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O ESG está apenas na geladeira

Felipe Sampaio

05/02/2026 - quinta às 10h58

Mercado precisa manter as máquinas a pleno vapor enquanto interpreta a reorganização política e econômica do mundo

 

Pode acreditar, o ESG (sigla em inglês para ‘Ambiental, Social e Governança’) não saiu de moda. Foi apenas guardado na geladeira. Acontece que os mercados maduros aprenderam uma lição milenar em seu convívio recente com a China: É preciso respirar fundo e observar os cenários, por mais tempestuosa que a situação possa parecer. O próprio Xi Jinping disse outro dia, sobre toda essa movimentação do Tio Sam, que os chineses seguem tranquilos porque estão nesse jogo há três mil anos.

 

Afinal, assim como a terra de Confúcio, o mundo dos negócios também existe há milênios, ainda que seu formato mude de acordo com as possibilidades e necessidades de cada época e lugar. Justiça seja feita, os investidores estão dando aula de resiliência nesses tempos de incerteza nas relações internacionais. Sabem que não é a primeira vez na história que governos confundem a galinha dos ovos de ouro com a caixa de pandora – libertando pragas incontroláveis na busca por tesouros de curto prazo (a economia é um jardim frondoso, mas depende de carinho, previsibilidade e paciência para florescer).

A novidade, dessa vez, é que não dá pra contornar os fenômenos mundiais em andamento, como a mudança climática, a desglobalização e a geopolítica, porque tocam em pilares estruturais das próprias dinâmicas sociais predominantes desde o século XVI, consolidadas pela revolução industrial e aceleradas pela disrupção digital. As tratativas para a transição energética e a descarbonização até vinham ganhando força e velocidade no andar superior do PIB, como comprova a disseminação do conceito empresarial de ESG. Uma ideia que aparenta ter perdido adesões e há quem diga que saiu de moda. Não é verdade. O mercado segue atento ao risco climático, com serenidade budista – um olho na missa e outro no caixa.

 

É simples como uma geladeira. Ninguém congela uma feijoada porque não vá mais comê-la, mas sim para conservá-la até que seja servida de novo. Igualmente, os mesmos agentes do mercado que haviam percebido a urgência climática de adotarem as políticas de governança responsável do ESG, deparam-se agora com a necessidade de manter as máquinas a pleno vapor, enquanto interpretam mais uma fase de reorganização política e econômica da Ordem Mundial. É natural que o ESG seja guardado na geladeira enquanto o horizonte ganha clareza.

Tudo parecia bem desde o fim da Guerra Fria e do regime soviético, e com a abertura da China (dois bilhões de novos consumidores acessando um mercado conectado pela globalização e o multilateralismo). Porém, de repente, velhos aliados dão lugar a novas parcerias, mais fragmentadas e, por enquanto, menos nítidas. Vale lembrar que o COVID-19 já havia abalado importantes cadeias de produção e suprimentos mundo afora, agravado pela guerra da Ucrânia e a crise de Gaza, que esgarçaram as tratativas da transição para energias renováveis. Um novo nacionalismo passou a priorizar as soberanias energética, alimentar, mineral e territorial.

 

Desse modo, o cálculo do desembolso necessário para bancar a descarbonização e as adaptações climáticas ficou ainda mais complexo ao se adicionarem os custos e riscos da reordenação global, com efeito direto na discussão sobre quem vai pagar a conta. Mesmo com essa paisagem, o esforço da COP30 amazônica demonstrou que os países e os mercados continuam cientes da urgência de se encontrar coletivamente um mapa da transição. Acreditem, o ESG não foi descartado – está apenas congelado.

 

Felipe Sampaio: Cofundador do Centro Soberania e Clima; sócio da Terra Consultoria; atua com grandes empresas, organismos multilaterais e terceiro setor; dirigiu a área de estatísticas no Ministério da Justiça; foi secretário-Executivo substituto no Ministério do Empreendedorismo e Microempresa; chefiou a assessoria especial do Ministro da Defesa; foi empreendedor em mineração.

 

 

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