais, que tenha ficado datado, que demande uma revisão?</strong><br />\r\nUm aspecto que entendo deva ser melhorado, tanto na Lei Pelé, com aplicação nas questões nacionais, como no Regulamento de Status e Transferência de Jogadores (RSTP, na sigla em inglês) da Fifa, para as demandas internacionais, é a proteção e majoração das indenizações devidas aos clubes que desenvolvem o processo de formação desportiva dos atletas. Na atual conjuntura, os clubes considerados formadores têm dificuldades na manutenção por razoável período de tempo de atletas que formam que precocemente atingem destaque na equipe profissional, fato notório nos grandes clubes brasileiros. Alguns clubes adotam estratégia de apenas subir atleta para a equipe profissional após a formalização de vínculo contratual que lhes resguarde mas sabemos que alguns clubes, inclusive por necessidade, precisam promover os jovens para compor os elencos profissionais antes de completarem a maioridade, o que fragiliza a relação em desfavor dos clubes por imposição de limite máximo de duração dos contratos de trabalho para atletas menores (três anos), sob o prisma do RSTP-Fifa.<br />\r\n <br />\r\n<strong>9 - A pandemia de Covid-19 criou alguma situação nova ou peculiar para o direito desportivo? Se sim, o senhor poderia citar algum caso?</strong><br />\r\nA pandemia afetou a economia e relações de trabalho em todo mundo e não foi diferente com o microuniverso do esporte e do direito desportivo. Tivemos a adequação de regulamentos de competições esportivas, como o aumento do número de substituições numa partida de futebol, por exemplo, bem como uma provisória alteração em artigos da Lei Pelé que dispunham sobra a duração mínima do Contrato Especial de Trabalho Desportivo, adequando à realidade de parada das competições esportivas por algum tempo e sua posterior retomada. Em razão da crise financeira em diversas áreas, vimos alguns contratos de patrocínio esportivo sendo rescindidos de forma unilateral, assim como a modificação nos valores pagos pelas transmissões esportivas. Os desafios ainda estão presentes e o direito, mais do que nunca, se faz presente e necessário para a pacificação do ambiente esportivo, nas suas mais amplas e variadas vertentes.</p>\r\n",
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            "date_published": "2022-01-09T17:03:00+00:00",
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            "title": "Entrevista de Domingo: Maurício Juvenal fala sobre as perspectivas para o ano de 2022",
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            "content_html": "<p><em>Por <strong>Alexandre Fernandes </strong>e <strong>Lucas Campos</strong></em></p>\r\n\r\n<p>Maurício Juvenal se diz um santista de nascimento e mongaguaense de coração. Mas tem uma relação tão longa com as outras sete cidades da Baixada Santista que é como se fosse um munícipe de cada uma delas também. Não é um exagero. Ele pode, por exemplo, não ir a Bertioga, mais ao norte da região, ou a Peruíbe, no outro extremo, com a mesma frequência que ia em outros tempos. Mas está mais antenado à realidade desses lugares do que muitos moradores.<br />\r\n <br />\r\nE isso se deve, principalmente, a outros dois \"filhos\" que Mauricio tem, além da Ananda, do Pedro e da Alicia. Um é a Badra Comunicação, empresa especializada em pesquisa de opinião e monitoramento de dados e informações aplicados à gestão pública. E o caçula é o Portal BS9, nascido em maio do ano passado, com a proposta de dar voz aos nove municípios da Baixada, sem privilegiar os \"primos ricos\".<br />\r\n <br />\r\nMas se mesmo a Badra e o BS9 não ficam restritos à região, não dá para falar só disso com o Maurício nesta primeira Entrevista de Domingo de 2022. Estamos a menos de um ano de eleições para presidente, governador e cargos parlamentares. E nada melhor do que ter a opinião do diretor-presidente de uma empresa especializada em pesquisas para falar um pouco sobre o papel que elas terão no pleito.<br />\r\n <br />\r\nA experiência de Maurício Juvenal na política, no entanto, vai além da realização de pesquisas de avaliação ou intenção de voto. No governo de São Paulo, já foi secretário adjunto de Turismo na gestão de Geraldo Alckmin (2011-2014) e secretário de Planejamento e Gestão na gestão de Márcio França, de abril a dezembro de 2018. Bagagem que lhe permite falar com propriedade sobre diversos temas de grande interesse para os paulistas, como saúde, educação, desenvolvimento e até do valor do IPVA.<br />\r\n <br />\r\nComo você verá na resposta de uma das 9 perguntas, Maurício acha que 2022 vai ser difícil. Pode até ser. Mas com uma Entrevista de Domingo tão recheada e com tantos assuntos abordados, o Portal BS9, pelo menos, inicia o ano com o pé direito.</p>\r\n\r\n<p><strong>1- 2022 começa pelo apelo da retomada econômica, e com o desafio de ainda vencer a pandemia. Como você vê a atual situação econômica nos dias de hoje e o que podemos esperar de 2022 na sua visão de gestor?</strong><br />\r\nTudo aponta para um ano tão difícil quanto 2021 ou mais. O que se acreditava, até então, é que 2021 seria marcado pela retomada econômica, mas não é exatamente isso que estamos assistindo, uma vez que os efeitos da pandemia têm afetado esse processo de recuperação de forma bastante heterogênea. Se por um lado você tem o mercado de trabalho dando sinais de recuperação, por outro você tem a renda média do trabalho em seu pior patamar dos últimos dez anos, com uma retração de mais de 11% quando comparada com o mesmo período de 2020, já um ano de pandemia. Na prática, salários menores. Se a gente pensar em termos de setores, serviços e comércio, aqueles que sobreviveram, até já têm se beneficiado da melhora das condições sanitárias, mas a indústria sofre com a alto custo da energia e a escassez de matéria-prima. Por fim, e ainda que pareça pessimismo demais, estaremos em um ano eleitoral, período em que tradicionalmente os investidores optam pela cautela em função da imprevisibilidade em termos de política econômica. Tende de fato a ser um ano bem difícil.<br />\r\n <br />\r\n<strong>2- O que ainda é necessário para que o País encontre a direção que atenda o social e o desenvolvimento?</strong><br />\r\nÉ preciso parar de imaginar que são coisas excludentes entre si. Só há verdadeiro desenvolvimento econômico quando ele se dá de forma interligada com o meio-ambiente, com a educação, com a cultura, convergindo para a melhora da qualidade de vida das pessoas, como um todo. E que fique claro que estamos falando em desenvolvimento econômico e não em crescimento econômico, algo portanto que vai além do aumento de produção e do resultado do PIB. O desenvolvimento econômico propõe a melhoria da qualidade material e do quadro social geral de um país com o aprimoramento da distribuição de renda, crescimento na taxa de cidadãos alfabetizados, índices de natalidade e mortalidade, redução da violência, entre outros aspectos sociais que determinam o bem viver social. Em resumo, se um país gera uma renda per capta que aumenta gradualmente a cada ano, mas apresenta um baixo índice de melhorias e desenvolvimento na direção do povo, não é possível denominá-lo como desenvolvido.</p>\r\n\r\n<p><strong>3- De acordo com sua vivência e análises científicas de pesquisas de opinião pública realizadas pela sua equipe, como você acredita que pode ser desenhado um novo quadro político para os próximos tempos?</strong><br />\r\nTudo leva a crer que um novo quadro político, não. Mas um quadro político diferente, sim. É engraçado que a exemplo da economia brasileira, a política brasileira também é bem volátil. Muitos lastrearam a derrota da esquerda na última eleição presidencial na falta de união dos partidos que pregam essa posição política. Agora, quatro anos depois, o que se percebe é uma direita fragmentada, em busca da identificação de um ator, quem diria, que verdadeiramente a identifique. Bolsonaro, Moro e até João Doria disputam esse espaço e tendem a morrer abraçados. Na verdade, vivemos um dos momentos mais pobres de toda a história política brasileira, com lideranças fracas, do ponto de vista do conteúdo, e incapazes de propor um projeto de nação. Nem esquerda e nem direita apresentam um projeto de nação, propostas para o País. Um lado se une para derrotar o que batizaram de mal maior, o bolsonarismo. Já o outro não se une, mas o discurso é evitar a volta do lulismo. E assim outubro de 2022 vai se aproximando, sem que qualquer um desses lados apresente propostas para resgatar o país do abismo em que está mergulhado.</p>\r\n\r\n<p><strong>4 - Você esteve à frente da Secretaria que comanda o maior orçamento do Estado do Brasil. Por que o Estado de São Paulo ainda encontra dificuldades de promover a Educação e fortalecer setores importantes de atendimento à população, como a Saúde?</strong><br />\r\nExclusivamente porque o PSDB não quer. Os tucanos aparelharam o Estado de modo que ele garanta única e exclusivamente a reeleição de um dos seus. A máquina do Estado é imensa, é enorme, com uma capilaridade sem igual, favorecendo e muito quem a controla. O PSDB percebeu isso e faz apenas o suficiente para se manter no poder, repetindo fórmulas e arranjos políticos que permitam a manutenção desse poder. É um ciclo nocivo de quase três décadas. Convenhamos, como um partido que está há trinta anos governando o Estado de São Paulo pode propor algo novo? Se há algo novo a propor, por que não realizaram até hoje? Há uma política de perfumaria, mas jamais sem se aprofundar nas questões que mudam, pra melhor, a vida dos paulistas. Em tese, temos não só os médicos mais mal remunerados do País, como também os professores e a classe policial. Penso, no entanto, que esse ciclo está com os dias contados, e sinceramente não acho que estou enganado. Em dez meses saberemos. No curto período de oito meses que estive à frente da Secretaria de Planejamento e Gestão, durante o mandato do governador Márcio França, conseguimos dar sinais do que é possível fazer com ousadia e vontade política, implantando projetos e disponibilizando recursos, para todas as secretarias, que valorizavam o município e consequentemente o cidadão. Não adianta o Governo do Estado ser forte, controlar o dinheiro, e os municípios ficarem à mingua, com prefeitos o tempo todo com o chapéu na mão, mendigando recursos. Essa política desrespeita quem é legitimamente eleito para governar na esfera mais próxima das pessoas, que é o Executivo municipal.</p>\r\n\r\n<p><strong>5- O turismo na nossa região ainda vive grandes dificuldades de ajustes entre os gestores prefeitos das cidades. Por que ainda é complicado esta promoção turística unificada entre as cidades, já que diversos políticos levantam a bandeira da integração, mas o resultado ainda é pequeno?</strong><br />\r\nExclusivamente por vaidade política. Aliás, de qual Turismo estamos falando. Se estamos falando do turismo de sol e praia, sol e mar, esta promoção turística desde o princípio foi garantida por Deus. Do ponto de vista prático, e em termos de planejamento e execução da atividade turística, é zero e em relação aos nove municípios. Os prefeitos, em seus discursos, falam tanto dessa vocação natural, mas, na prática mesmo, destinam zero vírgula alguma coisa de seus orçamentos para o setor. Não há sequer uma política de incentivo à maior permanência do turista na região. Não há um plano integrado de turismo. Há mais de 30 anos o máximo que a câmara temática consegue colocar na mesa, para discussão, mas não sai do papel, é a bendita história do “selo metropolitano”, acreditando que organizar a entrada de vans e ônibus nos municípios vai melhorar o resultado do setor. Os municípios não casam suas potencialidades, não compõem um roteiro comum que privilegiem o turista, não investem em equipamentos de qualidade que motivem uma segunda volta do turista à região. O rico patrimônio histórico monumental que as nove cidades possuem, assim como o rico patrimônio ambiental, não são explorados. Alguns vão dar risadas, mas nem uma política de incentivo ao veranista não há. Quem mora fora e tem casa na região, tal a falta de estímulo, prefere alugar a casa na alta temporada para pessoas que chegam à região trazendo tudo na bagagem, deixando aqui só o lixo que produzem. E aí não fazem girar a roda do consumo local de bens e serviços. O resultado não é pequeno como está na pergunta. Ele simplesmente não existe. O que existe é exclusivamente graças ao fato de a região ser naturalmente abençoada por Deus.</p>\r\n\r\n<p><strong>6- Na sua gestão como secretário de Planejamento de São Paulo diversas cidades foram atendidas com recursos para o desenvolvimento regional. Você encontra estas obras e serviços, que ora foram autorizadas pelo governador de São Paulo da época, em pleno funcionamento e atendendo a população? Lembra de alguma importante que foi autorizada e ora esquecida ou com o atual Governo, abandonada?</strong><br />\r\nOlha, do ponto de vista turístico mesmo implantamos uma série de programas que não foi dada a devida continuidade. O Estado veio, implantou, e esperava que os municípios, provocados, percebessem a importância e a utilidade desses programas. As rotas pedestres são um bom exemplo. O papel do Estado era o de implantar e sensibilizar os gestores municipais sobre a importância da iniciativa como produto turístico. Mas os municípios não abraçaram a ideia. Em geral porque querem resultados imediatos. O Caminho de Compostela recebe anualmente cerca de 500 mil peregrinos e outros dois milhões de “turisgrinos”, gente que vai para lá apenas para ver as pessoas caminharem. Não é uma questão de apontar o dedo para os municípios, como se eles fossem culpados, mas é preciso perceber que a região tem enorme potencial e com um pouquinho de criatividade, e muita disposição, é possível fazer de fato do turismo a principal indústria local de geração de riquezas. Mas é preciso ousar, acreditar, apostar fundo, criar um parque temático no nível dos melhores do mundo, por exemplo, na área continental de São Vicente. Mas enquanto a opção for fazer mais do mesmo, teremos do ponto de vista estrutural exatamente o que temo hoje, ou seja, quase nada. Um detalhe a mais: a cidades do Vale do Ribeira têm que estar contempladas nessa ação, elas têm enorme potencial. Mas convenhamos: nem mesmo quem mora na região sabe ou conhecesse esse potencial do Vale.</p>\r\n\r\n<p><strong>7- Falando de política, 2022 também será palco de umas das principais eleições dos últimos tempos, até então acirrada por dois potenciais candidatos à Presidência da República. Além disso, teremos eleição para os Legislativos Federais e Estaduais, e as eleições de Governadores dos estados. Aqui para São Paulo, diante dos números e análises de pesquisas que você comanda, já é possível acenar um cenário para estas eleições?</strong><br />\r\nO que a mim me parece certo é que o Partido dos Trabalhadores, ou o arranjo político que derive da participação da legenda, estará no segundo turno tanto a eleição presidencial quanto da eleição para o Governo do Estado. A não ser que tenhamos uma variável interveniente, algo de força maior que altere os rumos que hoje estão sendo lidos, o PT volta a ter enorme protagonismo nas próximas eleições. E longe de ser por méritos próprios, muito pelo contrário. Bolsonaro e Doria se constituíram, pela inação de seus governos, nos principais cabos eleitorais do PT. Não houve entregas. São três anos, tanto na esfera estadual como federal, sem nenhuma grande obra ou realização, absolutamente nada. Ambos se escondem atrás da pandemia para tentarem justificar o desempenho pífio como governantes. Bolsonaro corre o imenso risco de nem estar no segundo turno e Doria, se candidato a reeleição fosse, tudo indica que terminaria em último na disputa ao governo de São Paulo, tamanha a sua rejeição. Aliás, ele prefere disputar a presidência justamente para não passar vergonha em São Paulo. Perde pra cima. No Estado de São Paulo, a esquerda ou centro-esquerda só perde a próxima eleição se não se unir. Um cenário, aliás, que se repete no âmbito federal.</p>\r\n\r\n<p><strong>8- O IPVA de São Paulo é a maior reclamação neste início de 2022, com reajuste na margem dos 30%. A Secretaria da Fazenda de São Paulo, inclusive, prevê arrecadar R$ 21,8 bilhões com o IPVA em 2022. Como gestor, com você viu este reajuste e o que se pode indicar para o Estado de São Paulo aproveitar este valor que arrecadará?</strong><br />\r\nO governador Doria age como um Robin Hood às avessas, tirando dos pobres para dar aos ricos. Ele aumenta o IPVA mas por outro lado cora pela metade o ICMS que incide sobre o combustível de aviação, beneficiando as empresas aéreas. Vai entender. A previsão orçamentária do Estado para 2022 é de R$ 287 bilhões. Em 2018, foi de R$ 217 bilhões. É um crescimento de R$ 60 bilhões, 33%, em quatro anos. Que legal, né? Demonstra a pujança no Estado, não é mesmo? Não, não é. Esse crescimento desproporcional está lastreado em aumento de impostos, em uma carga tributária que mata aos poucos quem empreende, quem investe. Pior, que deixa sem fôlego os menos favorecidos e que espreme ainda mais a classe média. Só no IPVA, o salto, de 2018 para cá, supera os R$ 5 bilhões, sendo que a frota não cresceu na mesma proporção. O próprio governo sentiu tanto o impacto que decidiu dividir o valor em cinco parcelas, como se isso não fosse comprometer da mesma forma o orçamento de quem tem carro. Tamanha insensibilidade, fica difícil entender que boa destinação o governo dará desses recursos. A se lamentar menos uma vez que parte do arrecadado fica para os municípios, cujos prefeitos são mais sensíveis às demandas da população.</p>\r\n\r\n<p><strong>9- E para finalizar, gostaríamos de saber como o homem público e cidadão Mauricio Juvenal espera para si e para toda população, o ano de 2022 em diante?</strong><br />\r\nEu sou santista de nascimento e um mongaguaense de coração que espera apenas que as pessoas possam ser felizes e sentirem realizadas em suas vidas. Nesse sentido, o que cada um faz de sua própria vida é determinante para que esses objetivos sejam alcançados. Mas, não distante disso, os governos, em suas diferentes esferas, precisam colaborar nesse processo. As pessoas não aguentam mais terem obrigações com o Estado, sem que dele derivem os direitos mínimos e essenciais a boa sobrevivência. É constrangedor o número de pedintes nos semáforos das cidades. Constrangedor para quem pede e para quem recebe o pedido. Mais constrangedor, no entanto, deveria ser para quem governa, que demonstra não conseguir, minimamente, resolver uma questão que é plenamente possível do município administrar, cadastrando essas pessoas, oferecendo o suporte que elas precisam, identificando essas famílias e estabelecendo oportunidades, em parceria com o terceiro setor, que permitam algum tipo de ganho, a partir do trabalho, para essas pessoas. É só ter um pouquinho de vontade política. E cito esse assunto porque meu maior e mais sincero desejo é que não vivamos num País onde as pessoas de fato não tenham que se submeter à caridade alheia para que possam comer. Os governos precisam fazer a sua parte.</p>\r\n",
            "summary": "Por Alexandre Fernandes e Lucas Campos Maurício Juvenal se diz um santista de nascimento e mongaguaense de coração. Mas tem uma relação tão longa com as outras sete cidades da Baixada Santista que é c...",
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            "title": "A uma semana do Natal, conheça um pouco mais sobre o Zico Noel",
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            "content_html": "<p>O Papai Noel é um dos símbolos mais emblemáticos desta época do ano. É só dezembro se aproximar que desenhos e representações do bom velhinho começam a se espalhar pelas cidades. <br />\r\n <br />\r\nA figura do Papai Noel teve origem com São Nicolau, um bispo católico do século IV que viveu na cidade de Mira, atual Turquia. Na história ele é representado como uma pessoa bondosa que dava presentes para as crianças no dia de seu aniversário, 6 de dezembro. Porém, com o passar do tempo e as variações em torno da lenda, ele foi incorporado na tradição da véspera de Natal, dia 24 de dezembro.<br />\r\n <br />\r\nAgora, a tradicional roupa vermelha do velhinho gorducho e barbudo tem uma origem bem menos religiosa. Na verdade, ela é puramente comercial. No ano de 1931 o desenhista Haddon Sundblom foi contratado pela marca de refrigerantes Coca-Cola para criar uma peça publicitária de Natal e, utilizando a identidade visual da marca, vestiu o bom velhinho de vermelho. Ele também foi o responsável por adicionar à sua figura o saco de presentes e o gorro.<br />\r\n <br />\r\nAqui em Santos temos um Papai Noel que é amado por pequenos e grandões. Augusto Matias Tomaz, de 73 anos, faz trabalhos como Papai Noel há 22 anos. Hoje, ele trabalha apenas nos shoppings centers da cidade, mas já fez a alegria de muitas crianças, visitando-as em suas próprias casas na noite de Natal. Confira a entrevista que o BS9 News fez com o Zico Noel, como é conhecido.<br />\r\n <br />\r\n<strong>1- Há quanto tempo trabalha como Papai Noel e de onde veio essa vontade?</strong><br />\r\nFaço esse trabalho como Papai Noel há 22 anos. A primeira vez foi quando fui ser o Papai Noel para uma empresa. E, desde então, como sempre gostei de crianças e de sorrisos, me apaixonei pelo que estava fazendo. Daí em diante, não parei mais.<br />\r\n <br />\r\n<strong>2- Qual o pedido mais inusitado que você já recebeu?</strong><br />\r\nAcho que a coisa mais diferente que já me pediram foi quando uma criança me pediu uma pedra do Monte Fuji, um lugar considerado sagrado pelos japoneses, para dar para a avó. Foi algo bem específico e que nunca mais esqueci.<br />\r\n <br />\r\n<strong>3- Qual foi a história mais tocante que você já ouviu?</strong><br />\r\nNão tem jeito, diante de tudo que já ouvi, o que sempre me toca mais é quando recebo pedidos de crianças que perderam os pais os pedindo de volta, pois infelizmente não tenho esse poder. É de cortar o coração.<br />\r\n <br />\r\n<strong>4- O que esse trabalho significa para você?</strong><br />\r\nPoder trabalhar como Papai Noel é uma alegria! Eu adoro poder proporcionar momentos de felicidade e magia para crianças e adultos. Nada é mais prazeroso do que poder proporcionar sorrisos no rosto de alguém. Faz um bem danado para ambas as partes.<br />\r\n <br />\r\n<strong>5- Você pretende continuar com esse trabalho por mais quanto tempo?</strong><br />\r\nNão penso em uma data específica para parar. É o que eu amo fazer e pretendo ser o Papai Noel até quando ainda tiver saúde e disposição para isso. Espero que ainda seja por muitos e muitos anos. <br />\r\n <br />\r\n<strong>6- Em 2017 você sofreu um AVC a poucos dias do Natal. Chegou a pensar que não poderia mais levar alegria às crianças?</strong><br />\r\nApesar de ter sido um momento difícil na minha vida, nunca passou pela minha cabeça que eu teria que me afastar ou ficar longe. Nem por um momento. Porque eu adoro o que eu faço e não queria pensar em parar.<br />\r\n <br />\r\n<strong>7- Além do seu trabalho nos shoppings, você visita casa de crianças no dia 24 de dezembro para entregar presentes. Por que parou com este projeto?</strong><br />\r\nEu já visitei muitos lugares, levando alegria para muitas crianças da cidade. Porém, hoje já não faço mais devido as minhas condições físicas. Tenho muitas saudades dessa ação, mas fica difícil a locomoção para tantos lugares em apenas uma noite.<br />\r\n<strong> <br />\r\n8- Como foi para você ficar sem trabalhar na pandemia, com tudo fechado? Qual foi a maior dificuldade?</strong><br />\r\nFoi um período difícil. A maior dificuldade foi não poder ter contato físico com as pessoas e principalmente com os pequenos. Eu amo abraçar! Essa troca de carinho não tem preço. Porém, para tentar driblar as dificuldades encontramos uma forma de continuar com o meu trabalho fazendo chamadas de maneira online.<br />\r\n <br />\r\n<strong>9- O que significa o Natal pra você?</strong><br />\r\nNatal para mim significa o nascimento de Jesus e a renovação da esperança por dias melhores. Com momentos de alegria, paz, amor e agradecimento. Basta acreditar e fazer as coisas da melhor maneira, sempre com bondade no coração.</p>\r\n",
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            "title": "André Azenha fala sobre a importância da cultura para o País e a região",
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            "content_html": "<p>O cenário cultural de um País diz muito sobre como ele enxerga a educação e outros tantos setores. Considerada um importante indicativo social, a cultura é fundamental na formação de qualquer cidadão.<br />\r\n <br />\r\nEla deve estar em nossas vidas desde a infância. Assim, será possível desenvolver uma sociedade mais democrática, inclusiva, de oportunidades. Uma criança que teve cultura desde cedo pode até não virar artista ou produtora cultural, mas certamente será uma profissional, seja de qual área for, mais sensível. <br />\r\n <br />\r\nÉ nisso que acredita o jornalista André Azenha. Com uma vasta experiência profissional, ele é assessor de imprensa há 15 anos, produtor cultural há 13, crítico de cinema há quase 20, coordenador de selo editorial há menos de um ano, palestrante há mais de 10, entre outras coisas. Formado em 2001, sempre foi um amante da literatura, do cinema e da música. <br />\r\n <br />\r\nFundador do Instituto CineZen Cultural, responsável pelo Santos Film Fest – Festival Internacional de Cinema de Santos, o CulturalMente Santista – Fórum Cultural e Criativo de Santos, o Palafitacon – convenção geek na Vila Gilda, e muitas outras iniciativas. O CineZen também virou, em 2021, selo editorial, focado em livros sobre cinema. <br />\r\n <br />\r\nAzenha não poupa esforços para ajudar a alavancar a cultura santista e levar arte para os locais mais vulneráveis da cidade, em especial aos moradores das palafitas. E para falar sobre projetos e o momento cultural do País, o Portal BS9 teve uma conversa com este importante personagem da região.<br />\r\n <br />\r\n<strong>1- Você atua em inúmeros projetos culturais e sociais da Baixada Santista. Como você entrou nesse meio?</strong><br />\r\nMinha relação com as artes vem desde criança. Venho de família humilde, nunca passamos necessidade, mas também vivíamos no limite. Meus pais, Regina e Manuel, abriram mão de coisas materiais do dia a dia para conseguirem dar um bom estudo a mim e meu irmão Claudio. Meu avô materno, Reinaldo, alagoano de nascimento, era sanfoneiro, tocou em rádios de Santos e lia histórias do Gulliver, aos domingos quando o visitávamos. Faleceu quando eu tinha oito anos e isso me marcou. Lembro também de irmos, aos domingos a noite, naquela parte do jardim da praia em frente à Conselheiro Nébias para ver orquestras tocando. Meu pai sempre andava com livros de bolso, fosse no ônibus a caminho do trabalho, ou em filas do mercado, do açougue etc. Trocava dois por um nas bancas de jornal. Isso chamava minha atenção. Mas como as histórias eram de faroeste, tinham temas adultos, fui ter acesso aos gibis mesmo, que eram baratinhos e acessíveis naquela época. Ele também gostava de ouvir música italiana, em casa, em fitas cassete. Minha mãe é poetisa, publicou livros, ganhou prêmio. Gostava e gosto de ler suas poesias. Desde pequeno minhas matérias preferidas da escola sempre eram português, redação, história e educação artística. Tenho até hoje um livrinho de poesias que fiz na escola lá pelos 10, 11 anos de idade. E na quarta série publicamos um jornal e fui responsável pela editoria cultural, classificados e coluna social. Então foi uma formação, mesmo que não consciente num primeiro momento, que me permitiu desenvolver o gosto pela cultura. Me formei em jornalismo em 2001. Escrevi para sites, revistas, jornais, sobre música e, depois cinema, um caminho natural. Senti que precisava divulgar meu trabalho e passei a realizar debates culturais pelo CineZen, site de jornalismo e crítica de cinema que criei em 2009 e depois virou a marca produtora dos eventos que realizamos e hoje é um instituto (ainda que sem uma sede específica). Uma coisa levou à outra e virei produtor cultural pela prática. <br />\r\n <br />\r\n<strong>2- Qual foi sua maior conquista profissional até hoje?</strong><br />\r\nO mais importante é poder fazer coisas que amo e conhecer pessoas incríveis. Minha esposa, Paula, parceira de vida e projetos, conheci quando eu coordenava um curso técnico de cinema – ela trabalhava na escola. Poder fazer um festival de cinema, o Santos Film Fest, que cresceu demais em pouco tempo de vida, realizar tantas pré-estreias trazendo dezenas de artistas de destaque do cinema brasileiro, escrever livros, ver pessoas que admiro, como o crítico Luiz Carlos Merten, falando de um livro meu. Os projetos sociais também. Ter recebido os prêmios Zumbi dos Palmares e a medalha Coração Nordestino, ambas outorgas do Conselho da Promoção da Igualdade Racial e da Comunidade Negra de Santos. E uma conquista, obviamente, é poder pagar minhas contas (risos) graças ao trabalho. São muitas lembranças, algumas dificuldades, mas muitas alegrias. <br />\r\n <br />\r\n<strong>3- Qual a importância da cultura para a sociedade como um todo?</strong><br />\r\nMuitas vezes as pessoas esquecem, mas a cultura é algo além das linguagens artísticas: envolve tradição, costumes, história, gastronomia. É a identidade de um povo. Nos países com menores índices de desigualdade do mundo a cultura está sempre entre as prioridades. É capaz de transformar vidas, faz bem à saúde mental, uma prova foi no ápice da pandemia quando a cultura possibilitou que as pessoas pudessem se concentrar em algo para além do medo, dos problemas, das perdas, das dificuldades financeiras. <br />\r\n <br />\r\n<strong>4- Como você enxerga o cenário cultural da Baixada Santista? Mais especificamente em Santos?</strong><br />\r\nSantos é uma cidade com muitos talentos, está a uma hora de São Paulo, é porta de entrada para o país graças ao Porto. Então, é natural que tenha força culturalmente, é uma das primeiras cidades do país. Mas as dificuldades para quem lida com cultura, no Brasil, sempre existiram e continuarão existindo, pois há muita desigualdade social, a economia vive de altos e baixos (muito mais \"baixos”), e sempre há uma insegurança contínua de quem trabalha com cultura por não saber se no próximo mês, ou no próximo ano, haverá trabalho. Mas somos o município que foi “adotado” por Pagu, por Maurice Legeard, e de gente como Pedro Bandeira, Sergio Mamberti, Clovis Bueno, Gilberto Mendes, Rubens Ewald Filho, Bete Mendes, Jandira Martini, Ney Latorraca, Narciso de Andrade, Luciano Quirino, Renato di Renzo, Neyde Veneziano, Charlie Brown Jr., Vulcano, palco dos primeiros shows de muitas bandas de rock dos anos 1980, e tantos outros artistas e acontecimentos. Prefiro ser esperançoso.<br />\r\n<strong> <br />\r\n5- Você é criador e coordenador do Santos Film Fest - Festival Internacional de Filmes de Santos. Como ele surgiu?</strong><br />\r\nEnquanto produtor cultural acabamos criando projetos que gostaríamos de consumir enquanto público, cliente, amante das artes. No meu caso, Santos com toda a sua tradição para o cinema, ainda não tinha um festival que fizesse um intercâmbio entre curtas-metragens e longas-metragens. Em 2014 e 2015 fizemos a Mostra Cine Brasil Cidadania, trazendo longas à região seguidos de debates com seus realizadores, fossem diretores ou produtores. Lotou de público, tivemos grande apoio da imprensa. O próximo passo foi inserir filmes estrangeiros na programação e assim surgiu o Santos Film Fest, em 2016. As primeiras pessoas a quem falei da ideia foram a Paula, minha esposa, e o Toninho Campos, do Cine Roxy (que disse de primeira, “vá em frente, tô junto”). A ideia é que para valorizarmos quem é daqui, é fundamental que promovamos esse intercâmbio, possibilitemos o crescimento. Não há desenvolvimento se os cineastas daqui ficam numa bolha, não furam essa bolha. Só haverá evolução e realmente teremos um cenário fortalecido com intercâmbio e se instigarmos a realização de longas. Os curtas são o cartão de visita, a porta de entrada, mas é preciso ir além. É preciso que tenhamos mais cursos universitários e que nesses cursos sejam produzidos longas como trabalhos de conclusão de curso. Qualquer cidade realmente forte, pelo mundo, no âmbito audiovisual, parte desse princípio e os alunos concluem o curso realizando um longa-metragem.</p>\r\n\r\n<p><strong>6- E qual o principal objetivo desse projeto, que já apresentou inclusive filmes que foram indicados ao Oscar, como o Selvagem, este ano?</strong><br />\r\nBuscamos ser uma vitrine de destaque para a produção local (e isso foi reconhecido intensamente pela imprensa e por muita gente que não se via representada até então), fazemos intercâmbio de curtas e longas, promovemos o resgate histórico, a memória cinematográfica, buscamos impulsionar a cadeia produtiva local, atuar em conjunto com áreas a exemplos da educação, do turismo, promover a diversidade, a representatividade. E às vezes (reforço, às vezes), o reconhecimento dentro da cidade é menor do que aquele alcançado fora de nossas fronteiras. Somos resistência em essência, furamos uma bolha, apontamos caminhos diferentes. Para isso viajamos, do nosso bolso, para outros festivais, para fazer contatos, formar parcerias. É um trabalho de formiguinha e que amamos intensamente. Vivemos cinema no dia a dia. Cinema é algo muito diverso e para termos um setor audiovisual forte no país é preciso essa pluralidade, fomentar diferentes estilos. Não pode existir um único pensamento sobre o que é cinema, e é o que temos tentado, e alcançado de certa maneira, fazer e contribuir para o cenário da região. E ficamos satisfeitos em ver centenas de realizadores do país, e até de outras nações, se referindo ao Santos Film Fest como o festival de cinema de Santos. <br />\r\n <br />\r\n<strong>7- A pandemia de Covid-19 impactou diretamente nos cinemas, fazendo com que muitos fechassem as portas no período mais crítico e outros estarem começando a se reestabelecer. Com as férias chegando, você acredita que agora é o momento ideal para isso acontecer? Como você enxerga essa situação?</strong><br />\r\nCertamente os cinemas que conseguiram sobreviver aos meses de fechamento voltaram mais fortalecidos. Ainda há um processo de recuperação. “Homem-Aranha: Sem Volta para Casa” será fundamental nessa retomada. Vale lembrar que os cinemas integram o último setor a reabrir em outubro de 2020 (os bares já tinham voltado, e com aglomerações). Mas não havia grandes lançamentos. Os filmes mais esperados pelos fãs só voltaram a ser lançados este ano, a partir de março, na segunda reabertura. O cinema é um ponto de encontro de pessoas que têm algo em comum, é uma janela para o mundo, um lugar onde embarcamos em novos universos, sem distrações, mergulhados na projeção, na tela. Continuará existindo. Logicamente é preciso cuidado com essas novas cepas da Covid, mas os cinemas em que fui nessa retomada têm tido todo o cuidado com o público. <br />\r\n <br />\r\n<strong>8- Em março, devido aos efeitos da pandemia, o Cine Roxy recebeu uma liminar de despejo e realizou uma campanha de financiamento coletivo para não fechar as portas. Qual importância do local para a cidade e de continuar com suas atividades?</strong><br />\r\nO Cine Roxy apoia produções locais, festivais, faz sessões para creches, escolas, asilos. É importante para o cenário da região, dos raros cinemas fora de capital a fazer pré-estreias com presenças dos artistas. Nesses 10 anos atuando lá como assessor de imprensa e produtor cultural foram centenas de eventos, para filmes de todos os gêneros e muita coisa bacana. Mas já havia essa tradição, é um cinema de rua com quase 90 anos que soube se atualizar.<br />\r\n <br />\r\n<strong>9- O Senado aprovou no último dia 24 de novembro o projeto de lei complementar (PLP 73/2021), batizado de Lei Paulo Gustavo, que libera R$ 3,8 bilhões para amenizar os efeitos negativos econômicos e sociais da pandemia de Covid-19 no setor cultural. O que você pensa sobre isso?</strong><br />\r\nÉ fundamental e chega até tardiamente. O setor cultural e criativo é um agente em potencial para o desenvolvimento do povo, de um mundo mais justo e que fomenta a economia, gera renda, emprego, oportunidades sociais e profissionais.  </p>\r\n",
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            "title": "No Dezembro Vermelho, Ricardo Hayden fala sobre prevenção da Aids e ISTs",
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            "content_html": "<p>O mês de Dezembro é marcado no calendário médico como aquele para a conscientização das Infecções Sexualmente Transmissíveis, as ISTs, e da Síndrome da Imunodeficiência Humana, Aids. O Dezembro Vermelho foi instituído por lei no ano de 2017, buscando chamar a atenção para a prevenção, a assistência e a proteção dos direitos das pessoas infectadas com o HIV e outras doenças.<br />\r\n <br />\r\nA Aids foi descoberta há 40 anos e teve seu pico justamente nessa época. Na cidade de Santos, o médico infectologista Ricardo Leite Hayden, juntamente com outros dois doutores, José Ricardo Moraes Wilmers e Álvaro João Pereira Hilinski foram os responsáveis pelo isolamento da doença à espera do primeiro paciente no Hospital Guilherme Álvaro, que virou referência à época de uma enfermidade considerada nova e que ainda não tinha uma assistência específica.<br />\r\n <br />\r\nEste paciente zero era um profissional liberal que começou a ter distúrbios de comportamento. Ele era homessexual e tinha mantido relações sexuais desportegidas.Hayden lembra que ele veio transferido de um centro médico de outro município para a cidade, pois era morador de Santos, e chegou no hospital para se internar com um quadro chamado leucoencefalopatia multifocal progressiva (LEMP).<br />\r\n <br />\r\nA década de 1990 foi o ápice da transmissão global da doença. Hayden lembra de pessoas que ele conhecia e que viajam com frequência para Nova Iorque e Los Angeles, por exemplo, onde a pandemia começou de forma mais intensa, e isso foi se espalhando pelo mundo afora. Alguém viajava, trazia o vírus, passava para outra pessoa, e essa transmissão foi crescendo.<br />\r\n <br />\r\nEm Santos foi, inclusive, implementado um atendimento com unidades móveis que iam ao Centro Histórico para fazer exames de detecção de doenças sexualmente transmissíveis e realizar a distribuição de preservativos masculinos e femininos, devido aos elevados índices de contaminação. <br />\r\n <br />\r\nHoje, os medicamentos estão cada vez melhores e há um nível de adesão muito alto ao tratamento, com distribuição gratuita do chamado coquetel pelo governo. Além disso, há, segundo o médico, uma detecção de aproximadamente 90% de ISTs, Aids e Hepatites. Inclusive, a adição das hepatites nesse índice de infecções sexualmente transmissíveis aconteceu recentemente, sendo Santos o primeiro município a aderir a esta importante mudança. <br />\r\n <br />\r\nVeja a conversa que o Portal BS9 teve com o médico infectologista Ricardo Hayden sobre este delicado e importante assunto.<br />\r\n <br />\r\n<strong>1- Como detectar a Aids? Há algum sintoma específico?</strong><br />\r\nSim. Costumeiramente, a Aids quando aparece, na verdade, não é a infecção pelo HIV, já é a doença causada pelo vírus.Costuma dar emagrecimento, febre, febrícula repetida, adinamia, perda de peso, fraqueza no corpo, esses são os sintomas mais marcantes. Às vezes há alterações de pele, pintas vermelhas. Tudo dependendo da fase com que se observa o fenômeno ou a pessoa procura um médico. A outra possibilidade de detectar a Aids são pessoas que têm comportamento de risco, sexo desprotegido, se infectar e ter uma Aids aguda, que funciona como uma virose aguda que nem dengue, mononucleose, às vezes até como uma gripe, dependendo da situação, provocando tosse, aparecimento de gambios, adinamia, febre prolongada, mas isso já é uma outra circunstância. É difícil de fazer diagnóstico de Aids aguda. A pessoa precisa ter experiência e tirocínio para, quando conversar com o paciente, saber se ele se expôs a uma situação de risco que poderia tê-lo exposto a contrair uma sífilis ou gonorréia, ou vírus HIV, ou ambas doenças. Então, essas são as manifestações clínicas mais habituais que podem ajudar a direcionar uma busca por diagnóstico de HIV/Aids.<br />\r\n <br />\r\n<strong>2- Qual a importância do diagnóstico precoce da doença?</strong><br />\r\nQuanto mais precoce o diagnóstico, melhor, porque você não dá tempo para o vírus espoliar ou causar uma grande destruição das células matrizes de imunidade que combatem o vírus HIV. Há uma briga intensa entre o HIV que está se proliferando e as células de defesa, com uma destruição progressiva das mesmas. E isto não é inesgotável. À medida que o vírus HIV progride e se multiplica, às vezes depois de uma entrada mais aguda, mais lentamente pelas defesas interpostas pelo próprio organismo, há um período de estabilização clínica inicial que pode levar dois, três e até quatro anos sem grandes manifestações. Neste ínterim, o vírus está se multiplicando, destruindo células matrizes. Há uma queda progressiva delas e, depois, é muito difícil recompor o exército de células, digamos assim, daquele indivíduo. Então quando mais precoce você descobrir, antes começa a tomar os medicamentos, que hoje são introduzidos precocemente. Antigamente, se esperava até as células de defesa baixarem a partir de um ponto de 350 células para baixo, depois descobriu-se que isso era uma bobagem e até mesmo indevido, porque você podia tratar a infecção desde o minuto zero. Hoje os pacientes se saem muito melhor no correr da vida. Eu tenho pacientes com quase 30 anos de tratamento, alguns que passaram dos 30 anos e um grande contingente de pacientes crônicos que hoje estão muito bem graças aos remédios que cada vez foram se aperfeiçoando mais, com menos efeitos colaterais e mais efeitos positivos para controlar o vírus HIV.<br />\r\n <br />\r\n<strong>3- Como é feito esse tratamento medicamentoso da infecção pelo HIV/Aids? E como um paciente pode procurar este tratamento?</strong><br />\r\nCom os antirretrovirais. Vários deles compõem uma conduta preliminar e, por ser a soma de vários remédios, geralmente três, se batizou de coquetel, como se você misturasse uma bebida com outras coisas e montasse um drink. As pesquisas mostraram que começamos o tratamento eficaz a partir do momento que a gente tinha três drogas diferentes para atuar em sítios diferentes da multiplicação do vírus, e remédios que, então, somados entre si causavam um controle muito intenso do vírus, com todos os benefícios advindos. Em Santos, a porta de entrada na saúde pública para algum paciente que descobre uma IST pode ser buscar tratamento no Centro de Referência de IST/AIDS/Hepatites, policlínicas e ambulatórios de triagem ligados a universidades, como Lusíadas e Unimes, que atendem esse segmento. Ou, às vezes, quando o paciente se encontra em uma situação mais grave, através de uma UPA (Unidade de Pronto Atendimento), que transfere o caso para uma Unidade Básica de Saúde (UBS) ou policlínica, e, dali, para centros de referência. Eu, por exemplo, atuo no ambulatório do Hospital Guilherme Álvaro.<br />\r\n <br />\r\n<strong>4- Qual a melhor maneira de se prevenir contra a doença?</strong><br />\r\nA melhor maneira de se prevenir contra a doença é evitar sexo de risco ou desprotegido. Qualquer modalidade de sexo onde haja transmissão ou compartilhamento de secreções, em especial esperma, seja depositado na boca, no ânus, onde o risco é maior, ou numa vagina, se um dos parceiros que estão ali naquela transa estiver infectado pode passar pro outro ou para a outra mediante a essas várias possibilidades. Sendo que o sexo anal é o que oferece maior risco quando desprotegido sem o uso do preservativo, porque o reto tem muitos vasos sanguíneos e, se o vírus cai ali, depositado no sêmen ou esperma, é absorvido e introduzido para dentro do organismo pelas células de defesa que capturam aquele inimigo que foi depositado ali inavertidamente, ele se interioriza, tipo uma operação cavalo de tróia. A partir daí, o vírus consegue atingir suas células alvo, e se multiplicando ali começa sua história dentro do organismo. Para aqueles que se relacionam com um soropositivo, além da proteção via preservativo, existe uma estratégia chamada PREP (Profilaxia Pré Exposição), na qual o parceiro ou parceira toma um medicamento contra o vírus para evitar uma infecção. E isso leva a possibilidade de transmissão a números muito próximos do zero absoluto. Aqui no Brasil temos o programa PREP Brasil, distribuindo os remédios de graça pelo Ministério da Saúde do Brasil.<br />\r\n <br />\r\n<strong>5- Na década de 90, Santos foi considerada a capital da Aids, muito pelo Porto. Você esteve na linha de frente desse combate aqui na Baixada. Como foi essa época?</strong><br />\r\nInicialmente, meu trabalho foi no Hospital Guilherme Álvaro, no qual atendemos o primeiro paciente da Baixada, eu, o doutor Wilmers e o doutor Álvaro Hilinski. Eu coordenei o programa de Aids de Santos durante oito anos, nos dois mandatos do prefeito Beto Mansur. Tive a oportunidade de conhecer serviços de tratamento no mundo inteiro, fazer treinamentos, incorporar novas tecnologias a partir do Instituto Nacional de Saúde, como a prevenção da transmissão materno fetal do HIV. Quando assumi o programa, a gente tinha uma média de transmissão anual de cerca de 25 pacientes nascituros ou crianças que nasciam de mães soropositivas e nasciam infectadas com HIV. E com um ano para dois anos de intenso esforço em todas as policlínicas e consultórios médicos, com treinamento e instituindo a profilaxia através de um protocolo internacional desenvolvido pelo Instituto Nacional de Saúde Norte-americano. E depois que esse protocolo foi introduzido aqui em Santos, esses 25 casos caíram para alguns poucos que, às vezes, escapavam da ação. Então, durante oito anos, uma média de 25 a 30 crianças que nasciam deixaram de nascer com Aids. E, obviamente, foi para nós algo muito relevante e emocionante. É algo que eu me orgulho muito. Eu e todas as pessoas que trabalharam na nossa equipe, que envolvia desde a farmacêutica, da psicóloga, da assistente social, dos médicos, todo o pessoal de apoio, do laboratório, desde o porteiro do centro de referência, todos tiveram muita relevância, acolhendo essas pessoas, ajudando, testando as pessoas nas maternidades, foi algo maravilhoso. <br />\r\n <br />\r\n<strong>6- Qual foi a maior dificuldade neste período?</strong><br />\r\nA dificuldade foi mudar paradigmas, criar a aceitação por parte das pessoas infectadas, aumentar o nível de diagnóstico. A gente passou a testar muito mais no município, porque houve uma ampliação de ofertas de testes pelo Ministério da Saúde, além da ajuda de todos os representantes do governo santista, bem como médicos infectologistas da cidade. Então a dificuldade era manter essa chama acesa, seguir as normas dos programas do Ministério da Saúde, que eram normas também do programa da Organização Mundial de Saúde, e da luta da Unaids (União das Nações Unidas Contra a Aids). Claro que tivemos dificuldades de implantação, afinal, tudo isso tinha custo, mudanças de paradigmas, adoção de protocolos, dos quais as pessoas podem ser resistentes.<br />\r\n <br />\r\n<strong>7- Você acredita que hoje em dia as pessoas estão mais conscientes em relação ao uso do preservativo ou ainda há uma defasagem muito grande?</strong><br />\r\nExiste uma defasagem muito grande com respeito ao uso do preservativo. É uma coisa que se você não insistir, não tiver um programa, não tiver apoio de um assistente social e outros facilitadores como técnicas de enfermagem treinadas, junto com o médico, para oferecer o uso do preservativo e distribuí-los gratuitamente nas UBS e nos Centros de Referência, e estimular o seu uso, cai muito a busca e o uso do mesmo. Ainda existe uma defasagem sim e ela é muito grande.<br />\r\n <br />\r\n<strong>8- O que mudou em relação ao tratamento da Aids com a pandemia de Covid-19?</strong><br />\r\nO acesso se tornou um pouco mais difícil. As pessoas se dispersaram com medo de ir a unidades de saúde e contrair o Covid. Uma série de coisas fizeram com que os pacientes fizessem menos exames e não cuidassem tanto do segmento, o chamado follow up, com respeito ao tratamento da Aids. Vemos isso com os nossos pacientes no consultório particular também, que caiu bastante o movimento, porque as pessoas se retraíram com medo do Covid. E isso vale para outras doenças, como a hipertensão arterial e diabetes. Mas, esperamos que isso seja retomado, com todos os cuidados que o assunto merece. <br />\r\n <br />\r\n<strong>9- Além da Aids, quais outras doenças e infecções sexualmente transmissíveis ligam o sinal de alerta na região? </strong><br />\r\nUma que cresceu exponencialmente e vemos tanto no ambulatório público, nas policlínicas, nos centros de referência e nos consultórios particulares, é a sífilis. Temos, paralelamente, a ocorrência de uma epidemia, não tão silenciosa, pois é uma doença da maior relevância, que pode levar a gravidade se não for tratada na fase inicial ou numa fase secundária. E isso implica que os médicos tenham consciência e façam o rastreamento. Eu não atendo o paciente, seja de qualquer patologia, e deixo de fazer um pedido de exame, porque o paciente às vezes não quer fazer. Mas peço teste de HIV, hepatites em geral, sífilis, herpes, HPV se possível, com alguns exames específicos. Porque tudo isso é muito relevante na saúde geral do indivíduo. Sou clínico geral também, além de infectologista, procuro atender os dois lados da questão, e trabalhar para fazer com que a gente tenha a oportunidade de diagnosticar e tratar essas doenças cedo e adequadamente.</p>\r\n",
            "summary": "O mês de Dezembro é marcado no calendário médico como aquele para a conscientização das Infecções Sexualmente Transmissíveis, as ISTs, e da Síndrome da Imunodeficiência Humana, Aids. O Dezembro Vermel...",
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            "title": "Dr. José Carlos Clemente fala sobre o câncer de próstata e as medidas a serem tomadas",
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            "content_html": "<p>A próstata é uma glândula, um órgão não essencial, que os homens possuem e se localiza na parte baixa do abdômen. A sua função é produzir um fluído líquido que se agrega ao sêmen, protegendo e nutrindo o espermatozóide. Além disso, mantém o fluxo urinário regular e auxilia no ato da ejaculação.<br />\r\n <br />\r\nPrincipal tema do Novembro Azul, o câncer de próstata geralmente afeta homens adultos, a partir dos 40 anos. Vale destacar que tanto homens negros quanto quem tiver antecedente familiar tem mais chances de ter a doença, entretanto, após os 50 anos, frequentar o urologista deve se tornar hábito. De acordo com o Instituto Nacional de Câncer (INCA), há 65.840 novos casos da doença em um período de três anos, contudo, há uma alta chance de cura se for o problema for diagnosticado precocemente. <br />\r\n <br />\r\nA fim de tratar o assunto mais profundamente, o entrevistado deste domingo do Portal BS9 é o Dr. José Carlos Clemente, médico da clínica Mult Imagem, que esclareceu como deve ser a rotina do público masculino diante o cuidado com a próstata, além de revelar quais são os exames mais comuns e os sinais e sintomas da doença.<br />\r\n <br />\r\n<strong>1 - Sobre o câncer de próstata, qual seria a mensagem mais importante que você registraria?</strong><br />\r\nBem, a primeira coisa que poderia dizer é em relação ao homem. Colocar como uma rotina, da mesma forma que a mulher, a partir dos 50 anos de idade uma visita ao urologista. Por que isso é importante? Porque assim como a mulher faz a prevenção da parte pélvica e da parte mamária dela, o homem deveria fazer o preventivo da parte prostática. Isso não quer dizer que ele não possa fazer um preventivo mais abrangente ou outros tipos de exames. Mas eu diria que a ultrassonografia de próstata acima dos 50 anos ou a partir dos 40 anos, para quem tem antecedente familiar. Isso é um aspecto importante, porque quem tem esse antecedente familiar, em geral o câncer acontece antes de quem não tem. E onde esta esse antecedente genético? No irmão, pai, tio ou avô. Qualquer um desses que tiveram câncer de próstata, ele te implica em um risco oito vezes maior de desenvolver a doença. Então, veja a importância de se fazer um diagnóstico precoce, a gente não está fazendo prevenção porque não sabemos a causa, mas há como fazer um diagnóstico precoce de um eventual câncer que possa aparecer. Tem que ser feita essa rotina, isso é fundamental para o homem caso queira ter uma chance de curar.<br />\r\n <br />\r\n<strong>2 - Quando o paciente deve ligar o alerta em relação ao tratamento de próstata?</strong><br />\r\nA primeira coisa seria em relação a idade. Se o homem tiver antecedente familiar de câncer de próstata já deve começar aos 40 anos. Não importa os sintomas, importa a idade, pois, ele já poderia ter problemas. Agora que não tem antecedente, a partir dos 50, mesmo que ele não tenha sintomatologia, é importante que se faça os exames.<br />\r\n <br />\r\n<strong>3 - Quais são os principais sintomas que possam preocupar o homem?</strong><br />\r\nO homem deve ficar em alerta quando há alteração no ritmo urinário dele. Quando ele está fazendo muito mais xixi do que o comum, tanto em quantidade, como em frequência. Em quantidade, não necessariamente é um problema de próstata, por exemplo, pode ser diabetes, que faz com que a pessoa beba mais água, coma mais e, por consequência, faça mais xixi. Mas pode estar relacionada a próstata sim, a chamada poliúria (muitas vezes urinando), ou as vezes, o homem vai ao banheiro com mais frequência, mas faz pouco xixi, ou seja, ele aumentou o números de micções mesmo com a bexiga praticamente vazia, faz poucas gotas e depois tem vontade de novo e de novo. Isso também é um sinal de problema na próstata. A pessoa com diabete não vai tanto no banheiro, mas quando vai faz muito. O que acontece na próstata, quando se tem hiperplasia benigna ou quando se tem câncer de próstata mais avançado, pode ser que o paciente faça xixi agora e a bexiga não seja totalmente esvaziada, daqui a pouco, ele tem a necessidade de ir ao banheiro novamente. A próstata está aumentada, ela aberta e não permite que esvazie tudo, é algo que chamamos de resíduo urinária. <br />\r\n <br />\r\n<strong>4 - Existe um protocolo de atendimento para quando o homem se apresenta ao consultório?</strong><br />\r\nNormalmente há um protocolo. Por exemplo, habitualmente o médico irá fazer um histórico clínico onde o paciente vai comentar quais são os sintomas que está sentindo. Se não tiver sintoma nenhum, continua o protocolo segue, mas se tiver sintoma, irá ter uma orientação para o que pode ocorrer. Depois disso o paciente é interrogado. Se a pessoa tiver mais de 50 anos o médico vai acabar fazendo o toque retal como rotina. A partir disso, o doutor pede um exame da PSA (antígeno prostático específico) e avalia em conjunto com o toque retal. Em muitos países desenvolvidos, normalmente o médico pede a ultrassonografia, que no Brasil é feita em cima do abdômen, mas que não é um bom método para fazer diagnóstico de tumor, ele é um bom método para avaliar volume e o peso da próstata, mas não avalia detalhe fino. Neste caso, o importante é a ultrassonografia transretal, ele vai dar um detalhe muito fino, capaz de detectar lesões milimétricas, é o exame mais perfeito que existe, é o computador que analisa, não tem erro. Além disso, checa se a próstata está sendo nutrida por vasos corretamente e tira o fragmento para que seja analisado se é benigno ou maligno.<br />\r\n <br />\r\n<strong>5 - Há preconceito em relação ao tratamento?</strong><br />\r\nExiste muito preconceito, podemos citar o primeiro deles que é o toque retal, que o homem de uma certa forma cultural, especialmente no Brasil, tenta evitar o médico. Posso comentar isso abertamente para todos, por exemplo, na Alemanha, Japão ou demais países desenvolvidos, não se tem esse aspecto levado em conta na hora de fazer o exame. A pessoa vai, se necessário fazer, para ele tudo bem, culturalmente ele não tem esse preconceito. Já no Brasil, o preconceito existe e é maior quando menos esclarecido para a pessoa. De qualquer forma, é aconselhável que, mesmo que o homem não deseja fazer o toque retal, existem outros exames que são complementares e muito importantes, por exemplo, o PSA. Na verdade, ele não é específico, ele acontece quando você tem uma prostatite e ela aumenta muito. Quando você faz um exercício físico extenuante, sexo, anda de bicicleta ou qualquer movimento que cause impacto na próstata, ele aumenta um pouco o índice, que na verdade é um falso positivo. Outra coisa muito comum que eleva bastante o PSA é a hiperplasia (crescimento) benigna da próstata, ou seja, como o próprio nome diz, é algo benigno. A próstata aumenta com a idade, quase todos os anos acima dos 80 anos tem hiperplasia de próstata em maior ou menos grau e ela vai aumentar o PSA, mas não significa obrigatoriamente que a pessoa tem um câncer isolado ou associado.<br />\r\n <br />\r\n<strong>6 - Qual a importância do homem estar conversando com a família sobre o tratamento?</strong><br />\r\nNós precisamos tirar uma vidraça, uma barreira, da sua frente. Eu diria que o homem brasileiro deveria ser como, por exemplo, o japonês ou o alemão, que não tem esse preconceito. Ou seja, não se admite na Alemanha que você fala uma ultrassonografia que não seja a transretal, ela é mandatória e o homem não questiona. Você vê como o aspecto é cultural? Eu diria para o brasileiro que procedesse da mesma forma, isso não tem nada a ver com masculinidade o fato de você fazer um diagnóstico, seja pelo toque retal ou pela ultrassonografia transretal (que é muito mais sensível) ou até pela ressonância magnética. Se o homem vê que tem a lesão, tem que largar o preconceito de lado e fazer os exames necessários. Além disso, a família tem que participar, a família que vai ser o apoio mais importante que o homem vai ter nessa hora complexa. O tumor na próstata é muito menos agressivo do que, por exemplo, o tumor da mama. Tanto é que, quando você faz um diagnóstico precoce de câncer de próstata, praticamente a possibilidade de cura é entre 90% a 100%, é quase total. Diferente do câncer de mama, onde as chances de cura são menores se estiver numa fase mais avançada. Em relação ao câncer de próstata, mesmo atrasando um pouco, o paciente ainda tem chance de cura. Um comparativo: Em média, o câncer de mama dobra de tamanho em um período de seis a sete meses, o câncer de próstata demora três anos para fazer a mesma coisa, ou seja, o homem tem uma chance maior de cura se eu for precocemente ao urologista.<br />\r\n <br />\r\n<strong>7 - A pandemia atrapalhou os exames preventivos ao câncer de próstata?</strong><br />\r\nCom certeza, a pandemia atrapalhou muito, inclusive o número de cirurgias de próstatas que reduziram em mais de 20%. Veja só em que enrascada nós nos encontramos só porque o foco ficou na pandemia, enquanto as outras doenças foram esquecidas. O próprio câncer de mama acabou ficando em segundo plano e isso dificultou tanto o diagnóstico precoce quanto o tratamento dessas doenças. Isso foi muito grave, acho que o foco maior para um setor (que no caso era para Covid-19), não implicaria, obrigatoriamente, de você esquecer dos demais.<br />\r\n <br />\r\n<strong>8 -  Muitas pessoas acabaram falecendo por causa da atenção voltada apenas ao coronavírus?</strong><br />\r\nNo Brasil foi aconteceu por interesses políticos, ideológicos e econômicos. Focaram apenas na pandemia para dizer \"olha, estou te atendendo\". Existem doenças cardíacas que matam muito mais gente, a própria aids mata extremamente mais, no entanto, parece que só existe coronavírus no mundo todo. Muitas pessoas acabaram morrendo do outras doenças por conta de negacionismo. Os hospitais focaram apenas na pandemia, evitando que as pessoas fossem para lá, mandando as pessoas ficarem em casa. Com isso, as doenças foram agravadas e o índice de morte, em geral, de câncer, acabou aumentando muito. Morreram pessoas que em hipótese alguma poderiam morrer se fizesse a rotina que estava acostumada a fazer anteriormente.<br />\r\n <br />\r\n<strong>9 - Qual é o recado final desse novembro azul que fica para que os homens procurem apoio?</strong><br />\r\nEssa consideração é extremamente importante, eu diria para que todos os homens, para quem tem antecedente familiar, ir rotineiramente ao urologista a partir de 40 anos e se não tiver antecedente, tem que ir obrigatoriamente a partir dos 50 anos (anualmente) e realizar os exames que o médico considerar importantes. Até porque existem protocolos específicos que são fundamentais para o diagnóstico precoce e consequentemente haverá uma chance de cura quase total para todos os homens que fazem esse diagnóstico. É fundamental esquecer esse preconceito e ir rotineiramente, mesmo sem sintomas, ao urologista.</p>\r\n",
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            "title": "Ivo Miguel Evangelista comenta sobre a importância do Dia da Consciência Negra",
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            "content_html": "<p>Historicamente, o dia 13 de maio era tomado referência de celebração do povo negro no Brasil. Isso porque é a data que marca a assinatura da Lei Áurea, em 1888. Assinada pela Princesa Isabel, foi a responsável por acabar com a escravidão no País. Porém, na década de 1970 iniciou-se uma discussão que só foi solucionada 50 anos depois.<br />\r\n <br />\r\nUm grupo de jovens negros de Porto Alegre questionaram a aquisição desta como a data mais importante para seus antepassados e, após pesquisas, sugeriram que o dia 20 de novembro, dia da morte de Zumbi dos Palmares seria muito mais significativo. Afinal, ele é o maior símbolo da luta dos ex-escravizados por liberdade. Porém, foi só em 2017 que o Dia da Consciência Negra foi efetivado.<br />\r\n <br />\r\nA partir de um projeto de lei do senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), o dia de Zumbi dos Palmares se transformou em feriado nacional e um marco da busca pela igualdade racial. Porém, essa luta vai muito além de se estabelecer uma data que faça jus a toda essa importante batalha. A desigualdade entre as etnias é enorme, e se evidencia nos medidores sociais do Instituto Brasileiro de Pesquisa e Estatística (IBGE).<br />\r\n <br />\r\nDados do estudo Desigualdades Sociais por Cor e Raça no Brasil, divulgado em 2019, pretos ou pardos somavam 64,2% da população desocupada e 66,1% da população subutilizada; tinham rendimento médio pouco superior à metade do que recebem os brancos; e quase 2,7 vezes mais chances de serem vítimas de homicídio intencional do que uma pessoa branca. E isso levando em consideração que, segundo o IBGE, 56% do total de brasileiros são negros.<br />\r\n <br />\r\nSegundo Agência Senado, depois de árdua luta do movimento negro e a aprovação pelo Senado em 2003, o Dia da Consciência Negra entrou no calendário escolar a partir da sanção da Lei 10.639, de 2003, que obriga o ensino de história e cultura afro-brasileira nas escolas. Oito anos depois, a então presidente Dilma Rousseff oficializou a data como Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra. Mas, mesmo assim, o 20 de novembro só é feriado em locais com leis municipais ou estaduais específicas. <br />\r\n <br />\r\nO Estado de São Paulo é um deles e, para celebrar a data, o Portal BS9 entrevistou Ivo Miguel Evangelista dos Santos, Coordenador de Igualdade Racial e Étnica do Conselho Municipal de Participação e Desenvolvimento da Comunidade Negra e da Igualdade Racial de Santos desde 2017. <br />\r\n <br />\r\nA coordenadoria, que surgiu após um movimento forte do Conselho da Comunidade Negra de Santos, segundo mais antigo do Estado de São Paulo, atua na frequente busca pela implementação de políticas públicas e afirmativas que são de suma importância para a Comunidade Negra. Confira a entrevista:<br />\r\n <br />\r\n<strong>1- Você considera importante a comemoração do Dia da Consciência Negra?</strong><br />\r\nAcho de suma importância. Afinal, devemos comemorar efusivamente a data alusiva a esse grande símbolo de luta e resistência que foi o Zumbi dos Palmares.<br />\r\n <br />\r\n<strong>2- Muitas pessoas se incomodam com esta data. O que você pode dizer sobre as pessoas se sentirem ofendidas com esse dia?</strong><br />\r\nNós pretos é que temos que nos ofender por nossos ancestrais terem sido retirados da mãe África à revelia e por termos sido escravizados. Depois libertos e jogados à deriva. Esses fatores por si só justificam esse dia.<br />\r\n <br />\r\n<strong>3- Como você enxerga a evolução do respeito à essa data desde quando ela foi criada?</strong><br />\r\nVejo muito mais conscientização pelo povo negro. Esta data é um chamamento de luta e resistência!<br />\r\n <br />\r\n<strong>4- Recentemente, tivemos diversos casos marcantes de violência contra negros, como a morte de George Floyd nos EUA, que desencadeou o movimento \"Vidas Negras Importam\". Como você enxerga esses movimentos?</strong><br />\r\nNecessários a partir da violência que campeia contra o negro. Tanto no Brasil como nos Estados Unidos. Esse tipo de movimento que envolve um grande número de pessoas nos une e fortalece.<br />\r\n <br />\r\n<strong>5- Como você descreveria o racismo?</strong><br />\r\nÉ a anulação de uma etnia em função da outra. Ele graça de forma endêmica no âmbito da sociedade.<br />\r\n <br />\r\n<strong>6- Você já sofreu algum tipo de violência por ser negro?</strong><br />\r\nVárias! Ainda hoje me deparo com algumas quando corro e passo em uma área mais nobre da praia de Santos. Me deparo no calçadão com mulheres que, ao sentirem a minha presença, se agarram veementemente à suas bolsas como se eu fosse assaltá-las. Branco correndo é atleta. Preto correndo é ladrão!<br />\r\n <br />\r\n<strong>7- O que você acha que falta para atingirmos uma igualdade racial?</strong><br />\r\nCom certeza seria os pretos estarem de fato e de direito em pé de igualdade em todos os matizes da Sociedade.<br />\r\n <br />\r\n<strong>8- Acredita que algum dia o racismo deixará de acontecer?</strong><br />\r\nEu tenho fé que sim!<br />\r\n <br />\r\n<strong>9- Qual mensagem final você deixa para a sociedade refletir acerca do tema?</strong><br />\r\nQue toda à população negra deste país esteja um dia de fato e de direito em todas as esferas da sociedade! Nós também ajudamos a construir este país!</p>\r\n",
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            "title": "Fabrício fala da experiência de formar tripulantes de navios de cruzeiro",
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            "content_html": "<p>A temporada brasileira de cruzeiros 2021/2022 começou no dia 5 deste mês, com a chegada do navio MSC Preziosa ao Porto de Santos. Um evento muito aguardado, já que a pandemia forçou a interrupção das atividades em março do ano passado e o cancelamento da temporada 2020/2021.<br />\r\n <br />\r\nCom a retomada, é grande o número de pessoas que buscam trabalhar como tripulantes de navios de cruzeiro. É uma oportunidade de conhecer outros países e ganhar em dólar ou euro. Mas esse serviço exige muito preparo. E foi pensando nisso que o vicentino Fabrício Brito idealizou em 2007 a criação de um curso para formar profissionais especificamente para essa área. E de lá para cá, já foram mais de 18 mil.<br />\r\n <br />\r\nEm 2020, Fabrício se viu obrigado a suspender as aulas presenciais em virtude da pandemia. Então, com a ajuda de um sócio, transferiu para o formato on-line toda a sua metodologia de ensino, baseada na experiência que adquiriu em 20 anos a bordo de navios. Assim foi criada a Deck 4, hoje considerada a maior plataforma de ensino à distância voltada para a formação de tripulantes de navios de cruzeiros.<br />\r\n <br />\r\nNas 9 perguntas desta entrevista de domingo do Portal BS9, Fabrício Brito fala sobre os desafios de um tripulante, o mercado de trabalho e o projeto social Jovens Tripulantes, voltado para formar jovens em situação de vulnerabilidade e que tem como um de seus parceiros o Instituto Neymar Jr., em Praia Grande.</p>\r\n\r\n<p><strong>1 - O que motivou você a criar uma plataforma para formar tripulantes de navios de cruzeiro?</strong><br />\r\nNa verdade, a resposta não é o que me motivou, mas quem motivou a criação de uma plataforma para formar tripulantes. Eu já realizo esse trabalho desde 2007, formando tripulantes para navios de cruzeiro. E por conta da pandemia, um grande amigo, que é um empresário bem arrojado, um cara diferenciado, à frente do nosso tempo, veio me propor a ideia de que poderíamos migrar do presencial para uma plataforma de educação à distância. Então, impulsionado pela criatividade, pela visão e pela inteligência desse meu sócio, transformamos toda a expertise do nosso trabalho de formar tripulantes de navios de cruzeiro, migramos tudo isso para o digital. Entendemos que, com o digital, nós poderíamos alcançar rapidamente mais pessoas e ainda oferecer um produto muito mais caprichado, arrojado, aos alunos de todo o mundo. A partir do momento em que estamos dentro do digital, conseguimos atingir os países de língua portuguesa e até espanhóis, já que não existe no mundo uma plataforma de educação à distância que não faz o trabalho que nós fazemos, muito segmentado.</p>\r\n\r\n<p><strong>2 - Basicamente, o que os alunos aprendem?</strong><br />\r\nOs alunos aprendem como funciona a operação de um navio em seus mais variados níveis. Os alunos aprendem como é o trabalho das mais variadas funções dentro dos departamentos que o setor de hotelaria oferece. A bordo nós temos três divisões, três setores: a ponte de comando, a casa de máquinas e o departamento de hotelaria. O departamento de hotelaria é aquele que mais oferece oportunidades de trabalho. Nele se encontram as camareiras, os bartenders, os garçons, o entretenimento, o shopping, o salão de beleza, enfim, tudo o que dá vida ao navio. Já nos departamentos técnicos, que têm a ver com formação náutica, com a Marinha, com a parte técnica de engenharia e tudo o mais, as vagas não são destinadas a brasileiros. Então, os alunos da Deck 4 aprendem tudo sobre hotelaria marítima, que é completamente diferente da hotelaria de terra. E aprendem muito sobre as competências socioemocionais. As empresas internacionais, as empresas de luxo buscam profissionais diferenciados. Então, é isso que a gente faz. É levar para essas pessoas que apostam no nosso treinamento, no nosso trabalho a sofisticação, a gentileza, a delicadeza. São valores muito apreciados na hotelaria. Então, além de toda a parte técnica que os alunos vão aprender a respeito dos setores deles, dos procedimentos sanitários, de todas as curiosidades, de toda a capacitação técnica que eles recebem, ainda trabalhamos a questão das competências socioemocionais, que são importantíssimas nos dias de hoje.</p>\r\n\r\n<p><strong>3 - Os alunos recebem algum tipo de preparo para lidar com a questão da distância de familiares e amigos?</strong><br />\r\nOs alunos recebem todo tipo de preparo para lidar com qualquer situação de conflito. Seja uma distância dos familiares, dos amigos, seja a questão de relacionamento, de assédio... tudo o que se possa imaginar a respeito de uma adaptação a um mundo novo. Sabemos que eles vão sentir saudade, que eles vão chorar, que eles vão ficar muito cansados, que vai chegar uma hora em que o trabalho vai ser estressante e que eles vão se sentir confinados, enclausurados. Tudo isso já foi pensado dentro da nossa metodologia. São conteúdos mais voltados à orientação vocacional, conteúdos preparados por psicólogos, por pessoas que trabalham a bordo há muitos anos. Foi tudo foi muito pensado desde o começo de uma maneira muito sensível. Porque você não precisa preparar só um excelente bartender, uma excelente camareira. Você tem que preparar um profissional equilibrado, que entenda as questões da saúde mental, que entenda que vai para um ambiente multicultural. Lá ele vai conhecer novas culturas, vai precisar se adaptar, mudar o pensamento dele, estar aberto e ser uma pessoa flexível para entender e fazer outras leituras das pessoas, do mundo, das situações. Então, tudo isso é muito bem pensado na criação da nossa metodologia, que já formou e mudou a vida de mais de 18 mil pessoas. Consideramos que esse seja o nosso grande diferencial. Trabalhar essa questão humana, com esse olhar mais sensível aos nossos alunos.</p>\r\n\r\n<p><strong>4 - Um dos módulos do curso é educação financeira. O fato de ganhar em dólar ou euro cria uma confusão na cabeça de um tripulante?</strong><br />\r\nNa verdade, a educação financeira não é um módulo. A educação financeira é tema de algumas aulas dentro do módulo principal, que é formação profissional do tripulante. E ali falamos de planejamento estratégico, projeto de vida, de como o aluno precisa se organizar para não ter a sensação de que está desperdiçando dinheiro. Explicamos como é a questão do ganhar em dólar e pensar em real. Nós damos uma base bastante intensiva para para que o aluno compreenda que um salário hoje em dólar pode mudar a vida dele e de toda a família se ele for disciplinado, organizado, estratégico e seguir as orientações que damos nos nossos cursos, sobretudo nessas aulas de educação financeira. Ainda sobre isso, é claro que é muito impactante para um aluno que provavelmente estava desempregado ou passou por um período complicado em terra antes de embarcar, e se vê a bordo, depois do primeiro mês, ganhando mil dólares, o que hoje no Brasil daria uma média de R$ 5.400. Então imagina para uma pessoa que não tinha perspectiva de nada, que mal conseguia um trabalho, de repente ir para um navio e começar a ganhar um salário de 5.400. É normal que ela, se não tiver preparo, se vislumbre, não entenda o que fazer com o dinheiro. Então nós nos preocupamos muito em orientá-los nesse sentido.</p>\r\n\r\n<p><strong>5 - O projeto Jovens Tripulantes é voltado para jovens em situação de vulnerabilidade. A abordagem com eles é diferente?</strong><br />\r\nA abordagem com os (alunos do) Jovens Tripulantes é bem parecida com a que usamos com todos os nossos alunos da Deck 4 também. Não tem tanta diferença. A maior diferença está no convencimento e quando levamos essa proposta às entidades parceiras, as ONGs ou às comunidades. Sobretudo pelo fato de que os jovens com mais vulnerabilidade não entendem que esse sonho, que essa realidade pode também fazer parte da vida deles. A gente tem uma juventude hoje no Brasil que, infelizmente, não tem sonhos. É muito difícil hoje um jovem refletir, parar e pensar \"eu quero ser um engenheiro, um arquiteto\". O nosso país é muito injusto, sobretudo para a nossa juventude. Quantos filhos e quantas pessoas não precisam parar os estudos para poder ajudar em casa, para poder colocar sustento nas suas mesas, ajudar seus pais? E quantas crianças, quantos jovens, nesse sentido, acabam perdendo a possibilidade de estudar? Sabemos que só a educação transforma a vida das pessoas e a nossa juventude não está tendo tempo para estudar, não está tendo condição de estudar e quando tem o ensino é muito ruim. Então, quando levamos essa proposta para as periferias, para as instituições, para as ONGs, nossos parceiros, a abordagem só é diferente na hora de convencer esse jovem, de mostrar para ele uma realidade que também pode ser dele. E demora um tempo até ele entender que está dentro do processo, que também faz parte desse jogo e que vai ter condições de mudar de vida. É um trabalho difícil, mas bastante prazeroso. Porque quando eles entendem o que significa o projeto e que isso pode, de fato, mudar completamente a vida deles, o destino deles e da família deles, aí é um trabalho alucinante, que só gera, até hoje, resultados incríveis.</p>\r\n\r\n<p><strong>6 - Para um tripulante tem muita diferença entre os cruzeiros nacionais e internacionais?</strong><br />\r\nNão existe nenhuma diferença entre cruzeiros nacionais e internacionais. Os meninos embarcam para fazer um contrato com tempo determinado. Os contratos dos tripulantes brasileiros são internacionais. Então, não existe relação alguma com a nossa CLT. São contratos regidos pela Organização Internacional do Trabalho e que passam também pela Convenção Marítima do Trabalho, de 2006. Uma convenção que foi assinada por vários países do mundo e o Brasil se tornou um dos países signatários recentemente, em março de 2021. E com isso, os nossos tripulantes passam a ser tratados e a ter todos os mesmos direitos que os de todo o mundo, de todos os países que são signatários dessa convenção.</p>\r\n\r\n<p><strong>7 - A temporada de cruzeiros teve início com protocolos sanitários mais rígidos. Os tripulantes estão sendo mais exigidos no cumprimento dessas medidas?</strong><br />\r\nOs tripulantes de navios de cruzeiro já estão muito acostumados a protocolos muito rígidos. As companhias de navios já fazem regularmente todo esse trabalho de prevenção de contaminações e doenças. O navio sempre foi um ambiente fechado, de fácil proliferação de vírus, doenças e tudo o mais, até pelo próprio sistema de ar-condicionado, pela aglomeração de pessoas. Todos esses cumprimentos de medidas, já faziam parte da rotina de um tripulante, da rotina de um navio. Então, tudo o que vem por conta do combate à Covid-19 é só mais um protocolo entre os inúmeros que sempre existiram. Sempre foi muito rígido, muito minucioso esse trabalho de vigilância sanitária, de saúde, de prevenção, de higiene a bordo dos navios. Nós temos nos nossos módulos aulas específicas de limpeza e higiene para cada setor, para cada departamento. Isso sempre foi um ponto muito forte no preparo, no treinamento e na qualificação profissional desses tripulantes de navios de cruzeiro. Então, na realidade, não houve grandes mudanças porque a gente já está acostumado a esses protocolos há muitos anos.</p>\r\n\r\n<p><strong>8 - Com essa retomada da temporada de cruzeiros, você tem notado uma procura maior por mão de obra especializada?</strong><br />\r\nA procura sempre foi grande. É claro que hoje, depois de um período de quase dois anos de estagnação, de recolhimento total dos navios, em que muitos tripulantes ficaram em casa, perderam seus empregos, com o turismo sendo uma das áreas mais afetadas por conta dessa pandemia, é natural que essa retomada seja um pouco mais frenética, animada. Mas, de fato, existe vaga o ano inteiro, a procura rola o ano todo. Porque não param de inaugurar, de desenvolver navios novos. Todo ano as mais importantes armadoras do planeta inauguram dois, três navios. A frota de navios mundial aumenta exponencialmente a cada ano. Então, a oferta de trabalho vai consecutivamente aumentar. Tem muita vaga para quem quiser, a procura não para o ano todo. Além disso, as companhias devem contratar 15% de tripulantes brasileiros para operarem legalmente em território nacional, em águas brasileiras. Isso facilita, faz com que o campo de trabalho aumente, com que a oferta seja maior. E graças a essa lei, quando, de fato, começa ou está para começar a temporada brasileira, a procura acaba sendo muito maior.<br />\r\n <br />\r\n<strong>9 - Você já trabalhou por muito tempo como tripulante e já passou por vários lugares. Qual foi a experiência mais curiosa ou inesquecível que você já viveu a bordo?</strong><br />\r\nA experiência mais incrível que eu vivi a bordo foi quando fui promovido a oficial. Eu, na época, era diretor de eventos do navio e tive a missão de organizar o primeiro fretamento do cruzeiro Emoções em Alto Mar, do Roberto Carlos, a bordo do navio MSC Preziosa. Eu tinha a responsabilidade de fazer com que aquele fretamento de três dias com o rei da música brasileira fosse um verdadeiro sucesso. Isso significa gerenciar uma equipe de quase mil pessoas. Contato com a cozinha, com a segurança, com a direção de cruzeiros, com a recepção. Eu precisava coordenar com todas as equipes do navio como seria a operação, a logística desses três dias de viagem que, naquele período, era muito importante para a companhia que eu trabalhava. Era a primeira vez que o Roberto Carlos estava fazendo um cruzeiro na nossa companhia. Nós precisávamos garantir que esse trabalho fosse realizado com excelência para que ele pudesse renovar o contrato e voltar a fretar o navio, a trabalhar conosco. E eu acho que consegui fazer um bom trabalho. A viagem foi muito boa e hoje eles seguem com a MSC Cruzeiros. De fato foi uma das experiências mais incríveis que eu vivi ao longo dos 20 anos que trabalhei a bordo.</p>\r\n",
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            "content_html": "<p>O câncer de próstata está entre as três principais doenças de câncer no homem. Ele responde por aproximadamente 33% dos cânceres masculinos. E essa taxa aumenta progressivamente com o avanço da idade. Por isso, a Sociedade Brasileira de Urologia orienta que seja feito o acompanhamento anual com urologista a partir dos 45 anos para os que têm algum fator de risco, como hereditariedade e pacientes negros, ou aos 50 anos para todos os outros homens.<br />\r\n <br />\r\nPensando nisso, o Instituto Lado a Lado pela Vida criou há 10 anos a campanha Novembro Azul, com o intuito de conscientizar todos os homens para a importância de ir ao médico urologista. Principalmente porque as chances de cura são muito maiores quando a doença é descoberta logo no início.<br />\r\n <br />\r\nO acompanhamento médico anual se torna ainda mais essencial no câncer de próstata, pois não é possível fazer o autoexame como no câncer de mama, que é uma doença tão frequente quanto o de próstata em relação à população feminina. Isso porque a próstata está em uma posição anatômica interna na pelve masculina. Então, os homens dependem de análises de toque feitas pelo médico e de um exame de sangue chamado PSA. Com o cruzamento desses dois dados é possível utilizar outras ferramentas tecnológicas, como ressonância, pet scan e biópsias para tentar confirmar quando há suspeita de câncer.<br />\r\n <br />\r\nPara falar sobre esse assunto, o Portal BS9 entrevistou o médico urologista de Santos Fábio Atz Guino, de 50 anos. Formado pela Fundação Lusíada em 1997, ele atende no Atz Day Hospital, que é um hospital de cirurgias eletivas, no qual ele realiza cirurgias de câncer de próstata, e outras patologias. Ele é também coordenador de urologia nos hospitais Ana Costa de Santos, Casa de Saúde de Praia Grande e Hospital de Cubatão.<br />\r\n <br />\r\n<strong>1- Qual a importância da campanha Novembro Azul para a saúde do homem?</strong><br />\r\nÉ uma campanha nacional e essas campanhas sempre têm o objetivo de alertar a população sobre as principais doenças que acometem nossa população e o câncer de próstata não é diferente, está entre elas. Óbvio que o homem ainda tem uma cultura social que é o provedor da família e ele na verdade não se cuida, não se faz prevenção e na maioria das vezes ele acaba tratando apenas doenças que aparecem ou quando se tornam sintomáticas. Só que o câncer de próstata tem um comportamento diferente e não permite esse tipo de conduta. Então a gente aproveita o Novembro não só para falar e abordar o câncer de próstata, mas a saúde masculina como um todo. E essa é a visão e a responsabilidade que o urologista tem que ter quando atende um paciente do sexo masculino que vem para o exame de rotina. Não só abordar, única e exclusivamente a parte do câncer de próstata, mas tantos outros assuntos importantes que podem ser diagnosticados em uma consulta de rotina.<br />\r\n <br />\r\n<strong>2- Esse tipo de câncer tem tratamento? Quais as chances de cura e do que ela depende?</strong><br />\r\nO câncer de próstata tem sim tratamento. Nós como urologistas temos que tentar estratificar esses pacientes, porque tem doenças de baixo, médio e alto risco. Definimos, também, o perfil do paciente. Porque você pode ter pacientes jovens que precisam de tratamento ou pacientes muito idosos que não necessariamente vão necessitar tratar a patologia. Como tratamento, há a cirurgia de extração da próstata, seja ela aberta, laparoscópica ou robótica. Depois, pode ser necessário passar por radioterapia, em casos de câncer localizados da próstata, ou seja, quando no diagnóstico inicial dela você determina ou preconiza que a doença está nas fases iniciais. Agora, se a doença já está localmente avançada ou metastática, quando ela progride e extravasa da próstata, os tratamentos são muitas vezes paliativos e não curativos. Hoje a oncologia caminha a passos largos para a cura e nós temos inúmeras terapias que vão tentar controlar o avanço da doença. Dentro dessas terapias, inicialmente, a gente tenta bloquear a ação de hormônios com a ação da testosterona sobre o câncer prostático, porque ele inicialmente se alimenta da testosterona e depois ele se torna refratário ao bloqueio hormonal. Então, a gente entra com quimioterapia, imunoterapia, e assim vai. Então, nós temos sempre que estratificar e escolher o melhor paciente para o melhor tratamento. As chances de cura da doença estão intimamente relacionadas à precocidade no diagnóstico. Porque quando a gente diagnostica um câncer de próstata nas fases iniciais, temos mais de 90% de cura do câncer de próstata. Já quando é diagnosticada em uma fase mais tardia, quando a doença já está um pouco mais avançada, o tratamento passa a não ser mais curativo. A chance de sobrevida do paciente acaba reduzindo, por você não conseguir atingir todos os focos de onde a doença está. Então você vai fazer um tratamento mais paliativo, e ele tem um tempo estimado de acordo com cada perfil de cada paciente.<br />\r\n <br />\r\n<strong>3- Você acredita que o exame de próstata ainda é um tabu?</strong><br />\r\nEssa questão do tabu do exame de próstata vem caindo ao longo do tempo. A gente ainda utiliza o exame de toque, que talvez seja o exame que exista mais brincadeiras, piadas e preconceito. Mas, sempre que algum paciente nos procura já vem conscientizado da importância de fazer o exame preventivo, porque a doença só se cura nessas fases iniciais. Normalmente vem estimulado pela família ou aqueles pacientes que têm realmente uma consciência muito grande da prevenção na saúde. Mas quando um amigo ou um parente adoece e ele vê o sofrimento que é perder alguém por câncer de próstata, se torna um pouco mais ativo, proativo na pesquisa e no rastreamento. E essas campanhas anuais servem para isso, uma vez que se trata de uma doença extremamente incidente na população masculina e que tem uma chance de cura. Então, a gente tem que abordar e chamar realmente os pacientes para que façam seus exames preventivos.<br />\r\n <br />\r\n<strong>4- Há algum sintoma específico para o câncer de próstata?</strong><br />\r\nO câncer de próstata não dá sintomas na fase inicial da doença. Por isso é tão importante esta campanha, que estimula os homens a procurar o exame preventivo para evitar que a doença se alastre e manifeste sintomas da doença metastática, que é a doença já quando ela não está dentro da próstata. Enquanto ela está localizada, não há sintomas clínicos para você suspeitar da doença.<br />\r\n <br />\r\n<strong>5- Agora falando um pouco sobre sua vida como médico, você sempre soube que seguiria essa carreira?</strong><br />\r\nEu descobri a medicina quando eu era criança. Mas foi uma coisa espontânea, porque eu não tenho ninguém na família que é médico. Eu me lembro, acho que foi a primeira vez que eu assisti uma cirurgia do coração quando criança nos primórdios da televisão. Eu vi aquilo e me atraiu bastante. Então, ali que eu descobri minha vocação, vamos dizer assim. Eu já estou com 50 anos e me lembro que quando vi isso eu era bem criança. Foi o primeiro instinto que eu tive, e depois eu já sabia o que eu queria e não tive muitas dúvidas, não passei por dramas de saber o que eu queria na vida.<br />\r\n <br />\r\n<strong>6- E por que você escolheu urologia pra se especializar?</strong><br />\r\nA urologia aconteceu no transcorrer da faculdade. A gente passa por praticamente todas as matérias dentro da faculdade, e teve uma colega que estava um ano na minha frente e disse que eu devia pensar em urologia. E aí eu comecei a amadurecer a ideia. Porque inicialmente eu queria fazer cirurgia oncológica, que é para tratar de câncer. Mas, ao longo do tempo, eu fui percebendo que a urologia me possibilitaria também tratar de câncer. Tanto que o câncer de próstata é uma das principais doenças oncológicas, e ela acaba ficando na mão do urologista hoje. E é uma especialidade que me possibilita atender ambos os sexos. Apesar de algumas pessoas acharem que o urologista é o médico do homem, assim como o ginecologista é o da mulher, isso não é verdade. Atendemos homens, mulheres, crianças, adultos, jovens, idosos, então ela te dá um amplo campo de trabalho. E a parte cirúrgica é muito forte, que é o que eu gosto de fazer.<br />\r\n <br />\r\n<strong>7- E quais são os maiores desafios que você enxerga nessa profissão?</strong><br />\r\nEu acho que o maior desafio é a técnica. Além disso, é compreender realmente o paciente e ser um profissional humano. A humanização na medicina é muito importante. Você se sensibiliza a vida inteira, independente da faixa etária que a gente tenha, independente do tempo de profissão, eu acho que o mais importante é entender e ter a empatia do paciente. Entender aquilo que o paciente está esperando de você. Que ele está depositando toda a confiança naquilo que você pode ajudá-lo. E muitas vezes a gente não consegue curar, mas a gente consegue amenizar o sofrimento. Então eu acho que o maior desafio é a parte psicológica da medicina, que acho que nem todo mundo consegue compreender e lidar com isso.<br />\r\n<strong> <br />\r\n8- Ao longo dos seus 24 anos de profissão, acha que os casos de câncer de próstata aumentaram?</strong><br />\r\nO que acontece é que a população envelheceu. E o câncer de próstata é uma doença, assim como outros tipos de câncer, que acomete em maior incidência indivíduos de idade mais  avançada. E as campanhas, como o Novembro Azul, junto com o acesso à informação e tratamento médico fazem com que se aumente o nível de detecção. Porque se você não pesquisa, não acha. À medida que você começa a procurar e fazer seu check up, você acaba detectando mais. Então eu acho que esse é o principal motivo. Não é que passamos a ter mais câncer. Eu acho que passamos a envelhecer mais, a viver mais e a detectar mais câncer.<br />\r\n<strong> <br />\r\n9- Qual mensagem você deixaria para os nossos leitores homens sobre o assunto?</strong><br />\r\nAcho que a mensagem mais importante que fica é realmente o alerta da alta incidência e prevalência dessa doença na população masculina. Houve uma época que esse exame foi desestimulado, por simplesmente acharem que o tratamento trazia mais danos do que a própria doença. Isso se provou ineficaz porque aumentou muito a mortalidade quando se tentou fazer apenas o tratamento quando os sintomas apareciam, sendo que a gente já havia conseguido um controle melhor da mortalidade pelo câncer de próstata. Essa decisão de tratar ou não e em que fase tratar precisa ser esmiuçado e detalhado, cabendo ao médico urologista que está acompanhando o caso passar os detalhes e as decisões do tratamento. Acho que o mais importante é fazer a sua prevenção e buscar uma vida saudável.</p>\r\n",
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Neste ano, em meio ao pico da pandemia, a Ecovias deixou de implantar a Operação Descida no Sistema Anchieta-Imigrantes, numa tentativa de desencorajar moradores da Capital e do Interior de virem para a Baixada.<br />\r\n <br />\r\nMas agora o turismo parece dar sinais de recuperação. As estradas têm registrado um movimento grande de veículos nos últimos feriadões. E mesmo a recente decisão de algumas prefeituras de não realizar queima de fogos na praia não deverá afugentar os turistas.<br />\r\n <br />\r\nÉ sobre esse clima positivo e os próximos desafios para o setor que fala o presidente da Associação dos Profissionais de Turismo da Baixada Santista, Eduardo Silveira, nas 9 perguntas da Entrevista de Domingo para o Portal BS9.<br />\r\n <br />\r\n<strong>1 - Temos visto uma retomada gradual de vários setores. O senhor acha que o pior já passou?</strong><br />\r\nSim. Passados quase dois anos de pandemia, nós podemos dizer que já temos mais “passado com ela” do que “futuro”. O mundo todo está retomando as atividades. É claro que algumas coisas jamais voltaram a ser como antes, pois muitos desses protocolos sanitários vão estar na nossa vida e nas empresas e comércios.<br />\r\n <br />\r\n<strong>2 - Quais são os desafios que o senhor considera primordiais para o setor a partir de agora? </strong><br />\r\nO setor de turismo já passou por grandes tragédias mundiais: guerras; problemas climáticos; terremoto; furação e até o terrorismo, com a queda das torres gêmeas nos Estados Unidos. A questão é que muitos desses eventos foram pontuais, num local ou região. Isso permitia que o fluxo de viagens fosse direcionado para outros destinos. O turismo tem essa capacidade de adaptação e de correção de rota. É claro que, com a pandemia, o mundo todo parou. E isso, mais uma vez, serviu para que as pessoas voltassem a “desejar viajar com mais intensidade, para viver novas experiências”. E é nesse contexto e com essa trilha que o segmento está retomando, proporcionando novidades.<br />\r\n <br />\r\n<strong>3 - Os feriadões de setembro para cá já registraram um grande número de turistas se deslocando para o Litoral. As cidades da Baixada já estão preparados para receber tanta gente?</strong><br />\r\nSantos e todas as cidades da Baixada Santista fizeram a sua lição de casa nessa pandemia. O que comprova isso são os números de vacinados que nossa região vem registrando. São questões como essa que os turistas do pós-pandemia também analisam para decidir o local de suas férias. Por isso eu tenho a convicção de que teremos uma temporada de muito sucesso e com segurança para todos. Toda a hotelaria e seus profissionais estão preparados para essa retomada.<br />\r\n <br />\r\n<strong>4 - O senhor já tem alguma expectativa para as festas de fim de ano?</strong><br />\r\nApesar de alguns impactos nas viagens para fora do Brasil, eu acredito que esse destino ainda será muito procurado pelos brasileiros. Entre eles temos os Estados Unidos e a Europa. É importante lembrar que há um número expressivo de turistas que tiverem o seu sonho de realizar uma viagem interrompido por causa da pandemia. Por isso, essas pessoas vão usar parte dos créditos das viagens adiadas para contratar novas viagens.<br />\r\n <br />\r\n<strong>5 - A pandemia provocou demissões e o fechamento de muitos comércios. O senhor vislumbra uma recuperação do setor, pelo menos a médio prazo? Ou vai demorar para reparar o estrago?</strong><br />\r\nQuando falamos de um modo em geral sobre o segmento de turismo é importante destacar que temos mais de 50 atividades, destacando o setor da hotelaria, das agências de viagens e operadoras, dos eventos, o setor gastronômico e toda a área cultural e de entretenimento. O impacto no turismo foi imenso. Afinal, tudo que está relacionado ao turismo implica na necessidade de termos um grupo de pessoas e o deslocamento deles. Por isso, nós não falamos em “recuperar o que deixou de ser realizado”. Todo o turismo fez sua lição de casa, fez cortes, enxugou ao máximo os custos para manter o padrão que os clientes esperam com os novos protocolos sanitários. Mas, todos nós estamos muito otimistas de que vamos ter um crescimento gradual, para que neste novo momento possamos retomar os postos de trabalho que foram fechados e recontratar muitos desses profissionais.<br />\r\n <br />\r\n<strong>6 - O senhor deve ter ouvido muitas críticas por parte de profissionais do setor por fazer com que as medidas restritivas fossem cumpridas. Como foi lidar com isso?</strong><br />\r\nAo contrário. O segmento de turismo foi o primeiro a defender a implantação dos protocolos sanitários. Mais do que realizar sonhos, o turismo cuida do ser humano, da pessoa. É para ela e por ele que existimos como atividade. É importante destacar que muitos protocolos sanitários sempre existiram, principalmente na hotelaria, na gastronomia, na aviação, dentre outros. O que as entidades que representam os profissionais fizeram foi adaptar o nosso dia a dia e até sugerir a adoção e criação de medidas de sanitização e segurança para a retomada do setor. Nosso setor é um segmento muito participativo. <br />\r\n <br />\r\n<strong>7 - De que forma a alta dos preços impacta o turismo?</strong><br />\r\nComo todo o comércio e a indústria, o setor de serviços acompanha o impacto do aumento dos preços e, por consequência, do câmbio, do preço da energia elétrica e da água.<br />\r\n <br />\r\n<strong>8 - O senhor acha que há uma demanda de mão-de-obra especializada na Baixada?</strong><br />\r\nA Baixada Santista é um polo muito importante de formação de profissionais para o turismo, em diversas áreas. Infelizmente, notamos uma queda na formação acadêmica de alguns setores e alta em outros, como por exemplo na gastronomia e na formação de profissionais para trabalhar a bordo dos navios de passageiros. Na rede hoteleira, há muitos profissionais formados em Santos.<br />\r\n <br />\r\n<strong>9 - E como o senhor tem visto o debate sobre uma ligação seca entre Santos e Guarujá? O senhor tem alguma preferência?</strong><br />\r\nEssa é uma questão que se arrasta há pleno menos uns 30 anos, se não for mais. De lá para cá já houve muitas mudanças, como por exemplo: novos modelos de navios de carga cada vez maiores e de passageiros. Então, essa questão precisa ser definida pelo ponto de vista técnico e das necessidades das cidades envolvidas. Até o presente momento, tudo leva a crer que essa obra será realizada com o projeto de um túnel, ligando, inclusive, outros meios de modal e integrando o VLT. Toda obra que gere um valor e que seu impacto seja positivo deve ser realizada sempre com o objetivo de promover o crescimento e desenvolvimento econômico para sua população.<br />\r\n </p>\r\n",
            "summary": "Falar do quanto a pandemia de Covid-19 atingiu um determinado setor já se tornou algo repetitivo. Todos sentiram, pelo menos, algum impacto. Mas o turismo, certamente, foi um dos que sofreram o maior...",
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            "title": "Léo Baptistão fala da atual fase do Santos e do sonho em ser campeão pelo clube",
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            "content_html": "<p>Não foi preciso muito para Léo Baptistão aceitar a proposta do Santos Futebol Clube e se tornar o novo camisa 9 do time. Santista de berço e com a família toda morando da cidade, aceitou de imediato a chance de jogar pelo clube que torce e assim ficar mais perto da família e dos amigos, que sentiu tanta falta desde que foi para a Europa.<br />\r\n <br />\r\nE foi bastante tempo fora. Baptistão foi para o Velho Continente com apenas 16 anos, quando se mudou para a Espanha e se juntou às categorias de base do Rayo Vallecano. Por lá, teve uma adaptação muito boa graças a um treinador que foi essencial para sua formação, chamado Diego Montoya.<br />\r\n <br />\r\nEle colocava vídeos para o atacante assistir, ensinando muito sobre a parte tática do esporte e ainda a jogar no campo, já que a experiência que ele tinha era no futsal. Então sua adaptação foi boa muito por conta dessa ajuda que recebeu logo que chegou.<br />\r\n <br />\r\nBaptistão ficou no time até 2013, quando assinou contrato com o Atlético de Madrid. Além disso, passou pelo Real Betis, Espanyol, e pelo clube chinês Wuhan Zall. Segundo o jogador, uma experiência incrível que lhe proporcionou conhecer uma cultura totalmente diferente de tudo que já tinha vivido, além de um outro estilo de jogo.<br />\r\n <br />\r\nParticipando de grandes jogos, enfrentando grandes jogadores, nunca perdeu sua inspiração nos ídolos Neymar, do qual é muito amigo, e Ronaldo Fenômeno, considerado por muitos o maior camisa 9 de todos os tempos.<br />\r\n <br />\r\nO jogador foi anunciado como reforço do Santos Futebol Clube no dia 21 de agosto, assinando contrato até o fim de 2023. Com uma rotina intensa de treinos e jogos, chega ao clube com um grande sonho: conquistar um título com o time.<br />\r\n <br />\r\nNesta Entrevista de Domingo, além de falar sobre a estreia e o momento difícil que o time da Vila Belmiro se encontra, ele também contou como foi enfrentar jogadores como Messi e Cristiano Ronaldo, e também sobre a sensação de voltar para casa.<br />\r\n <br />\r\n<strong>1 - Na sua apresentação no Santos Futebol Clube, o Neymar fez uma chamada de vídeo e comemorou muito sua chegada ao time. Como é sua relação com ele?</strong><br />\r\nO Ney é um cara incrível tanto dentro quanto fora de campo. Jogamos juntos na base da Portuguesa Santista e também do Santos e temos uma relação muito boa desde então. Ele foi mais uma pessoa que ficou bem feliz com minha vinda pro Santos e isso me deixa ainda mais feliz. Temos uma amizade muito saudável e gosto demais dele.<br />\r\n <br />\r\n<strong>2 - Sua estreia aconteceu no jogo contra o Cuiabá, no qual o Santos perdeu por 2 a 1. Como foi esse jogo pra você? Estava muito ansioso para entrar em campo?</strong><br />\r\nEstava com muita vontade de jogar. Era um jogo importante, a gente estava em uma situação difícil e estava louco para estrear. Mas, não estava realmente 100% para fazer o jogo, porque tinha acabado de chegar e estava há muito tempo parado. Mesmo assim, eu me esforcei ao máximo para tentar ajudar o time da melhora maneira possível.<br />\r\n <br />\r\n<strong>3 - Esse foi justamente o último jogo do técnico Fernando Diniz no comando do time. Como você viu a chegada do Carille e quais foram as principais mudanças que você sentiu com a chegada dele?</strong><br />\r\nO professor Diniz foi uma peça muito importante na minha vinda para o Santos. Eu queria muito trabalhar com ele. Acho que a ideia dele de futebol é muito boa, colocando a bola sempre mais para a frente. Mas o professor Carille chegou mostrando para que veio. Ele sabe muito de futebol. É um cara muito bom e está sempre presente com os jogadores. Conversamos bastante entre nós e já conseguimos perceber uma mudança boa no time, que já começou a dar resultado. Por isso, eu e todos do elenco estamos muito felizes com a vinda dele.<br />\r\n <br />\r\n<strong>4 - O Santos se encontra na 15ª colocação do campeonato com 29 pontos conquistados e segue ameaçado pelo rebaixamento. Como está o ambiente do time em relação a isso e como você enxerga esse momento da equipe?</strong><br />\r\nNós sabemos da situação atual do clube, que estamos em uma posição ruim na tabela, mas nós jogadores e a comissão técnica somos os primeiros a querer dar a volta por cima. Não estamos felizes com essa situação. Não estamos bem, mas queremos dar o nosso melhor. E, apesar de tudo, a gente está com o grupo bem unido, e isso é muito importante. Nós sabemos o que deve ser feito para melhorar, por isso estamos treinando bastante, trabalhando muito duro e, com certeza, a gente vai terminar bem o campeonato.<br />\r\n <br />\r\n<strong>5 - Você já esteve em campo em sete jogos pelo Santos, todos como titular, e ainda não marcou nenhum gol. O que você acha que está te atrapalhando para balançar as redes: a fase do time, a adaptação vindo da Europa, a ansiedade em marcar o primeiro gol, ou alguma outra situação?</strong><br />\r\nEu acho que o gol é algo natural. Quando a gente trabalha bem e está determinado, ele sai quando você menos espera. Estou fazendo de tudo para ajudar o time. Na situação que nos encontramos, pouco importa quem vai fazer o gol. Só queremos e precisamos ganhar o jogo. Então, quem conseguir fazer o gol e ajudar o time, a gente fica feliz. Não é algo que me preocupa ainda. Não estou 100%, principalmente agora que eu me machuquei no jogo contra o Atlético-MG. Agora é preciso ter paciência nessa recuperação e voltar bem.<br />\r\n <br />\r\n<strong>6 - Como foi a experiência na Europa e o que você traz disso para contribuir com a equipe santista?</strong><br />\r\nEu posso dizer que a maior experiência que tive na Europa foi a disciplina tática. Lá o pessoal é muito disciplinado. Os treinadores estrangeiros falam que o jogador brasileiro só sabe jogar com a bola e não tem muita tática. E por isso, nesse aspecto, sinto que é algo que eu venho contribuindo com o Santos. Tento sempre dar alguns toques nos mais novos. E também busco passar tranquilidade com minha experiência, mostrando que ninguém pode jogar individualmente. O futebol precisa ser um jogo coletivo, principalmente para poder sair de uma situação na qual estamos. E jogar assim é o que está fazendo o Santos melhorar, levando em conta a união que temos como jogadores.<br />\r\n <br />\r\n<strong>7 - Você estava na Espanha em dois grandes momentos do futebol: quando o Barcelona de Messi encantou o mundo, e quando o Real Madrid de Cristiano Ronaldo conquistou tudo e mais um pouco. Como era jogar contra esses craques?</strong><br />\r\nAcabei tendo mais experiências contra o Barcelona que, na minha opinião, foi o melhor Barcelona de todos os tempos. Joguei contra o time do Guardiola, depois o trio MSN, com Messi, Suárez e Neymar jogando no auge, e era um desafio enorme jogar contra eles. Mesmo sabendo a dificuldade, eram jogos que todos queriam participar, ninguém queria ficar de fora. Já o Real Madrid era um time que te deixava mais com a bola e isso te dava uma segurança. Dava a sensação de que podia ganhar o jogo a cada momento. No geral, somando tudo, foram duas experiências incríveis.<br />\r\n <br />\r\n<strong>8 - Mesmo passando as férias em Santos, qual a sensação agora de voltar de vez para casa sem ter que ir embora?</strong><br />\r\nEstou muito feliz. O clima da cidade é incrível e gosto muito daqui. Já sabia como Santos estava se modernizando mas estar de volta é muito bom. Gosto de sair com meus amigos, sair pra jantar, ir na praia jogar futevôlei. Tenho meu apartamento aqui e tudo o que mais senti mais falta quando eu fui embora: minha família. Estar juntos deles, participar dos almoços de domingo, das saídas nos finais de semana e das resenhas com todos eles é bom demais. Senti muita falta de tudo isso enquanto estive fora. Agora é aproveitar essa nova fase da minha vida.<br />\r\n<strong> <br />\r\n9 - E quais são seus planos?</strong><br />\r\nNão costumo pensar muito no futuro, porque ele é muito incerto. Gosto de pensar no presente. Então, no momento, só quero me recuperar bem dessa lesão, que, por ter sido na panturrilha, acaba sendo uma recuperação chata. É um músculo que o jogador utiliza muito e a previsão de recuperação é de mais de um mês. E quero, claro, que o Santos fique bem no campeonato e que a gente dê muita alegria para a torcida. Eu, como jogador e torcedor do time, também quero ter essa alegria. Esses são meus planos agora. Mais pra frente devo mudar de opinião e querer outras coisas maiores, com mais ambição.</p>\r\n",
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            "content_html": "<p>Sempre que se fala em segurança pública, pensa-se primeiramente no combate ao crime em áreas urbanas. Mas uma região portuária e com abundância de animais marinhos, como a Baixada Santista, requer também um policiamento náutico mais ostensivo. E foi para atender a essa demanda que há exatos oito anos, no dia 17 de outubro de 2013, foi criada a 5ª Companhia de Polícia Militar Ambiental Marítima de São Paulo, também conhecida como CiaMar.<br />\r\n <br />\r\nEssa unidade, subordinada ao 3º Batalhão de Policiamento Ambiental, tem como principais atribuições a prevenção e o combate aos crimes cometidos com uso de embarcações, a chamada pirataria, a fiscalização da exploração dos recursos pesqueiros e da exploração ambiental da zona costeira. Tudo isso em uma área de cobertura bem extensa. São 14 mil km2 do Oceano Atlântico, ao longo dos 622 km de costa do Estado de São Paulo, desde a divisa com o Rio de Janeiro até o limite com o Paraná, além do Parque Estadual Marinho Laje de Santos, que fica a cerca de 44 km da costa.<br />\r\n <br />\r\nNos últimos anos, a ação da CiaMar vem ganhando destaque pelo volume de apreensões de animais marinhos pescados de forma ilegal, assim como redes e outros petrechos. Em agosto, o Portal BS9 pediu à corporação um levantamento desses números apenas na zona costeira da Baixada Santista. Só de redes de pesca haviam sido recolhidas 147 (esse número já aumentou). Mesmo assim, a quantidade era maior do que as 122 apreendidas em todo o ano de 2020.<br />\r\n <br />\r\nNesta Entrevista de Domingo, o comandante da CiaMar, capitão Fernando Burgos Garcia, falou um pouco sobre o combate à pesca ilegal e a ação social da corporação de destinar os pescados apreendidos a instituições filantrópicas das cidades do Litoral. Abordou também outras questões ambientais, como a crescente aparição de baleias na região e o volume de lixo no mar, nas praias e nos mangues.<br />\r\n <br />\r\n<strong>1 - A CiaMar completa oito anos de atividades em outubro. O que houve de avanços de lá para cá?</strong><br />\r\nRealmente, fazemos parte desta data comemorativa e muito nos orgulha pertencer à Polícia Militar Ambiental Marítima. Com excelentes resultados e grande evolução operacional, esta unidade especializada de polícia, a 5ª Companhia do 3º Batalhão de Policiamento Ambiental, comemora seu aniversário e seus avanços são percebidos por todo efetivo e pela população paulista. Os comandantes que por aqui passaram deixaram seu legado. São anos avançando em treinamento especial nas diversas áreas do conhecimento humano, sobretudo no ambiente marítimo. Importante citar a melhoria de meios de trabalho, como reforma e aquisições de embarcações com novas motorizações, equipamentos de segurança, navegação com mais tecnologia, atividades de inteligência e equipamentos empregados em todo o processo de polícia, entregando um serviço de excelência à sociedade.<br />\r\n <br />\r\n<strong>2 - E qual, na sua opinião, tem sido o grande desafio da corporação?</strong><br />\r\nOs desafios da nossa unidade são os mesmos desafios de todas as forças de segurança: entregar ao cidadão de bem um serviço cada vez melhor, cada vez mais técnico e profissional, de qualidade, promovendo a proteção social. Mais especificamente para nós, entregar esse serviço para o bom pescador, aquele que pesca corretamente, seguindo toda legislação pesqueira e demais normas vigentes. Que pesca com consciência, que clama por uma fiscalização ao mau pescador, aquele que pratica a pesca ilegal e/ou predatória, sem a carteira de pescador, sem licença da embarcação, com petrecho não permitido, em local proibido, espécies ameaçadas de extinção, no defeso etc.. Esse é o nosso grande desafio, lutando diariamente para preservação dos recursos naturais para as presentes e futuras gerações, como traz nossa constituição federal.<br />\r\n<strong> <br />\r\n3 - Este ano já foram apreendidos 270 redes e 50 km de petrechos em todo o Litoral. É mais do que o total do ano passado. A fiscalização aumentou ou tem mais gente praticando pesca ilegal?</strong><br />\r\nCom relação às apreensões, vou até atualizar os números aos leitores. De janeiro a setembro deste ano, apreendemos e doamos 87 toneladas de pescado, 303 redes de pesca, equivalendo a 53 km de extensão e mais de 500 outros petrechos de pesca. Realmente aumentamos significativamente os números em relação ao mesmo período do ano passado. Inclusive, em relação às redes de pesca, já é maior que todo o ano de 2020 e o pescado apreendido segue para o mesmo resultado. Não serei leviano em afirmar que aumentou a pesca ilegal, mas posso afirmar que estamos realizando um trabalho bem forte no planejamento das nossas ações de policia e fiscalização de pesca, saturando locais de grande interesse pesqueiro, unidades de conservação, realizando Policiamento Ostensivo e Preventivo Náutico diuturno em todo litoral. As atividades DEJEM (Diária Especial por Jornada Extraordinária de Trabalho Policial Militar) em unidades de conservação têm aumentado nosso efetivo diariamente na água. E isso reflete na quantidade de flagrantes de pesca, sejam infrações administrativas ou crimes ambientais, e, consequentemente, no número de apreensões. Então, o que posso afirmar é que nosso trabalho está sendo feito com maestria, com policiais comprometidos com a causa ambiental, nos desdobrando para manter nossas embarcações e viaturas quatro rodas funcionando, em prol da coletividade.<br />\r\n <br />\r\n<strong>4 - Pescadores artesanais se queixam de que há muitas limitações para a pesca de peixes de superfície com rede de emalhe. Segundo eles, isso criminaliza uma tradição caiçara. Como o senhor vê essa questão?</strong><br />\r\nCom relação a essa questão, não sou uma autoridade técnica a ponto de dar algum parecer referente aos diversos tipos de redes e métodos de pesca para afirmar se há efetividade ou não nas restrições impostas nas legislações pesqueiras, que são elaboradas após longos estudos técnicos por parte de grupos de especialistas, órgãos correlatos, comunidades pesqueiras, etc.. Como é o caso recente da suspensão temporária dos artigos 2° e 3º da Instrução normativa 166, que proibia a utilização da rede de superfície, cabendo à policia a fiscalização e cumprimento das normas estabelecidas. Posso afirmar que nosso efetivo presencia diuturnamente nas águas, bem como em reuniões, fóruns e demais participações em políticas públicas, o esforço de Estado em ajudar os pescadores artesanais. Percebemos que juízes, promotores, cientistas, instituto de pesca e outros estão indo até estes pescadores, ouvindo esses trabalhadores, principalmente as comunidades caiçaras, fazendo um bom trabalho de base, entendendo a real necessidade, buscando uma solução por parte do Estado, para que todos sejam ajudados, respeitando as leis ambientais.<br />\r\n <br />\r\n<strong>5 - Uma ação bacana da CiaMar é de destinar os pescados apreendidos a entidades beneficentes. Desde quando isso vem sendo feito? Existe algum critério na escolha das instituições?</strong><br />\r\nRealmente é algo bem legal para as pessoas que estão recebendo, sejam famílias carentes, abrigadas, em situação de vulnerabilidade ou até de situação de rua, assistidos pelos Fundos Sociais de Solidariedade dos municípios ou as mais diversas instituições filantrópicas de todo o litoral de São Paulo. As doações são realizadas desde as primeiras fiscalizações e apreensões de pesca realizadas no Estado, sendo uma ação regulamentar, prevista e amparada legalmente. As doações são feitas prioritariamente aos Fundos Sociais. Porém, nem sempre os mesmos estão disponíveis para retirar o pescado, ou por falta de veículo, local para armazenar, etc.. Neste caso iniciam-se os contatos em lista de instituições devidamente cadastradas, mantendo um rodízio entre as entidades, com o intuito de beneficiar a todos por igual, dependendo da região, quantidade de pescado, horário, e outros. Com as doações, conseguimos inclusive sensibilizar o pescador infrator, que entende que cometeu uma falha, e, claro, será punido conforme a legislação vigente, mas que vê ali o fruto da pesca ilegal, irregular ou predatória, alimentando em alguns casos, até milhares de famílias. Lembro de uma ocorrência de pesca irregular em Guarujá, na época de Páscoa deste ano, onde 18 toneladas de peixes foram apreendidos e doados, onde muitas pessoas carentes recebiam sua parcela de pescado chorando e agradecendo, pois não tinham o que dar aos seus filhos naquele dia. Já tivemos ocorrências com 60 toneladas de pescado, que foram doados em uma ação complexa que perdurou por dois dias. Mas é muito gratificante ver o resultado final, os relatos, os agradecimentos, fazendo assim o papel social da instituição.<br />\r\n <br />\r\n<strong>6 - Neste ano temos visto uma grande quantidade de baleias na Baixada Santista. Em julho, inclusive, a CiaMar teve de escoltar uma jubarte que havia entrado no canal do Porto de Santos. Essa é uma questão que preocupa o senhor?</strong><br />\r\nAcredito que isso seja uma preocupação de todos. Nós nos preocupamos e temos uma admiração pelos cetáceos, sobretudo as grandes baleias. Nossa preocupação é em relação a acidentes com navios e demais embarcações no canal do Porto de Santos, navegadores, desportistas e banhistas ao longo da costeira e praias, devido ao grande tamanho destes animais, podendo resultar em acidentes graves e até fatais. Outra preocupação é com relação com o bem estar do animal, que além de se ferir em hélices de embarcações ou abalroamento, pode ainda se enroscar em redes de pesca. Como foi o caso da baleia jubarte adulta emalhada em um quilômetro de rede de pesca armada no interior do Parque Estadual Xixová-Japuí, em Praia Grande, em 22 de julho deste ano, ocorrência inédita até então na história da Polícia Militar do Estado de São Paulo. Nossa equipe conseguiu, após uma hora de esforços, desemalhar a baleia, utilizando técnicas adquiridas em treinamentos constantes. Cabe ressaltar que existe legislação específica para preservar o bem estar destes animais em seu habitat natural, incorrendo em crime ambiental quem molestar cetáceos. Esta é outra preocupação nossa. Sempre que recebemos relatos de avistamento de cetáceos, nossas equipes se deslocam para garantir que as embarcações estão seguindo as normas de interação com cetáceos, orientando quanto às diversas restrições, principalmente quanto ao distanciamento mínimo deste animais.<br />\r\n <br />\r\n<strong>7 - A PM Ambiental Marítima participa de várias ações de limpeza de praias e do mar. O senhor tem notado um aumento da quantidade de lixo nesses lugares?</strong><br />\r\nO que nós percebemos é que temos uma região com muitas comunidades subdesenvolvidas no entorno da Ilha de São Vicente e da Ilha de Santo Amaro, com moradias em palafitas, sem o mínimo de saneamento básico. Consecutivamente, há o descarte irregular de resíduos residenciais, que posterior se acumula em alguns pontos de toda a Baixada Santista, principalmente em manguezais, locais estes que fiscalizamos diariamente com vistas à preservação daquele bioma, sobretudo do caranguejo-uçá. O lixo descartado irregularmente também se acumula em praias e costões rochosos, locais de difícil acesso, fora o que segue pelo oceano, como é o caso do plástico, o grande vilão da fauna marinha, causando a mortandade de várias espécies que, ao se alimentar, confundem este resíduo com algas marinhas. O meio ambiente, seja no mar ou na terra, é como nossa casa. Temos que manter limpo, e isso é um trabalho de conscientização diário muito dificultoso. Todo resíduo no meio aquático afeta também na qualidade da pesca. Se você perguntar para qualquer pescador ele vai confirmar que há muito lixo, a cada arrasto de rede, sempre virá resíduo junto e isso reflete diretamente no que consumimos. Um grande amigo meu, o doutor Camilo Seabra, biólogo, é um grande estudioso na questão de lixo no mar, e é de se surpreender com a quantidade de drogas e fármacos encontrados nos oceanos.<br />\r\n <br />\r\n<strong>8 - A CiaMar também atua no combate aos piratas que atuam tanto no Porto como no ataque a tripulações de embarcações de pequeno porte. Tem havido muitas ocorrências na região da Baixada Santista?</strong><br />\r\nA prevenção é nossa função constitucional e trabalhamos forte nisso, coibindo novos ilícitos por água, tendo excelentes resultados. Os crimes por água, em específico os roubos, a chamada pirataria, são muito sazonais. Porém, é notória sim a diminuição destes crimes nos últimos anos, seja de embarcações, motores, aparelhos de navegação, pertences dos tripulantes etc. desde a criação desta modalidade de policiamento náutico, a criação da Polícia Marítima de São Paulo em 2013. Mesmo quando ocorrem, conseguimos dar uma resposta em um curto espaço de tempo, recuperando o bem furtado ou roubado, localizando os criminosos, apoiando as vítimas em situação de risco após os crimes. Já houve alguns casos em que os criminosos jogaram as vítimas na água, alguns inclusive sem os coletes salva-vidas. Mas com a ação rápida do nosso efetivo na água, temos sempre desfechos positivos, auxiliando inclusive a desincentivar novos ilícitos na água. Outro fato que corrobora para a diminuição da pirataria são as inúmeras operações em conjunto com as forças de segurança federal, como a Marinha do Brasil, através do Comando do Grupamento de Patrulha Naval do Sul-Sudeste, da Polícia Federal, por meio do Núcleo Especial de Polícia Marítima, da Receita Federal, com efetivo da Divisão de Repressão da Alfândega de Santos e demais órgãos. Isso tudo só comprova a efetividade do serviço executado por nós e a necessidade de dar continuidade investindo em melhorias em prol da população.<br />\r\n<strong> <br />\r\n9 - O senhor já tem anos de experiência. Tem algum caso específico que o senhor considera marcante?</strong><br />\r\nRealmente, já são 18 anos na corporação, muitos cursos e estudos relacionados ao meio náutico e recentemente no comandamento desta unidade especializada em policiamento marítimo, que conta com ocorrências das mais diversas naturezas e cada uma mais marcante que a outra. Claro, há as ocorrências atípicas que acabam marcando, como a já citada inédita soltura da baleia emalhada em rede de pesca, que acaba marcando não só a história desta companhia como todo efetivo, aliado ao fato do envolvimento emocional de toda sociedade que acompanhou a ação. Com frequência nos deparamos com outros animais enroscados ou debilitados, e cada soltura ou resgate é sempre marcante. Há as ocorrências criminais, recuperando o bem subtraído da vítima, e vemos nos olhos da pessoa a alegria de receber de volta algo que conquistou com muito custo. Grandes apreensões, entorpecentes, armas, procurados da justiça, retirando criminosos do convívio da sociedade, também são marcantes. Apoios às embarcações em temporais, panes, à deriva, naufrágios etc. são sempre ocorrências complexas que podem durar dias de buscas. E é levado a sério qualquer pedido de ajuda que chega até nós. Outro fato inédito na unidade foi o resgate de um homem que caiu de paramotor em área de mangue, às margens do canal de Bertioga. Ou seja, cada apoio, cada resgate, cada salvamento, cada ação nossa que resulte em salvar vidas fica marcado em cada um de nossos policiais, isso eu posso garantir.</p>\r\n",
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            "title": "\"Não existe mais segurança em São Paulo e o governo prioriza o marketing\"",
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            "content_html": "<p>Raquel Kobashi Gallinati nasceu em Niterói (RJ), mas veio para Santos aos 2 anos de idade, em razão da transferência do pai, que era da Marinha Mercante. A família vive até hoje na cidade.</p>\r\n\r\n<p>Aos 18, foi cursar Direito na Universidade Mackenzie, em São Paulo. Chegou a atuar como advogada, mas manteve foco nos estudos para o concurso de delegada. Passou em 2012. Atuou em regiões periféricas da Capital, como Ponte Rasa, Vila Maria e Lajeado, além da Vila Clementino. Até que encarou as eleições para o Sindicato dos Delegados de Polícia de São Paulo em 2016 e venceu.</p>\r\n\r\n<p>Hoje, aos 45 anos, está no segundo mandato como presidente, que termina em 2022. Neste ano, também foi nomeada diretora nacional da Adepol do Brasil, a Associação dos Delegados de Polícia do Brasil. Voz não somente das mulheres – 17% de todo o efetivo – dentro do sindicato, Raquel é uma crítica ferrenha do governador João Doria (PSDB). “Ele tem uma política de segurança muito marqueteira, populista e sem efetividade”. Diz que faltam policiais nas ruas – o déficit é de 15 mil -, equipamentos, prédios com condições mínimas para abrigar delegacias, salários justos. Além disso, aponta a falta de investimentos na Polícia Civil como uma das causas do aumento da criminalidade, que tanto preocupa e apavora a sociedade.</p>\r\n\r\n<p>Para ela, os dois casos recentes de latrocínio em Itanhaém em uma semana reforçam o descaso do governo do Estado no combate à criminalidade.</p>\r\n\r\n<p>Nesta entrevista, concedida em visita de Raquel Gallinati à redação do Portal BS9, ela também fala sobre outro combate necessário: ao machismo, que enfrentou assim que assumiu o comando do sindicato – a primeira mulher a ocupar esse posto. <br />\r\n <br />\r\n<strong>1- Quando a senhora assumiu como delegada, em 2012, quais eram os desafios na época para uma mulher? E mudou o cenário hoje?</strong><br />\r\nQuando assumi como delegada de polícia eu via mais os problemas e as mazelas estruturais da polícia. O machismo, esse problema estrutural, ainda mais em um ambiente predominado por homens, eu só fui perceber mesmo quando assumi como presidente do sindicato. Como delegada atuando na ponta, na periferia, sem interferência em gestão, eu não percebi nada. Até porque está na estrutura hierárquica que o delegado comanda a equipe. Fui notar o preconceito a partir do momento em que estava representando todos os delegados de polícia. Aí me vi questionada, sabatinada, tinha minhas posições colocadas em xeque o tempo todo. Duvidada e subestimada. Era como se eu tivesse que passar por uma sabatina oral de cinco em cinco minutos para ser merecedora de estar ali representando os delegados. Inclusive por delegadas também, porque muitas vezes o machismo vem da própria mulher, que menospreza, subestima, espera o erro da outra. Qualquer erro que eu tivesse seria extremamente ampliado, superlativo, perto dos erros de outras pessoas ou outros homens. </p>\r\n\r\n<p>\"Muitas vezes, sentia aquela síndrome de impostora, pensava 'será que realmente não tenho competência ou capacidade para estar aqui?' Tudo por estar sofrendo esse processo psicológico que só a vítima percebe\" <br />\r\n <br />\r\n<strong>2- Mesmo na rua, no atendimento à população, não enfrentou o machismo como delegada?</strong><br />\r\nNada, nada. Talvez também porque tive uma experiência muito próxima com delegacias periféricas, em locais onde as pessoas sentem a ausência do poder público auxiliando. Então, o único local aberto 24 horas é a delegacia. Ao contrário, nesses locais, você é extremamente respeitada pela população - que está carente de tudo - como autoridade, como representante do Estado, inclusive para orientar. Não é só uma situação de recriminar, prender, reprimir as pessoas. É um trabalho que eu costumo dizer que é muito de assistência social. Em três anos, não vi uma resistência por parte da população – homens ou mulheres. Agora, quando assumi o sindicato, logo nos primeiros meses, percebi o machismo latente dos meus pares, o gaslighting (distorção das informações), manterrupting (interrupção de uma mulher por um homem), mansplaining (quando o homem explica coisas óbvias a uma mulher), de cinco em cinco minutos, o tempo todo. E eu não sabia o que significavam essas ações. Tanto que, muitas vezes, sentia aquela síndrome de impostora, pensava “será que realmente não tenho competência ou capacidade para estar aqui?” Tudo por estar sofrendo esse processo psicológico que só a vítima percebe. <br />\r\n <br />\r\n<strong>3- Quais ações frente ao sindicato que destaca? </strong><br />\r\nO governador João Doria tem uma política de segurança muito marqueteira, populista e sem efetividade. Então, quando ele percebe que há uma bandeira de delegadas e que há uma necessidade de ter delegacias das mulheres para apaziguar um clamor social, uma injustiça social, que é a violência contra a mulher, ele anuncia que haverá delegadas de mulheres e delegacias 24 horas em todo o Estado. Chegou a baixar uma normativa consultando todas as delegadas do Estado de São Paulo que estavam em departamentos como Deic (Departamento Estadual de Investigações Criminais), Denarc (Departamento de Investigações sobre Narcóticos), Corregedoria, DHPP (Departamento de Homícidios e de Proteção à Pessoa) e Decap (Departamento de Polícia Judiciária), como eu sempre trabalhei, para que atuassem em DDMs (Delegacia de Defesa da Mulher). Para solucionar uma injustiça social contra uma mulher, o Estado queria praticar uma violência institucional de gênero. Isso não pode acontecer. A mulher não pode ser o que ela quiser na Polícia do Estado de São Paulo? Então, nessa luta, acredito que a aceitação por parte das mulheres foi quase de 95%, inclusive das que tinham críticas ferrenhas a mim. E como presidente do Sindicato dos Delegados, eu brigo pela instituição, a gente defende a instituição como um todo.<br />\r\n <br />\r\n<strong>4- Quais as principais necessidades da categoria? </strong><br />\r\nA gente denuncia muito o déficit de policiais, a questão salarial, já que os piores salários pagos pelo estado mais rico da federação são os de policiais civis, a falta de estrutura para que a polícia possa exercer uma atividade de excelência, um serviço público de excelência, com prédios desmoronando e caindo aos pedaços. O Palácio da Polícia, que foi interditado não sei quantas vezes aqui em Santos, é um exemplo. São situações que mostram também como a população é tratada com descaso. Hoje a gente vê que a insegurança está presente no estado inteiro. Em Itanhaém, no último dia 2, uma moça foi morta. Não existe mais segurança e o governo não prioriza a segurança da população. Ele prioriza falácias e marketing. Se quisesse priorizar a segurança da população, reestruturaria a polícia civil, que pode proteger a população antes do primeiro tiro até, porque a gente tem um trabalho de inteligência, de proteção e de investigação. Agora, com uma polícia desestruturada, com um déficit recorde de 15 mil policiais, a gente não tem como conseguir contingenciar essa demanda de crime.<br />\r\n <br />\r\n<strong>5- A senhora citou a morte de Alessandra Tomie em Itanhaém, que não foi um caso isolado. Uma semana antes, uma adolescente e um homem foram assassinados na cidade. E, além de Itanhaém, Peruíbe e Mongaguá estão nas primeiras posições do ranking do instituto Sou da Paz das cidades que têm um altíssimo índice de crimes violentos. Como mudar essa realidade?</strong><br />\r\nAcredito que um governo comprometido com o combate à corrupção e ao crime vai estruturar as instituições que têm a atribuição legal e constitucional de combater o crime. Já quando você quer sufocar uma instituição e as investigações, você de forma indireta o faz a partir do momento que não amplia o efetivo policial, não investe em armamento, em tecnologia de inteligência de ponta e até mesmo em prédios, viaturas e coletes balísticos. Sem isso, você vai matando essa instituição, que não consegue mais proteger a sociedade. De forma direta e mais superficial, isso resulta na fala da população: “Ah, a polícia é uma porcaria, não serve pra nada”. Só que se você tiver um olhar não tão profundo, mas um pouquinho além, vai ver que a polícia não é dotada de autonomia institucional. <br />\r\n<strong> <br />\r\n6- O que isso significa na prática? </strong><br />\r\nApesar de ser uma polícia de Estado, ela fica subjugada ao Poder Executivo. Então, o que deveria ser uma obrigação – investir na polícia – vira política, escolha de projetos políticos. Por exemplo, quando a gente fala em saneamento básico e esgoto, volta e meia as cidades transbordam porque a gente sabe que o saneamento básico é completamente sucateado. Mas é algo que ninguém vê, só se enxerga quando há uma catástrofe, quando as pessoas morrem, quando aquilo transborda. Diferentemente de construções de pontes e estradas, que todo mundo vê. É a mesma coisa que acontece com o policiamento ostensivo, que é priorizado em detrimento da polícia de investigação, que é a judiciária. Está errado investir em policiamento ostensivo? Não. Como não está errado investir em pontes. Mas tem que se investir também naquilo que a população não enxerga, que, na área de Segurança é a polícia à paisana, investigativa, a polícia de inteligência. Mas só se enxerga a viatura caracterizada, um PM com uniforme. E quando você não investe nessa polícia de investigação, que as pessoas não veem, não tem como combater o crime. Aliás, o crime ganha ponto.<br />\r\n <br />\r\n<strong>7- Então essa falta de investimento é uma das causas da impunidade? </strong><br />\r\nA principal. A população percebe o combate à criminalidade quando há a certeza do castigo. E isso acontece quando se estrutura a porta de entrada do sistema de justiça criminal, que é a polícia. Se a polícia não dá conta, ela desestrutura todo o processo, todo o sistema, ou seja, o Ministério Público, o Poder Judiciário, que também está caótico, supermoroso nas suas decisões, liminares. A polícia investiga todos os crimes, independentemente de qual crime seja, independentemente de quem cometa. Então, um governo probo, íntegro e comprometido no combate ao crime e à corrupção vai deixar forte essa polícia. Agora um governo que não está comprometido, ele não tem interesse em estruturar uma polícia que pode investigar todos os crimes, independentemente de quem o esteja cometendo. Agora imagina ter uma polícia sem autonomia, que fica atrelada ao executivo, aos plantonistas temporários do governo? Troca governo, trocam-se direção da polícia, interesses políticos e investigações. A gente viu isso recentemente no Governo Federal o quanto mexeram na Superintendência da Polícia Federal.</p>\r\n\r\n<p>\"Quando você deixa a sua polícia desestruturada, ultrapassa a esfera da culpa, não é mais negligência, não é mais imprudência, é intenção\"</p>\r\n\r\n<p><strong>8- E enquanto isso presenciamos crimes cada vez mais bárbaros.</strong><br />\r\nOs criminosos estão realmente mais perversos. Vimos recentemente em Araçatuba, no interior de São Paulo, bandidos aterrorizando a população, usando drones, explosivos acionados à distância, com armamento cada vez mais sofisticado, de guerra, tudo que a polícia não tem. Agora, se isso não é dolo do governo, o que é? Já saiu do limite do irresponsável, do desleixo, do deboche com a população. Isso é dolo, é intencional. Quando você deixa a sua polícia desestruturada, ultrapassa a esfera da culpa, não é mais negligência, não é mais imprudência, é intenção.<br />\r\n </p>\r\n\r\n<p><strong>9- A senhora tem pretensão de concorrer a algum cargo político?</strong><br />\r\nPor enquanto não, não sou nem filiada a um partido político. O que acredito é que, quando a gente fala de segurança pública, a gente não fala exclusivamente da polícia. A polícia é a vítima secundária. Quando a gente fala de segurança pública, a gente fala da população. Política de segurança pública é um direito social, assim como saúde e educação. Então, as pessoas comprometidas realmente com o estado, com o povo, deveriam ter esse comprometimento também com a segurança. Muitos foram eleitos com essa bandeira. E os representantes no âmbito legislativo poderiam, sim, exercer um poder de fiscalização mais aprofundado.</p>\r\n",
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            "title": "\"O Estado deveria ter baixado o valor do pedágio no Sistema Anchieta-Imigrantes\"",
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            "content_html": "<p>Segundo político da Baixada Santista a ocupar o cargo de governador de São Paulo (Mário Covas foi o primeiro), Márcio França (PSB) tornou-se uma espécie de anti-Doria, tucano que hoje comanda o Palácio dos Bandeirantes, desde que os dois disputaram, voto a voto, a cadeira principal do Estado em 2018, vencida por João Doria no segundo turno por uma diferença de 3,5 pontos percentuais. Desde então, aponta as inconsistências na gestão do adversário e se prepara para tentar reconquistar a cadeira de governador na eleição do ano que vem. “Deixamos de ganhar por pouco. Mas ganhamos coerência e enorme respeito da população”.<br />\r\n <br />\r\nSantista de nascimento e com sua história política ligada a São Vicente, cidade em que foi prefeito por dois mandatos (entre 1997 e 2004), Márcio França chegou ao comando do Estado em abril de 2018, quando o então governador Geraldo Alckmin (PSDB) deixou o posto para disputar a eleição presidencial. Desde então, os dois – França e Alckmin – seguem numa aliança programática, sem descartar uma união para a eleição do ano que vem. <br />\r\n <br />\r\nPresidente estadual do PSB, França cobra uma atuação mais firme do Estado junto à Ecovias, concessionária do Sistema Anchieta-Imigrantes, e que, na avaliação dele, deveria solucionar falhas que prejudicam a população da Baixada Santista. Para o político, a terceira pista da Imigrantes precisa ser viabilizada rapidamente, já que há risco de saturação da rodovia. “Ao ter aumentado o período de concessão, o Governo deveria ter baixado o valor do pedágio”, diz.<br />\r\n <br />\r\nNesta entrevista ao Portal BS9, o ex-governador responsabiliza João Doria por não ter reduzido o ICMS dos combustíveis para amenizar o impacto do aumento da gasolina nos postos. “O único ICMS que ele baixou foi de querosene de aviação. Claro, porque ele só anda de avião\". Fala, também, como postulante ao governo do Estado, de planos para a região.<br />\r\n <br />\r\n<strong>1- O Sistema Anchieta-Imigrantes, apesar de oferecer boas condições nas estradas, recebe muitas críticas tanto em relação ao preço de pedágio, ao modelo em que são adotadas as operações de liberação de pista - afetando, sobretudo, moradores da Baixada Santista em períodos de grande circulação de veículos - quanto à falta de segurança em muitos pontos. Para o senhor, como deve ser o modelo de concessão das estradas estaduais? E há planos de construção de uma terceira pista de acesso ao litoral?</strong><br />\r\nO Governo do Estado, poder concedente da rodovia, deve exercer mais autoridade para resolver estas falhas no Sistema, sobretudo as que afetam a população da Baixada Santista. A terceira pista precisa sim ser viabilizada, pois esta temporada de verão já vai mostrar o risco de saturação do Sistema Anchieta-Imigrantes. Ao ter aumentado o período de concessão, o Governo deveria ter baixado o valor do pedágio.</p>\r\n\r\n<p><strong>2- Vários governadores, em momentos distintos, chegaram a apresentar propostas, inclusive com maquetes, de ponte e de túnel para a ligação seca entre Santos e Guarujá. Hoje, há uma proposta do governo federal de incluir a construção de um túnel imerso no modelo de privatização da gestão do porto. Como o Estado pode atuar nesse tema? E qual opção o senhor considera a melhor? Por quê?</strong><br />\r\nSeja ponte ou túnel não dá mais para adiar este sonho de quase um século. É preciso considerar qual a opção mais rápida e a que não obstrua a expansão natural do Porto de Santos. Não podemos nos esquecer do exemplo da Ponte Pênsil, hoje tombada, e que congelou o desenvolvimento da região estuarina de São Vicente. Se eu tivesse ficado mais tempo no Governo do Estado, as obras da ligação seca estariam perto da inauguração.</p>\r\n\r\n<p>\"É desumano a Petrobras aumentar por oito vezes consecutivas o preço do combustível quando o País tenta se reerguer diante dos prejuízos econômicos causados pela pandemia\"</p>\r\n\r\n<p><strong>3- O preço do litro da gasolina chegou a R$ 7 em muitas cidades e é um dos vilões da inflação deste ano. Se for candidato e caso eleito governador do Estado, o senhor pretende trabalhar pela redução do ICMS dos combustíveis? O que mais o Estado poderá realizar para diminuir o impacto à população?</strong><br />\r\nÉ desumano a Petrobras aumentar por oito vezes consecutivas o preço do combustível quando o País tenta se reerguer diante dos prejuízos econômicos causados pela pandemia. A empresa, que detém o monopólio do setor, teve um lucro de R$ 43 bilhões em 90 dias, sendo que 40% dos acionistas são estrangeiros. O governador de São Paulo já deveria ter baixado o ICMS dos combustíveis. O único ICMS que ele baixou foi de querosene de aviação. Claro, porque ele só anda de avião.</p>\r\n\r\n<p><strong>4- O senhor aumentaria em quanto, percentualmente, o repasse de recursos estaduais aos municípios?</strong><br />\r\nO percentual do aumento dos repasses ainda não defini, pois não tenho acesso completo aos números do Governo. Mas precisa ser feito para que os 645 municípios paulistas possam se reerguer, fazer obras e gerar empregos. São Paulo precisa ficar de pé novamente e vou dar um jeito de ajudar as cidades.</p>\r\n\r\n<p><strong>5- Qual sua proposta para fomentar o turismo, em especial na Baixada Santista, após o impacto da pandemia? Como garantir a volta do turismo com segurança sanitária?</strong><br />\r\nDentre tantas medidas, vou retomar imediatamente o Roda SP, que permitiu a muita gente circular entre as cidades da região. Vamos recuperar o investimento em turismo, como o Dadetur, e reativar roteiros que incluam servidores públicos, estudantes e inúmeras categorias profissionais, que querem viajar, mas não recebem incentivos.</p>\r\n\r\n<p><strong>6- Quatro cidades da Baixada Santista (Itanhaém, Mongaguá, Peruíbe e Praia Grande) estão entre os 10 municípios do Estado com maiores índices de exposição à criminalidade violenta, segundo o Instituto Sou da Paz. Como garantir a segurança da população? Isso passa por investimentos para a evolução do trabalho das polícias Civil e Militar?</strong><br />\r\nNossos policiais militares e civis sabem como combater a criminalidade. Temos que deixá-los trabalhar, dando melhores condições e incentivos. Outro caminho é incluir jovens em situação de vulnerabilidade social em programas de primeiro emprego, educação e disciplina, que os afastem das ofertas dos criminosos, como já fiz.<br />\r\n </p>\r\n\r\n<p>\"Temos que adotar um esquema de reforço para todos os alunos, uma verdadeira maratona de recuperação para impedir que se forme uma legião de excluídos no ensino paulista\"</p>\r\n\r\n<p><strong>7- Há um consenso de que o ensino remoto, adotado durante a pandemia, afetou a qualidade do aprendizado, principalmente na rede pública de ensino. O que o senhor defende para garantir essa reposição do que foi perdido e qual o projeto de seu eventual governo para assegurar a melhoria na qualidade da Educação Básica?</strong><br />\r\nQuando governador, fiz a Univesp, com ensino a distância, saltar de 3 mil para 50 mil alunos. Ficou provado que dá para incluir todos os estudantes nesta modalidade e assim ajudá-los a recuperar o tempo perdido. O problema é que o Estado não entregou o ensino virtual que prometeu. Se fizer direito, o resultado é bem melhor. Agora, temos que adotar um esquema de reforço para todos os alunos, uma verdadeira maratona de recuperação para impedir que se forme uma legião de excluídos no ensino paulista.</p>\r\n\r\n<p><strong>8- O senhor quase se tornou governador do Estado no último pleito – o que não ocorreu por uma diferença de 3,5 pontos percentuais. Onde acredita ter errado naquela ocasião e o que faria diferente dessa vez?</strong><br />\r\nDeixamos de ganhar por pouco. Mas ganhamos coerência e enorme respeito da população, que hoje, como mostram todas as pesquisas, nos coloca entre os favoritos. Desta vez temos grandes aliados e vamos conseguir resgatar a pujança e liderança do Estado de São Paulo.</p>\r\n\r\n<p><strong>9- Qual a sua análise sobre a atenção dada à Baixada Santista pelo governo atual? O que acredita que merece ser realizado prioritariamente, caso seja candidato e eleito?</strong><br />\r\nO governador Doria só traz pedágio, aumento de imposto e mentiras para a Baixada Santista e o Vale do Ribeira. A nossa região precisa de um projeto de resgate urgente, com incentivos ao turismo, às obras de infraestrutura e de formação dos jovens e dos trabalhadores, pois muitos empregos virão com a retomada.</p>\r\n",
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            "content_html": "<p>A Receita Federal do Brasil (RFB) é a responsável pela fiscalização e pelo controle sobre o comércio exterior em portos e aeroportos. Não é pouca coisa, ainda mais num complexo portuário como o de Santos, que concentra um grande volume de cargas. Agilizar as operações aduaneiras legítimas já exige bastante das equipes. Mas o órgão ainda tem de atuar no combate a esquemas fraudulentos e, principalmente, ao tráfico de drogas.<br />\r\n <br />\r\nSó neste ano houve 27 ações no Porto, que resultaram na apreensão de 12 toneladas de cocaína. Os números são mais baixos que os de 2020 (20,5t em 49 ações) e o recorde registrado em 2019 (27t em 56 ações). Isso não quer dizer, no entanto, menos trabalho. Em junho, por exemplo, a Receita interceptou 1,27t do entorpecente que estavam misturadas a gordura vegetal. A operação, que durou dois dias, é considerada pela própria Alfândega uma das mais complexas já realizadas.<br />\r\n <br />\r\nNa Entrevista de Domingo do Portal BS9, o auditor fiscal Richard Fernando Amoedo Neubarth fala um pouco sobre seu desempenho como delegado da Alfândega de Santos, cargo que exerce desde julho do ano passado, além de ações e desafios da Receita Federal no Porto.<br />\r\n <br />\r\n<strong>1 - Primeiramente, gostaria que o senhor falasse um pouco sobre a sua função de auditor fiscal e de seu trabalho como delegado da Alfândega.</strong><br />\r\nA Secretaria Especial da Receita Federal do Brasil tem a importante missão de administrar o sistema tributário e aduaneiro na busca do bem-estar econômico e social do país. Contribuindo com esses objetivos, o auditor fiscal é responsável pelas fiscalizações, autos de infração, desembaraço das importações e exportações, apreensões de mercadorias, entre outras atribuições. Eu ingressei na carreira de auditor fiscal em 2001, com aprovação em concurso e curso de formação, na época, específicos para área aduaneira. Após nomeação, entrei em exercício na Inspetoria de Corumbá (MS). Naquela unidade adquiri bastante conhecimento e experiência na área aduaneira e me identifiquei com a área de vigilância e repressão trabalhando no posto de fronteira Brasil–Bolívia e participando de operações de combate ao contrabando, principalmente nas rodovias da região. Estou na Alfândega de Santos desde 2004, onde passei pela equipe de julgamento de processos administrativos, fui chefe de uma das equipes da divisão de vigilância e, após, nomeado chefe da divisão de vigilância e repressão, (cargo) em que fiquei por mais de dez anos até ser nomeado delegado da Alfândega de Santos. Como delegado, minha gestão é focada na interação e no desenvolvimento dos vários setores da unidade. Procuro ouvir bastante cada setor, cada servidor, pois acredito que dessa forma fica mais fácil tomar as decisões acertadas para consecução dos objetivos desta Alfândega, que são a facilitação das operações legítimas de comércio exterior e combate aos ilícitos aduaneiros. A boa comunicação e parceria com outros órgãos, iniciativa privada e agências de outros países também é fundamental para que tenhamos êxito no cumprimento de nossa missão.<br />\r\n <br />\r\n<strong>2 - Qual, na sua opinião, tem sido o maior desafio da Alfândega no Porto?</strong><br />\r\nSão muitos os desafios. O maior deles diz respeito à busca por diminuição do tempo de liberação de cargas sem prejuízo da segurança das operações de comércio exterior no Porto. Já avançamos muito nos últimos anos, mas esse é um trabalho constante de aproximação de todos os envolvidos no comércio exterior, a fim de reduzir procedimentos desnecessários, buscar novas soluções para agilizar as operações, sem abrir mão do controle necessário ao combate dos ilícitos aduaneiros. Temos bastante trabalho pela frente em parceria com a iniciativa privada e demais órgãos anuentes. São centenas de intervenientes e milhares de profissionais envolvidos nessa missão.<br />\r\n <br />\r\n<strong>3 - Pelo segundo ano seguido, o volume de apreensões de cocaína no Porto de Santos não deverá atingir o recorde registrado em 2019. A que se deve isso? A fiscalização aumentou? Ou a pandemia deu uma freada no tráfico internacional de drogas?</strong><br />\r\nNão acredito que a pandemia tenha interferido no tráfico de drogas. Quanto à fiscalização aduaneira, buscamos um aperfeiçoamento constante dos processos de forma a agilizar as operações legítimas de comércio exterior e reprimir de forma efetiva os ilícitos aduaneiros. Da mesma forma que a RFB realiza o trabalho para selecionar as cargas que possam representar algum risco à sociedade, o grupo criminoso também analisa o risco de ter sua carga apreendida, seja de produtos falsificados, bens e mercadorias não declaradas, cigarros contrabandeados ou drogas. Para o infrator o risco é representado pela perda da mercadoria apreendida e pela ação penal que poderá sofrer. Portanto, a partir de cada apreensão, o infrator busca minimizar o risco mudando a forma de ocultação da droga ou mudando a rota de transporte ao porto de destino. Isso vai resultar em variações nas quantidades de drogas e mercadorias apreendidas. Contudo, como Santos é um hub port, com carregamento de todo tipo de bens e mercadorias e muita oferta de rotas marítimas, ele sempre será uma opção para os contrabandistas e, por isso, a RFB tem que buscar um aprimoramento constante da fiscalização aduaneira no porto. Ressalta-se que as organizações criminosas não reconhecem fronteiras ou regras. Apenas querem transportar seu produto, a cocaína, até o consumidor e lucrar com a operação. Para isso, buscam previsibilidade e frequência de carregamentos. O Brasil, naturalmente, por ser a maior economia da região e ter comércio intenso com o mercado europeu, oferece muitas possibilidades. Pode-se citar como exemplo de variação de rota e forma de envio a apreensão recorde de cocaína nos portos de Hamburgo (Alemanha) e Amberes (Antuérpia, na Bélgica) em fevereiro deste ano. Foram apreendidas 23 toneladas da droga que estava sendo transportada em contêineres que partiram do Paraguai e foram carregados na Argentina em navio com destino ao continente europeu. Essa foi a maior apreensão da história na Europa.<br />\r\n <br />\r\n<strong>4 - Ainda sobre a pandemia, até que ponto ela dificultou a atuação das equipes? Foi necessária uma grande mudança na conferência?</strong><br />\r\nCom processos de trabalho bastante digitalizados, a RFB conseguiu se adaptar bem às mudanças necessárias para o enfrentamento da pandemia. Contudo, com muitos servidores em home office, sendo essa medida compulsória para aqueles com mais de 60 anos, tivemos que reformular algumas equipes para a manutenção do trabalho de campo, principalmente a conferência de cargas e a vigilância e repressão. A tecnologia também ajudou bastante, possibilitando a conferência de mercadorias de forma remota, por meio de câmeras e imagem de escâneres. Com isso, conseguimos manter um ótimo controle e agilidade na liberação de mercadorias, mesmo com redução da equipe em trabalho presencial.<br />\r\n <br />\r\n<strong>5 - Tem alguma particularidade no Porto de Santos que o difere de outros portos do Brasil e do mundo, pelo menos quanto à fiscalização e ao controle aduaneiro?</strong><br />\r\nO Porto de Santos, além de ser o maior em volume, representando cerca de 30% de todo comércio exterior do país, tem grande diversidade de produtos importados e exportados, grande variedade de rotas marítimas e tem complexidade geográfica, pois não é contínuo e se estende por duas margens e três municípios. Representa um grande desafio para o controle de cargas, é como se tivéssemos vários portos em um. O Porto de Santos é também o único no Brasil que conta com unidade da aduana americana denominada Container Securit Iniative (CSI), que está presente nos maiores portos do mundo, trabalhando em parceria com as aduanas locais, e tem como missão garantir a segurança das cargas que tem como destino os Estados Unidos.<br />\r\n <br />\r\n\"O Porto de Santos, além de ser o maior em volume, representando cerca de 30% de todo comércio exterior do país, tem grande diversidade de produtos importados e exportados, grande variedade de rotas marítimas e tem complexidade geográfica, pois não é contínuo e se estende por duas margens e três municípios\"</p>\r\n\r\n<p><strong>6 - Nos últimos meses vimos grandes apreensões de aparelhos de TV Box adulterados no Porto de Santos. Existem produtos que são os preferidos, digamos assim, dos contrabandistas?</strong></p>\r\n\r\n<p>Os TV Boxes adulterados estão em alta, pois infelizmente há uma demanda grande por esses produtos que causam sério prejuízo à indústria de produção audiovisual. Além das ações de repressão da RFB e outros órgãos, é importante o consumidor saber que o consumo deste tipo de produto gera desemprego e financia o crime organizado. Assim como os TV Boxes, os produtos falsificados em geral também estão entre os preferidos dos contrabandistas, pois o lucro é alto no comércio. A Alfândega tem realizado importantes ações no combate a produtos contrafeitos, com destaque para apreensões de rolamentos falsificados que são comercializados no mercado interno como sendo originais.<br />\r\n <br />\r\n<strong>7 - Recentemente a Receita também desarticulou um grande esquema de envio de encomendas do exterior ocultas em bagagens desacompanhadas. O senhor tem notado uma prática cada vez maior desse tipo de fraude?</strong><br />\r\nEste tipo de fraude não é fácil de combater, pois há empresas no exterior especializadas em disfarçar encomendas como sendo bagagem desacompanhada e o ganho destes envios é expressivo. Atualmente, uma equipe inteira está direcionada para combate a este tipo de fraude que é grave, pois além de mercadorias que chegam sem pagar impostos, são despachadas encomendas de itens de importação proibida, tais como armas, munições, medicamentos sem regulamentação de venda no Brasil.</p>\r\n\r\n<div data-oembed-url=\"https://youtu.be/UIxKAoVVbl4\">\r\n<div style=\"height:0; left:0; padding-bottom:56.25%; position:relative; width:100%\"><iframe allow=\"accelerometer; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture;\" allowfullscreen=\"\" scrolling=\"no\" src=\"https://www.youtube.com/embed/UIxKAoVVbl4?rel=0\" style=\"top: 0; left: 0; width: 100%; height: 100%; position: absolute; border: 0;\" tabindex=\"-1\"></iframe></div>\r\n</div>\r\n\r\n<p><em>Neubarth falou ao BS9 sobre a <a href=\"https://www.bs9.com.br/operacao-da-receita-federal-desmonta-esquema-de-encomendas-internacionais\">Operação Outlet</a>, no fim de junho</em><br />\r\n <br />\r\n<strong>8 - O senhor acha que a alta carga tributária no Brasil contribui para esse volume de fraudes?</strong><br />\r\nEm qualquer país do mundo o não pagamento de tributos gera uma concorrência desleal que deve ser combatida na busca de um ambiente de negócios saudável. Sem dúvida, há uma correlação entre os produtos com maior carga tributária e o descaminho e outros tipos de fraudes tributárias relacionadas a estes produtos, pois o contrabandista busca sempre o que é mais lucrativo.<br />\r\n<br />\r\n<strong>9 - E quanto às penas para esses fraudadores? Na sua opinião, elas são brandas?</strong><br />\r\nDentre os vários tipos de sanções previstas na legislação aduaneira, a pena de perdimento de mercadoria é bastante gravosa e adequada, pois com ela a logística de distribuição de mercadorias que contam com alguma vantagem ilícita é interrompida imediatamente. E com isso, é prestigiado o importador que declara as mercadorias e recolhe os tributos de forma legítima. Em se tratando de perdimento de mercadoria, o fraudador ainda pode responder por crime de descaminho ou contrabando no caso de apreensão de produtos de importação proibida, como os TV Boxes.</p>\r\n",
            "summary": "A Receita Federal do Brasil (RFB) é a responsável pela fiscalização e pelo controle sobre o comércio exterior em portos e aeroportos. Não é pouca coisa, ainda mais num complexo portuário como o de San...",
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            "title": "As novidades e os desafios do Santos Jazz Festival, que chega à sua nona edição",
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            "content_html": "<p>Já esperado pelos amantes de boa música em toda a região, o Santos Jazz Festival chega à sua nona edição na próxima quinta-feira, dia 23, ainda no modelo online. Isso porque o País ainda não dispõe de condições sanitárias seguras para a realização presencial, já que aproximadamente 30% da população está com a imunização completa e, na Baixada, esse número é de 25%. Mesmo assim, os organizadores prometem quatro dias de boa música e grandes homenagens.<br />\r\n<br />\r\nDenise Covas é a diretora executiva do festival e uma das organizadoras junto com Jamir Lopes, que é também colunista do Portal BS9. Ela conta que, neste ano, o Santos Jazz terá dois tributos. Um aos 90 anos de João Gilberto e outro ao centenário do compositor argentino Astor Piazolla. Além disso, haverá shows celebrando o protagonismo feminino, os músicos da região e uma apresentação que mistura jazz e hip-hop. Essa mistura é uma das grandes marcas do festival, mostrando sempre que o jazz é um estilo que contempla vários outros.<br />\r\n<br />\r\nAs apresentações serão gravadas no Sesc Santos com todos os cuidados e protocolos, muito diferente do que era antes, com as ruas do Centro de Santos e os Arcos do Valongo lotados pelo público.<br />\r\n<br />\r\nPara falar um pouco mais sobre o festival e todas as mudanças impostas pela pandemia, conversamos com Denise que, além de adaptar todo o Santos Jazz, também precisou reestruturar e adiar outros eventos.<br />\r\n<br />\r\n<strong>1- O setor cultural foi um dos mais prejudicados pela pandemia da Covid-19. No ano passado, o Santos Jazz Festival já foi virtual. Você imaginava que a edição de 2021 seria novamente nesse formato?</strong><br />\r\nNão. A gente, inclusive, transferiu de 2020 para este ano a edição oficial, que tem sido feita pela Lei de Incentivo à Cultura e com o Porto de Santos como patrocinador oficial. Justamente imaginando que pudéssemos fazer de maneira presencial. Naquele momento, nós pensávamos que a pandemia duraria poucos meses. Então, fizemos no ano passado uma edição virtual, basicamente com artistas da nossa região porque queríamos colaborar com esse momento dificílimo pelo qual os artistas e a equipe técnica estavam passando. Por isso optamos pelo Santos Jazz Live 013. De dez shows, oito foram de Santos. E, neste ano, vimos que ainda não teria condição de fazer o evento de forma presencial. Assim, escolhemos não fazer nem de forma híbrida. Junto com nossos apoiadores e patrocinadores vimos que ainda era um momento delicado e que era melhor continuarmos no virtual para a segurança de todos.<br />\r\n <br />\r\n<strong>2- E como você avalia a experiência do evento remoto do ano passado?</strong><br />\r\nFoi uma experiência muito interessante porque as lives foram a grande alegria, emoção e salvação do lado emocional das pessoas. Isso estava muito forte. Então, teve uma grande audiência. E foi uma experiência nova na questão da produção. Você pode até fazer um evento online, mas fazer este tipo de evento com todas as precauções que tivemos que fazer já modifica muito. Todos tiveram que ser testados e mantendo o distanciamento, mesmo no palco. Só ficava sem máscara quem iria vocalizar. E uma série de outros cuidados que tivemos que ter e nunca tínhamos imaginado. Então, foi tudo muito novo. Foi um aprendizado muito grande. E é uma ferramenta muito lucrativa por conta do enorme alcance que a internet tem. Ela não tem fronteiras. Por isso, temos a oportunidade de alcançar muito mais pessoas que muitas vezes gostariam de participar do evento e não tem condições por ser de outra cidade, estado, país, ou por ter algum outro tipo de dificuldade. Então a live tem esse poder e fica gravado ali. Então, às vezes a pessoa pode não ter assistido ao vivo, mas fica registrado no canal do YouTube e pode ser assistido quando quiser. Agora, a emoção do ao vivo não é alcançada. Até para o artista. Você tocar para um teatro vazio é difícil. Mas, de qualquer forma, foi uma maneira de eles retomarem seu contato com o público. Muitos artistas tiveram uma aproximação com seu público que nunca tinham tido. Então, também proporcionou muita coisa positiva. Mas, é, de qualquer maneira, um momento muito difícil. Ninguém está bem. É impossível estar bem com 600 mil mortes só no nosso país. Além da própria pandemia, a negligência que fez com que o número de mortes fosse muito maior do que deveria ter sido. A vacinação atrasada, um quadro muito triste de desemprego, pessoas passando fome... Enfim, o que nos dá um certo alento é saber que, a partir do que produzimos, podemos levar alegria às pessoas, pelo menos por um momento. Além de estar dando oportunidade para artistas e técnicos, que continuam altamente prejudicados. Foram os primeiros a parar e serão os últimos a voltar.<br />\r\n<br />\r\n<strong>3- Quais serão as novidades desse ano?</strong><br />\r\nO que mais está me emocionando é a homenagem que faremos ao João Gilberto. Ele morreu em 2019 e, infelizmente, temos um governo federal que está destruindo a cultura e não valoriza seus artistas. O João Gilberto foi quem levou a nossa música na década de 1960 a ser reconhecida e renomada internacionalmente. A música brasileira é respeitada. Foi ele, com sua voz, batida e jeito diferente. Os técnicos e entendidos em violão falam que era um fenômeno o jeito que ele tocava. Então, homenageá-lo era uma coisa que eu queria muito. E, coincidentemente, neste ano ele faria 90 anos. Faremos essa homenagem com Jaques Morelenbaum, que é um belíssimo arranjador no violoncelo, tocou muitos anos com Tom Jobim e outros músicos. Será muito bacana. Uma outra homenagem que faremos é do centenário do Astor Piazolla, que tinha uma influência no seu tango argentino estilizado. Ele tinha uma grande influência do Jazz por ter morado muitos anos nos Estados Unidos. Essa apresentação será com Lupa Santiago, um guitarrista fabuloso, e seu trio. Por isso, será uma versão diferente. Essas duas homenagens me deixam muito feliz. Além disso, e das outras performances, teremos as oficinas, que nessa edição serão três: bateria, violino e uma com a Dani Ribas, uma das maiores estudiosas de música do país, sobre o setor de streaming, no quesito remuneração dos músicos.<br />\r\n <br />\r\n<strong>4- O Santos Jazz sempre atrai uma multidão de pessoas. Como estão fazendo para medir a audiência no formato online?</strong><br />\r\nA gente vai olhando pelas visualizações no nosso canal do YouTube, pela nossa página do Facebook e pela página do Sesc Santos. Mas tem aquele residual depois. As pessoas entram e assistem. Fica algo mais a longo prazo. No primeiro dia, geralmente, tem bastante gente assistindo. O que não sabemos é como as pessoas estão em relação a isso. Depois de um ano e meio de pandemia, será que as pessoas vão ficar em casa assistindo live? Os bares já estão abrindo, com música ao vivo em vários lugares, e as pessoas estão com muita ansiedade de sair. Então, não temos uma noção de como será essa audiência. Mas como tem esse residual, é válido e fica lá um conteúdo muito legal. Especialmente no primeiro dia, na quinta-feira, são dois belos shows. Esperamos ter uma audiência boa por já não ser um dia na semana que as pessoas saem. Ao mesmo tempo, tem muita gente que ainda fica em casa. Eu, por exemplo, fico. Está tudo muito novo. Vamos ver como as pessoas vão se portar esse ano.<br />\r\n <br />\r\n<strong>5- Você acredita que no ano que vem o evento vai voltar a ser presencial?</strong><br />\r\nAcredito! Tenho que acreditar, com certeza. Mas eu acho que só a partir de julho teremos uma condição bem melhor. O pessoal já está falando em Carnaval e Réveillon. Aquela coisa de todo mundo feliz e sem máscara eu não sei. Talvez ainda tenha que obedecer a uma capacidade menor de lugares, ainda tenha que ter alguns critérios. Não sabemos muito bem. Já está tendo festivais com multidões fora do Brasil e com pouquíssima transmissão. Estão avaliando. Mas ao mesmo tempo cresceram novamente os casos em alguns países e eles estão voltando atrás. Então, é tudo ainda muito incerto. Mesmo assim, acredito que a gente possa ter num sistema híbrido, com menos gente, tendo que tomar mais cuidados, mas com o palco presencial. Estamos torcendo para isso!<br />\r\n <br />\r\n<strong>6- O Festival chega à sua nona edição neste ano. Qual o balanço que você faz dele até aqui?</strong><br />\r\nÉ um espetáculo! Eu sou fã. É uma luta todo ano para manter o festival de pé, até por ser totalmente gratuito desde a primeira edição. Estamos fechando nove edições com 180 shows. Quero chegar ano que vem com 200 shows. Então, é muita gente trabalhando, envolvida, além de mim e do Jamir, meu grande parceiro nesse negócio. É muita emoção. É um trabalho de formação de público, com novas plateias, trazendo uma moçada para tocar com os mais tradicionais. Tudo isso nos deixa muito felizes. Deixamos um legado nos músicos da região através das oficinas, fazemos projetos sociais, damos aulas nas escolas de iniciação musical. Então, tem muita coisa envolvida.<br />\r\n<br />\r\n<strong>7- Você acha que o público que escuta jazz é amplo? Acha que o Santos Jazz é uma prova disso?</strong><br />\r\nEu acho que sim. Porque se você ficar só naquele jazz mais tradicional de trio, quarteto, famoso, ele se restringe muito. Mas, quando você amplia e diversifica, como nós fazemos, justamente para ir formando novos públicos, trazendo bandas que não tem só jazz mas tem ele como raiz, vamos mostrando para os jovens, principalmente, e atraindo a atenção deles. Podemos ver como ficavam lotados os Arcos do Valongo. Sexta, sábado e domingo. O Santos Jazz é um jazz moderno, eletrônico porque colocamos um DJ tocando com um trio de jazz. Fazemos um caldeirão e fica tudo bem legal.<br />\r\n <br />\r\n<strong>8- Qual a importância do Santos Jazz para a região?</strong><br />\r\nAcho que total! É o primeiro e maior evento de música de Santos e de toda a Baixada. Geramos emprego, renda, movimentamos o Centro, trazemos música de qualidade com todas as suas vertentes e estilos. É o palco para as pessoas poderem mostrar o seu trabalho. Os músicos de Santos e região têm mais uma opção para se apresentar e esperam pelo festival. A gente faz parte hoje do circuito nacional dos festivais de jazz. Então, divulgamos o nome da cidade para o País inteiro. Trazemos turistas, movimentamos o comércio, e tudo isso com uma boa música.<br />\r\n <br />\r\n<strong>9- Algum outro projeto seu foi prejudicado pela pandemia?</strong><br />\r\nEu fiz o festival Criativar ano passado, o primeiro festival de criatividade de Santos, que envolve economia criativa. Era para ter sido presencial, junto com o Encontro Anual das Cidades de Economia Criativa, que seria sediado em Santos. Viria gente do mundo inteiro, mas também tivemos que fazer online. Além disso, eu segurei qualquer produção nova, criação de evento novo, porque é muito chato ficar produzindo e pensando nessa loucura de fazer tudo online, com máscara. Vou estudando, fazendo o que puder para conseguir voltar assim que tudo for melhorando.</p>\r\n",
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            "content_html": "<p>Paulistana criada em Santos, Flávia Durante, 44 anos, é comunicadora, DJ, empresária, professora e ativista. Desde 2012, produz em São Paulo o Pop Plus, feira de moda e cultura plus size com média de público de 12 mil pessoas por evento – atualmente um hub de conteúdo com edições on-line, uma forma de se reinventar durante a pandemia. Mas o retorno do evento presencial já tem data marcada: 4 e 5 de dezembro, na Capital.</p>\r\n\r\n<p>Há mais de dez anos, Flávia fala sobre como a moda pode trazer dignidade para pessoas gordas. Mais do isso, ela escancara o preconceito que existe contra mulheres e homens gordos nas lojas, no transporte público e até mesmo nos consultórios médicos e hospitais, ou seja, mostra como a gordofobia está enraizada em toda a sociedade.</p>\r\n\r\n<p>E precisamos falar sobre isso. Nesta entrevista, que vai ao ar no mês da Visibilidade Gorda e Combate à Gordofobia, Flávia conta como enfrentou e enfrenta o preconceito e lança luz a um tema ainda desconhecido por boa parte das pessoas, inclusive as pessoas gordas.<br />\r\n <br />\r\n<strong>1- De que forma a gordofobia se manifesta no dia a dia das pessoas?</strong><br />\r\nDe várias formas. A que a gente mais conhece ultimamente são os ataques pessoais, virtuais ou não, o cyberbullying e o bullying, praticados nas escolas ou na vida familiar. E se manifesta quando a pessoa é chamada de gorda de maneira ofensiva, embora gordo não seja um xingamento. A gente reconstruiu essa palavra, ressignificou o papel dessa palavra, mas muita gente ainda a usa como um xingamento. Então a gordofobia se manifesta nesses ataques pessoais e na acessibilidade, ao tirar o direito das pessoas gordas de viver em sociedade de forma normal, tanto na moda, quanto no mobiliário ou no transporte público. A gente tem dificuldade de passar numa catraca, de encontrar roupas com facilidade. Embora existam cada vez mais no mercado marcas plus size e eventos como o Pop Plus, ainda não podemos encontrar roupas acima do 46 em qualquer shopping ou qualquer esquina como uma pessoa magra encontra roupas em qualquer esquina. Temos que nos programar para fazer essas compras em lojas on-line, eventos e ruas especializadas. Além disso, há a gordofobia médica, afetiva – de pessoas que querem pessoas gordas para satisfazer sua sexualidade, mas não assumem relacionamento com mulheres gordas, principalmente porque têm medo do que os amigos e a família vão falar. No trabalho, a pessoa gorda é vista como preguiçosa, incompetente e incapaz. E há o estigma do peso, que diz que se ela não cuida do próprio corpo, não cuida do trabalho. Enfim, a gordofobia é muito mais do que ser xingado, é, sim, a restrição de direitos na sociedade, uma invisibilidade, é falta de respeito.<br />\r\n <br />\r\n<strong>2- Ela atinge homens e mulheres da mesma forma? Ou a mulher, pelos padrões de beleza impostos desde sempre, sofrem mais?</strong><br />\r\nA gordofobia atinge homens e mulheres da mesma forma. Todos os homens e mulheres vão passar por todos esses problemas que eu falei. O homem vai ter problema com gordofobia médica, vai ser visto como incapaz, como preguiçoso, mas a mulher é sempre mais julgada, enquanto o homem vai esconder isso. Por conta do machismo presente na sociedade, o homem gordo não quer mostrar que ele está sofrendo com algum tipo de preconceito, então, geralmente faz a piada antes. Por experiência própria, de observar outros ataques virtuais, a gente vê que a maioria dos ataques é feito por homens gordos. Ele costuma atacar e fazer a piada antes, mas isso não quer dizer que não esteja sofrendo, que não passe por todos esses problemas que as mulheres estão passando também. Mas, por conta do machismo, ele vai esconder todo esse sofrimento, todos esses problemas.</p>\r\n\r\n<p> \"As faculdades de Medicina já ensinam a odiar o corpo gordo e a ver o corpo gordo como uma bomba-relógio\"</p>\r\n\r\n<p><strong>3- A gordofobia médica é realmente frequente nos consultórios? E de que maneira ela impacta na saúde de quem passa por isso?</strong><br />\r\nInfelizmente, é frequente tanto nos consultórios públicos quanto particulares, porque as faculdades de Medicina já ensinam a odiar o corpo gordo e a ver o corpo gordo como uma bomba-relógio desde sempre. Então, a gordofobia médica impacta a saúde fortemente, porque se você é maltratado em um consultório ou pronto-socorro, isso faz com que você não volte tão cedo ou nunca mais. Isso é comum e escrevi muito a respeito quando tinha um blog no Uol, onde relatei casos horríveis. Não é simplesmente falar: “Você tem que emagrecer dez quilos” - isso pode acontecer e não é gordofobia dependendo do jeito que se fala. Mas casos assim: “Você está gorda como uma porca, desse jeito seu marido não vai querer transar com você e você não vai engravidar nunca”. Ou, então, anestesista médica falando para a paciente na hora do parto: “Você está gorda como um hipopótamo, vou ter que dar duas anestesias”. Isso na hora que a mulher está no momento mais feliz da vida dela! Ou então você vai tratar de uma espinha, de uma unha encravada, e o médico mal te olha na cara e fala: “Você tem que fazer uma bariátrica, isso daí aconteceu porque você está gorda”. Muitas vezes não tem nada a ver com o fato de estar gorda ou não.</p>\r\n\r\n<p><strong>4- Tem a ver com respeito.</strong><br />\r\nO ativismo gordo não luta para que todo mundo seja gordo e não cuide da saúde. Pelo contrário. A gente quer que todo mundo seja tratado com respeito e dignidade em todos os lugares. A saúde é direito de todos. E é algo tão cobrado da pessoa gorda, mas quando ela vai procurar saúde, é maltratada nos consultórios. Não há equipamentos médicos adequados, desde a aferição de pressão, com aparelhos que caibam no braço dela, até a ressonância magnética ou tomografia computadorizada, porque às vezes só cabem corpos de até 120 quilos nesses equipamentos. Acima disso, o paciente é encaminhado, inclusive, para hospitais veterinários e hípicos. Quem quer passar por isso, ser comparado a um animal? A pessoa gorda acaba se resguardando e não pisando tão cedo em um consultório médico. Então, acho que esse assunto deve ser falado cada vez mais em todas as faculdades de Medicina, para que as pessoas sejam tratadas de maneira humanizada, e não só como número, como uma bomba-relógio. O mínimo que a gente pede é respeito.<br />\r\n <br />\r\n<strong>5- Passamos pelo Dia do Gordo (10) e estamos no Mês da Visibilidade Gorda e Combate à Gordofobia. Essas ações ajudam a combater o preconceito?</strong><br />\r\nAcho que essas ações ajudam as pessoas a saber o que é a gordofobia, porque ainda é algo muito desconhecido. As próprias pessoas gordas ainda não sabem o que é direito. A gente está acostumado a ser maltratado na sociedade, em todos os lugares, todos os âmbitos. Às vezes não sabe nem se defender, acha que tudo isso é normal, que é normal um médico falar “você está gorda igual uma porca”. Aí vai embora chorando, mas acreditando que está errada mesmo. Não, você não pode ser tratado desse jeito em lugar algum. Por isso acho que ajuda, não sei se a combater o preconceito, que é mais difícil, algo que deve ser trabalhado desde muito cedo, mas pelo menos ajuda a informar, para que as pessoas gordas aprendam a se defender, saber o que é a gordofobia e não aceitar mais esse tipo de tratamento. É importante falar cada vez mais sobre isso.</p>\r\n\r\n<p> \"A gente tem que atacar a gordofobia no mercado de trabalho, na moda, na saúde. Não é um assunto só, temos que atacar em todas as frentes\"</p>\r\n\r\n<p><strong>6- A moda, que por muito tempo foi uma barreira e ainda é excludente, também ajudou a trazer o combate à gordofobia à tona, com a ampliação do segmento plus size e a abertura do mercado para modelos plus size?</strong><br />\r\nCom certeza a moda ajudou a trazer esse assunto à tona, sim. Foi o primeiro grito das mulheres gordas para serem vistas como são, foi o início da busca dessa identidade, não só como consumidoras, mas da busca da personalidade, autoestima, pertencimento no mundo da moda, que para muita gente é futilidade, mas é identidade, é cultura, é dignidade. Sem roupa você não faz nada numa sociedade como a nossa. Então, a moda com certeza foi o primeiro degrau para muita gente se encontrar e abrir os olhos para essa população. Afinal, quem é considerado acima do peso ou veste moda plus size representa quase 60% da população, e apenas 17% do mercado de varejo no Brasil atende esse público. Tem muita gente de fora, sendo excluída, mesmo agora com o mercado crescendo, porque ainda é restrito aos grandes centros e só para a população com mais poder aquisitivo. Para quem está fora e sem dinheiro, é muito difícil esse acesso. Não é raro eu receber mensagens de mulheres que têm apenas uma camiseta, uma calça jeans, uma calça de algodão ou outro tecido, ou, pior ainda, que só se vestem com um lençol, uma canga ou toalha, porque ou não têm dinheiro para comprar, porque não têm trabalho e não são contratadas porque são gordas, ou porque não encontram roupa do tamanho delas na cidade onde moram. Enfim, é um trabalho que ainda precisa ser feito em várias frentes. A gente tem que atacar a gordofobia no mercado de trabalho, na moda, na saúde. Não é um assunto só, temos que atacar em todas as frentes.</p>\r\n\r\n<p><strong>7- Como teve início sua atuação no combate à gordofobia?</strong><br />\r\nDe forma mais intensa no Pop Plus, que eu criei em 2012. Mas desde antes, eu já falava sobre o assunto nos lugares onde trabalhei, ou nas minhas redes sociais, embora ainda nem se falasse muito em gordofobia. Levava sempre essas pautas para o portal Vírgula ou para o site da Revista TPM, da qual fui editora. Eu e outras jornalistas ou blogueiras, que também atuam na área há muitos anos, como a Ju Romano, Kally Fonseca, Renata Poskus, porque ninguém faz nada sozinho. Com várias vozes, o assunto começou a ser falado no Brasil de forma mais organizada por volta de 2008, 2009, levantando a questão da moda plus size.</p>\r\n\r\n<p><strong>8- Como a pandemia afetou o Pop Plus? E quais os próximos passos para fortalecer o segmento?</strong><br />\r\nA pandemia afetou fortemente o Pop Plus, porque são eventos presenciais, aglomerações, ou seja, tudo que não podia ser feito. Nosso diferencial sempre foi justamente trazer as marcas on-line para o off-line, até porque, como a mulher gorda ainda não conhece totalmente seu corpo, precisava desse contato pessoal, experimentar as roupas, conhecer as marcas pessoalmente. Foi muito difícil ficar um ano e meio sem os eventos. A gente acabou se transformando em uma plataforma de conteúdo, fazendo mais matérias, lives e eventos on-line, tudo isso para continuar sobrevivendo, embora o faturamento tenha caído bruscamente. Mas a gente não desistiu, e os próximos passos são continuar investindo no conteúdo – estamos participando de algumas publis para ajudar no faturamento – e nos preparar finalmente para a volta dos eventos presenciais. Em 4 e 5 de dezembro, faremos a edição presencial no Clube Homs, na Av. Paulista, em São Paulo, mas ainda sem a programação paralela que envolvia o Pop Plus, com dança, shows e debates. Será mais um evento de venda mesmo, de rápida circulação, por não sabermos como vai estar a pandemia até lá, né? Vai ser um negócio mais dinâmico.</p>\r\n\r\n<p><strong>9- DJ, jornalista, empreendedora, enfim, uma mulher de sucesso, que conquistou um baita espaço. Mas você já se sentiu alvo de preconceito? De que tipo? E como lida com isso?</strong><br />\r\nPor incrível que pareça, já me senti alvo de preconceito na noite, teoricamente um ambiente mais liberal, mas muito machista. Por ser uma mulher que gosta de música e de tocar, e que entende de música, muitas vezes minha competência e meu conhecimento foram colocados à prova, em dúvida. E só fui perceber isso mais para frente, quando fui me tornando mais feminista. Em orçamentos para eventos, por exemplo, pediam foto e não era aprovada. Quando via quem tinham chamado para tocar, era sempre uma DJ mais novinha, modelo, padrão modelete. Hoje em dia, passo muito por uma situação de invisibilidade de idade. Estou com 44 anos, e acham que depois dos 40 você deve seguir um determinado padrão ou só falar de trabalho, de filhos, de divórcio. Sou casada, mas não tive filhos, e continuo gostando da noite, de tocar, de viajar para festivais de bandas – não na pandemia, claro –, enfim, gosto de me montar, de me maquiar, coisas que teoricamente não estão destinadas a mulheres com mais de 40. Eu não me vejo representada. Em um publi de festival, não vão chamar uma mulher de mais de 40, vão chamar gente de 20 anos, que às vezes nem sabe o que está fazendo ali. Não querendo desmerecer, claro, mas não respeitam o background de mulheres mais velhas, porque acham que todo mundo tem que gostar da mesma coisa. E lido com isso do jeito que sempre lidei com tudo: metendo o pé na porta e continuando sendo do meu jeito. Lógico que não é todo mundo assim, por isso a gente tem que ouvir e acolher a pessoa que tem mais dificuldade de ser quem ela é.</p>\r\n",
            "summary": "Paulistana criada em Santos, Flávia Durante, 44 anos, é comunicadora, DJ, empresária, professora e ativista. Desde 2012, produz em São Paulo o Pop Plus, feira de moda e cultura plus size com média de...",
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            "content_html": "<p>O laboratório móvel do Instituto Butantan está estacionado no meio da Praça Mauá, no centro de Santos, tem despertado a curiosidade de quem passa pelo local. Pudera. Técnicos trabalham com roupas e máscaras especiais dentro de um contêiner com janelas de vidro, chamando a atenção de quem passa por ali. </p>\r\n\r\n<p>Em tempos de pandemia da Covid-19, o Lab móvel, como é popularmente chamado, torna-se ainda mais necessário com o risco do surgimento de novas variantes, como é o caso da delta. </p>\r\n\r\n<p>Segundo dados da Prefeitura de Santos divulgados neste sábado, dia 4, houve um aumento de 15% no número de pessoas internadas com a doença na rede de saúde, de 106 para 122. Dessas, 70 são da cidade (57,3%) e 52 (42,7%) de outros municípios.<br />\r\n <br />\r\nAntônio Jorge Martins, médico e coordenador de serviços de saúde de São Paulo, que atua no grupo de alerta das variantes de Covid-19 do Butantan, esteve na Praça Mauá no início da semana e contou, em entrevista ao Portal BS9, que o Ministério da Saúde segue fazendo diversos estudos de sequenciamento do coronavírus e da forma como o vírus responde as vacinas.</p>\r\n\r\n<p><strong>1- Qual a expectativa do Butantan com esse laboratório móvel?</strong><br />\r\nO Laboratório Móvel do Butantan foi pensado e criado para ajudar as regiões do estado de São Paulo a terem mais agilidade no resultado dos testes PCR. Exames dos nove municípios entrarão aqui e em 24 horas sairá o resultado. Hoje, a média gira em torno de três a quatro dias. Vamos baixar para um dia. Além de fazer o PCR dentro do contêiner e já mandar o resultado on-line para o município, o laboratório fará o sequenciamento genético do vírus. Então vamos conseguir identificar se as variantes que circulam em toda a Baixada são alfa, beta, gama ou delta.</p>\r\n\r\n<p><strong>2- O laboratório vai funcionar até quando em Santos?</strong><br />\r\nVai ficar na Baixada, inicialmente, até o dia 10 de setembro. Vamos analisar todas as amostras que conseguirmos para tentar identificar como o vírus está se comportando na região e tentar ajudar as autoridades a traçar estratégias para conter o avanço de variantes já conhecidas e de novas que podem vir a surgir.</p>\r\n\r\n<p><strong>3- Quantas cepas foram descobertas até agora desde o início da pandemia?</strong><br />\r\nNa rede de sequenciamento do Butantan, nós já coletamos mais de 19 mil amostras e achamos, até agora, 32 variantes. Algumas variantes de importância clínica, ou seja, que podem piorar a pandemia, e outras não. Essas sem impacto tiveram mudança genética, mas isso não manifestou em nada na saúde da população. </p>\r\n\r\n<p><strong>4- O senhor acha que a cidade de Santos, por conta do porto, tem alguma característica que possa contribuir para o surgimento e alastramento de uma nova cepa?</strong><br />\r\nO laboratório móvel começou a funcionar há três semanas. O primeiro local de atuação foi no Vale do Paraíba, em Aparecida, e conseguimos uma quantidade importante de amostras. Lá, a nossa preocupação inicial foi a rota Rio-São Paulo, em que já tinha a delta predominando no Rio. A nossa pergunta era: ela vai vir pela estrada? Em Santos, precisamos descobrir exatamente isso, se o porto é importante, se a rota Rio-Santos, pela estrada, é importante, e o que está acontecendo com a variante delta aqui na região.</p>\r\n\r\n<p><strong>5- Qual o papel do Butantan no combate ao coronavírus?</strong><br />\r\nO Butantan, desde que começou a pandemia, foi determinado pelo governo do estado a fazer a rede de laboratórios PCR. Toda a rede pública do estado de São Paulo é coordenada pelo Butantan. Não é o Butantan que faz todas as amostras, mas ele coordena a rede estadual. No Estado, nós temos nove laboratórios distribuídos que fazem mapeamento por região e o Butantan também faz lá na sede. Fora a rede de PCR, nós também temos a parte da vacina, com a Coronavac, e os estudos com a Butanvac. Quando a gente consegue identificar as variantes do vírus, uma das funções é poder ajudar a Fiocruz, Pfizer e Coronavac a saber se essas vacinas estão neutralizando o vírus. Então é uma ação conjunta, que também tem a função de verificar a eficácia da vacina. <br />\r\n <br />\r\n<strong>6- O senhor atuou na descoberta da variante sul-africana, que surgiu em Sorocaba, interior de São Paulo. Como essa variante se comportou até agora?</strong><br />\r\nDe todas que nós tivemos, a variante T1, que é a gama, que surgiu em Manaus, se sobrepôs a todas as variantes até agora. Tanto à britânica, alfa, quanto à sul-africana. Nos locais com a presença dessas duas, a gama entrou e se sobrepôs, ou seja, ambas sumiram. A delta está conseguindo parear com a de Manaus, ou seja, ela está conseguindo entrar, porém, e felizmente, a vacinação já está avançada e os sintomas clínicos que estamos encontrando no Brasil estão bem menores dos que os encontrados nos Estados Unidos e na Europa.</p>\r\n\r\n<p><strong>7- Quais os riscos da variante delta para a população?</strong><br />\r\nNa realidade, todas as variantes podem manifestar sintomas clínicos. Quando ela surgiu na Índia, a população do país tinha uma taxa de vacinação menor do que 50%. Então, causou um número de óbitos muito grande. Ela foi para a Europa e para os Estados Unidos. Chegando no Brasil, ela pegou uma realidade felizmente nova. Grande parte da população já está, pelo menos, com uma dose. E é uma das coisas que mais reforçamos, que é justamente a importância de as pessoas tomarem a segunda dose. Porque todos os trabalhos mostraram que as vacinas diminuem, e muito, o risco em relação a qualquer uma das variantes, não importa o fabricante. Não impede, necessariamente, que a pessoa possa contrair a doença, mas a manifestação é bem mais leve. A chance de não ter uma internação, ou uma fatalidade, é muito menor.</p>\r\n\r\n<p><strong>8- Alguma variante, incluindo a delta, já colocou a vacinação em xeque?</strong><br />\r\nO que se observa é que, na Europa, em Israel e em outros locais do mundo, a vacinação está sendo revista por conta da delta. No Brasil, nós estamos tendo esse trabalho de observar como as vacinas estão conseguindo agir. Não há trabalhos muito claros dizendo que a delta, que é o que preocupa mais neste momento, seja uma variante que a vacina não consiga combater. O que estamos discutindo é a carga de resposta das pessoas à vacina, que é o trabalho que o Ministério da Saúde está fazendo com as pessoas de idade mais avançada.<br />\r\n <br />\r\n<strong>9- No estado de São Paulo, até o final de dezembro é obrigatório o uso de máscaras. O senhor acredita que em 2022 já será liberado?</strong><br />\r\nA pandemia, para nós, tem criado cada dia um desafio. A gente sai um dia, volta para casa e o telefone toca, porque o vírus mudou de comportamento. Descobrir o que pode acontecer é puro achismo. Então, o dia a dia e a evolução irão mostrar como devemos proceder. Não podemos dizer, precipitadamente, que irá cair o uso de máscaras. Até porque vimos, em diversas partes do mundo que, quem decidiu não usar máscaras, houve um retrocesso no controle do número de casos e, consequentemente, aumento no número de mortes.  Então, temos que aprender com os outros e entender a nossa realidade.</p>\r\n",
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            "title": "Instituto Elos busca parcerias para construir um mundo melhor e mais justo",
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            "content_html": "<p>Há 25 anos, em Santos, acontecia o que a arquiteta e urbanista Natasha Mendes Gabriel chama de pré-história do Instituto Elos, organização de educação social referência em tecnologias sociais e metodologias para formação de lideranças e transformação social.<br />\r\n <br />\r\nReconhecido no Brasil e no exterior, o Elos surgiu a partir do movimento estudantil de Arquitetura e Urbanismo, do qual Natasha fazia parte nos anos 1990, quando era aluna da Universidade Católica de Santos (UniSantos). Como resultado, ações que impactaram diretamente mais de 500 mil pessoas ao redor do mundo. <br />\r\n <br />\r\nCofundadora e diretora pedagógica, Natasha fala sobre as atividades da organização nesses 21 anos de existência, especialmente na Baixada Santista. Comenta, também, o trabalho emergencial desenvolvido durante a pandemia de Covid-19 e o gravíssimo déficit habitacional da região. “É fundamental equilibrar a participação dos diferentes atores locais, promover o diálogo e buscar uma agenda de equidade e justiça social”, defende.<br />\r\n <br />\r\nNesta entrevista, saiba, ainda, como poder público, empresários e população em geral podem colaborar para transformar o mundo em um lugar mais justo.<br />\r\n <br />\r\n<strong>1- O Instituto Elos é uma organização social premiada, reconhecida no Brasil e no exterior. Como aconteceu o seu envolvimento com a entidade, como tudo começou?</strong><br />\r\nO Elos tem uma história e uma pré-história, que vem do movimento estudantil de Arquitetura e Urbanismo, que discutia na época uma arquitetura construída com a participação popular. Em 1995, durante o Encontro Nacional de Estudantes de Arquitetura (Eneas) em Santos, que reuniu 2 mil pessoas, colocamos os estudantes na rua, em espaços pouco conhecidos e pouco discutidos, como o Dique da Vila Gilda, comunidades caiçaras de pescadores, morros, Centro, para debater arquitetura com a população. Depois disso, em 1996, criamos o grupo Reviver, para revitalizar o Museu de Pesca de Santos, que estava fechado havia 11 anos. Foi um projeto muito enriquecedor, que durou quatro anos, realizado em parceria com o Instituto de Pesca e outras organizações, aprovado pelo Condephaat (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo). Mais do que um patrimônio histórico, o Museu de Pesca é um patrimônio afetivo da cidade, uma referência na vida das pessoas. Ouvimos pescadores, crianças, para entender o que elas queriam, buscamos parcerias, e o museu foi entregue em 2000. Nessa pré-história, de participação social, construção coletiva, engajamento da sociedade santista na revitalização desse espaço público, que foi feita de forma colaborativa, a experiência ficou conhecida no meio da arquitetura, foi parar em congressos, encontro latino-americano...  A gente, então, sistematizou isso e criou o Guerreiros Sem Armas, antes mesmo do Elos, e levou essa experiência para comunidades como Dique da Vila Gilda, Praia do Góis e Ilha Diana.</p>\r\n\r\n<p><strong>2- Um programa que continua até hoje.</strong><br />\r\nSim. É um programa de formação de jovens, com o objetivo de transformar realidades e desenvolver habilidades. A duração é de um ano, e já recebemos jovens de 51 países, que multiplicam essa filosofia em comunidades do mundo inteiro. Há uma parte on-line e a imersão de um mês, que normalmente acontece na região da Baixada Santista. Em 1999, foi o primeiro programa, com foco na restauração de áreas degradadas. Hoje ele acontece em vários contextos, com profissionais de diversas áreas. A partir daí, em 2000, criamos o Instituto Elos, porque vimos o potencial de trabalhar com grupos comunitários. <br />\r\n <br />\r\n<strong>3- Como o Elos está estruturado atualmente, em relação ao número de colaboradores, abrangência e áreas de atuação?</strong><br />\r\nO Instituto Elos é uma organização santista referência mundial em tecnologias sociais e metodologias para formação de lideranças e transformação social. Alinhado com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 11, da ONU, contribui para tornar as cidades inclusivas, seguras, resilientes e sustentáveis por meio da mobilização comunitária. Nesses 20 anos de atuação, teve sua metodologia disseminada em 51 países, formou mais de 3 mil lideranças e impactou mais de 500 mil pessoas diretamente em mil comunidades no mundo. É especialista na realidade social brasileira por meio da atuação em mais de 300 comunidades de 21 estados. As formações unem teoria e prática por meio de cursos, jogos sociais e vivências. A organização atua para conectar e articular governos, empresas e grupos comunitários em torno de objetivos comuns de desenvolvimento social. E isso é feito por uma equipe de 26 pessoas.<br />\r\n <br />\r\n“Em um país com um histórico de colonização e processo de escravização como o nosso, pensamos em construção de equidade<br />\r\ne justiça social. Acreditamos que tudo isso é um processo de educação e transformação social” </p>\r\n\r\n<p><strong>4- Dar o peixe e ensinar a pescar geralmente são ações vistas como antagônicas. Afinal, elas são contrárias ou devem ser combinadas?</strong><br />\r\nInteressante você perguntar nestes termos. Nós não utilizamos esta comparação. Em um país com um histórico de colonização e processo de escravização como o nosso, pensamos em construção de equidade e justiça social. Acreditamos que tudo isso é um processo de educação e transformação social, que requer letramento de todos nós. É preciso construir essa visão compartilhada de uma sociedade em que cabemos todos nós, com as nossas diferenças, vivendo de forma digna. Traduzindo para a metáfora da pescaria, às vezes é preciso dar o peixe para quem não tem barco, rede de pesca, anzol... Mas tenhamos clareza que o que as pessoas buscam e precisam, antes de tudo, é ter acesso ao mar.</p>\r\n\r\n<p><strong>5- Continuando com a metáfora, quando dar o peixe se faz absolutamente necessário?</strong><br />\r\nDurante a pandemia, o Elos precisou se reinventar para realizar mobilização comunitária e formação de lideranças em um contexto de distanciamento social. Somos uma organização de Educação Social, trabalhamos dentro das comunidades, e por isso mesmo não poderíamos aguardar o fim da pandemia para retomar o trabalho. Decidimos fazer o que fazemos melhor: criar Elos. Acessamos as comunidades e fizemos um mapeamento de como estavam atravessando a crise, o que nos permitiu ter um diagnóstico claro e gerar um banco de dados tanto das necessidades, quanto das oportunidades dentro de cada uma delas. Isso deu origem ao portal Rede Elos, onde é possível conhecer as comunidades e as iniciativas que estão desenvolvendo para responder aos problemas que lhes afligem. Chamamos isso de protagonismo comunitário. Claro que uma das necessidades, apontadas pelo relatório da Oxfam Brasil, é a fome, que ameaça metade dos brasileiros atualmente. Assim, foram entregues 364 toneladas de alimentos, beneficiando 63.580 pessoas. Até junho de 2021, na Baixada Santista, foram distribuídas 208 toneladas de alimentos, divididas em 6.925 cestas, para 8.203 famílias em 38 comunidades. Os recursos totais mobilizados somaram mais de R$ 2 milhões. Isso foi possível pela atuação do Elos em rede, em parceria com lideranças comunitárias e organizações sociais, e a doação de empresas e indivíduos.<br />\r\n <br />\r\n<strong>6- O que mais engloba esse protagonismo comunitário?</strong><br />\r\nNós avaliamos o contexto. Para as comunidades tradicionais, por exemplo, especialmente as indígenas, em vez de cestas, fizemos doações do kit horta, visando a segurança alimentar dessas pessoas. Nós temos um trabalho bem próximo com a Associação de Jovens da Jureia, que foi uma das beneficiadas. E também mandamos esses kits para comunidades quilombolas e comunidades indígenas de outras regiões do País, como Acre e sul da Bahia. Mas é importante destacar que a Rede Elos também está aberta a pessoas que queiram apoiar iniciativas locais de protagonismo comunitário, para além da ajuda emergencial, por meio do Fundo Semente, de captação de recursos. Neste momento, estamos com o projeto de construção de uma biblioteca comunitária no bairro do Pilões, em Cubatão, um local que a gente apoia há bastante tempo. Já realizamos o Guerreiros Sem Armas lá, depois apoiamos a construção de um parque infantil e de uma horta comunitária, todas necessidades apontadas pela própria comunidade. </p>\r\n\r\n<p>“A Baixada Santista tem 485 assentamentos precários, 182 favelas, 221 cortiços, 270 loteamentos irregulares e 33 conjuntos habitacionais não legalizados. Esses dados estão aí para a gente questionar: que região metropolitana é essa que não consegue dar conta dessa demanda habitacional?”</p>\r\n\r\n<p><br />\r\n<strong>7- De maneira geral, quais as principais necessidades das comunidades da Baixada Santista? Há características regionais específicas e uma demanda própria, que as diferem de outras regiões do País?</strong><br />\r\nA precariedade em relação à moradia e a falta de acesso à moradia, à mobilidade, ao saneamento e à cidade em si, ou seja, a todos os equipamentos públicos e espaços de lazer, são muito parecidas em qualquer lugar. O que a gente tem na Baixada Santista é uma diversidade em relação aos tipos de moradias precárias: cortiços, em áreas de morros e risco, palafitas... Destaco, ainda, as comunidades tradicionais caiçaras e indígenas, que também requerem políticas específicas. Além disso, o nosso ecossistema é muito rico e diverso, outro ponto de atenção e cuidado característico da região. Temos uma Mata Atlântica maravilhosa, uma área de preservação superimportante de manguezal e de restinga que requerem atenção. Quando se fala em pensar, em discutir a Baixada Santista onde queremos viver, é fundamental equilibrar os diferentes atores locais, promover o diálogo e buscar uma agenda de equidade e justiça social. O processo participativo é isso. Um estudo da Agência Metropolitana da Baixada Santista em parceria com a Universidade Federal do ABC mostra que a região tem 485 assentamentos precários, 182 favelas, 221 cortiços, 270 loteamentos irregulares e 33 conjuntos habitacionais não legalizados. Esses dados estão aí para a gente questionar: que região metropolitana é essa que não consegue dar conta dessa demanda habitacional? Essa questão é urgente.<br />\r\n </p>\r\n\r\n<p>“O Elos se propõe a criar diálogo na sociedade e, por meio desse diálogo, criar soluções onde antes parecia não haver possibilidade”</p>\r\n\r\n<p><strong>8- Santos possui a maior favela sobre palafitas do Brasil, o Dique da Vila Gilda. Há um projeto proposto pela administração municipal, que pretende construir moradias sobre o mangue, promovendo o assentamento dos moradores. O Elos apoia a iniciativa? Qual seria o impacto dessa mudança? </strong><br />\r\nConhecemos de perto o Dique da Vila Gilda, uma das primeiras comunidades a receber o programa Guerreiros Sem Armas, em 1999. Após o programa, realizamos em parceria com um grupo comunitário a construção da Creche da Tia Nilda, entre 1999 e 2001. Após a creche, incubamos o projeto sociocultural Arte no Dique, em parceria com o grupo cultural Olodum, com o José Virgílio, que fazia parte do Olodum e hoje é presidente do Instituto Arte no Dique, e com um grupo de mulheres incríveis do Dique. As oficinas culturais inicialmente aconteciam nas ruas, depois conseguimos um contêiner e construímos um barracão cultural, até que, em 2010, o Arte no Dique foi contemplado por uma política pública no Ministério da Cultura, o Mais Cultura, e foi criado o Instituto Arte no Dique, uma escola popular de arte e cultura muito importante. O Elos se propõe a criar diálogo na sociedade e, por meio desse diálogo, criar soluções onde antes parecia não haver possibilidade. Atuamos dessa forma, sem jamais abrir mão das nossas crenças e valores: trabalhamos por um mundo com justiça social, antirracista, antimachista, democrático. Moradia digna e direito à cidade para todas as pessoas faz parte desta agenda. Pessoalmente, não conheço o projeto Parque Palafitas. Acredito que é fundamental uma escuta aprofundada da comunidade e levar em consideração a sua percepção sobre a realidade em que vive, os seus anseios, sonhos e também os seus talentos e contribuições para gerar soluções. É importante que as políticas públicas sejam intersetoriais e que as questões colocadas pela população, universidades, organizações e movimentos sociais sejam consideradas no projeto.</p>\r\n\r\n<p><strong>9- Como poder público, empresariado e população em geral podem colaborar com as ações do instituto?</strong><br />\r\nO poder público pode abrir espaço de diálogo. Temos apoiado prefeituras no Brasil e no mundo aplicando a metodologia Elos na implementação e fortalecimento de políticas públicas. Construir processos participativos não é sobre fazer a escuta para apenas legitimar o processo, mas, sim, sobre incluir as diferentes perspectivas da população no projeto, em especial, a comunidade local e sobre construir cidades mais justas. Empresas e pessoas físicas podem apoiar a ação do Elos a partir de doações pelo site da Rede Elos (https://doe.institutoelos.org/rede-elos/baixada-santista). Sabemos que não está fácil para ninguém, por isso quero reforçar que é possível apoiar a ação do Elos nas comunidades sem colocar a mão no bolso, pela Nota Fiscal Paulista. Para cadastrar uma entidade que receberá automaticamente uma doação a cada compra, é preciso fazer o login no sistema por meio do App da Nota Fiscal Paulista ou no site do programa e selecionar a opção Doação Automática Com CPF. Nesse local é só escolher a instituição e o período que deseja doar. <br />\r\n </p>\r\n",
            "summary": "Há 25 anos, em Santos, acontecia o que a arquiteta e urbanista Natasha Mendes Gabriel chama de pré-história do Instituto Elos, organização de educação social referência em tecnologias sociais e metodo...",
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            "content_html": "<p>\"Tudo na vida tem a sua hora\". Essa frase sempre pautou as decisões tomadas pelo cirurgião Antonio Joaquim Ferreira Leal. Pioneiro da cirurgia bariátrica na Baixada Santista, ele decidiu que estava tudo pronto para realizar o primeiro procedimento de redução de estômago em 2000. E só agora, 21 anos depois e com mais de 5.500 cirurgias no currículo, decidiu que ele próprio estava pronto para entrar na faca, o que aconteceu no dia 28 de maio.<br />\r\n <br />\r\nEssas são só duas das várias demonstrações de coragem desse português da freguesia de Chãs, em Vila Nova da Foz Côa. Que decidiu, ainda criança, que queria ser médico; que decidiu deixar os pais para trás e vir ao Brasil para trabalhar com o tio em um restaurante; que decidiu se casar e ter um filho mesmo sem ter concluído o curso de Medicina. E que em outubro de 2020, em meio à pandemia de Covid-19, decidiu aceitar o desafio de presidir a Associação Paulista de Medicina - Santos (APM Santos).<br />\r\n <br />\r\nPrestes a completar 64 anos e já com 20 quilos a menos, doutor Leal, como é carinhosamente chamado, fala nesta Entrevista de Domingo sobre todas essas histórias e os rumos da cirurgia que ajudou a popularizar.<br />\r\n <br />\r\n<strong>1 - O senhor realizou a primeira cirurgia bariátrica na região, em 2000. Quais eram as dificuldades naquela época?</strong><br />\r\nFoi tudo muito difícil porque era uma cirurgia relativamente nova. Hoje ela tem 50 anos. Nós precisamos criar um esquema e optamos pela Beneficência Portuguesa. Colocamos o projeto para os administradores na época, pro tesoureiro. Ele entendeu, comprou uma maca adequada, carrinho para que pudesse suportar uma boa anestesia nos pacientes. Foi reformado um apartamento no 6º andar, com vaso sanitário que pudesse suportar um paciente bastante pesado; cama diferente. Todas essas condições foram idealizadas por mim, cobradas junto ao hospital, e eles acreditaram no projeto e deu certo. Tenho 36 anos de formado e 21 anos de cirurgia bariátrica. Mais de 5.500 pacientes foram operados por mim. Só de bariátrica. Sem contar hérnia, vesícula, estômago, intestino... Tenho tudo catalogado. O que se fazia no passado é incomparável com as técnicas que nós usamos hoje, com a videolaparoscopia. Dor, desconforto, hoje, incomparavelmente menores. Um dia, um dia e meio de internação. Nos últimos dez anos essa tecnologia da videocirurgia tornou o procedimento muito mais acessível à população. Tornou-se obrigatório pelos convênios.<br />\r\n <br />\r\n<strong>2 - Para ser submetido à bariátrica, o paciente precisa passar por vários processos, atender a vários pré-requisitos. E o número de cirurgias cresceu no Brasil. Houve um afrouxamento nesses processos, facilitando o acesso até de gente que não precisaria operar?</strong><br />\r\nO que houve foi uma procura maior. A bariátrica tornou-se muito mais acessível, mais segura, e isso chamou a atenção das pessoas que antes tinham mais medo. Mas os critérios sempre foram os mesmos, baseados no índice de massa corporal (IMC), que é o peso dividido pela altura ao quadrado, e a presença ou ausência de doenças associadas. Se o IMC for maior ou igual a 40, significa que a pessoa tem obesidade mórbida, classe 3. Mesmo só tendo obesidade, não tendo nenhuma doença, ela já pode pleitear a cirurgia. A obesidade de classe 2 é para IMC entre 35 e 40. Nesse caso, podemos operar desde que a pessoa tenha alguma comorbidade. Existem pessoas que não são tão obesas, mas são muito doentes. De alguns anos pra cá, a Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica passou a se chamar Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica porque houve uma coincidência de acontecimentos. A gente via que operava os pacientes que eram hipertensos, diabéticos e obesos, e esses pacientes, ao perderem peso, ficavam curados. E foi aprovada em 2017 pelo Ministério da Saúde a cirurgia metabólica para paciente diabético magro, com índice de massa corporal de 30 a 35. Mas esses são casos excepcionais.</p>\r\n\r\n<p> <br />\r\n\"Era tudo muito desconhecido sobre o coronavírus. Ainda é, apesar dos avanços. Mas naquele começo sabíamos<br />\r\nmuito menos. Ficamos alguns meses sem operar. Mas a obesidade é um fator de risco.<br />\r\nOs pacientes de maior risco são pacientes obesos\"</p>\r\n\r\n<p><strong>3 - Como foi o cenário da cirurgia bariátrica durante a pandemia e como está a situação agora?</strong><br />\r\nEra tudo muito desconhecido sobre o coronavírus. Ainda é, apesar dos avanços. Mas naquele começo sabíamos muito menos. Ficamos alguns meses sem operar. Mas a obesidade é um fator de risco. Os pacientes de maior risco são pacientes obesos. Principalmente quando eles têm doenças associadas, diabetes, hipertensão. E é sabido que esses pacientes, uma vez operandos, passam a não ser mais grupo de risco. A cirurgia de obesidade foi motivo de discussão em nossa Sociedade, e fomos orientados a não parar com essa cirurgia. Não que fosse uma cirurgia de urgência, porque não é. Mas quanto mais rápido você conseguir diminuir a agressividade da obesidade e evitar pressão alta e diabetes desses pacientes, tanto melhor. Esses pacientes saem do grupo de risco e passam a ser indivíduos normais. No início desse ano ficamos dois meses sem operar porque não tinha vaga e também ficamos sem drogas anestésicas. Esses medicamentos estavam sendo priorizados para as UTIs Covid.</p>\r\n\r\n<p><strong>4 - Em outubro de 2020, durante a pandemia, o senhor assumiu a presidência da APM Santos. Qual foi a motivação para tomar essa decisão e o que o senhor tem feito à frente do órgão?</strong><br />\r\nEu sempre frequentei muito a associação. Já fiz parte do Departamento Científico de lá. Eu fui convidado pela minha amiga Ana Beatriz Soares, vice-presidente. Eu relutei um bocadinho, mas aceitei o desafio. Eu encaro com seriedade, com responsabilidade, tentando agregar os médicos com objetivos não só científicos, mas também sociais. Tornar aquele espaço como extensão da nossa casa. Ao mesmo tempo levar a Associação para a periferia da nossa cidade, junto à Prefeitura, junto ao trabalho que a Secretaria de Saúde desenvolve. E está dando certo, apesar da pandemia. Apesar de algumas modificações, estamos tentando tornar aquele espaço mais aconchegante. Estamos com um restaurante maravilhoso. É aberto à comunidade, de terça a domingo, no horário do almoço. Teremos o 10º Congresso Médico da Associação de Medicina de Santos, de 18 a 22 de outubro, virtual, com quatro ou cinco palestras por dia, envolvendo várias especialidades, sobre avanços, novidades tecnológicas, como robótica.</p>\r\n\r\n<p> <br />\r\n\"Eu optei em fazer só agora porque eu farei 64 anos em outubro e estava com 120 quilos. Já estava começando a ter pressão alta,<br />\r\no meu colesterol estava um pouco elevado, a minha glicemia já estava subindo um bocadinho. Se eu sei qual é o remédio,<br />\r\npor que eu não vou fazer? Emagreci 20 quilos. Estou ótimo\"</p>\r\n\r\n<p><strong>5 - Depois de operar tanta gente nessas duas décadas, o senhor resolveu neste ano se submeter ao procedimento também. Por que só agora?</strong><br />\r\nTudo na vida tem a sua hora. A pessoa que opera tem que mudar a vida. A cirurgia não é promessa de cura eterna da doença. A obesidade mórbida não tem cura, ela tem controle. Com mudança comportamenatl, atividade física. Largar hábitos alimentares ruins. Eu optei em fazer só agora porque eu farei 64 anos em outubro e estava com 120 quilos. Já estava começando a ter pressão alta, o meu colesterol estava um pouco elevado, a minha glicemia já estava subindo um bocadinho. Se eu sei qual é o remédio, por que eu não vou fazer? Emagreci 20 quilos. Estou ótimo. É gratificante. Acontece exatamente aquilo que eu falo para os pacientes. A qualidade de vida, o gosto pela vida, a felicidade nas pequenas coisas. Já estou andando de bicicleta, afinal de contas eu tenho que dar exemplo. Sirvo de espelho para meus pacientes.</p>\r\n\r\n<p><strong>6 - Entrando um pouco na sua história de vida, quando o senhor decidiu que queria ser médico?</strong><br />\r\nEu sempre quis ser médico. Pensando um pouco melhor agora, eu tenho influência dos meus dois \"avôs\". Por parte do meu pai, era o seu Antonio Augusto Leal. Ele era pastor. De vez em quando, uma das cabras caía de cima do muro e quebrava a pata. Se sacrificasse a cabra, era um prejuízo grande, né? Então, meu avô consertava as pernas quebradas das cabras, usando uma tala de bambu com panos amarrados lá. Ele foi desenvolvendo tanta habilidade que depois começou a passar isso pras pessoas que apresentavam contusão, que quebravam a perna, entorse, luxação, só usando azeite, fazendo massagem. E por parte da minha mãe, meu avô Manoel dos Anjos. Ele era lavrador de dia. À noite ele aplicava injeção, arrancava dente, fazia barba, drenava abcessos. Apelidaram ele de Manoel da Noite. Ele era um cirurgião, sabe? Não tinha conhecimento nenhum, mas tinha o dom de fazer essas coisas. E o cirurgião-barbeiro é uma figura que existe na história da Medicina. Aquele que andava de carroça, de cidade em cidade, vendia tônicos, cortava barba, arrancava dente, fazia pequenos procedimentos cirúrgicos. Então, eu acho que, de alguma forma, eu tive uma influência genética ou pelo menos familiar por conta da convivência que eu tive com os meus avós.<br />\r\n <br />\r\n<strong>7 - E para manter essa tradição, o senhor não só se tornou médico como constituiu uma família de médicos...</strong><br />\r\nConheci minha mulher Roselena antes da faculdade, no cursinho. Começamos a namorar, entramos na faculdade. Ela entrou aqui em Santos, eu entrei fora, mas vim pra cá no segundo ano. Fizemos a faculdade na Fundação Lusíada. Casamos no terceiro ano. No quinto ano nasceu nosso filho Lucas, que já foi com a gente na formatura, no sexto ano. Depois nasceu a Clarissa, já estávamos formados. Os dois são médicos, trabalham com a gente na clínica também. Hoje tenho quatro netos e mais uma netinha, a Helena, da primeira gestação da minha filha, que infelizmente faleceu precocemente, logo que nasceu. Mas temos quatro artistas lá em casa, maravilhosos... Dois do Lucas e dois da Clarissa. Essa é a nossa família. A gente gosta muito daquilo que faz.<br />\r\n <br />\r\n<strong>8 - É verdade que o senhor trabalhou em restaurante quando chegou ao Brasil?</strong><br />\r\nEu vim pra cá em 1970. Meu tio José Leal, que é dono do restaurante Olímpia, foi passar férias em Portugal, em 1968. Ele me convidou pra vir pro Brasil e eu não deixei mais meu pai e minha mãe descansarem. \"Eu quero ir pro Brasil, eu quero ir pro Brasil\"... Naquela altura, existia pouca possibilidade de eu me tornar médico em Portugal, de eu fazer uma faculdade lá. As únicas formas eram tendo dinheiro ou entrando para o seminário. Eu vim para o Brasil pra trabalhar, mas sempre com aquela ideia, quero fazer alguma coisa na minha vida. Cheguei no dia 21 de maio. Trabalhei lá no Olímpia durante nove anos, na casa, no salão. Só não fui garçom, mas eu servia as mesas, cozinhava. Tanto é que eu hoje eu gosto bastante de cozinhar. Foi a melhor escola que tive na minha vida. Essa convivência com pessoas de várias idades, de várias profissões. Só parei de trabalhar lá quando eu entrei na faculdade, mais precisamente quando eu casei.<br />\r\n <br />\r\n<strong>9 - E tem algo desse período no restaurante que o senhor aplicou em sua carreira como médico?</strong><br />\r\nEu não tenho dúvida nenhuma de que essa vivência que eu tive no restaurante foi boa, lidar com um monte de tipos de gente. Trabalhadores, fornecedores, entregadores, cozinheiros. O tratar bem não está no livro. Ele está na própria vida. Eu sempre fui uma pessoa muito transparente, muito clara, coerente com aquilo que acredito. Graças a Deus eu tenho bastante amigos, até pelo meu comportamento. A vivência que eu tive no restaurante, toda a educação, tudo aquilo supriu a falta dos meus pais. Veja, eu fiquei 11 anos, depois que vim de Portugal, sem ver meus pais, sem ver minhas duas irmãs. Eu só voltei a ver a minha família quando eu casei, em 1981. Tudo foi muito sofrido, mas, com certeza, o relacionamento que hoje eu tenho com os pacientes aqui na clínica, de olhar nos olhos, franqueza de informação, eu aprendi, a vida me ensinou essas coisas. Médico tem que ter dom, não tem jeito. Primeiro você tem que querer fazer, porque a gente lida com a vida dos outros.</p>\r\n",
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            "content_html": "<p>O vídeo emocionado do prefeito de Mongaguá, Márcio Melo Gomes, o Márcio Cabeça, ao falar da perda do pai e do irmão para a Covid-19, em um intervalo de seis dias, percorreu o mundo. Foram mais de 1 milhão de visualizações da live que fez no dia 30 de março deste ano para prestar esclarecimentos à população sobre as ações da prefeitura no combate à pandemia. O pronunciamento semanal, ao qual estava habituado, daquela vez culminou no desabafo sobre a sua dor e a de sua família. Quase cinco meses depois do ocorrido, falar sobre eles ainda leva Márcio Cabeça às lágrimas. A cada lembrança, a cada citação do nome deles, a fala é interrompida pelo choro.<br />\r\n <br />\r\nNa ocasião da live, a cidade de 56 mil habitantes, assim como os demais municípios da região, enfrentava o período mais delicado da doença, com aumento do número de casos, de internações e de mortes. O choro sentido do prefeito do Republicanos foi uma resposta às críticas que recebeu pelas medidas de restrição adotadas na época, o que incluía o fechamento do comércio.<br />\r\n <br />\r\n“Quero dizer para cada um de vocês o quanto eu queria hoje, com a minha família inteira sendo do comércio, sair dessa live e escutar do meu pai e do meu irmão assim: 'Eu quebrei, o meu comércio quebrou'. Sabe por quê? Porque nós já quebramos, e com a vida nós conseguimos dar a volta por cima\", disse.<br />\r\n <br />\r\nO pai dele, Givaldo Alves Gomes, de 64 anos, que estava internado no Hospital Regional Jorge Rossmann, em Itanhaém, faleceu no dia 22 de março. Já o irmão, Givaldo Melo Gomes Junior, tinha 33 anos. Morreu na Santa Casa de Santos na madrugada do dia 28.<br />\r\n <br />\r\nAgora, a dois dias de o Estado liberar os eventos sociais, museus e feiras corporativas – desde que não gerem aglomerações e que sigam os protocolos de higiene de distanciamento social e uso de máscara –, sem restrições de horário e de público, Márcio Cabeça mantém o cuidado da época: acha que é cedo para a abertura dessa forma, ainda mais diante da ameaça da variante delta.<br />\r\n <br />\r\nNesta entrevista, concedida em seu gabinete na prefeitura, o único da região a ter vista para o mar, ele também comenta o fato de ter sido o prefeito da Baixada Santista com maior percentual de concordância da população com as medidas adotadas para o enfrentamento da pandemia do coronavírus na Pesquisa BS9-Badra, realizada no mês de julho nos nove municípios. Obteve 74,29% de aprovação. “Uma prova de que estávamos certos. Fiquei realmente emocionado com esse reconhecimento”.<br />\r\n <br />\r\n<strong>1- Quais as ações que o senhor acredita que o fizeram ser o prefeito da região com a maior aprovação na pesquisa BS9-Badra no que diz respeito ao combate à Covid-19?</strong><br />\r\nMesmo politicamente impopular às vezes, adotamos um posicionamento para beneficiar 56 mil moradores, e não meia dúzia. Sempre procurei sentir o momento. Enquanto a coisa não estava grave, liberamos um pouco mais. Mas na hora do agravamento, tivemos que ter um pulso mais forte, sim. Entre as ações, destaco que Mongaguá é a cidade com menor orçamento de toda a região metropolitana e, apesar disso, talvez seja um dos únicos municípios, pelo menos do Litoral Sul, a ter uma UPA com pronto socorro para atender a população em todos os aspectos e outra UPA só para Covid, para evitar riscos de contaminação. Obviamente as despesas dobram, mas essa proteção foi extremamente necessária. Chamar o comerciante para o diálogo também foi importante, fizemos várias reuniões para mostrar que não estávamos contra o comércio, que não estávamos contra ou a favor do governo estadual ou federal, mas que estávamos focados em proteger o cidadão mongaguaense. A gente ficou em um meio termo. Adotamos as ações que achávamos importantes de um ou outro governo e quando tivemos que bater de frente, batemos. A cidade também não tinha tomografia e, na pandemia, a gente implantou o serviço para a detecção da Covid, em junho do ano passado. Logo em seguida, talvez tenhamos sido a primeira cidade do Brasil a iniciar o atendimento das complicações pós-Covid. Pelo menos na região. Eu mesmo tive Covid no ano passado e fiquei com muita falta de ar, até hoje tenho um pouco.</p>\r\n\r\n<p><strong>2- Qual o período mais delicado do combate à doença? A cidade chegou a colapsar?</strong><br />\r\nAcredito que tivemos o pior momento de março a abril deste ano, que foi quando tivemos que agir de forma mais dura. A gente já estava preparado para sair da Covid, não só eu, mas todos os prefeitos do Brasil. Em janeiro, fevereiro, parecia que voltaríamos à vida normal, e aí veio aquela pancada daquela onda forte, bem repentina, travando todo sistema de saúde. Por exemplo: dentro da UPA Covid, a gente vinha com quatro, seis pessoas internadas, uma situação controlada.  De março de 2020 a fevereiro de 2021, tivemos 39 óbitos. Mas de fevereiro a maio, pulamos para 90 óbitos. Foi o período mais tenso, tivemos que mexer naquela ferida do comerciante, de ter que fechar de novo, virou uma guerra. A gente passou a gastar, só com oxigênio, três, quatro vezes mais do que gastávamos antes. Esse período foi o mais tenso, durou uns 30, 40 dias. Mesmo assim, graças a Deus, a cidade conseguiu suportar.<br />\r\n <br />\r\n\"Eu tive que viver o pior drama pessoal e familiar da minha vida e saber diferenciar o prefeito do ser humano. A cidade não tem culpa daquilo que aconteceu com meu pai e com meu irmão\"</p>\r\n\r\n<p><br />\r\n<strong>3- Foi justamente o período em que seu pai e seu irmão faleceram.</strong><br />\r\nNenhum comerciante quer fechar. Falo isso porque já fui comerciante. Todo período foi desgastante, complicado com o comércio, uma luta para as pessoas entenderem a gravidade. Alguns entendiam, outros não, e virava aquela queda de braço. Tivemos que ser duros em um momento muito difícil da minha vida (ele se emociona). É sempre difícil falar sobre isso... Eu tive que viver o pior drama pessoal e familiar da minha vida e saber diferenciar o prefeito (ele volta a chorar) do ser humano. A cidade não tem culpa daquilo que aconteceu com meu pai e com meu irmão. Mas em uma semana eu perdi os dois. E eles estavam em pleno vigor de saúde, meu irmão com 33 e meu pai com 64 anos, e eu tendo que lidar com essa situação. Foi a primeira vez na vida, inclusive, que eu precisei ter um posicionamento, e acabei sendo egoísta.  Meu pai internou no dia 10 e meu irmão, no dia 19 de março. Meu aniversário foi no dia 18, e levei meu irmão no dia seguinte para ser internado. Quando meu pai foi intubado, tentei segurar um pouquinho a informação para o meu irmão. Meu pai estava no Regional em Itanhaém e meu irmão, na Santa Casa de Santos. Mesmo na UTI, ele tinha acesso ao celular. Por isso, quando meu pai morreu, escondi a morte dele de todos, não por esconder que era Covid, mas para não chegar para o meu irmão a informação. A Covid é uma doença que, além de tudo, te destrói mentalmente. Logo quando pega, a pessoa já entra em pânico.   </p>\r\n\r\n<p><strong>4- Como segurou a informação?</strong><br />\r\nEu tinha o hábito de fazer live toda semana. Meu pai morreu na segunda-feira e decidi não fazer, para não chegar para o meu irmão a notícia. Passei para o domingo então. Infelizmente, meu irmão morreu no sábado e fiz a live na terça-feira (ele chora). Dói muito (continua emocionado). Além de ser meu pai, de ser meu irmão, essa é uma doença que destrói as pessoas e tudo o que você tem. Já tomei muita porrada na vida. Mas essa perda que sofri agora destrói de uma forma... Tem que ter muita força. E eu acredito muito em Deus, em Nossa Senhora, acredito muito dentro da minha religião, da minha crença, que é isso que me dá forças para lidar com a situação e entender que, como prefeito, há uma cidade que tem que andar e que não tem culpa. Mas sou humano e, naquela época, eu tinha que fazer a live como prefeito, que era o hábito. Era preciso conscientizar a população, porque o momento era crítico. Havia 27 pessoas na UPA, quando o normal era ter três, quatro. No final da live, vieram duas perguntas maldosas. A primeira: se acabasse o oxigênio, qual seria o plano B? E aí o Márcio, não o prefeito, mas o cidadão que vivenciou o fato de ter um pai com uma máscara de oxigênio, sentiu. E não tem plano B, tem que fazer de tudo para não acabar oxigênio. Aí veio a segunda pergunta relacionada ao comércio, que estávamos fazendo aquilo para quebrar o comerciante. Naquele momento (volta a chorar)... O que eu quis dizer é que meu pai tinha açougue, bar, meu irmão teve comércio, e quebrou umas cinco, seis vezes sem ter Covid. Quantos comerciantes quebraram sem ter Covid? Isso não quer dizer que a gente queria que fechasse o comércio. Muito longe disso. Mas eu falei que eu queria que eles estivessem ali, olhando para mim, e dizendo: ‘Eu quebrei porque você fechou meu comércio’. Eles estariam com vida e, hoje, retomando, como muitos quebraram nesse período e hoje estão retomando pela oportunidade, graças a Deus, de estarem vivos.<br />\r\n <br />\r\n<strong>5- As pessoas, por empatia, passaram a apoiar suas decisões a partir daquele momento?</strong><br />\r\nCostumo dizer que respeito todas as religiões e crenças, mas acredito muito na minha, a que eu sigo. Sou católico apostólico romano, tenho tio padre, duas tias freiras, cresci dentro de tudo isso. Fui coroinha de igreja, tenho todo um histórico em torno desse posicionamento. Conversando com meu tio, que é padre, ele me disse: ‘Deixa Deus te usar. Você está sofrendo, a nossa família está sofrendo. Talvez essa sua fala seja para que outras pessoas mudem de opinião, seja para alertá-las’. O que eu quero dizer é que foi um momento que Deus usou, não fui eu, Márcio. Todos os dias que eu levanto peço isso, para que Deus me use como um instrumento dele, para fazer a vontade dele, e não a minha. Porque nós somos falhos. E aprendi isso da maneira mais dura. Nós estamos aqui de passagem. Aquela fala (da live) foi para fora do País. O vídeo foi visto por mais de 1 milhão de pessoas. Eu ouvi agradecimentos. E os recebi sabendo que foi Deus. Não era minha intenção. Eu tinha a intenção de falar para o comerciante, para o povo de Mongaguá, que eu não tive a sorte que muitos tiveram. Perdi meu pai e meu irmão. Mas a fala acabou ajudando outras pessoas. Sendo egoísta agora, queria que nada disso tivesse acontecido, que minha mensagem não tivesse chegado a 1 milhão de pessoas, e que meu pai e meu irmão estivessem aqui. Isso seria o mais importante para mim. E não tomei a decisão (em relação ao comércio) pela morte deles. Minhas atitudes já eram duras antes. Mas usaram isso contra mim, e isso machuca ainda mais.<br />\r\n </p>\r\n\r\n<p>\"Meu pai sempre foi meu herói, meu ídolo. Ele me ensinou, desde os meus 9 anos, o que é trabalhar. Nessa idade, eu já ia para o comércio\"</p>\r\n\r\n<p><br />\r\n<strong>6- Como era a relação de vocês?</strong><br />\r\nEra muito linda, muito sadia. Meu pai sempre foi meu herói, meu ídolo (se emociona de novo). Ele me ensinou, desde os meus 9 anos, o que é trabalhar. Nessa idade, eu já ia para o comércio. Aos 12, assumi os açougues, com mais de 20 funcionários. A gente tinha uma ligação muito forte. E o que mais me encantava no meu pai é que ele tinha a primeira série, apenas aprendeu a ler e a escrever, vindo de uma região de muita fome, Nossa Senhora das Dores, um vilarejo do Sergipe. Ele veio para cá com a missão de trazer os 13 irmãos, junto com minha avó e meu avô. Com toda a simplicidade dele, graças a Deus conseguiu ser vereador por três mandatos, ser comerciante. Quebrou, como eu falei, mas se reergueu, montou uma pousadinha em Peruíbe, estava seguindo a vida dele lá. Meu irmão passou por momentos muito difíceis, caminhando até pelo lado torto, mas conseguiu se reerguer, focar, era meu braço direto. Nessa última eleição, ele foi fundamental, tocou comitê, fez a coisa andar...<br />\r\n </p>\r\n\r\n<p><strong>7- Após a perda de seu pai e do seu irmão, como foi continuar à frente da prefeitura?</strong><br />\r\nNos primeiros dias, mesmo sendo muito religioso, desmontei, principalmente após a morte de meu irmão. Você sai do eixo. O primeiro mês foi uma batalha muito grande, porque não dava vontade de levantar da cama. Mas consegui – acredito muito nisso – porque Deus novamente intercedeu, e tanto meu pai quanto meu irmão vão interceder por mim lá no céu, eles não querem me ver jogar a toalha. Ao contrário, eu tenho que servir, cada vez mais, de orgulho não só para eles como para as filhas do meu irmão, uma menina de 13 anos e uma de 5 meses, além dos meus filhos, claro. E meu irmão estava curtindo tanto isso (ele se emociona novamente). Como meu pai, que me deixou uma irmãzinha de 12 anos... Tudo isso foi motivo para eu buscar forças onde achava que não existia mais e é o que me dá forças para acordar e pensar: tenho que ir lá e ser o melhor que eu puder, para que eu possa, aqui na Terra, deixar um legado, deixar a marca deles. É isso que tenho buscado para diferenciar o Márcio que sofre todos os dias e acorda de madrugada chorando, com saudade. As pessoas falam para mim: só o tempo vai curar. Mas acho que é uma dor que nunca vai passar.</p>\r\n\r\n<p><br />\r\n<strong>8- De que forma o senhor pretende deixar a marca deles?</strong><br />\r\nNo último dia 3, que seria o aniversário do meu irmão, eu e minha família demos abertura a um instituto que leva o nome dele. Minha sobrinha de 13 anos lembrou do aniversário do pai dias antes (Márcio Cabeça chora novamente) e naquela hora pensei que precisava fazer alguma coisa, para lembrarmos de uma forma diferente dessa data e, a partir da nossa dor, ajudarmos as pessoas. A ideia do instituto é atender crianças e famílias em vulnerabilidade, que era o que o meu irmão já fazia, sem aparecer. Até dezembro queremos fazer o cadastro delas. A proposta é oferecer aulas de inglês, informática, caratê, judô... E devemos estabelecer a sede em um bairro carente, como a Vila Operária, Jussara ou Areião. O intuito é tirar a criança da rua, é dar uma oportunidade, uma vida melhor.<br />\r\n </p>\r\n\r\n<p><strong>9- Como o senhor avalia o atual o momento da pandemia e as ações do Governo do Estado, com o fim das restrições previsto para o próximo dia 17?</strong><br />\r\nAcho que temos um bom motivo para comemorar, mas acho também que o Estado está se movimentando de forma política. É muito cedo para voltar tudo ao normal. O brasileiro tem uma cultura difícil: quando você fala que está tudo liberado, prontamente acha que está tudo certo, que está tudo bem. E o grande receio que eu tenho, mais uma vez, é que nós sofremos muito para chegarmos a esse estágio para corrermos o risco de retroceder novamente. A gente sabe que o pessoal não aguenta mais, que a pressão é forte, mas acredito que deveríamos esperar mais dois meses, voltar gradativamente. É importante ver um estádio cheio? Eu estou louco para voltar ao Morumbi, porque sou são-paulino roxo, mas antes disso a gente precisa ter toda a certeza possível de que vamos voltar bem, e não contaminar inúmeras pessoas. Tem a variante delta chegando, a hora é de cautela, mas enfim... Sabemos que é preciso retomar a vida, seguir adiante, mas ainda com o maior cuidado.</p>\r\n",
            "summary": "O vídeo emocionado do prefeito de Mongaguá, Márcio Melo Gomes, o Márcio Cabeça, ao falar da perda do pai e do irmão para a Covid-19, em um intervalo de seis dias, percorreu o mundo. Foram mais de 1 mi...",
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            "title": "Antonio Pereira Juvenal é pai de oito filhos",
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            "content_html": "<p>Ele nasceu em Olinda, Pernambuco, na segunda metade da década de 30. Aos 23 anos, em busca de uma vida melhor, como tantos outros nordestinos veio para o Sudeste, instalando residência em Cubatão, após passar por Minas Gerais e pelo Rio de Janeiro. Trouxe, além de duas pequenas malas, a esposa e a filha recém-nascida, com apenas 40 dias de vida.</p>\r\n\r\n<p>O primeiro trecho da viagem foi graças a um caminhoneiro solidário que transportou a família, dividindo o espaço apertado da boleia, até Minas. De lá, um trem os levou ao Rio, onde permaneceram por cerca de dois anos, quando então rumaram para Cubatão, que anos mais tarde se tornaria um dos principais polos industriais do País.</p>\r\n\r\n<p>Motorista profissional dos bons, dirigiu caminhões, ônibus e peruas, as tradicionais kombis, transportando trabalhadores que atuavam nas fábricas da cidade. Perdeu a conta de quantas caçambas de areia carregou a partir do Porto de Areia de Cubatão, no caminhãozinho que, com muitas dificuldades, conseguiu adquirir, algo que marca sua história e sua vida até hoje. Trabalhador e dedicado, foi convidado então para atuar na Carbocloro S/A Indústrias Químicas, uma multinacional importante, onde permaneceu por longos 31 anos, até se aposentar.</p>\r\n\r\n<p>A primeira casa própria, localizada na rua Padre Primo Vieira, 151, Jardim São Francisco, foi construída exclusivamente com os braços e suor dele e da esposa, tijolo a tijolo, lata a lata da mistura de cimento, areia, brita e água. E a vida correu, andou e, hoje, aos 85 anos, ele é chamado de pai pelos sete filhos que a vida lhe deu, e, também, por um oitavo, o primeiro de todos e fruto de um relacionamento anterior, que dos céus celebra o dia desse pai que também é meu, e que tenho a felicidade de entrevistar</p>\r\n\r\n<p><strong>1- Depois de oito filhos já criados, acho que o senhor reúne todas as condições de me dizer o que é ser pai. Estou certo?</strong><br />\r\nEu acho que sim, meu filho. E talvez você mesmo possa e saiba responder melhor do que eu a essa pergunta. É a melhor coisa do mundo, sem dúvida alguma. É a melhor e a melhor coisa do mundo. É participar do início de uma vida, é a prova da existência de Deus, é uma benção nas alegrias e nas tristezas, na vitória dos filhos e também nas derrotas. Nos sucessos que cada um deles obtém, como nos tropeços que leva. E pensa que eu vivo isso há seis décadas. Só tenho a agradecer.</p>\r\n\r\n<p><strong>2- São oito filhos, oito vidas, oito experiências. O senhor planejava ter tantos filhos?</strong><br />\r\nNão sei. O que sei é que se a idade não tivesse chegado acho que nós não teríamos parado, eu e minha senhora. É resultado de muito amor, sabe. Então, nunca fizemos conta. Eu penso que faria sete ou oito de novo. Aliás, eu gostaria muito que todo pai tivesse os sete filhos que eu tenho. Nenhum dos meus filhos me deu ou me dá trabalho, a não ser o normal, as preocupações comuns que todo pai tem e em todas as fases da vida. A gente é pai o tempo todo. Tenho filho médico como tenho filho motorista de ônibus, e todos com muita saúde, mas, sobretudo, com muita decência, com uma ficha de vida que só me dá motivos para ter orgulho. Tenho um filho que é professor e ex-seminarista, o que eu poderia querer mais?</p>\r\n\r\n<p><strong>3- Tem também um jornalista, que só dá dor de cabeça, um caso à parte, afinal de contas não dá para não ter a ovelha negra da família (risos). Pai, qual é a melhor e a pior parte em ser pai?</strong><br />\r\nA melhor é ter todos eles bebês, e a pior é que eles crescem. E quando crescem, e quanto mais crescem, tornam tudo mais difícil. A gente perde as rédeas sobre a vida dos filhos e isso dá uma certa angústia. Não é para ter o controle absoluto, mas enquanto temos as rédeas, temos mais condições de socorrer, de apoiar, de estar próximo, de dizer ou orientar sobre como fazer. Se há de fato uma parte ruim em ser pai, é exatamente essa que estou dizendo.</p>\r\n\r\n<p><strong>4- Todo esse tempo como pai e as tantas experiências que a vida se encarregou de  propor ao senhor, em algum momento teve medo ou preocupação em não dar conta?</strong><br />\r\nDe não dar conta, confesso que não. Jamais. Muito também pelo apoio e dedicação que, minha senhora, sempre me deu, estando sempre ali ao meu lado e, muitas vezes, até tomando à frente das situações. Me ajudando o tempo todo e em todos os sentidos. Sentada horas e horas em uma máquina de costura para que pudéssemos vencer na vida, enquanto eu me revezava em dois ou três trabalhos simultâneos. Deus sempre foi muito bom com a gente e, apesar de termos passado períodos apertados, nunca deixamos faltar nada para as crianças. Medo ou preocupação só com o mundo lá fora, com aqueles assuntos e riscos que não podemos ou conseguimos controlar, como a violência e as drogas. Acho que vivi um tempo em que era mais fácil ser pai do que é hoje. Tive essa sorte.</p>\r\n\r\n<p><strong>5- O senhor acha que é um pai melhor do que o pai que o senhor teve?</strong><br />\r\nPerdi meu pai, seu avô, muito cedo. Eu tinha apenas sete anos. Não sei dizer, mas sei que mesmo aos 85 anos lamento muito por isso, sinto falta dele (respondeu emocionado).</p>\r\n\r\n<p><strong>6- E no ponto de vista do senhor, qual sua maior contribuição na vida dos seus filhos?</strong><br />\r\nSem falsa humildade, o exemplo. São 85 anos onde não dei o direito de qualquer pessoa ou autoridade chegar perto de mim e dizer, por exemplo, “você está preso”. Jamais abri mão, mesmo nos momentos mais difíceis, e não foram poucos, da verdade e da honestidade. E os filhos acabam percebendo e sentindo isso e sei que procuram seguir o exemplo do pai. Penso que nossa maior e principal missão é a de sermos exemplo.</p>\r\n\r\n<p><strong>7- Bom, pai de oito filhos, por vezes tem que enfrentar perguntas complicadas. Conta para mim, qual foi a maior alegria de ser pai?</strong><br />\r\nNão tenho dificuldade em responder isso não. É algo que me dá um orgulho danado até porque a sensação é de vitória, de missão cumprida, para mim e para toda a família. No Brasil, não é todo dia que um operário consegue formar uma filha médica. Tenho o maior orgulho dela, mas, antes de tudo, sou grato a Deus, a minha senhora, e aos meus outros filhos por terem me permitido isso. É muita benção.</p>\r\n\r\n<p><strong>8- O senhor é quase doutor na arte de ser pai, afinal de contas são oito. Talvez pós-doutorado em “paisofia”. Qual o conselho para quem já é pai e também para quem está pensado em ser?</strong><br />\r\nPara quem já é, que siga o meu exemplo (fala sorrindo) e seja exemplo para seus filhos, em todos os aspectos: ser fiel à honestidade, ser fiel à família, ser fiel ao trabalho. Para que ainda não é, mas está disposto de verdade a ser, que o faça o quanto antes. Na minha opinião, a gente só se realiza plenamente sendo pai, seja de um, de dois ou mesmo de oito filhos.</p>\r\n\r\n<p><strong>9- Uma curiosidade que todo mundo tem, mas que fica assim meio desconfortável de perguntar. E quero que o senhor fique bem à vontade. O senhor ama mais um filho do que o outro? Tipo aquele que entrevista melhor e coisa e tal...</strong><br />\r\nO amor é absolutamente igual. Totalmente igual. A gente aprende a lidar com as carências e qualidades de cada um, e se encanta e se apaixona por todos eles. E são processos de aprendizagem, sobre a forma de amar, totalmente diferentes, mas como a mesma intensidade. Não tem essa de amar mais um e menos o outro. Pode ficar tranquilo, meu filho.</p>\r\n",
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            "title": "Danielle Zangrando relembra emoção de representar o Brasil em uma Olimpíada",
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            "content_html": "<p>Pela primeira vez em 25 anos, a ex-judoca Danielle Zangrando não participa das Olimpíadas, nem como atleta, nem comentarista em nenhuma emissora. Neste ano, ela está acompanhando os jogos de Tóquio apenas pela televisão, torcendo muito por todos os brasileiros e atletas de outros países que também admira.<br />\r\n <br />\r\nSua vida no esporte começou bem cedo. Nascida em São Paulo, foi para Santos ainda criança. Aos 5 anos de idade, por influência do irmão dois anos mais velho, que já praticava judô, também iniciou na modalidade. Ao longo do tempo, o fato de o esporte ser individual, dependendo apenas dela para chegar ao sucesso, a conquistou. Coisas de leonina, como diz.<br />\r\n <br />\r\nE Danielle chegou ao que considera o ápice da carreira: os Jogos Olímpicos. \"É o reconhecimento de toda uma vida dedicada ao esporte\", diz. <br />\r\n <br />\r\nPara além do judô, ela é formada em duas faculdades: Direito e Jornalismo. O primeiro curso veio de uma vontade antiga, mas, apesar disso, nunca atuou na área. Já a vontade de cursar Jornalismo surgiu das participações como comentarista de judô em TV. Ela já atuou como repórter da TV Tribuna e como comentarista em vários veículos, como Globo, ESPN Brasil, Sportv e portal Terra.<br />\r\n <br />\r\nNaquelas voltas que a vida dá, a ex-atleta também fala nesta entrevista do relacionamento com o medalhista olímpico e diretor geral do Comitê Olímpico Brasileiro, Rogério Sampaio, que foi seu treinador. Confira:<br />\r\n </p>\r\n\r\n<p><strong>1- Como uma ex-atleta, o que representa esse momento dos Jogos Olímpicos para você? E o que significa o tão falado espírito olímpico?</strong><br />\r\nÉ o ápice da vida de uma atleta. São muitos anos de dedicação para disputar a competição mais importante do planeta. É o reconhecimento de toda uma vida dedicada ao esporte. Até 2016, o Brasil tinha uma média de 1.800 atletas olímpicos, ou seja, é uma honra fazer parte deste grupo tão seleto. É a primeira olimpíada que não disputo nem como atleta, nem como comentarista por nenhuma emissora. Então estou apenas assistindo e torcendo muito por todos os brasileiros e por atletas que admiro de outros países também.<br />\r\n <br />\r\n<strong>2- Você foi a primeira brasileira a conquistar uma medalha em um Campeonato Mundial de Judô e a ganhar ouro nos Jogos Pan-Americanos em 2007, no Rio. O que essas medalhas representam para você e quais lembranças tem dessa época?</strong><br />\r\nSão duas medalhas pelas quais tenho muito carinho e orgulho de ter conquistado. A do Mundial foi a mais importante e, ao mesmo tempo, a menos esperada, pois estava apenas com 15 anos e não tinha noção do que era um Campeonato Mundial. Descobri que fui a quinta judoca a ser medalhista em Mundial, além de ter sido a primeira mulher do Brasil. Entrei para a história do meu esporte. Na conquista do Pan, eu já era uma atleta experiente, madura, e uma das apostas da Confederação para levar a medalha de ouro. E aconteceu como previsto. Tenho muito orgulho da minha trajetória.</p>\r\n\r\n<p><strong>3- Muitos dizem que você foi injustiçada nas Olimpíadas de Atenas, em 2004, quando os juizes retiraram a punição de sua adversária. Qual a sua sensação em relação a isso? </strong><br />\r\nRealmente, fui prejudicada. Essa é uma luta que eu nunca assisti, foi doída. A sensação é de muita injustiça, pois acabei treinando quatro anos para ser derrotada por um juiz, e não por sua adversária.</p>\r\n\r\n<p><strong>4- Em linhas gerais, quais são os maiores desafios que um judoca enfrenta?</strong><br />\r\nAs lesões são os maiores desafios, por conta das incertezas que elas geram. No meu caso, tive duas cirurgias de hérnia de disco e uma no ombro. E outro desafio é em relação à falta de patrocínio. </p>\r\n\r\n<p><strong>5- E qual foi o momento mais difícil da sua carreira e quando sentiu que era hora de parar de lutar?</strong><br />\r\nO momento mais difícil, sem dúvida, foram as lesões. E decidi parar de lutar por conta disso e também porque queria muito ser mãe. Então, em 2010, me despedi oficialmente dos tatames.</p>\r\n\r\n<p><strong>6- Do que mais sente falta na rotina de judoca e como você vê essa geração brasileira no judô?</strong><br />\r\nSinto muita falta de todas as viagens, do convívio com os colegas de equipe e também das histórias que o esporte que mais trouxe medalhas para o Brasil em Jogos Olímpicos proporciona. Enquanto na geração masculina estamos passando por uma fase de renovação, no feminino temos a geração mais vitoriosa de todos os tempos.<br />\r\n <br />\r\n<strong>7- E como é a Danielle mãe? O que mudou após 10 anos do nascimento da Lara?</strong><br />\r\nSou amiga, parceira e muito apaixonada pela minha filha. Ela diz que pareço uma adolescente com ela. Talvez seja essa a mudança depois do nascimento dela, voltar a ser adolescente com ela. Mas ao mesmo tempo também sou chata e cobro como todas as mães.</p>\r\n\r\n<p><strong>8- Você foi treinada pelo Rogério Sampaio, que hoje é diretor geral do Comitê Olímpico Brasileiro (COB). Como foi ter sido aluna dele e, agora, como é a parceria de vocês?</strong><br />\r\nFoi maravilhoso, porque ele sempre foi meu ídolo. Com a conquista da medalha em 1992 (Sampaio foi ouro em Barcelona), ele me fez acreditar que eu também poderia me tornar uma atleta olímpica. E aconteceu quatro anos depois, em Atlanta-1996, quando disputei minha primeira Olimpíada, com apenas 16 anos. Hoje temos uma parceria que vai além do esporte, somos namorados. Ele mora no Rio de Janeiro e só nos encontramos aos finais de semana. Usamos nosso tempo juntos para praticar esportes, namorar, ver filmes, sair para jantar e curtir os filhos - ele tem um casal e eu, a Lara.<br />\r\n <br />\r\n<strong>9- Você é diretora de Marketing da Fundação Pró-Esporte de Santos, a Fupes. Como você chegou a este projeto? </strong><br />\r\nHoje em dia só trabalho na Fupes. Entrei em 2013, como diretora de Marketing, graças à confiança do ex-prefeito Paulo Alexandre Barbosa, a quem sou muito grata por ter me dado esta oportunidade de trabalhar como gestora do esporte. Poder ajudar nossos atletas é muito bom, pois sei bem o que eles precisam. Meu trabalho é divulgar as conquistas dos atletas, buscar parcerias e fazer o meu melhor para ajudá-los, em todas as necessidades deles. E quero trabalhar ainda mais pelo esporte, área que me deu oportunidade de ter tudo o que tenho na minha vida.<br />\r\n </p>\r\n",
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            "title": "Preto Zezé quer a favela falando de igual para igual com as autoridades",
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            "content_html": "<p>O cearense Preto Zezé já foi rapper. E isso fica muito evidente em suas entrevistas. Com rapidez de raciocínio, fala rápido, sem fazer uma única pausa em cada uma das longas respostas que dá. Poderia muito bem iniciá-las com \"Eu tenho algo a dizer\" e mandar ver.<br />\r\n <br />\r\nA referência ao emblemático primeiro verso da música Voz Ativa, lançada pelo Racionais MCs em 1992, não é por acaso. Atual presidente nacional da Central Única das Favelas (CUFA), ele luta justamente para mostrar que as comunidades da periferia têm voz ativa, têm algo a dizer.<br />\r\n <br />\r\nE não só para os moradores desses territórios, mas também para as autoridades. \"A favela precisa participar da discussão das soluções. Vai ter retomada econômica? Vai. Nós queremos participar\", disse.<br />\r\n <br />\r\nTanto é verdade que, na última quarta-feira, dia 21, Preto Zezé se encontrou com os prefeitos de Santos, Rogério Santos, e Praia Grande, Raquel Chini, durante sua passagem pela Baixada Santista. A região tem cerca de 190 favelas, onde moram mais de 300 mil pessoas. É lá que a CUFA Baixada Santista tem atuado, com os programas Baixada Solidária - Na Luta Contra a Fome e Mães da Favela, entre outros. <br />\r\n <br />\r\nFoi nesse dia 21 que o presidente concedeu uma entrevista exclusiva ao Portal BS9, num prédio do Centro de Santos. Descontraído, assim que chegou ao escritório, foi à janela, que tinha vista para os morros, para tirar fotos e gravar vídeos. Durante a conversa, falou de tudo: ações da organização durante a pandemia, o papel da igreja nas favelas, racismo, violência, política e por aí vai.<br />\r\n <br />\r\nAo final, quando parei a gravação no celular, Preto Zezé viu o tempo marcado na tela e falou, sorrindo: \"32 minutos de rajada\". E foram mesmo.<br />\r\n <br />\r\n<strong>1 - Quando foi que o senhor despertou para a consciência social?</strong><br />\r\nO acordar vem quando você começa a se envolver com as questões que têm que ser resolvidas. Porque, assim, para o cara que está ali no morro (aponta em direção ao Monte Serrat, na janela) não existe Santos, existe ali, a área dele. Se a escada está legal, a subida do bonde, se a água está legal, se vai ter baile no outro dia, se o emprego está legal, se não tem tiroteio, se a quadra de esportes está funcionando... Ali é a Santos dele, não existe a Santos cidade. Santos é onde o cara está, é a rua dele. E se juntar mais gente, você começa a ver que dá para fazer grandes mudanças naquele território. Mas a grande mudança (em despertar uma consciência social) é a gente se perceber como tal. Isso é muito louco. As pessoas me perguntam: \"O que é mais forte na CUFA?\" Você pensa que as campanhas, as ações são importantes demais, é o que dão a nossa cara. Mas (mais importante) é o investimento nas emoções das pessoas. Se elas acreditam que é possível fazer uma mudança e que elas têm que ser protagonistas, a mudança vai acontecer. Pode não ser a perfeita, mas nós vamos trabalhar de alguma forma para que ela aconteça. E para mim, pessoalmente, (esse despertar) aconteceu em vários aspectos. Teve a coisa de trabalhar na rua, o hip-hop, que foi muito importante para a questão da identidade, do negro de expressão. Mas eu sentia falta de uma coisa na prática. E quando vem a CUFA, em 2000, é que dá essa noção, melhora esse discurso, dá uma organizada nesse ódio, uma politizada nessa revolta. Organiza uma agenda, qualifica melhor a capacidade de intervir, dialogar, tanto na favela como no asfalto. A gente se torna poliglota e começa a transitar em vários lugares e aí, dá um impacto e você se coloca pessoalmente. E do ponto coletivo, como favela, em lugares que as pessoas nunca imaginaram. E muitas vezes dá até choque.<br />\r\n <br />\r\n<strong>2 - Tem aquele ditado que diz que não basta dar peixe ao pobre; é preciso ensiná-lo a pescar. Mas durante a pandemia, a CUFA resolveu fazer as duas coisas: distribuir cestas básicas e preparar empreendedores, como já fazia. </strong><br />\r\n\"E direcionar a fome, porque é a vontade de comer que te mobiliza. No sentido mais amplo de fome do que a fome física. A fome no sentido de buscar alternativas de saída. Você manter uma organização permanente de ações, buscando melhorias no território. É dessa fome que eu falo, da fome de agir, de fazer as coisas acontecerem, de trazer soluções. Mas é porque é a primeira vez também, em mais de 20 anos de existência da CUFA - eu estou há 19 anos, vou fazer 20 este ano -, que a gente pede comida, dinheiro. A gente nunca fez isso. Sempre desenvolvemos nossas ações baseados em formar lideranças, construir agenda política e apresentá-la para os poderes público e privado. E aí, fomos obrigados pela pandemia a converter essa nossa rede de atuação em outra coisa. Porque o centro das nossas ações é a mobilização das pessoas. Então, você imagina, numa pandemia, ter que desmobilizar geral. Então, acabou o que era essencial para nós. Mas por incrível que pareça, a CUFA se ampliou, ficou mais forte. As pessoas perguntam como a gente tem conseguido alcançar números tão expressivos no momento mais difícil. Eu tenho dito que o momento difícil é o nosso normal. É como se a desigualdade brasileira fosse um guarda-roupa e o Covid é uma peça dentro dele. É como se fosse uma espécie de naufrágio, em que o afogamento é seletivo. Nas favelas estão as pessoas que mais se afogam, e as mulheres principalmente. Por isso que a gente lançou o programa Mães da Favela e essas campanhas de arrecadação.<br />\r\n <br />\r\n<strong>3 - Então, hoje, para a CUFA, a fome é a questão mais urgente.</strong><br />\r\nVocê já tinha fome, mas não tinha no nível em que está hoje, adicionado a questões muito complexas. Por exemplo, se você olhar março do ano passado, a informalidade já estava nos 40, 50% nas favelas. O desemprego alcançava 11 milhões (de pessoas); hoje deve estar em 14 milhões. Uma situação de saúde que não era tão agravada porque (a pandemia) estava começando. Quando entra 2021, com 14 milhões de desempregados, crise econômica, a demora do auxílio emergencial em mais de três meses, a queda de 85% nas doações, no nosso caso, você tem ingredientes perigosíssimos combinados. E aí, com a crise econômica agravada, vem o caso daquele cara que morava de aluguel, tinha até um negócio, ficou desempregado, não conseguiu mais pagar aluguel e ele, a mulher e as crianças tiveram que morar na rua. E quando vai morar na rua, não tem mais nenhum meio de sobrevivência. Quando você vê os barracos na rua, os caras que já estão na rua têm o barraco num formato bem direitinho. Já um negócio mais desregulado é daquele cara que não imaginava que fosse morar na rua. E tem o advento da fome. Eu já passei fome e é um negócio desesperador porque não atinge só o físico. Atinge a nossa ideia de \"que coletividade eu faço parte? Eu faço realmente parte da sociedade? Por que a sociedade não me vê?\". Mexe com umas crenças que temos sobre acordos civilizatórios que nós fizemos, e isso é muito perigoso. E hoje nós estamos aí, com 20 milhões de pessoas passando fome no Brasil.<br />\r\n <br />\r\n<strong>4 - A violência nas favelas prejudica o trabalho da CUFA?</strong><br />\r\nA gente atua em favelas do Brasil inteiro. Em favelas que têm milícias, facções das mais variadas. Todos esses grupos têm uma demanda de soluções muito grande no território. E nós não temos problema porque estamos na ponta da solução. E eu estou falando isso do ponto de vista também de quem não tem nenhuma relação de promiscuidade, mesmo reconhecendo que esses grupos têm uma força, um poder estabelecido nesses lugares. Quando você começa a trabalhar uma agenda de soluções, uma agenda para desenvolver ativos positivos dentro desses territórios lembrados somente como lugar de tragédia ou quando a política pública pensa como problema; quando eu começo a ver esse lugar como solução, como inovação, como potência, eu passo a direcionar uma subjetividade. Uma ideia de potência desse lugar, levando-o para uma seção de destaqie no BS9, para os cadernos de economia. Então, eu começo a fazer uma ponte rumo a um lugar que a favela até então não habitava. Nós estamos fazendo (doações de) cesta básica hoje e tem gente que vê só o resultado final. Mas se você olhar, por exemplo, o que tem do ponto de vista de logística, de entrega, trabalho, de eficiência, de foco, de mobilização, nós estamos com mais de 50 mil pessoas todos os dias. Pessoal nos barcos, quatro horas rios acima... Rio Negro, Rio Amazonas, pessoas deixando cestas básicas em comunidades ribeirinhas, em quilombos, até o extremo sul do Rio Grande do Sul. Isso é um ativo, é uma tecnologia. Neste momento, se a gente não faz essas ações, talvez a situação estivesse bem pior e mais complicada.<br />\r\n <br />\r\n<strong>5 - Pessoas e entidades que promovem o combate ao racismo, à LGBTfobia, à misoginia e outras ações em prol da diversidade passaram a ser chamadas pelos mais conservadores de \"turma da lacração\". E a CUFA sempre apoiou essas causas. Como o senhor vê isso?</strong><br />\r\nAgora essas pautas estão tendo visibilidade, mas elas sempre existiram. O Brasil é um país com 521 anos de existência, mas com 388 anos de escravidão. E é um país que tem vergonha de si próprio. Tanto é que ele diz que não tem racismo, que nós convivemos bem, que se existe preconceiro, é um preconceito social que eu não sei como o que diabos é isso ainda. Mas o Brasil é esse amontoado de assumir que nós temos racismo, mas ninguém assume que pratica. Então, a pergunta é onde nós escondemos o nosso racismo? No discurso, isso é mais coisa de internet porque na vida real, as coisas são bem práticas. O que nós estamos tentando produzir é um diálogo com todas as partes, principalmente no debate econômico, no debate da política pública. A favela precisa participar da discussão das soluções. Vai ter retomada econômica? Vai. Nós queremos participar. Essa tem sido uma forma de manter as coisas em que a gente acredita, de lutar contra a desigualdade, contra o racismo, contra essas questões. E ao mesmo tempo poder dialogar de maneira que a gente não seja colocado nesse lugar da lacração e do mimimi. É muito difícil dizer que é mimimi uma instituição que, mesmo no pior momento, consegue atender 6 milhões de pessoas. É muito difícil dizer que é lacração pessoas que poderiam ter ficado em casa, mas não, foram pra rua, se arriscar. Inclusive perdemos muitas vidas e muitos de nós foram  contaminados nessas ações até hoje. As pessoas perguntam: \"O que você acha do 'fique em casa'?\" A gente não sabe. A gente nunca ficou em casa. Quando as pessoas falam isso, eu digo que não transito por essa gramática da lacração, do mimimi. A gente transita por agendas concretas, não estamos só debatendo e discutindo na rede social. E eu acho que precisamos ter acordos em torno dessa agenda de soluções. Quando a gente tiver uma agenda de soluções, aí nós discutimos quais os políticos que atendem aos nossos interesses, quais os partidos. A gente dialoga com todos os gestores públicos para encaminhar essas agendas. Então, a gente tem que ter isso claro para não cair na vala comum de ser colocado como lacração e mimimi.<br />\r\n <br />\r\n<strong>6 - Na sua opinião, por que as igrejas têm uma penetração tão forte nas favelas. E o que o senhor acha da forma como elas atuam?</strong><br />\r\nEu acho que o crescimento das igrejas, principalmente evangélicas, é um reflexo da ausência do Estado. Na vida social não tem vácuo. Se tem um vácuo do Estado, alguém vai ocupá-lo, seja o crime, a igreja, a CUFA... Agora, um elemento específico dessa questão é como a igreja mobiliza a subjetividade das pessoas? Para que você vai à igreja? Se você olhar os caras da igreja, eles estão nas portas de cadeia, nos hospitais, nas praças com as pessoas que estão largadas, com os alcoólatras... Muitas das lideranças dessas igrejas são pessoas que vieram desse ambiente. Então, é meio que a improvisação de um Estado. As igrejas são conservadoras no valor. Mas na demanda concreta, elas são reais porque, do macumbeiro ao crente, todos precisam de uma UPA, precisam de um auxílio emergencial, estão na fila recebendo um marmitex lá em Heliópolis. Tem gente de todo jeito ali. Então, um Brasil de esvaziamento social e desigualdade atinge todos. Como alguns reagem, aí é que muda. E nesse caso, essas igrejas têm cumprido um papel do ponto de vista de cuidar da subjetividade, acolher as pessoas.<br />\r\n <br />\r\n<strong>7 - Mas houve casos de pastores fazendo esforços, mesmo em fases críticas pandemia, para que as igrejas reabrissem, com o argumento de que lá as pessoas estariam seguras. </strong><br />\r\nAcho que a gente tem que partir agora para uma leitura de por que esses fenômenos acontecem, por que as pessoas se interessam por eles para poder conduzi-las por outra agenda. Porque a gente sabe que é muito prejudicial uma pessoa achar que vai estar dentro de uma igreja e não vai pegar Covid. Isso é totalmente fora de lógica. Mas ao mesmo tempo, acho que a gente, em vez de combatê-las como um todo, devia dialogar com esse imaginário que está equivocado e trazer essa mobilização que já existe para próximo de nós. Porque eu também não quero dizer qual religião você tem que professar. A questão religiosa tem muito a ver com acolhimento, com você procurar uma coletividade, você ficar em seu momento de concentração, de autoconhecimento, em uma conversa sua com o sagrado. Isso não tem a ver com a igreja, tem a ver com você. A gente começa a entender isso e as coisas como amor ao próximo, amar ao outro como a ti mesmo, começam a ser mais praticadas do que faladas. E começa, inclusive, a fazer os irmãos terem uma leitura crítica sobre o que as suas lideranças estão fazendo, que era o que eu fazia na época. Nas igrejas, nos primeiros meses da pandemia, os pastores sumiram. Quatro meses que ninguém veio falar de pastor nenhum, porque pastor só aparecia na igreja para fazer o culto e recolher o dízimo. Isso é legal porque a gente passou a conversar isso com a base, com os irmãos, com os fiéis. Onde estão os pastores?<br />\r\n <br />\r\n<strong>8 - Como surgiu a ideia do programa Mães da Favela, que dá comida e voucher às mulheres da periferia que são mães?</strong><br />\r\nQuando começou a pandemia, naquela ideia da ilustração do naufrágio, em que o afogamento é seletivo, a favela seria a mais sacrificada porque parte dela teria que manter os serviços essenciais, ou seja, estaria na rua. Tanto é que aumentou o número de mortes de gente que trabalha em hospital, em farmácia, cara que pega lixo na rua, entregador de aplicativo, gente que trabalha em posto de gasolina. E aí, (se pensava) \"ah, com o isolamento social, fica em casa\". A pessoa já era isolada de seus direitos. Quando chegava em casa, tinha cinco, seis, sete, oito pessoas num barraco. Como você vai dizer \"fiquem aqui até a pandemia passar\"? Sem ter o que comer, sem ter dinheiro, sem ter nada? E dentro desse processo, as mulheres, principalmente as mães solteiras, foram as mais sacrificadas porque, inclusive, os filhos estão fora da escola há um ano. Esses filhos estão com elas em casa. Elas não podem sair para trabalhar. Às vezes tem uma pessoa idosa, acamada ou que precisa de cuidados permanentes dentro daquele lugar. Então essas mulheres, num afogamento geral, não tinham nem uma madeira perto, nem uma boia. E daí nasceu o programa Mães da Favela, com uma amiga lá de Heliópolis, que estava numa situação como essa, na beira do córrego, num barraco, quase dentro d'água. E com ela a gente se inspirou a fazer um programa de atendimento a essas mulheres. E por incrível que pareça, apesar de serem a parte mais vulnerável no impacto da pandemia, quando as ajudas chegam, muitas dessas mulheres passam de atendidas a líderes. E desencadeiam uma série de outras coisas interessantíssimas. Por exemplo, cuidado com as crianças, com os idosos. Dinheiro que fica na própria favela porque ela vai negociar no boteco da esquina, no mercadinho, como é que bota uma conta para depois, uma dívida para depois. Essas mulheres são fundamentais, e a maioria delas está na linha de frente da CUFA. Estamos, inclusive, no mês de julho das pretas. Todos os dias fazendo homenagens às mulheres de linha de frente na favela, da CUFA. Para nós é uma honra e um aprendizado permanente. Porque elas não são uma parte, \"ah, a luta das mulheres\". Elas são a própria luta.<br />\r\n <br />\r\n<strong>9 - A CUFA vem sendo cada vez mais requisitada para formar parcerias, tanto com o poder público como com a iniciativa privada. Como a entidade conquistou essa credibilidade?</strong><br />\r\nEm campanhas presidenciais, a gente sempre levava os candidatos a presidente para ouvir o que a favela tinha a dizer. Eu lembro que já levamos Alckmin, Dilma, Aécio, Lula, Marina Silva... A gente sempre produziu esses diálogos com os gestores e os poderes instituídos. E eu acho que a reputação vem um pouco daí, de eu chegar para qualquer governador, qualquer partido e não defender o que convém ou o que agrada a eles, mas defender os nossos interesses. Não quer dizer que a gente tem que ser hostil, xingar, maltratar, mas colocar de maneira íntegra, transparente o que nós estamos fazendo. (Precisamos) saber que isso é importante, ter noção do nosso papel neste momento, de que nós não podemos mais ser coadjuvantes do nosso próprio processo. Não adianta pensar coisas para a gente ir a reboque. Nós queremos pensar a concepção, a execução e também fazermos juntos. Não adianta só trazer tudo pronto para a gente.</p>\r\n",
            "summary": "O cearense Preto Zezé já foi rapper. E isso fica muito evidente em suas entrevistas. Com rapidez de raciocínio, fala rápido, sem fazer uma única pausa em cada uma das longas respostas que dá. Poderia...",
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            "content_html": "<p>Quando criança, Domingos Neto tinha um sonho: ser dono de açougue. Começou a trabalhar aos 7 anos no comércio do pai e, aos 14, já era gerente do frigorífico da família. Aos 16, foi trabalhar no açougue do tio, mesma idade em que entrou para a faculdade de Direito, que cursou por quatro anos.<br />\r\n <br />\r\nFez inglês, espanhol e italiano, e resolveu trabalhar a bordo de um navio de cruzeiros, no exterior, para juntar mais dinheiro e realizar o sonho de ter o próprio negócio. Antes disso, de volta ao Brasil, foi gerente de uma loja de móveis. <br />\r\n <br />\r\nTodas essas experiências – além do carisma, claro – foram fundamentais para o sucesso de Netão Bom Beef não só como empreendedor, mas como influenciador digital. <br />\r\n <br />\r\nLogo quando abriu o açougue com cortes especiais, na Avenida Pedro Lessa, em Santos, criou um perfil no Instagram para mostrar a novidade. Assim, a Bom Beef criava um público segmentado, que se interessava por carnes especiais para churrasco. “Comecei a mandar a minha carne para alguns churrasqueiros conhecidos em Santos e São Paulo, pedindo a opinião deles, porque queria um feedback do meu trabalho. Mas essa ação acabou se consolidando em uma excelente estratégia de marketing”. </p>\r\n\r\n<p>E bota excelente nisso. Hoje, no Instagram, são mais de 800 mil seguidores em seu perfil pessoal, quase 300 mil no perfil do açougue e outros 90 mil no perfil da Bom Beef Burgers, nova rede de hamburgueria delivery, que em breve terá também a primeira loja física em Santos, bem em frente ao açougue que o ajudou a ficar famoso. Em seu canal no YouTube, criado em 2019, já são mais de 1 milhão de inscritos.<br />\r\n <br />\r\nCasado com Suelania Silva, que está grávida, eles já são pais de uma menina de 3 anos. Na última sexta-feira, dia 16, o casal descobriu que terá um menino. A revelação, claro, pode ser vista pelos seguidores de Netão em seu Instagram.<br />\r\n <br />\r\nSaiba mais sobre ele na entrevista a seguir:  <br />\r\n <br />\r\n<strong>1- Com o Bom Beef, você montou um modelo de negócio praticamente inédito no País e se tornou uma grande referência em carnes premium. Como isso aconteceu? </strong><br />\r\nUns dois ou três bons açougues no Brasil já vendiam carnes especiais na época (2014), mas não vendiam a quantidade de cortes especiais que me propus a vender. Eles tinham três, quatro cortes. Alguns frigoríficos também faziam. Minha proposta foi fazer todos os cortes especiais que o boi me permitia. Acho que isso, sim, foi realmente novo. O boi é como se fosse uma tela branca, que você pode pintar como quiser. Do mesmo pedaço de carne, do mesmo músculo, posso pegar vários cortes especiais. Se eu pegar um contrafilé, posso tirar chorizo, ojo de bife, ou prime rib, bife de tira... Tradicionalmente, faço 28 cortes especiais no açougue. Fora os comuns. Busco sempre novidades, entregar experiências diferentes para o cliente. <br />\r\n <br />\r\n<strong>2- Muitas empresas quebraram durante a pandemia, e este foi o período em que você mais cresceu, inclusive em popularidade, e passou a empregar mais pessoas. </strong><br />\r\nQuando a pandemia começou, ninguém sabia o que ia acontecer. E eu resolvi fechar o açougue, 100%, e dispensar os funcionários para esperar quais decisões seriam tomadas em termos de saúde pública, para preservá-los. Estava muito preocupado com a saúde da minha equipe, com a minha saúde, com a saúde da minha família e da família dos meus funcionários. Aproveitei esse tempo, cerca de 20 dias, para bolar estratégias para não fechar as portas depois, definitivamente. Aí surgiu a ideia de entregar kits, cada dia um kit diferente. Neles, geralmente iam uma refeição pronta, para esquentar em casa, e insumos para as próximas três refeições. </p>\r\n\r\n<p>\"Enquanto boa parte dos estabelecimentos demitiu durante a quarentena, nós conseguimos manter todos os nossos funcionários e ainda contratar mais 22. De três motoboys, por exemplo, passamos para 16 nesse período\" - Netão</p>\r\n\r\n<p><strong>3- As lives surgiram nesse período também?</strong></p>\r\n\r\n<p>Comecei a fazer as lives nesse período em que fiquei em casa, bem antes do boom que aconteceu em todo o País. Minha ideia era entreter as pessoas que também estavam em casa por conta da pandemia. Minha esposa ficava com a bebê no colo, com dois celulares, e gravava na cozinha de casa, onde também montei um cenário. Depois, também passei a gravar para ensinar a receita dos kits que vendia no açougue, tudo de maneira leve, descontraída. Graças a Deus, a ideia do kit pegou muito rápido. O primeiro dia de vendas foi uma loucura. Vendi 50 unidades em minutos. No segundo dia, dobrei a quantidade. Anunciava no Instagram, e acabava em minutos. Depois, todo dia, ao meio-dia, liberava a venda e as primeiras 250 pessoas que mandavam mensagens levavam. Não tinha reserva, não tinha privilégio para amigo, nada. Sempre prezei por isso, ser muito correto. Não existe cliente melhor, todos são iguais. Não interessa se o cara comprou uma salsicha ou R$ 20 mil de wagyu (corte japonês que é considerado um dos melhores do mundo). Enquanto boa parte dos estabelecimentos demitiu durante a quarentena, nós conseguimos manter todos os nossos funcionários e ainda contratar mais 22. De três motoboys, por exemplo, passamos para 16 nesse período.<br />\r\n <br />\r\n<strong>4- E as lives que você fez com famosos? </strong><br />\r\nAcredito que pelo resultado das minhas lives. Cheguei a ter 70 mil pessoas me assistindo. E as empresas começaram a participar também. Fiz lives para algumas marcas. E as que fiz com artistas geralmente foi porque alguma marca me convidou para apresentar. Adoro trabalhar ao vivo, aquela adrenalina. Gostava bastante. Fiz algumas bem legais com o Michel Teló, Leonardo, Edson e Hudson. Com o Teló, fui o apresentador e fiz o churrasco. Brincava com ele, levava uma carne, e era um sucesso.  </p>\r\n\r\n<p>\"Sempre tive na minha cabeça que eu não posso demitir funcionário bom, que trabalha direito, por incompetência minha. Precisava gerar demanda para eles. Foi aí que pensei em fazer a hamburgueria pelo iFood, só delivery\" - Netão</p>\r\n\r\n<p><strong>5- Como surgiu a ideia da hamburgueria?</strong><br />\r\nA Bom Beef Burgers também nasceu durante a pandemia. Era um projeto que eu já tinha, mas estava na gaveta há muito tempo, esperando o momento certo. Na minha cabeça, ia rolar lá para 2023, por aí. Eu fazia os kits no prédio que estou reformando para abrigar o açougue novo. Chegou uma hora em que precisei parar de fazer os kits para tocar a reforma. Só que eu já tinha contratado gente para trabalhar lá. Sempre tive na minha cabeça que eu não posso demitir funcionário bom, que trabalha direito, por incompetência minha. Precisava gerar demanda para eles. Foi aí que pensei em fazer a hamburgueria pelo iFood, só delivery. Quando anunciei no Instagram que ia montar a hamburgueria, foi uma loucura. Por onde eu passava falavam sobre isso. Minha ideia era só comprar uma fritadeira, já tinha chapa, e trabalhar. Aí fiz um baita investimento, junto até com alguns parceiros de equipamentos. Bombou. Aí abri a do Brooklin, em São Paulo. E terão outras unidades dark kitchen (100% delivery), a maioria na região de São Paulo e de São Bernardo. A primeira loja física vai ser em Santos, em frente ao açougue, e possivelmente haverá uma física em São Vicente também.</p>\r\n\r\n<p> <br />\r\n<strong>6- O vegetarianismo e o veganismo crescem cada vez mais. Vai ter alguma opção vegana na hamburgueria ou hambúrguer é de carne?</strong><br />\r\nHambúrguer é de carne. Mas sei que, em algum momento, eu terei que desenvolver e disponibilizar alguma opção vegana nas hamburguerias. Mas ainda não estou preparado para isso.<br />\r\n <br />\r\n<strong>7- O que define um bom churrasco? E dá para fazer um bom churrasco em qualquer lugar, com carvão ou sem carvão?</strong><br />\r\nAlegria é o ingrediente principal. Depois, 90%, carne de qualidade e uma boa brasa e 10%, o assador. Se tem alguém triste em um churrasco, tem alguma coisa errada. E qualquer pessoa, em qualquer lugar, pode fazer um bom churrasco. No meu canal no YouTube, já fiz churrasco em fogo no chão, sem equipamento nenhum, com bambu que peguei na mata; já fiz na minha parrilla (tipo de churrasqueira), que é maravilhosa, faz a carne praticamente sozinha; na frigideira; churrasqueira elétrica; no forno e na churrasqueira a gás. Não tem desculpa. É claro que em alguns lugares vai ser mais fácil de fazer, mas se não tiver uma churrasqueira, dá-se um jeito também.</p>\r\n\r\n<p>\"O cara que comprava cinco quilos de carnes intermediárias começou a comprar dois quilos de carnes especiais, porque os churrascos passaram a ser menores, mais residenciais. As pessoas passaram a valorizam a carne de qualidade, com a família, porque não estavam fazendo mais nada, não estavam indo a restaurantes ou viajando\" - Netão</p>\r\n\r\n<p><strong>8- Durante a pandemia, a inflação aumentou e um dos produtos que mais sofreram aumento de preços foi a carne. No mercado premium, isso interfere no consumo, ou seja, quem consumia uma carne especial passou a comprar um corte mais acessível?</strong><br />\r\nA carne aumentou muito. Na verdade, ela já vinha aumentando há algum tempo. No final de 2019, fiz um post no Instagram falando que a arroba estava chegando a R$ 200, que era um absurdo. Hoje a arroba está chegando a R$ 350. Em 2017, era R$ 150. Claro que influencia. Mas na pandemia a gente viu uma mudança no perfil de consumo do cliente do açougue. Eu tenho tanto as carnes megaespeciais quanto as intermediárias. E o cara que comprava cinco quilos de carnes intermediárias começou a comprar dois quilos de carnes especiais, porque os churrascos passaram a ser menores, mais residenciais. As pessoas passaram a valorizam a carne de qualidade, com a família, porque não estavam fazendo mais nada, não estavam indo a restaurantes ou viajando. Agora que começaram a se reunir de novo, não tem mais jeito: uma vez que você bebe o vinho bom, não vai mais tomar aquele vinho doce da prateleira do supermercado. Com a carne de qualidade é a mesma coisa. </p>\r\n\r\n<p> <br />\r\n<strong>9- Você fez uma cirurgia bariátrica. Quantos quilos deixou para trás?</strong><br />\r\nEmagreci 70 quilos. Eu não tinha a menor vontade de fazer a bariátrica. Era obeso, mas bem tranquilo com relação ao meu peso, não tinha pretensão nenhuma de emagrecer. Mas minha saúde não estava boa. Meu médico chamava muito minha atenção, minha mãe e minha esposa também. Eu queria muito ser pai, e minha esposa achou a chave para eu fazer a operação: “Quando você fizer a cirurgia, a gente engravida”, ela disse. E fiz. Muitos problemas de saúde que tinha por causa da obesidade mórbida, melhoraram depois que emagreci. A bariátrica foi um divisor de águas na minha vida. Quando era gordo, não sabia que me faltava gás, disposição e até ânimo. Digo que, depois da minha filha, a bariátrica foi a melhor coisa que fiz.</p>\r\n",
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            "content_html": "<p>O nome de Alexandre Camilo já faz parte da tradição santista. Isso porque o professor e contador de histórias que cresceu no Morro São Bento é o fundador da Ação do Coração, movimento solidário que ocorre anualmente há dez anos, com a intenção de arrecadar doações e espalhar amor.</p>\r\n\r\n<p>Inspirada em um evento europeu, do qual Alexandre e seu irmão Eduardo Furkini participaram, a ação também é uma homenagem a Eduardo, que faleceu após sofrer um infarto. Alexandre busca espalhar amor e preservar a memória do irmão, tanto com a ação, quanto com a associação sem fins lucrativos que leva o nome de Eduardo e fica em Santos, no bairro Jabaquara.</p>\r\n\r\n<p>A décima edição da Ação do Coração, que já tem seu dia, 2 de agosto, marcado oficialmente no calendário da Cidade, neste ano está programada para acontecer com muitas surpresas. Assim como no ano passado, ela será feita em formato on-line, pois ainda não é possível levar as pessoas para a Praça Mauá, onde sempre ocorreu, por conta da pandemia.</p>\r\n\r\n<p>Hoje, as arrecadações acontecem por meio de PIX ou pelo aplicativo da Ação do Coração. Há opções de doações de cesta básica, um quilo de alimento, ou de fazer parte da vaquinha (independentemente do valor da doação). </p>\r\n\r\n<p>A confecção dos famosos corações também continua. É possível fazer o seu e entregá-lo na sede da Associação Eduardo Furkini (Av. Rangel Pestana, 316). Lá, os corações são pulverizados com Lysoform, colocados num saquinho e serão entregues no dia 2 de agosto em hospitais da região.</p>\r\n\r\n<p>Camilo reforça que estamos em um cenário de dor e doença, por isso é hora de levar corações em forma de gratidão a quem cuida do próximo. Saiba mais na entrevista a seguir:</p>\r\n\r\n<p><strong>1- A Ação do Coração chega à décima edição. O que mudou desde o começo?</strong><br />\r\nA essência permanece a mesma: fazer o bem de verdade. Fazer um coração para quem a gente não conhece. Fazer a nossa doação. É tão bonito quando você vê a Ação nesses anos todos, crescendo cada vez mais, chegando a diversos países, com toneladas de alimentos, agasalhos e brinquedos sendo arrecadadas para quem precisa. Além de pessoas importantes dando seu depoimento e participando da ação, como a Maria da Penha e J. Borges. No ano passado, com Maurício de Souza e Elba Ramalho. Tantos artistas dando testemunhos e colaborando para que a Ação do Coração possa alcançar mais pessoas. Mas o que eu diria que foi uma grande mudança, no ano passado, foi fazer o evento de forma virtual. Hoje a gente tem um aplicativo onde você é capaz de desejar o bem, enviando um coração de forma virtual. Você confecciona o coração e pelo mesmo aplicativo pode fazer a sua doação. Então, a ação cresceu, a tecnologia veio para ajudar, hoje a gente consegue atingir milhares e milhares de pessoas, mas a essência e o trabalho voluntário permanecem. E é isso que nos move, isso que move tanta gente a se dedicar a essa causa, a esse movimento de amor. Amor que tem também um grande poder de cicatrização, tem poder curativo.</p>\r\n\r\n<p>\"O maior problema que a gente tem atualmente no mundo não é falta de agasalho, não é falta de brinquedo, não é falta de comida. É a falta de amor“ -<br />\r\nAlexandre Camilo</p>\r\n\r\n<p><strong>2- O tema da campanha deste ano é Nossa História, Nosso Legado. Qual a mensagem que você quer deixar?</strong><br />\r\nForam duas motivações para esse tema. A primeira, usando a projeção do presente para o futuro, que história estamos construindo? Porque qualquer um de nós pode partir a qualquer momento e, quando a gente parte, o nosso maior legado, a herança que fica, não é a casa, o carro ou algum objeto pessoal. São as histórias, a forma como você ajudou alguém, como impactou a vida de alguém. E a segunda motivação, usando outra projeção, do presente para o passado, a gente também olha para trás e vê o quanto que a gente realizou, o quanto, por meio dos voluntários, a gente pode chegar a milhares de pessoas. Hoje os números apontam mais de 1 milhão de corações, enviados de diversos lugares, e mais de 200 toneladas de alimentos. E o coração é um símbolo de amor. O maior problema que a gente tem atualmente no mundo não é falta de agasalho, não é falta de brinquedo, não é falta de comida. É a falta de amor. Semana passada, numa única madrugada, quatro moradores morreram de frio. Isso não é falta de agasalho, porque São Paulo é a maior cidade do País. Isso é falta de amor, falta de cuidado com o outro. E a Ação do Coração nasceu para enfatizar justamente isso. Porque o amor, quanto mais eu doar, mais eu vou receber. Este é um dos nossos mantras: quem doa sempre ganha. <br />\r\n <br />\r\n<strong>3- A maior parte das doações vinha da arrecadação de alimentos, agasalhos e brinquedos. Agora, o foco são doações em dinheiro. Por quê?</strong><br />\r\nNo Brasil, de certa forma, a pessoa prefere doar o alimento, o agasalho, o objeto e não o dinheiro. E, por causa da pandemia, desde o ano passado, a gente está reforçando muito a importância da doação em dinheiro. Por exemplo, com um volume maior de dinheiro eu consigo um volume maior de cestas básicas por um preço melhor. Com dinheiro eu consigo atender, por vezes, aquela pessoa que está precisando de um remédio. Há pessoas que já têm comida em casa, mas não tem gás. Tem gente que precisa de uma cadeira de rodas ou de uma cadeira de banho. Então, são múltiplas as necessidades e a Ação sempre foi muito transparente. Quando você tem a oportunidade de receber a doação em dinheiro, você consegue transformar isso em comida e entregar da melhor forma. Por exemplo, o Vale do Ribeira é a região mais carente do Estado de São Paulo. São 22 cidades, algumas delas com o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) baixíssimo. Então, o que a gente pode fazer? Podemos realizar através da nossa rede de solidariedade uma compra grande de alimentos e pedir que a própria empresa se encarregue da logística para poder entregar lá. E lá os nossos representantes fazem chegar a quem precisa.<br />\r\n <br />\r\n“Este é um dos nossos mantras: quem doa sempre ganha” - Alexandre Camilo<br />\r\n <br />\r\n<strong>4- Falando sobre você, como era o Camilo na primeira edição e como chega em 2021 para essa décima edição?</strong><br />\r\nChego bem mais envelhecido pela correria. Quem se dedica ao trabalho social sabe que é um trabalho sem fim. E esse é meu trabalho voluntário. Eu sou professor e trabalho em São Paulo, na Sociedade Brasileira de Programação Neurolinguística (PNL). Sou escritor, tenho os espetáculos que eu faço parte, a partir das minhas pesquisas de storytelling. Então, sempre que eu posso, em qualquer momento de folga, venho para me dedicar ao trabalho social. O trabalho não para. Olhando para trás, vejo as fotos, vejo tudo que a gente fez, vejo a motivação para isso tudo, e ela permanece a mesma. O que a gente entende, é que à medida que o tempo vai passando, você vai vendo que existe muito mais gente precisando, existem mais cidades. Então, eu me dedico a conhecer as comunidades de perto antes de fazer qualquer doação. A gente tem um grupo forte de voluntários, uma comissão, uma diretoria, para poder ajudar sempre com cuidado para não envolver nada político, para não envolver nada que seja religioso. Todas as religiões são convidadas a participar. E não pode ter envolvimento político porque a palavra já está dizendo partido, e o amor une. A gente eleva apenas uma bandeira, a bandeira do amor. Nesses dez anos, a gente viveu muita coisa. Falando do Alexandre de lá para o Alexandre de cá, eu vejo a mesma vontade de contar histórias, o mesmo desejo de transformar. E vejo que muitas pessoas que nem conheceram o Eduardo foram se agregando, foram se juntando a essa história. Então, nossa responsabilidade aumenta mais.<br />\r\n <br />\r\n<strong>5- Como é seu trabalho de contação de histórias e qual sua história preferida?</strong><br />\r\nQuando eu morrer - eu não sei quando isso vai acontecer, a gente nunca sabe a hora que vai partir -, eu quero ser lembrado como um contador de histórias, como um pesquisador dessas histórias. Sou apaixonado por esse trabalho e não tenho dúvida nenhuma de que essa é minha missão aqui na Terra: contar e inspirar através de histórias. São várias histórias que eu gosto, desde os contos clássicos até os contos de tradição oral, as fábulas. Ultimamente, tenho contado muito uma história sobre reclamar e agradecer, porque eu acho que tem muito a ver com tudo que está acontecendo no mundo. Agora, para citar uma história preferida, eu gosto demais da história dos Três Conselhos. É uma história absolutamente profunda que fala sobre não tomar atalhos, porque os atalhos podem nos custar a vida. Fala sobre não ter curiosidade para o mal, porque a curiosidade para o mal nunca vai te acrescentar em nada. E pede para que a gente nunca tome nenhuma decisão no momento de raiva, no momento de ódio. Decisões tomadas nessas horas fatalmente a gente se arrepende depois. É um conto de camadas, como eu gosto de chamar, que tem um ensinamento maravilhoso.<br />\r\n <br />\r\n<strong>6- Como se prepara para a contação?</strong><br />\r\nNunca uma história sai igual a outra. A mesma história, toda vez que ela é contada, sai diferente. Porque depende do momento, do dia. A parábola das Três Árvores, por exemplo, é uma história que tem tocado meu coração. Eu contei essa história há dois dias e me surpreendi, porque estava com as nuances que a história traz e sai diferente sempre. Eu me preparo bastante, gosto de, quando estou fazendo um trabalho, qualquer que seja ele, colocar foco e atenção. Muitas vezes a gente não tem ideia do impacto que a escolha das nossas palavras pode ter para quem vai ouvir. As palavras podem provocar sentimentos e gerar imagens.<br />\r\n <br />\r\n“Não pode ter envolvimento político porque a palavra já diz: partido. E o amor une. A gente eleva apenas uma bandeira, a bandeira do amor”- Alexandre Camilo</p>\r\n\r\n<p><strong>7- Como é o Alexandre Camilo professor?</strong><br />\r\nEu sou professor de storytelling, de oratória, e adoro programação neurolinguística, porque eu entendo que através dos padrões de linguagem, do professor Milton Erickson, a gente tem diversas ferramentas para que o orador possa se expressar de uma melhor maneira. A maioria dos problemas que a gente tem no mundo corporativo, na educação e nos relacionamentos são problemas de comunicação. Muitas vezes, um casal quer a mesma coisa e ambos não estão sabendo se expressar. Então, esse trabalho com linguagem, com histórias, é uma paixão. Adoro realmente. As minhas aulas, modéstia à parte, são muito divertidas. Porque o conteúdo hoje em dia é muito fácil. Se você tem acesso à internet, você tem ali um imenso oceano de conteúdo. Mas a forma de passar esse conteúdo, a ligação, a conexão, a congruência de quem está ensinando faz toda a diferença. Então, eu vejo o Alexandre Camilo de fora como um professor divertido, que está sempre muito focado em poder atender à necessidade específica daquele aluno. Eu nunca penso na turma como uma forma geral ou no curso, porque é isso e muito mais, cada um de nós tem uma necessidade.<br />\r\n <br />\r\n<strong>8- De que forma a pandemia afetou o seu trabalho?</strong><br />\r\nA pandemia afetou muito meu trabalho, como de diversas categorias. E aí eu tinha opção do trabalho que eu fazia ao vivo de realizar on-line. E confesso que demorei para começar a fazer isso, porque eu tinha uma entrega muito boa, modéstia à parte, no ao vivo, e eu precisava ter toda certeza de que eu poderia, no virtual, realizar o trabalho com a mesma maestria. Tocando os corações, passando ensinamentos muito mais do que o conteúdo. Demorei, mas estudei muito, assisti muita coisa, fiz cursos, tive mentores. E aí, através desse acompanhamento, deste trabalho, percebi que eu poderia migrar para o virtual com a mesma qualidade. Hoje eu falo de forma segura que o trabalho on-line que eu estou realizando junto à Sociedade Brasileira de PNL, junto com meu trabalho de storytelling, atinge muito mais pessoas. Eu consigo numa única turma atender alunos de Angola, do Maranhão, de Sergipe e de Santa Catarina. Então, entendo que é uma grande evolução. Não é que vai substituir o ao vivo, é uma outra experiência. Mas é possível sim. Então, afetou muito, mas acredito que é mediante aos desafios que a gente conquista o crescimento.<br />\r\n <br />\r\n“Sempre quis ser padre quando criança. Eu ficava encantado. Realizava missinhas no sítio em que eu morava no Morro São Bento” - Alexandre Camilo<br />\r\n <br />\r\n<strong>9- Como você se define?</strong><br />\r\nSempre quis ser padre quando criança. Eu ficava encantado. Realizava missinhas no sítio em que eu morava no Morro São Bento. E eu sou um contador de histórias, uma pessoa que gosta de ouvir, que gosta de contar, que é verdadeiramente apaixonado pelo ser humano. E tive muita sorte de ser filho da Dona Regina, minha mãe, grande inspiradora, uma mulher criativa e à frente do seu tempo. Ser filho do Seu Vasco, que tinha um carisma enorme, que ajudava um monte de gente. Meu pai tem uma praça com seu nome no Largo São Bento, no morro, que se chama Vasco Carmano Gonçalves. Porque era dele essa coisa de ajudar, de estar no meio do povo. E ser irmão do Eduardo, da Cláudia e da Simone. Eu acho que, com irmãos tão diferentes, eu tive tanto aprendizado! E partir daí, a minha família só cresceu, já que os amigos são a família que a gente escolhe. Então, quando eu partir desse mundo, eu quero ser lembrado como uma pessoa que ouvia, contava e escrevia histórias. Estas que ajudam no processo curativo, que ajudam a cicatrizar. Eu acredito que uma boa história é capaz de curar.</p>\r\n",
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            "content_html": "<p>Qualquer conversa com o antropólogo e terapeuta Darrell Champlin é uma aula. Ex-professor universitário, o americano que vive em Santos há mais de 30 anos faz uma análise da sociedade atual em tempos de pandemia. E confessa que imaginou que a humanidade, pelo fato de o mundo inteiro estar no mesmo barco, passaria a ser mais empática, generosa. Ledo engano. “Cheguei a acreditar que poderíamos progredir, mas o que fizemos foi dar alguns passos para trás”.<br />\r\n <br />\r\nNesta entrevista, Champlin – que é autor dos livros O Portal dos Sonhos; iEu, como desacelerar uma mente turbinada na era da ansiedade e Antropo+logia – fala, ainda, sobre polarização política, doenças emocionais, redes sociais e sobre o que devemos fazer para nos tornarmos mais empáticos.<br />\r\n <br />\r\n<strong>1- Em um post recente, o senhor escreveu que a coletividade foi substituída pelo individualismo, pelo egoísmo. É um fato recente, há um marco nesse sentido, ou na verdade sempre fomos individualistas?</strong><br />\r\nTinha-se a ideia nas Ciências Sociais, lá atrás, de que o ser humano era igualitário, generoso, preocupado com o vizinho. Uma criatura que, por ter aprendido a viver em sociedade, teria aprendido a compartilhar. O que eu pensei quando a pandemia começou em 2020: agora a verdadeira natureza de generosidade, empatia e partilha do ser humano vai aparecer. E pensei isso porque o mundo inteiro estava no mesmo barco, um barco afundando. A realidade foi totalmente oposta, com uma resposta que já se via nas sociedades primitivas de caça, de 10 mil, 30 mil anos atrás. Diferentemente do que se pensa sobre essas sociedades, o homem primitivo levava a carne para o seu grupo e enterrava, escondia dos demais grupos: ‘não tem carne aqui, não’. É o meu umbigo primeiro e, se der, penso no seu lá para frente.<br />\r\n <br />\r\n<strong>2- As redes sociais têm ajudado a escancarar esse egoísmo e pensamentos que antes ficavam escondidos. Na pandemia, por exemplo, o que se vê é que boa parte da população está apática diante da marca de mais de 500 mil mortes por causa de uma doença. Como não se chocar com isso?</strong><br />\r\nTalvez a gente comece a ter uma noção melhor para essa resposta depois de um bom tanto de pesquisas, daqui a cinco, dez anos. Onde foi que a humanidade errou neste momento em que se chegou a acreditar que poderíamos progredir, mas o que fizemos foi dar alguns passos para trás? É uma questão multifacetada. E acredito que uma dessas facetas é que, ao longo dos últimos 15 anos, vivemos uma divisão política muito profunda. De repente, o ultraconservadorismo reagiu a uma ala extremamente liberal, e isso acelerou a expressão do egoísmo. E não é só no Brasil. Aconteceu na Alemanha, colocaram o (Donald) Trump nos Estados Unidos. Há vários lugares do mundo em que existe uma rachadura profunda. E quando se olha pelo espectro das redes sociais, é de ficar horrorizado. As pessoas que diziam antes não ter político de estimação são as mesmas pessoas que hoje têm um político de estimação. Então, as redes sociais são outra faceta importante, por permitirem que as pessoas se expressem, com ou sem razão, sem ter de colocar a cara para bater, muitas vezes sob anonimato. E não é porque alguém defende ou não a cloroquina, por exemplo. É muito antes disso. É porque te acho gordo, então eu te critico. Te acho magro, te critico. Porque você é negro, e eu não sou. As redes sociais criaram um ambiente onde é possível se expressar às escondidas contra qualquer coisa da qual não se gosta. Voltando à sociedade primitiva, é o ‘não tem carne aqui’. Ou seja, as fake news vêm do início da história da humanidade e giram ao redor da desigualdade.</p>\r\n\r\n<p><br />\r\n<strong>3- Desigualdade que sempre existiu.</strong><br />\r\nNunca houve igualdade.  E não vai haver em um momento tão próximo. Hoje, o que acontece, principalmente nas redes sociais, é que as pessoas se aproveitam da igualdade delas para atacar a igualdade dos outros. Sei que é contraditório o que acabei de falar. Mas por que é tão fácil dizer que o planeta não é redondo, mas é plano? Porque há uma plateia que vai aceitar. É aquela história da igualdade dos primus interpares (expressão usada para designar alguém que se destaca entre outros semelhantes). Já se eu estiver fora desse grupinho que acredita que a Terra é plana, serei profundamente atacado. E por que as pessoas mantêm absurdos como esses? Porque elas encontram eco, e isso gera a sensação de pertencimento. O presidente fala que a terra é plana ou que se você tomar a vacina vai virar jacaré, e há uma legião que, por pertencimento, vai aceitar a opinião. <br />\r\n <br />\r\n<strong>4- Mas vai aceitar de verdade, cegamente, ou mesmo sabendo que está errado?</strong><br />\r\nAcredito que algumas pessoas realmente passam a acreditar na mentira que é contada muitas e muitas vezes. Eu não sou de esquerda, nem de direta. Não defendo um, nem outro. Sou de centro-direita politicamente, então não estou representado por nenhuma das partes envolvidas nessa polarização, de verdade. Mas há pessoas que acreditam que o governo atual conseguiu terminar projetos que estavam parados há 30 anos em um ano. Eu tenho uma prima, americana, que é profundamente trumpista. Por ideologia política, eu votaria em um republicano antes de um democrata, mas não votaria em alguém como Donald Trump, que é republicano. Por uma questão de mínimo discernimento. Mas essa minha prima está dizendo que ele vai voltar. E o que o Trump fez é o que estamos vendo a extrema direita fazer em países da Europa, no Brasil, um movimento tão nocivo quanto a extrema esquerda, todos girando em torno do ‘eu sim e você não, porque você é diferente de mim’. Em todos os aspectos. Então, qualquer um que represente aquilo a que me proponho a acreditar, eu vou aceitar, vou votar, vou manter. Qualquer um que seja. É a minha sobrevivência em detrimento da sua sobrevivência. <br />\r\n <br />\r\n<strong>5- Então essa apatia em relação às mais de 500 mil mortes tem a ver com o ‘não foi comigo, eu estou vivo, não sou coveiro’?</strong><br />\r\nTambém. E não é só isso. É a questão do pertencimento a um grupo onde isso é dito. E isso é primordial para a sobrevivência, não física necessariamente, mas emocional. Os recursos da humanidade são tão abundantes hoje, que você não precisa mais sair para caçar ou plantar o próprio alimento. A nutrição alimentar não está mais em pauta, como esteve no início da história da humanidade. A nossa necessidade de sobrevivência de agora está muito mais relacionada à forma como eu vivo no meu grupo. É de sobrevivência emocional.</p>\r\n\r\n<p>\"Morrem mais pessoas, por ano, por suicídio do que pela somatória de acidentes de automóvel e guerras civis pelo mundo. São cerca de 800 mil mortes por suicídio anualmente. Algo muito errado acontece em nossa sociedade\" - Darrell Champlin</p>\r\n\r\n<p><strong>6- Vivemos hoje, mais do que nunca, uma pandemia de doenças emocionais, mentais. Não é contraditório?</strong><br />\r\nHá um efeito posterior à pandemia, sim, mas isso já vinha acontecendo. Vou te dar um exemplo estarrecedor: morrem mais pessoas, por ano, por suicídio do que pela somatória de acidentes de automóvel e guerras civis pelo mundo. São cerca de 800 mil mortes por suicídio anualmente. Algo muito errado acontece em nossa sociedade. Essa questão do desenvolvimento emocional e das doenças mentais é antiga. E de onde ela vem? É uma questão multifacetada também, que envolve a falta de desafios. A pessoa não tem mais o desafio de se manter, de caçar, como nos primórdios da humanidade. Não há motivação.<br />\r\n <br />\r\n<strong>7- Mas muitos lutam para conseguir emprego, por exemplo, são mais de 14 milhões de desempregados no País. Não é tão simples para todo mundo. </strong><br />\r\nO desemprego é uma situação dramática realmente, de deixar horrorizada qualquer pessoa com o mínimo de sensação de justiça. Ainda assim, muitos recebem algum tipo de incentivo perto de casa ou do governo. Dão o peixe, mas não ensinam a pescar. Ao mesmo tempo em que essa ajuda é extremamente necessária para a sobrevivência, por outro lado cria uma legião de pessoas submissas a esse processo. E essa é mais uma faceta. <br />\r\n <br />\r\n<strong>8- Se está na nossa base, na nossa essência esse egoísmo, como mudar isso? O que fazer para que a empatia e a solidariedade sejam dominantes?</strong><br />\r\nExiste uma nova tendência no mundo que envolve o aprendizado de meditação e a mudança de hábitos alimentares rumo ao vegetarianismo ou ao veganismo – não porque o sabor da carne é ruim, mas porque para que você possa comer carne alguém tem que morrer. Quem ainda acredita que os animais são motivados apenas por instinto está ignorando a realidade. Eles têm emoções. Podem não ter a mesma linha de raciocínio que nós temos e agem por instinto com muita frequência, sim, mas reduzir todo o comportamento animal a coisas aprendidas por hábito ou por instinto é um erro. Quero dizer com isso que há uma parcela da sociedade caminhando para ter muito mais compaixão pela existência da vida e do próprio planeta, com uma pegada ambiental também. E essa pequena parcela da sociedade está fazendo barulho, influenciando outras pessoas de maneira importante. O físico quântico Amit Goswami, talvez a pessoa que tenha feito o maior trabalho de integrar as ciências exatas com as ciências humanas hoje, prevê que, no atual ritmo de mudanças do planeta, leva-se mais três gerações, de 150 a 200 anos, para que seja possível ter uma igualdade maior nas nossas sociedades. Já o Dalai Lama fala: se todas as crianças em idade escolar aprendessem meditação, a violência no planeta terminaria em uma geração. Existe esperança? Ô, se existe! Só que tem que acontecer uma mudança profunda de paradigma em diversas dessas facetas que estamos conversando aqui.</p>\r\n\r\n<p>\"Há uma parcela da sociedade caminhando para ter muito mais compaixão pela existência da vida e do próprio planeta, com uma pegada ambiental também. E essa pequena parcela da sociedade está fazendo barulho, influenciando outras pessoas de maneira importante\" - Darrell Champlin</p>\r\n\r\n<p><strong>9- Por que a meditação tem um impacto tão importante? E todo mundo pode meditar?</strong><br />\r\nEm quatro minutos de prática, a meditação diminui, em alto percentual, a produção de cortisol, o hormônio do estresse. Se o meu nível de estresse está mais baixo, serei menos agressivo. Este é só o primeiro resultado, o mais simples. Há a mudança para uma pessoa mais equilibrada e menos responsiva, de fuga ou luta. Pessoas que meditam consistentemente há quatro meses ou mais passam a ter menos posturas responsivas. As coisas se tornam menos urgentes. Elas não vão reagir mais às fake news, por exemplo. Claro que os benefícios vão além disso. Há mudança na compaixão, com mais empatia pelas pessoas que te cercam. As diferenças passam a não ser mais tão fortes, e a igualdade se faz mais presente. E qualquer um pode meditar. Mesmo quem diz que não consegue, porque pensa rápido demais. Quem faz esteira ou caminhada, por exemplo. Quando pisar com o pé esquerdo, pensa ‘esquerda’. Com o pé direito, pensa ‘direita’. E fica pensando: esquerda, direta, esquerda, direita, de acordo com as passadas. Dessa forma, vai esquecer dos problemas, com uma espécie de mantra. É a chamada meditação ativa. Temos 70 mil pensamentos por dia, quase 80% deles repetidos e quase a totalidade dos pensamentos repetidos é negativa. Ou seja, pensamos no podre quase o tempo todo. Quando meditamos, esse padrão muda. E pode meditar sentado, fazendo ioga, nadando, mudando o ritmo de respiração. Você nunca vai esvaziar a cabeça, porque seu cérebro foi feito para pensar. Mas se mudar a forma de pensar, deixar de pensar só negativamente, a urgência muda e a vida melhora com um todo. </p>\r\n",
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            "content_html": "<p>O acidente com o navio Cap San Antonio na margem esquerda do Porto, em Guarujá, no último dia 20, trouxe de volta a velha discussão sobre a necessidade de se ter uma ligação seca entre Santos e Guarujá. São mais de 90 anos de intenção.</p>\r\n\r\n<p>Porta-voz da campanha Vou de Túnel, que defende o túnel imerso como melhor alternativa para a travessia entre as duas cidades, o engenheiro e consultor portuário Eduardo Lustoza é categórico: a ponte seria mais um obstáculo para o Porto e a balsa é obsoleta e está mais do que na hora de ser aposentada.</p>\r\n\r\n<p>Conselheiro da Associação de Engenheiros e Arquitetos de Santos (AEAS), Lustoza reforça que, com o túnel, a travessia poderá ser feita em menos de cinco minutos. Além de automóveis, há previsão de circular ciclistas, pedestres, ônibus e VLT.</p>\r\n\r\n<p>A campanha Vou de Túnel conta com <a href=\"https://voudetunel.com.br/\" target=\"_blank\">petição on-line</a> disponível no site do movimento e que já recebeu cerca de 4,5 mil assinaturas desde o lançamento da iniciativa. Neste sábado, dia 26, foi realizada blitz nas duas cidades para atrair ainda mais apoio popular.</p>\r\n\r\n<p>Nesta entrevista, Eduardo Lustoza fala ainda sobre o risco iminente de acidentes no canal do Porto. Confira.<br />\r\n  <br />\r\n<strong>1- Qual foi a gravidade do acidente com o navio Cap San Antonio? A consequência poderia ter sido pior?</strong><br />\r\nNa fala popular, o acidente saiu de graça, até porque não houve vítimas e o navio atingiu um berço de atracação, um píer de bicicletas (foto abaixo). Poderia ter destruído todos os berços dali e interrompido essa travessia. E iríamos ao colapso. Esse navio também poderia ter atingido duas balsas cheias de veículos – são 50 veículos em cada balsa e média de duas pessoas em cada veículo –, vitimando 200 pessoas. Ou poderia ter colidido com outro navio e, os dois, afundado no canal. Estou dando o máximo de abrangência da situação, porque o que ocorreu foi o mínimo. Além das vítimas, o canal do principal porto do País poderia ter sido interditado. Por trás dessas cargas movimentadas, há milhares de projetos, contratos e obras nacionais e internacionais que dependem desses produtos. E como é que fica? Vai para São Sebastião (SP)? Lá não cabe. Paranaguá (PR), Rio de Janeiro (RJ)? Não cabe. E contratos têm de ser cumpridos, há penalidades e multas envolvidas. De certo modo, pode-se afirmar que tanto o Governo do Estado e hoje a autoridade portuária junto com Ministério da Infraestrutura são negligentes nessa administração de riscos. Da mesma forma que foi o mínimo, nos quatro acidentes que aconteceram nos últimos 10 anos, poderia ter sido o máximo.<br />\r\n<br />\r\n<strong>2- O que está fora da ordem nesse cenário?</strong><br />\r\nO Porto não para de crescer e de bater recordes. A quantidade de navios beira 6.200 por ano, o que dá 12.400 entradas e saídas anuais. E nós temos uma balsa, muito antiga e tradicional, um equipamento obsoleto e lento, atravessando na frente dos navios. Quando a balsa atravessa, não pode estar vindo navio. Se vem um navio, ele tem prioridade, a balsa para e a fila da travessia, então, cresce. O navio atrapalha a balsa e vice-versa. Um dos dois tem de sair. E qual tem que sair? A balsa, claro. Saindo a balsa, a solução é o túnel. É o que defendemos.</p>\r\n\r\n<p> “Há 50 mil pessoas pagando caro, circulando lentamente, perdendo o tempo em que poderiam estar com a família, tempo de trabalho, e tudo isso no principal porto da América Latina, que deveria dar conforto à população local” – Eduardo Lustoza</p>\r\n\r\n<p><strong>3- O senhor fala do movimento Vou de Túnel.</strong><br />\r\nO movimento Vou de Túnel não tem CNPJ. É a união de esforços de mais de 60 apoiadores ligados à engenharia, universidades, além da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) e Ciesp (Centro das Indústrias do Estado de São Paulo), que têm a visão de proteger a indústria e precisa do porto funcionando. Temos empresas e terminais portuários que sabem da necessidade de se ter um canal de navegação livre, desobstruído. Outro ponto que está fora de lugar é que temos uma população aproximada de 50 mil pessoas, que atravessam a margem esquerda e a margem direita, em diversas posições, além dos veículos. Ou de barca lá na Alfândega ou no ferry boat, ou de catraia no Mercado Municipal. Então, há 50 mil pessoas pagando caro, circulando lentamente, perdendo o tempo em que poderiam estar com a família, tempo de trabalho, e tudo isso no principal porto da América Latina, que deveria dar conforto à população local.<br />\r\n <br />\r\n<strong>4- Não só conforto, mas segurança, porque os riscos de acontecer um outro acidente continuam, certo?</strong><br />\r\nCostumo dizer que Deus é brasileiro e fiel, porque até hoje não tivemos nada grave. Na linha de comércio portuário, 1/3 da movimentação passa pelo Porto de Santos. Tem de respeitar esses contratos, tem que proteger o canal do Porto e proteger a população.<br />\r\n  <br />\r\n<strong>5- O movimento defende o túnel como solução definitiva e única para o problema? Ou a balsa e a ponte podem coexistir?</strong><br />\r\nO motivo da campanha é mostrar que a ponte não cabe em canais de navegação e que a obra correta é o túnel. Com ele, é resolvida a questão das balsas, dos pedestres e ciclistas, e há a possibilidade de expansão industrial, em uma rápida conexão entre Santos e Guarujá, margem direita e esquerda. As transportadoras e depósitos de contêineres, por exemplo, não têm onde se instalar em Santos, a alternativa é o Guarujá, que tem o equivalente a 7 milhões de metros quadrados na região da marginal da rodovia Cônego Domênico Rangoni. Ali, tangenciado pelo canal de Bertioga, é um local maravilhoso para expansão industrial. O túnel tem essa obrigação de desenvolvimento.<br />\r\n<br />\r\n<strong>6- Quais as vantagens do túnel em relação à ponte?</strong><br />\r\nO túnel tem 870 metros de extensão, com seis módulos pré-fabricados de 145m de comprimento, 37m de largura e 10m de altura, assentados em 21m de profundidade (imagem acima). O projeto prevê três células, sendo que, na central, não entra motor, só pedestres, ciclistas e skatistas. Nas outras duas células, uma tem três pistas de veículos para ida e a outra, três pistas para volta, com uma capacidade bastante ampla, projetada para atender os próximos 100 anos. Uma das pistas prevê passagem para o VLT também. Em menos de cinco minutos, você estará do lado. Diferentemente de uma ponte, que você sobe 85 metros e cria três quilômetros de viaduto de cada lado. O principal porto do País não pode ser obstaculizado, com limite de 85m (altura). Hoje, 30% das plataformas de petróleo já ultrapassam essa altura. E onde vamos parar nos próximos 100 anos é uma interrogação. A evolução é constante. É de bom tom, na engenharia, não aceitar a obstrução da navegação. Com o túnel, não haverá interferência nas áreas de manobras de navios, a área de expansão da tancagem (Ilha Barnabé) será preservada e o traçado será predominante em área portuária, com mínima demanda de desapropriações. Em Santos, será zero desapropriação. No eixo principal em Guarujá, também.<br />\r\n <br />\r\n<strong>7- Qual o custo da obra? O projeto do túnel vai entrar na desestatização do Porto, prevista para o ano que vem?</strong><br />\r\nEsse túnel imerso foi orçado pela antiga Dersa, lá atrás, em R$ 2,6 bilhões. Hoje, trazendo a valores presentes, fala-se em R$ 3,2 bilhões. Uma das opções é a privatização, sim. O novo arrendatário do Porto faria a obra e entraria sabendo que vai ter que gastar esse valor para construir o túnel. Outra possibilidade é uma PPP (parceria público-privada). A autoridade portuária abriu um chamamento público para doação de projetos visando a implantação e gestão do túnel. Esses projetos poderão trazer informações dos estudos técnicos fornecidos à autoridade portuária.</p>\r\n\r\n<p>“Há 135 túneis imersos no mundo, todos eles em áreas urbanas, onde não cabe subir uma ponte de 80 metros, criar três quilômetros de rampa, de viadutos. A Europa está demolindo pontes e construindo túneis em vários portos” – Eduardo Lustoza</p>\r\n\r\n<p><br />\r\n<strong>8- O túnel é seguro? Há muitos exemplos mundo afora?</strong><br />\r\nEle é seguro, sim. Não se tem registros de problemas. No projeto, há uma câmera central que, em casos de acidente, as pessoas deixam os veículos, vão para esse túnel central e a evacuação acontece numa área pressurizada, como as de escadas contra incêndio, em que o ar só sai, não entra, ou seja, ali não entra fumaça ou gás. Não há risco. Há 135 túneis imersos no mundo, todos eles em áreas urbanas, onde não cabe subir uma ponte de 80 metros, criar três quilômetros de rampa, de viadutos. A Europa está demolindo pontes e construindo túneis em vários portos, como Antuérpia, na Bélgica, e Brémen, na Alemanha.<br />\r\n<br />\r\n<strong>9- Na última semana, houve uma audiência pública na Câmara dos Deputados para discutir o projeto do túnel, há o chamamento da autoridade portuária e a privatização do Porto prevista para o ano que vem. Com esse cenário, o senhor acredita que estamos próximos de uma solução, de termos, enfim, uma ligação seca?</strong><br />\r\nDepois de 92 anos da primeira manifestação na imprensa sobre a ligação seca – os últimos dez anos, de muita luta –, temos certeza de que dessa vez vai sair. Esse navio (Cap San Antonio - foto acima) veio trazer mais uma evidência dos riscos que administramos. Para quem diz que não temos recursos, e a arrecadação com os 140 milhões de toneladas movimentadas no Porto? Quanto os governos estadual e federal levam de impostos? Um montante superior a R$ 100 bilhões por ano. E não pode gastar R$ 3 bilhões em uma obra que vai garantir o aumento de faturamento, da receita do governo, além de permitir que o Porto se expanda e nós, que trabalhamos, tenhamos um pouco mais de conforto e respeito? Nós merecemos isso.</p>\r\n",
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            "content_html": "<p>A história de vida de Alexandre Salazar Júnior, o Picuruta Salazar, é marcada por desafios e sonhos transformados em realidade. Tanto que já rendeu até filme. Colecionador de títulos – são 170, entre campeonatos nacionais, internacionais e mundiais –, ele é também um batedor de recordes. Para se ter ideia, surfou, por 37 minutos, em uma pororoca no Rio Araguari, no Amapá.<br />\r\n <br />\r\nPicuruta fala da família com um carinho e orgulho que emocionam. A começar pelo pai, Alexandre Salazar, o Bigode, grande incentivador de sua carreira, morto em 2015, e pelos irmãos, Lequinho, já falecido, e Almir, que fabrica pranchas.<br />\r\n <br />\r\nCasado e pai de três filhos, orgulha-se por ter uma família que vive 100% do surfe. A mulher e o filho Caio atuam com ele na Escola de Surfe e Competição Picuruta Salazar, que fica no antigo Emissário Submarino, em Santos, uma parceria com a Prefeitura. O filho Matheus, que mora no Havaí, é campeão brasileiro de stand-up; e Leco é campeão mundial de stand-up. E tem um neto de 3 anos que já cresce com um baita potencial para o esporte. “Mas ele vai fazer o que escolher para a vida dele. O que importa é fazer o que gosta”.<br />\r\n <br />\r\nO supercampeão também é apaixonado por animais: “Eu e minha mulher resgatamos animais de rua. Temos 18 cachorros e três deles vivem na praia, são cães comunitários: o Surfe, o Floquinho e o Neguinho. Tinha o Parafina também, mas hoje ele representa o Brasil nas etapas de Mundial de cachorros na Califórnia (sim, há campeonatos para cães surfistas). Ele está com meu ex-professor, Augusto Martins. O Parafina é bem famoso”.</p>\r\n\r\n<p>Nesta entrevista, ele relembra algumas histórias e é categórico: o Brasil tem 100% de chances de trazer uma medalha de ouro no surfe nas Olimpíadas de Tóquio.</p>\r\n\r\n<p><strong>1- Você começou a pegar onda em uma época em que o surfe era marginalizado e lutou muito pela profissionalização do esporte. Neste ano, o surfe estreia como modalidade nas Olimpíadas de Tóquio. O que essa conquista representa?</strong><br />\r\nUma vitória. É a constatação de que a nossa luta nas décadas de 1960 e 1970, época em que realmente o surfe era marginalizado, valeu a pena.  Jamais imaginaria que o surfe chegaria nas Olimpíadas. Isso é fruto de um trabalho de muitos anos. E sei que eu e minha família temos boa parte de colaboração nessa conquista. Principalmente meu pai, que acreditou nos sonhos dos filhos. Eu e meus irmãos, Lequinho e Almir, sonhávamos em ser surfistas e competir já na década de 60, quando todo mundo falava para o meu pai que ele teria filhos vagabundos, marginais, que não iam fazer nada na vida a não ser pegar onda. Graças a Deus conseguimos superar as dificuldades e viramos surfistas profissionais. Hoje, toda a minha família vive 100% do surfe, por isso é um orgulho saber que nosso esporte está nas Olimpíadas. Para quem não sabe, temos 100% de chances de sermos campeões olímpicos, porque hoje os dois maiores surfistas do mundo são brasileiros (Gabriel Medina e Italo Ferreira).<br />\r\n <br />\r\n<strong>2- Da mesma forma que o surfe foi um sonho para você e seus irmãos, com a sua escola você lida com o sonho de muitas pessoas que querem subir numa prancha – muitas delas, crianças carentes. Você se vê como um realizador de sonhos?</strong><br />\r\nAcredito que a gente tem missões na Terra. E, talvez, uma de minhas missões possa ser essa, ensinar as pessoas a pegar onda. A Escola de Surfe e Competição Picuruta Salazar (inscrições abertas, veja abaixo), no Emissário Submarino, é um sonho que completa 24 anos neste domingo, dia 20, que é o Dia do Surfe. E espero que esse sonho possa durar muitos e muitos anos. Já revelei muitos talentos e fiz, sim, vários sonhos virarem realidade. Um deles foi o de um casal, que me deixou muito contente. O homem tinha ficado intubado por 16 dias, por causa da Covid-19, e quase morreu. Ele contou para mim que falou com Deus que, caso se salvasse da Covid, queria realizar o sonho de pegar onda. E consegui ajudá-lo a tornar esse sonho realidade. Ele esteve aqui no Dia dos Namorados, com a namorada. Coloquei os dois em pé, surfando, na mesma onda. Foi emocionante.</p>\r\n\r\n<p><strong>3- Mesmo depois de mais de 50 anos, o surfe, as histórias que envolvem o surfe ainda te emocionam?</strong><br />\r\nSão 53 anos. E me emociono só por acordar e estar vivo, agradeço a Deus sempre por isso. Imagina quando alguém chega para você e fala que tem um sonho e você consegue realizar esse sonho? Não tem como não me emocionar quando coloco uma criança de pé na prancha. E um dos sonhos que me deixou mais emocionado foi a realização do meu filme (Picuruta – A Lenda do Gato, de 2018), que passou nos cinemas do Brasil inteiro. No final, meu pai aparece falando sobre tudo que passamos na nossa vida, na nossa carreira. Não tem como não chorar.</p>\r\n\r\n<p>\"A vida não foi fácil. Mas tudo que é fácil a gente não dá valor. As coisas precisam ser difíceis para você acreditar e saber que venceu\" - Picuruta Salazar</p>\r\n\r\n<p><br />\r\nDeus coloca obstáculos na vida para ver se você é forte. Aqueles que param pelo caminho é porque não nasceram para ser campeões. Passei por muitas dificuldades – não só eu, mas meu pai, minha família – para chegar aonde cheguei. Não são dez, 20 anos. São 53 anos dedicados a uma modalidade. A gente passava com prancha, e a polícia ia atrás, achava que a gente era vagabundo, maconheiro. Apesar disso, fiz do meu hobby a minha profissão. Hoje ganho dinheiro fazendo algo que acreditei. A gente tem que correr atrás dos sonhos, sim, para que eles virem realidade.</p>\r\n\r\n<p><strong>4- E são 170 títulos e vários recordes, nacionais e mundiais. Dá para eleger o momento mais marcante da sua carreira?</strong></p>\r\n\r\n<p>Dá, sim. O campeonato que ganhei em homenagem ao meu irmão, em 1988. Foi um evento brasileiro, com 300 surfistas. Estava em um momento muito difícil, depressivo, por ter perdido meu irmão (Lequinho morreu em 1987). Imagina perder o cara que te colocou de pé pela primeira vez? Que era, praticamente, meu pai e minha mãe nas horas em que eles saíam para trabalhar. Meu pai era mecânico e minha mãe, costureira. Meu irmão era minha segunda mãe e meu segundo pai. E quando eu o perdi, queria parar de pegar onda. Mas meu pai me abraçou e falou: ‘Vamos dar a volta por cima, vamos correr um campeonato e ganhar em homenagem a ele’. E foi o que aconteceu.<br />\r\n <br />\r\n<strong>5- Como se forma um campeão de surfe? É um esporte caro?</strong><br />\r\nA formação de um atleta depende muito da dedicação dele. E quando você vê que ele tem talento, começa a trabalhar em cima dele. São cinco, sete anos até ele começar a se destacar. E há muitas dificuldades: falta de patrocínio, falta de apoio, de incentivo. Mas com estrutura, é possível revelar novos Medinas, novos Felipes Toledo, Italos Ferreira... Temos 8 mil quilômetros de praias no Brasil. Imagina quantos talentos podem ser revelados? Com o surfe brasileiro fazendo um campeão nas Olimpíadas, espero que grandes empresas, que não são ligadas ao esporte, comecem a incentivar e a patrocinar mais campeonatos, mais escolas de surfe. Uma prancha de long board pode custar R$ 3 mil; uma pranchinha, R$ 2 mil. Uma roupa de borracha para o frio custa R$ 1 mil, R$ 1,5 mil, e tem mais parafina etc. Mas se a pessoa não tem condição e quer surfar, ela pode procurar uma escola, que dá toda a estrutura. A nossa escola fornece cordinha, parafina, camiseta de lycra, prancha... E quando a gente vê que o aluno começa a se destacar, sempre tem doações de pranchas na escolinha.<br />\r\n <br />\r\n<strong>6- Muitos surfistas, hoje, são como celebridades, levam vida de celebridade. É muito diferente da sua época?</strong><br />\r\nMudou muito.  Teve uma época, inclusive, que o Medina foi muito criticado por isso, por circular com jogadores de futebol, pagodeiros... Nada impede de andar com essas pessoas e até de se tornar celebridade, mas tem que preservar um pouco da nossa raiz. Brigamos para nos tornar o que somos hoje. A gente lutou muito, e é preciso que as novas gerações deem continuidade a esse trabalho de valorização do surfe. Sou o cara mais simples que você pode imaginar. Muita gente me pergunta: você é tão conhecido, por que não entra para a política? Respondo que, se eu virar político, vão deixar de me ver na rua, porque dificilmente a gente vê político por aí, só quando tem eleição. Aí eles te procuram, batem palmas, andam do teu lado. Eu não nasci para isso. Nasci para estar na rua, andando e falando com as pessoas. Isso me faz bem. Eu me considero povão. E quero continuar levando essa vida humilde, que é o que gosto.<br />\r\n<br />\r\n<strong>7- Que conselho você dá para quem quer fazer carreira no surfe?</strong><br />\r\nA primeira coisa: jamais deixe de estudar. Você pode até se tornar um surfista profissional, mas o estudo é superimportante na sua vida, principalmente ter um diploma. Se um dia não conseguir vencer na vida de surfista, pelo menos terá um diploma para vencer na profissão que estudou. E tente fazer as coisas que gosta, faça o que o coração mandar e te faz bem. E tem que se dedicar, enfrentar dificuldades e correr atrás dos sonhos, fazer com que virem realidade. Santos é o lugar mais fácil que tem para aprender a surfar. Tem uma onda bem esparramada, bem fraquinha. No Emissário, quando o mar sobe, é o lugar onde ela fica maior. Se for sentido à Ponta da Praia, ela vai diminuindo. <br />\r\n <br />\r\n<strong>8- A preocupação com os estudos tem a ver com sua história? Você deixou de estudar cedo?</strong><br />\r\nMuito. Parei de estudar no terceiro ano primário. Meu pai se separou da minha mãe, e ele tinha que trabalhar. Quem cuidava de mim era o Lequinho, meu irmão mais velho. Sabia que ele foi descoberto pelo Seu Pepe, no Dente de Leite do Santos? Chegou a ser jogador profissional. Olha que história engraçada. O Lequinho foi chamado para fazer um treino na equipe profissional do Fluminense, no Rio de Janeiro, só que no dia tinha altas ondas e ele não apareceu. Aí o empresário ligou para o meu pai e contou. Meu irmão falou: ‘Pai, quero ser surfista, não jogador’. O meu irmão Almir, que hoje é um dos maiores fabricantes de pranchas do mundo, era formado em torneiro mecânico, mas largou a profissão para fabricar pranchas. Eu, no embalo, fui atrás deles, querendo só pegar onda, viver do surfe.</p>\r\n\r\n<p>\"Deu tudo certo, mas me arrependo de ter parado de estudar. É lógico que era outra fase da vida, mas se eu pudesse voltar no tempo, gostaria de ter estudado e pegado onda ao mesmo tempo\" - Picuruta Salazar </p>\r\n\r\n<p><br />\r\n<strong>9- Você começou a surfar na região do José Menino mesmo?</strong></p>\r\n\r\n<p>Sim, no Canal 1. Olha que coisa engraçada. Morava há três quadras daqui (a entrevista foi na Padaria Roxy, no Canal 1 com a Av. Marechal Floriano Peixoto). E quando começamos a pegar onda, a prancha era tão pesada, que eu e meus irmãos íamos para a praia pelo canal, remando. Era a época em que os bondes ainda circulavam, no início dos anos 70. A água do canal era limpa e a gente mergulhava lá. Não tinha essa poluição. Hoje não tem a menor condição de entrar no canal. A gente comia jambolão e cuca das árvores, perto do Orquidário. Quando tinha dinheiro, comprava pão, enchia de açúcar e comia. Passava o dia inteiro na praia. Eu e meus irmãos paramos de estudar tão cedo, que meu pai falou para a gente: ‘Vocês querem ser surfistas? Então, façam bem-feito, para não se arrependerem depois. Vocês vão passar muita dificuldade, mas espero que deem continuidade a isso”. A gente chegava em casa cedo, meu pai mandava a gente voltar para a praia, para treinar, porque a gente tinha que vencer. E foi assim que me tornei campeão.</p>\r\n\r\n<p><br />\r\nServiço:<br />\r\nA escola de surfe de Picuruta (acima, com o filho Caio) está com inscrições abertas para alunos a partir de 7 anos – sem limite de idade. Para se matricular, os interessados devem acessar o Instagram oficial da escola (@escoladesurfpicurutasalazar), entrar em contato por mensagem direct e indicar o horário em que desejam fazer as aulas.<br />\r\n <br />\r\nO aluno será contatado pela escola e, havendo disponibilidade, deverá apresentar cópia de comprovante de residência, atestado médico emitido há pelo menos três meses e duas fotos 3x4 diretamente na escola de surfe.<br />\r\n <br />\r\nAs aulas acontecem às terças e quintas-feiras, das 10h às 11h e das 11h às 12h, além das 15h às 16h e das 16h às 17h (último horário é oferecido apenas no verão). As vagas são limitadas e, em decorrência da pandemia de covid-19, a escola está operando com apenas 40% da sua capacidade.</p>\r\n",
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É minha cidade adotiva”, conta o médico, que já coordenou os programas municipais de DST/aids em Santos, São Vicente e São Paulo, além de ter dirigido o Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde (de 2013 a 2016).</p>\r\n\r\n<p>Nessa conversa - um relato pessoal, e não como porta-voz da OMS -, o tema não poderia ser outro: a pandemia de Covid-19. “Não dá para ser contraexemplo, uma pessoa que aglomera, não usa máscara, que não mantém distanciamento social, que faz exatamente o contrário do que a Ciência está falando para fazer”, afirma o médico sobre o presidente Jair Bolsonaro (sem partido). Leia mais na entrevista a seguir:<br />\r\n <br />\r\n<strong>1- O senhor foi vacinado no Brasil, com as duas doses da Coronavac. Qual a mensagem para quem ainda tem medo ou dúvida a respeito da eficácia da vacina?</strong><br />\r\nA gente sabe que as vacinas salvam vidas. De toda natureza. E essas vacinas contra a Covid-19 têm uma taxa de eficácia espetacular, ainda mais porque foram desenvolvidas em um curto espaço de tempo. Tenho ouvido muito que ‘fulano de tal tomou as duas doses e pegou o coronavírus’. Em nenhum momento a gente disse que a vacina impede a pessoa de pegar. O que a gente diz, e o que os estudos mostram, é que as vacinas vão proteger a pessoa de ser hospitalizada, de ter um caso sério e de morrer da doença. A vacina tem essa capacidade de proteção. E toda vacina, como qualquer medicamento, pode ter efeito colateral. Mas o mais importante é que a proteção acontecerá com a maioria das pessoas vacinadas. As gerações mais antigas lembram bem do desastre que era a poliomielite, o sarampo, e que foram todas as doenças infectocontagiosas que passaram a ser protegidas com vacina. A pólio foi praticamente erradicada do planeta. O sarampo tinha sido controlado no Brasil, mas os casos voltaram porque houve descuido com a vacinação. A solução para o que estamos vivendo é de saúde coletiva. E o que às vezes sinto é que que aqui, no Brasil, esse espírito não funciona, porque as pessoas pensam muito nelas, de maneira individual.</p>\r\n\r\n<p><strong>2- Como o senhor, com toda sua experiência como epidemiologista, avalia essa pandemia?</strong><br />\r\nHouve um processo de globalização nunca visto antes, que foi mudando de região para região numa velocidade impressionante. Essa foi a novidade para a gente. Não foi a primeira, mas foi a maior e mais rápida pandemia em termos de disseminação e de impacto. Conforme a gente foi aprendendo, trocando o pneu enquanto o carro estava andando, porque era tudo muito novo, a gente percebeu que só 20% dos casos requeriam hospitalização e, desses 20%, 5% requeriam UTI. Mas essa proporção, em razão da globalização, dava para a gente a conta de qual era o problema que precisava ser administrado pelo setor de saúde.<br />\r\n <br />\r\n<strong>3- A previsão de colapso, certo?</strong><br />\r\nSim. Todas as recomendações iniciais eram evitar as aglomerações e tomar todas as medidas de precaução para evitar um impacto que pudesse levar ao colapso do sistema de saúde. Não havia medicamentos, tratamentos, nada. Para pensar em colapso, a gente não considera só os 5% que vão requerer UTI ou os 20% que vão exigir hospitalização. Mas leva em conta que todas as outras doenças continuam existindo. Não parou de ter UTI para acidentes, para infarto, para AVC. O que ocorreu foi a adição de uma doença infectocontagiosa, que se espalhava muito rápido e poderia colapsar o sistema de saúde. Vimos colapsar sistemas de saúde poderosíssimos, como o da Itália, o da Espanha, da Grã-Bretanha, que é um modelo mundial. A gente aprendeu que, para controlar a epidemia, precisávamos adotar medidas de saúde pública não farmacológicas: distância social, não aglomerar, lavar as mãos em todas as situações e, quando não for possível, usar álcool gel, além de ter uma postura ética ao espirrar ou tossir, levando o braço à frente do rosto, não deixando espalhar gotículas, que eram responsáveis pela transmissão do vírus. E tudo isso é necessário até hoje.<br />\r\n <br />\r\n<strong>4- Como o senhor avalia a discussão atual, no Brasil, em torno da utilização ou não das máscaras?  </strong><br />\r\nNo comecinho da pandemia, não recomendamos máscara para a população geral, não porque não achávamos importante, mas porque não tínhamos capacidade de produção. O mundo não estava preparado para ter máscaras para 7,8 bilhões de habitantes. As máscaras, naquela época, eram para os profissionais de saúde. Quando a capacidade produtiva se espalhou rapidamente no mundo inteiro, aí sim pode-se recomendar o uso para a população geral. De todas as máscaras. E hoje há estudos que demonstram que, com duas máscaras, a proteção é de 95% e que, se usar uma de pano com outra descartável, há melhora da proteção. Há uma série de questões que fomos progredindo ao longo do tempo. Temos nas farmácias, hoje, desde a N95, que é usada nas UTIs, até as mais simples. Outro passo importante foram estudos e iniciativas globais como o Covax, iniciativa da OMS que reúne outras organizações internacionais, consórcios, fundações e governos, e que hoje provê vacina para o mundo todo. E pensar que o Brasil desdenhou dela no começo e hoje recebeu só 10% (das doses de vacinas) quando tínhamos um potencial de 40%. Além da vacina, o Covax também tinha outras duas frentes: medicamentos para prevenção e para tratamento.</p>\r\n\r\n<p><strong> 5- A conclusão é que, de fato, não temos medicamentos de prevenção?</strong><br />\r\nForam feitas dezenas de milhares de estudos com esses recursos do Covax. E a conclusão de todos esses estudos, sem exceção, é que não temos um medicamento para prevenção.  Essa ideia maluca de que invermectina, cloroquina e todas essas coisas poderiam ser usadas para prevenção foi descartada, porque todos esses estudos sérios chegaram à conclusão de que não beneficiavam, não preveniam, não ajudavam. Mais do que isso, pioravam alguns quadros, principalmente a cloroquina, quando utilizada na fase inicial.<br />\r\n                                                 <br />\r\n<strong>6- Como funcionam os medicamentos usados no tratamento?</strong><br />\r\nMuitos estudos foram feitos e dois deles, globais, chegaram à conclusão de que havia duas medidas importantes a se tomar: uma era curiosa, porque não estamos acostumados a usar corticoide em viroses. Parece uma contradição deprimir o sistema imunológico com corticoide, sendo que você precisa do sistema imunológico para reagir ao vírus. Mas, na verdade, um dos problemas detectados com o coronavírus é a violência com que o organismo responde ao vírus. E viram que, se você acalmasse o organismo, se não o deixasse responder com toda essa violência, se ele não tivesse essa capacidade, a doença poderia ser manejada com mais facilidade. Uma segunda questão que se viu em vários estudos é que o principal problema da mortalidade relacionada ao pulmão era associado a uma microcoagulação, que fazia a respiração ficar impossível e, na maioria dos casos, levava à morte. Dessa forma, foi instituído o uso do anticoagulante. Não conseguimos nenhum remédio específico contra o coronavírus ainda, mas conseguimos fazer com que o organismo reaja melhor com o uso dessas duas medicações. E não foi algo que aconteceu do dia para a noite, nem estudos pequenininhos, mas grandes estudos coordenados por universidades superimportantes e respeitadas, que a gente absorveu mundialmente e viraram protocolos da OMS. Por fim, temos o principal pilar de prevenção, a vacina, que teve um investimento global inusitado, nunca tivemos uma vacina desenvolvida em um espaço tão curto de tempo. Cerca de 150 vacinas foram testadas no mundo. Hoje, temos um número limitado para uso, que inclui a Coronavac (Sinovac/Butantan). E, no ano passado, o mundo começou a se preparar para a vacinação.<br />\r\n <br />\r\n<strong>7- E o Brasil demorou para adquirir as vacinas.</strong><br />\r\nExatamente. Nós sempre tivemos uma tremenda moral fora do Brasil. Não fomos trabalhar com aids para a OMS porque a gente é legalzinho. Fomos para lá porque tínhamos uma tremenda experiência de como trabalhar com aids em um país como o Brasil, de renda média, mas cheio de problemas sociais. Uma segunda área que a gente era um arraso no mundo era a vacinação. O Programa Nacional de Imunizações (PNI) era um dos mais respeitados da Terra. O Brasil é um país enorme, com todas as dificuldades, e tínhamos a capacidade de vacinação de quase 100%. Não dá para entender que, com tudo isso pronto, com toda essa experiência, com todas as pessoas treinadas, capacitadas, com toda a capacidade de cadeia de frio, em todos os lugares, até no fundo da Amazônia, como entender por que não nos preparamos para esta vacina? Ao contrário, o que a gente viu foi não negociar vacina, negar a importância da vacina, brigar politicamente com o Butantan e apostar numa alternativa completamente impossível, que é uma única organização, a Fiocruz, para produzir vacina para o Brasil inteiro. E ainda tiveram as questões diplomáticas, envolvendo a China, que tem sido um grande provedor para várias partes do mundo. Não é uma discussão técnica, passou a ser uma discussão político-ideológica. E isso isolou o Brasil do ponto de vista político e isolou o Brasil da possibilidade de comprar vacina quando o mercado tinha vacina para oferecer.<br />\r\n <br />\r\n<strong>8- A posição de um governo define o sucesso do combate à doença?</strong><br />\r\nÉ perceptível quando a liderança política faz diferença, e não vou entrar na discussão se ela é de direita ou de esquerda. O México está um desastre e é uma liderança política de esquerda; Israel tem uma liderança política de extrema direita e tem sucesso no controle da pandemia. Essas coisas não estão associadas ao fato de ser de direita ou esquerda, mas à liderança política, sem dúvida nenhuma. O exemplo mais explícito são os Estados Unidos, que mudaram com a transição de Donald Trump para Joe Biden, que chegou na posse com um plano de ação contra a Covid. Um país que está vacinando adolescentes enquanto no Brasil temos uma percentagem de segunda dose baixa. E nos Estados Unidos não têm esquerda: há republicanos e democratas, todos são capitalistas. A diferença é de liderança. Aqui, o presidente sai às ruas, com quase 500 mil mortes, para andar de moto sem máscara e aglomerar. A liderança tem que dar exemplo. Não dá para ser contraexemplo, uma pessoa que aglomera, não usa máscara, que não mantém distanciamento social, que faz exatamente o contrário do que a Ciência está falando para fazer, que trabalha contra a vacina, que não compra vacina na hora certa, que coloca durante quase toda a crise da pandemia um não médico para dirigir o Ministério da Saúde. E isso ficou tão sério que hoje o Brasil é extremamente malvisto fora do País.</p>\r\n\r\n<p><strong> 9- Qual é a perspectiva? Temos uma CPI em andamento, mas o senhor acredita que ela terá impacto, de fato, na mudança de comportamento do governo no enfrentamento do coronavírus?</strong><br />\r\nSe a gente continuar nesse ritmo de resposta, nessa falta de compromisso com a Ciência, as estimativas é que consigamos vacinar toda a população em meados de 2023. Estou no Brasil e duas coisas me impressionaram. Uma é andar na rua e ainda ver pessoas sem máscara, ou com a máscara abaixo do nariz, tampando somente a boca. A outra é o distanciamento social, que não existe. E estou otimista em relação à CPI. Pode ser um pouco inocência de minha parte, mas acredito que, ainda que não ajude muito numa solução institucional local, ela vai ser um tremendo elemento para um julgamento político histórico, muito mais sério, em tribunais internacionais. Você pega os depoimentos de dois ministros da Saúde (Luiz Henrique Mandeta e Nelson Teich) e fica claro que eles saíram por causa da imposição da cloroquina. E por uma imposição, que é a mais séria, de imunidade de rebanho, uma teoria defendida por um filho do Bolsonaro e Osmar Terra. Nunca usamos em saúde pública que a imunidade de rebanho se adquiria com a disseminação do vírus. O que sempre falamos é que a imunidade de rebanho se adquire com o uso dos protetores ao vírus, com a vacinação de 70% a 80% da população. Nesse quadro, todo mundo vai ficar imunizado, mesmo quem não tomou a vacina. Isso é imunidade de rebanho. Essa fala na CPI foi muito mais séria, muito mais grave do que a fala da cloroquina, que já é um absurdo.</p>\r\n",
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