Quinta, 26 de Fevereiro de 2026

DólarR$ 5,41

EuroR$ 6,34

Santos

25ºC

Cultura do mercado, inovação e desenvolvimento

Felipe Sampaio

26/02/2026 - quinta às 10h11

Já dizia o filósofo Sêneca, “Nenhum vento é bom quando não se sabe aonde ir”

 

Em tempos de incerteza geopolítica e caos climático galopante, a economia padece com a fragilização de um de seus pilares fundantes – a previsibilidade. Ao contrário do que se possa pensar, os investidores não são aventureiros atraídos pelo risco. O mercado funciona com um olho nas expectativas de retorno e outro nas ameaças externas. Afinal, tanto a alta gerência como os acionistas sabem que os negócios só vão bem quando o cenário é promissor.

 

Acontece que o panorama político e econômico atravessa uma rearrumação da Ordem Internacional que há décadas vinha dando estabilidade às relações comerciais, financeiras e políticas entre os países, com efeito imediato sobre os mecanismos que regem as políticas públicas e os empreendimentos privados em qualquer lugar do mundo. Para completar, toda essa reglobalização ocorre simultaneamente com as transformações ambientais igualmente imprevisíveis provocadas pelo aquecimento global desgovernado.

 

Já dizia o filósofo Sêneca, “Nenhum vento é bom quando não se sabe aonde ir”. Por isso, quanto mais elevado é o grau de incerteza, maior será o peso da variável risco na equação do mercado e dos governos. É aí que ganha importância aquela palavrinha da moda – resiliência. Segundo a IA do Google, “Resiliência é capacidade de superar adversidades, adaptar-se a mudanças e recuperar-se, evoluindo sem sofrer danos irreversíveis”. Dito de outra forma, os países e as empresas mais resilientes estarão melhor capacitados para enfrentar o reordenamento geopolítico e climático e sair do outro lado da tormenta em melhores condições de seguir em frente.

 

Nesse sentido, dois estudos recentes trouxeram informações importantes para os acionistas e CEOs da nossa Terra da Santa Cruz. Um deles, realizado pela consultoria BTA Associados, chama a atenção para o perfil organizacional predominante no País. Apesar dos avanços tecnológicos alcançados nos mais diversos setores, um dos maiores obstáculos da nossa economia à inovação (e resiliência) é “a forma autoritária como ainda se organizam as estruturas de poder nas nossas empresas” (Valor, 24/02/26). Significa dizer que “a disciplina inicial frequentemente nasce da obediência, e não da internalização dos métodos de trabalho, reflexo de um sistema autocrático”, segundo a pesquisadora Betânia Tanure.

 

Por esse motivo, as startups, por exemplo, apresentam perfil mais resiliente e inovador. O nível decisório dessas empresas é mais ágil e, digamos, democrático, do que o das empresas tradicionais. Nas startups, a própria natureza original do negócio traz no DNA corporativo esse gene da “via de mão dupla” no tratamento dos desafios e tarefas do dia a dia.

 

Outro estudo, realizado pela multinacional Gartner, mostra que as empresas em todo o mundo estão demitindo, na expectativa de ganhar produtividade com o uso da IA, mas os ganhos ainda são decepcionantes. “Como resultado, vemos uma retenção de executivos desmotivados e danos às marcas empregadoras” (Valor – Carreiras, 23/02/26). Ou seja, o mercado está abrindo mão de pessoas que conhecem o negócio, em troca de profissionais que operam tecnologia. O resultado será a perda de visão de futuro e de capacidade decisória consistente.

 

Se tudo isso for verdade, teremos problemas para interpretar as mudanças políticas, economias e climáticas, assim como para tomar decisões realistas com a agilidade que os próximos anos exigirão, para a prosperidade da humanidade, a eficiência do Estado e a sobrevivência dos negócios.

 

Felipe Sampaio é diretor de Programas no Ministério do Empreendedorismo e Pequena Empresa; cofundador do think tank Centro Soberania e Clima; dirigiu a área de estatísticas no Ministério da Justiça; chefiou a assessoria do Ministro da Defesa; ex-subsecretário de Segurança Urbana do Recife; foi empreendedor em mineração; atuando com grandes empresas, organismos internacionais e terceiro setor.

 

 

Deixe a sua opinião

Últimas Notícias

ver todos

EMPREGOS

Região da Baixada Santista tem mais 200 vagas de emprego disponíveis nos PATs

SANTOS

Receita Federal intercepta quase meia tonelada de cocaína no Porto de Santos

ACONTECE

Programa federal vai apoiar estudantes a desenvolver projetos empreendedores nas universidades

2
Entre em nosso grupo