{
    "version": "https://jsonfeed.org/version/1.1",
    "title": "BS9 - Mônica Ferreira Costa",
    "description": "Feed de notícias de Mônica Ferreira Costa do BS9",
    "home_page_url": "https://www.bs9.com.br",
    "feed_url": "https://www.bs9.com.br/coluna/monica-ferreira-costa/feed/json",
    "language": "pt-BR",
    "authors": [
        {
            "name": "Mônica Ferreira Costa"
        }
    ],
    "items": [
        {
            "id": "https://www.bs9.com.br/019f5cd7-146c-700e-afac-672be107b3a0",
            "title": "É possível formar professores?",
            "url": "https://www.bs9.com.br/coluna/monica-ferreira-costa/2022/05/12/e-possivel-formar-professores.html",
            "content_html": "<div>Quando terminou o último encontro da disciplina sobre formação de professores, na universidade, fiquei muito açodada – termo que minha avó usava - para escrever esse texto. Parecia-me urgente pôr as palavras no papel.<br />\r\n </div>\r\n\r\n<div>Pus-me a pensar: quantas possibilidades existem se buscarmos responder à questão: é possível formar professores? Posta assim a pergunta parece até uma bobagem, visto que é certo que se pode, ou ainda melhor, é obrigatória à formação de professores. No entanto, há inúmeras possibilidades de formação. Afirmo que é obrigatório e indispensável que, a priori, sejam apresentados os pressupostos teóricos que nortearão esta formação de professores, uma vez que sem estes não haverá como definir a quantidade destas “possibilidades”. <br />\r\n </div>\r\n\r\n<div>Digo isso porque, se partirmos de pressupostos teóricos que sustentam que educação escolar é produto tão necessário e importante para sociedade que a formação de professores merece ser tratada apenas por especialistas. Estes teóricos da educação sabem que o professor tem papel muito importante nesta engrenagem e devem ser os melhores! Bem treinados e com materiais de grande qualidade, estes colaboradores entregarão conhecimentos diversos aqueles que buscam aperfeiçoamento e destaque na sociedade. <br />\r\n </div>\r\n\r\n<div>Os donos de projetos com essa visão ambiciosa, técnica e futurística de educação sabem que devem oferecer a seus estudantes/clientes o que eles merecem: “o melhor projeto de educação do planeta: pensado, planejado e programado em etapas. Um saber pragmático, rápido, completo e acessível, que atenderá as necessidades de todo aquele que quer um saber de qualidade”. <br />\r\n </div>\r\n\r\n<div>Não se pode ter uma educação nestes moldes sem defender que a formação para os professores é importantíssima, ou seja, precisa ser ministrada com ferramentas e tecnologias desenvolvidas por especialistas, pois estes sabem quais são os comportamentos, habilidades e atitudes (técnica do CHA) que estes profissionais devem seguir, a risca, para se tornarem os melhores profissionais. Estes professores terão sucesso, pois seus alunos serão aprovados nas melhores escolas e universidades de prestígio. <br />\r\n </div>\r\n\r\n<div>Em outras palavras: quem pensa assim acredita que educação é mercadoria e a vendem como vendem sabonetes ou apartamentos. Acreditam que professores são peças de um sistema maior e que formação significa: pôr na forma. Por isso que é difícil dizer o número de possibilidades de formação para professores, com esta perspectiva teórica, pois milhares de empresas estarão dispostas a desenvolverem incríveis pacotes de formação (ou seria melhor dizer, de formatação?) e assim, surgirá uma gama enorme de cenários possíveis, neste bazar.<br />\r\n </div>\r\n\r\n<div>Se por outro lado descrevermos professores/ sujeitos serão poucas possibilidades, pois estes profissionais da educação terão outros princípios teóricos que compreendem que educação não é produto, é direito. Direito de todos e todas. Compreendem que os conhecimentos acumulados, por todos os humanos, são fruto de trabalho, de pesquisas das inteligências múltiplas; construção histórica e ontológica.<br />\r\n </div>\r\n\r\n<div>Ser educador, para estes, implica ser protagonista, portanto responsável por sua construção profissional; estes educadores sujeitos sabem que a história desta profissão é coletiva e se dá na relação com o outro, por isso compreendem o ato educativo como instrumento de reflexão e compromisso. <span style=\"white-space:pre\"> </span>Sabem que ser profissional da educação exige construir, principalmente no espaço público, pois lá estão os “excluídos da Terra” e entendem este espaço escolar como lugar de possibilidades. Educadores que desenvolvem o pensamento reflexivo e crítico com os estudantes sempre consideram suas vidas, suas histórias. Constroem na perspectiva da mudança, da cooperação, da igualdade, da justiça e da dignidade do humano. Reconhecem suas contradições e incertezas, mas trabalham através do diálogo, da leitura do mundo na tentativa de sempre produzir com arte e ciência os novos saberes e conhecimentos com seus educandos e não para eles ou contra eles. <br />\r\n </div>\r\n\r\n<div>Por fim, é importante explicitar que os professores que atuam na escola pública no Brasil e se compreendem como sujeitos sofrem muito mais do que aqueles que ainda se veem como meros instrutores. Isso porque como o país não tem um projeto pedagógico para a escola pública, a cada Governo, aqueles que estão no comando do Estado tratam a escola pública - e tudo que lhe diz respeito, inclusive os professores e os estudantes - a partir de sua visão de educação, ou seja, a escola pública brasileira ainda é um receptáculo da proposta educacional “do momento”. <br />\r\n </div>\r\n\r\n<div>Sou educadora que trabalha com princípios teóricos e práticos que conceitua educação como tempo de crescimento, de autoconhecimento e, portanto, de mudança. Estes princípios pressupõem que todo espaço, que tem a presença humana, é uma possibilidade educacional. Mas é na escola pública, da educação infantil à universidade, o lugar onde o projeto pedagógico que respeite a todos como sujeitos deve ser construído.   <br />\r\n </div>\r\n\r\n<div>Minha utopia diária é essa: construir com os educadores e educadoras do Brasil, não uma bolha ou um espaço fantasioso onde tudo pareça certo e bom, isso é tolice, mas espaços reais nos quais haja respeito, acolhimento, pesquisa, arte, espaço para os diversos corpos e para a alegria. Espaços públicos onde haja construção de conhecimentos e as pessoas possam ser. <span style=\"white-space:pre\"> </span>Lugares de educação emancipatória de verdade, comunidades pedagógicas de qualidade porque se sabem vivas, falhas e inacabadas. </div>\r\n",
            "summary": "Mônica Ferreira Costa - Pedagoga, Psicóloga, Mestranda em Educação na Unisantos",
            "image": "https://cdn1.bs9.com.br/Folder/2026/07/b48189e3-e7a5-4fe3-90f4-3407296c59c6/conversions/monica-ferreira-large.webp",
            "date_published": "2022-05-12T03:00:00+00:00",
            "date_modified": "2026-07-13T19:43:12+00:00",
            "authors": [
                {
                    "name": "Mônica Ferreira Costa"
                }
            ],
            "tags": [
                "Mônica Ferreira Costa"
            ]
        },
        {
            "id": "https://www.bs9.com.br/019f5cd7-1415-719c-863e-b283511c0db5",
            "title": "Passagem",
            "url": "https://www.bs9.com.br/coluna/monica-ferreira-costa/2022/04/12/passagem.html",
            "content_html": "<p>Estamos numa semana muito importante para os cristões, a semana Santa, a semana da Páscoa. A origem da palavra (em latim <em>pascha </em>e do hebraico pessach) carrega o significado “da passagem” porquê para os hebreus esta comemoração, que vem de longa data na tradição judaica, está associada à memória da libertação do povo hebreu da escravidão no Egito. <br />\r\n<br />\r\nPor sua vez, no cristianismo, a Páscoa possui um significado distinto da crença judaica, mas ainda assim, a festa cristã possui uma ligação direta com a dos judeus, pois relaciona-se com a crucificação, morte e ressureição de Jesus Cristo, isso é, a “passagem” do Filho de Deus. O próprio apóstolo Paulo afirma em sua carta registrada em I Coríntios 15:14 que “Se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação, e também é vã a vossa fé”.<br />\r\n<br />\r\nSendo assim, cabe perguntar: por que o Cristo crucificado é ainda hoje uma imagem tão forte e permanente? Não deveria ser essa uma dor esquecida uma vez que o Cristo a superou? Por que nos agarramos à dor? Por que o sofrimento desperta tamanho fascínio?<br />\r\n<br />\r\nNão haveria de ser glorificado o Salvador que ressuscitou dos mortos?</p>\r\n\r\n<p>Estas questões sempre me provocaram reflexões porque há nesta faceta da relação do humano, que se percebe comum, frente ao outro que é reconhecido como o Messias, a grande alma, o sábio líder, uma maior admiração quanto maior tiver sido sua peregrinação, sua dor, seu sofrimento e martírio. Uma ordem de valor moral que elege a dor como poder e não a vitória sobre ela.<br />\r\n<br />\r\nComo enxergar além da dor e do sofrimento?<br />\r\n<br />\r\nComo potencializar nossas vitórias? <br />\r\n<br />\r\nSabemos que tudo é passagem, tudo é passageiro e que findamos, então por que não eleger a alegria, a vitória para celebrar?<br />\r\n<br />\r\nAlém de tudo isso, há uma contradição permanente em nós, pois guardamos em fotografias momentos de felicidade e alegria. Nossas fotos mostram sorrisos e abraços, não fotografamos dores. A memória que guardamos são aquelas nas quais aparecemos felizes. <br />\r\n<br />\r\nHá na nossa cultura uma construção ideológica de que o sofrimento é um estado de resistência e que é necessário persistir, mesmo diante da maior dor. Aliás, é preferível que se sofra em silêncio. Essa ideia do ficar sozinho, do sofrer em nome do algo maior, do resistir em silêncio tem colocado uma multidão de gente em situação de dores mentais e físicas; diante da automutilação, da depressão e do suicídio.<br />\r\n<br />\r\nNão é nada fácil sofrer sozinho. Não é nada bom sofrer sem compartilhar, não é nada bom acreditar na dor como troféu. <br />\r\n<br />\r\nA sociedade que construímos, a partir desse modelo econômico, é desigual, perversa e falida. Não há nada de ético e moralmente bom no tratamento que poucos impõem sobre muitos, quando lhes roubam às vidas, os sonhos, os talentos.  <br />\r\n Além dos cristões, todos nós poderíamos aproveitar a semana da Páscoa e pensarmos: como faço a minha passagem? Como devo tratar das minhas dores e das dores dos outros? Como estabelecer uma passagem real da condição do flagelo na qual muitos foram colocados para uma condição de direitos, de dignidade e respeito?<br />\r\nPenso que não há milagre.<br />\r\nPenso que há trabalho, muito trabalho a ser feito. Trabalho de transformação. Trabalho santo porque sadio, portanto afastado desse consumo desordenado, desse silêncio que mata, desse conformismo. Não é natural que muitos morram de fome enquanto outros jogam fora toneladas de alimento. Não é natural que uns tenham privilégios a todo tipo de bens e serviços enquanto a maioria tem seus direitos roubados. Não é natural que direitos sociais e serviços básicos sejam transformados em produtos, em mercadorias e ver tudo virar lucro: alimentos, saúde, moradia, educação, transporte, segurança...<br />\r\n<br />\r\nNós, classe trabalhadora somos tratados como mercadoria, somos o que os capitalistas denominaram de “capital humano”. Viramos mercadoria e somos vendidos no mercado. Nossa força de trabalho está a cada dia virando pó, podemos ser “precarizados”, “uberizados”, afinal sofreremos em silêncio e ainda haverá glória pela dor do dia a dia. Nos convenceram. Nos condicionaram e nós nos moldamos.<br />\r\n<br />\r\nSe não houver uma passagem real, na qual façamos no coletivo um pacto pela vida e pela ética e partamos para a destruição deste sistema econômico que constrói e mantem esta lógica de mercado, tudo estará preso na cruz e nenhuma ressureição será lembrada, fotografada, guardada como um momento de vitória, de alegria, de luz e conhecimento. <br />\r\n<br />\r\nSe não lutarmos aqui e agora contra essa lógica perversa que destrói o meio ambiente e todas as vidas que estão na Terra, ficaremos assistindo o fraterno que há em nós, morrer na cruz.</p>\r\n\r\n<p> </p>\r\n",
            "summary": "Mônica Ferreira Costa - Pedagoga, Psicóloga, Mestranda em Educação na Unisantos",
            "image": "https://cdn1.bs9.com.br/Folder/2026/07/88b1bdf0-8cc1-44ff-abb1-aaf089f346e8/conversions/monica-ferreira-large.webp",
            "date_published": "2022-04-12T03:00:00+00:00",
            "date_modified": "2026-07-13T19:43:10+00:00",
            "authors": [
                {
                    "name": "Mônica Ferreira Costa"
                }
            ],
            "tags": [
                "Mônica Ferreira Costa"
            ]
        },
        {
            "id": "https://www.bs9.com.br/019f5cd7-1345-70bf-899f-a09cd5d0e6fa",
            "title": "Convido para um 8 de março permanente",
            "url": "https://www.bs9.com.br/coluna/monica-ferreira-costa/2022/03/12/convido-para-um-8-de-marco-permanente.html",
            "content_html": "<p>Quando você pensa no dia 8 de março, provavelmente, o que lhe vem à cabeça é o Dia Internacional da Mulher, não é? Mas tenho uma pergunta para lhe fazer: por que existe o Dia Internacional da Mulher? </p>\r\n\r\n<p>Alguns poderão responder que é para que a mulher seja lembrada, prestigiada, presenteada com flores e se der, ainda acabar num jantar romântico. Esse pode ser um pensamento para o dia 8 de março, porém diante da nossa<br />\r\nrealidade, afirmamos que ele é um pensamento: comercial, distante e inútil. Pensar no Dia Internacional da Mulher apenas com este viés, realmente, é manter um pensamento que não se preocupa em mudar nada na vida das mulheres. Sequer, verdadeiramente, é um pensamento que prestigia as<br />\r\nmulheres.</p>\r\n\r\n<p>Por que afirmo isso?</p>\r\n\r\n<p>Porque a realidade da maioria das mulheres é outra. É uma realidade de violência, de morte, de humilhação, de controle, de desigualdade. As mulheres desde pequena são tratadas, ensinadas, condicionadas para atenderem os homens, a casa, a maternidade. Somos condicionadas a cuidar do nosso corpo para o outro, não para nós mesmas. Aliás, corpo esse que não é nosso, pois dele há grande controle quando se discute laqueadura, aborto e liberdade de expressão.</p>\r\n\r\n<p>Quer testar como estamos condicionadas e condicionados?</p>\r\n\r\n<p>Vou te contar uma breve história, importante e verdadeira e você vai responder - só para você mesma, mesmo – não precisa responder em voz alta a pergunta a seguir.</p>\r\n\r\n<p>Em 2020, uma equipe liderada por dois nomes premiados da pesquisa nacional e que trabalham no Instituto de Medicina Tropical da USP sequenciou, em tempo recorde, o genoma do SARS-CoV-2, o vírus que ficou conhecido por Covid 19. Este trabalho garantiu que exames laboratoriais fossem feitos e os resultados rapidamente respondiam se a pessoa, que apresentava sintomas de gripe, estava ou não contaminada pelo vírus.</p>\r\n\r\n<p>A pergunta é: quando você ouviu essa história, veio à sua cabeça os nomes da Dra. Ester Sabino e da Dra. Jaqueline Góes de Jesus? Ou seja, nomes de duas mulheres? Provavelmente, não. E acredite, você não foi a única pessoa que pensou em homens brancos liderando essa pesquisa enquanto lia a história.</p>\r\n\r\n<p>Por que pensamos em homens quando ouvimos ou lemos histórias como essa? Porque são poucas as mulheres no Brasil que lideram pesquisas científicas, são poucas mulheres nas diretorias de grandes empresas, são poucas mulheres que lideram bancadas políticas.</p>\r\n\r\n<p>É sobre esse condicionamento, construído historicamente de forma machista e sexista, que proponho a reflexão. Estou tratando do mundo no qual vivemos, no mundo real. Mundo ainda que nega acesso às mulheres de forma estrutural e ideológica, principalmente às mulheres negras.</p>\r\n\r\n<p>Nós mulheres estudamos, trabalhamos e mesmo quando conquistas importantes, como esta citada acima das médicas de São Paulo, são premiadas, elas ainda são estão nos nossos pensamentos, nós nos “apagamos”, porque fomos sistematicamente apagadas.</p>\r\n\r\n<p>Somos ainda hoje, no século 21, um número reduzido de mulheres que ocupa os cargos nas diretorias das empresas, nas casas dos Poderes Legislativo, Executivo e Judiciário, no controle da economia que não seja a doméstica ou nos cargos nas academias científicas.</p>\r\n\r\n<p>Não porque as mulheres não tenham inteligência, talento, senso de liderança, organização, escolaridade, responsabilidade, força ou outro atributo qualquer. Não porque as mulheres não queiram estar nas universidades estudando, não porque as mulheres não queiram bons empregos ou porque abriram mão de serem lideranças políticas, no mundo todo.</p>\r\n\r\n<p>É porque as mulheres ainda estão se defendendo para não morrerem com as agressões físicas, sexuais e psicológicas que seus parceiros, ex companheiros, pais e outros homens lhes causam dentro de suas próprias casas. O Brasil é o 5º país no mundo em números absolutos de casamentos infantis, (entendido como meninas que têm menos de 16 anos) com mais de 2,2 milhões de meninas nessa condição.</p>\r\n\r\n<p>É porque as mulheres estão trabalhando fora de casa, realizando as mesmas tarefas e horas que os homens, mas ganham 35% a menos que eles. É porque as mulheres estão trabalhando 22 horas por semana a mais que os homens, pois cuidam dos filhos e de inúmeras tarefas domésticas, depois da sua jornada de trabalho fora de casa. Os homens ainda hoje realizam pouquíssimas destas tarefas e depois da pandemia essa realidade só piorou para as mulheres. Principalmente para as mulheres negras e pobres que não pararam de trabalhar fora de casa e não tiveram onde deixar as crianças que ficaram sem ir para escola.</p>\r\n\r\n<p>Há avanços reais na vida pessoal e social das mulheres.</p>\r\n\r\n<p>Sim, mas pensemos: se hoje nós trabalhamos em diversas profissões, votamos e somos votadas, assinamos nossos nomes, pesquisamos e ganhamos prêmios, fazemos teatro e deixamos de ser maltratadas por conta desta escolha, se viajamos ou moramos sozinhas, se temos filhos quando queremos e com quem queremos, se compramos casa e dirigimos nosso carro e ainda aprendemos a dizer para o sujeito: “não é não”, foi porque conquistamos cada centímetro dessas vitórias, na luta. Nada nos foi dado, tudo foi avanço sobre aquilo que era espaço e poder só dos homens.</p>\r\n\r\n<p>Os homens não deram nada de presente às mulheres. Historicamente os homens construíram um mundo para eles; um mundo no qual as mulheres foram colocadas em seus “devidos” lugares: ela vai satisfazer, parir, servir, cuidar, alimentar, educar e amar os homens. A autonomia das mulheres ainda é uma conquista diária. As mulheres ainda estão se conhecendo como protagonistas de suas próprias histórias.</p>\r\n\r\n<p>Nós, mulheres, ainda temos que aprender a parar de julgar a nós mesmas, estamos aprendendo a ter amor próprio, estamos aprendendo - a duras penas - a quebrar nossos condicionamentos para ensinar nossas crianças que não existe cor, brinquedo e papéis diferentes para meninos e meninas. Estamos aprendendo a confiar umas nas outras e tantas outras coisas.</p>\r\n\r\n<p>Por isso, te convido a entrar nessa conversa e refletir sobre ela em todos os dias do ano. Precisamos ser vistas juntas. Precisamos ser ouvidas. Precisamos dizer muitas coisas. Precisamos nos organizar para nos defender. Precisamos sair para as ruas e gritar bem alto: basta de feminicidio! Gritar: opressão e o autoritarismo têm que acabar hoje! Chega de desigualdade e desrespeito!</p>\r\n\r\n<p>Convido todas mulheres e todos os homens que desejam uma sociedade justa com equidade a vivenciarem o Dia Internacional da Mulher durante todo o ano porque ainda há muito a ser feito, há muito a ser conquistado.</p>\r\n\r\n<p>Você vem comigo?</p>\r\n",
            "summary": "Mônica Ferreira Costa - Pedagoga, Psicóloga, Mestranda em Educação na Unisantos",
            "image": "https://cdn1.bs9.com.br/Folder/2026/07/86ce0a81-640d-44f6-b7b0-9ac1c450ca61/conversions/monica-ferreira-large.webp",
            "date_published": "2022-03-12T03:00:00+00:00",
            "date_modified": "2026-07-13T19:43:06+00:00",
            "authors": [
                {
                    "name": "Mônica Ferreira Costa"
                }
            ],
            "tags": [
                "Mônica Ferreira Costa"
            ]
        },
        {
            "id": "https://www.bs9.com.br/019f5cd7-1325-71a7-8438-2c31b482f47c",
            "title": "VIDA É MOVIMENTO",
            "url": "https://www.bs9.com.br/coluna/monica-ferreira-costa/2022/02/12/vida-e-movimento.html",
            "content_html": "<p>Em meados de 1993, Paulo Freire lançou o livro Política e Educação e nele escreveu: “Ninguém nasce feito. Vamos nos fazendo aos poucos, na prática social de que tomamos parte”; com certeza não nascemos prontos sequer fisicamente, quanto mais como seres sociais. Nascemos e somos inseridos numa inevitável construção social que cada um fará dentro das suas possibilidades, vontades e habilidades.</p>\r\n\r\n<p>Aprendemos e construímos o nosso eu porque entramos em contato com o outro. É a presença e a relação com a outra pessoa e tudo o que ela traz e troca   conosco no contato sensorial, emocional e cognitivo que nos ajuda - e ajudará para sempre – em nossa inserção na “prática social de que tomamos parte”.<br />\r\n <br />\r\nO tempo que temos de vida, ninguém sabe, mas penso que se tivermos condições mínimas de socialização, deveremos chegar à vida adulta sabendo, pelo menos, duas coisas: que vamos errar e vamos morrer.<br />\r\n<br />\r\nNo entanto, tenho percebido, principalmente diante das respostas que recebo nas mídias sociais, que muitos adultos ainda não elaboram estas máximas inevitáveis.<br />\r\n<br />\r\nReagem, muitas vezes, como se fossem infalíveis, indestrutíveis, inatingíveis, de tal modo, que beiram o ridículo! Imagino que devem se comportar da pior maneira porque fantasiam que não serão vistos ou identificados. Será isso?<br />\r\n<br />\r\nParecem-se com crianças pequenas, que reagem se escondendo. Certa vez, meu irmão com três anos, brincava com seu cavalinho de pau no quintal e resolveu bater no cachorro, com o brinquedo, porque o animal não fazia o que ele queria. Corri para acudir meu cachorro e disse: - “Para! Ele não entende o que você quer”. Lembro da carinha do meu irmão, incrédulo. Depois para fugir da bronca ele se “escondeu” atrás do próprio pau do cavalinho. Tudo ficou gravado porque meu pai estava com sua Super8 registrando nossos momentos na infância. <br />\r\n<br />\r\nAssistir àquelas cenas, tempos depois, era diversão garantida. Dávamos gargalhadas de ver meu irmão segurando aquele minúsculo pedaço de pau para cobrir seu rosto. Ele acreditava mesmo que havia se escondido atrás do seu cavalo.   <br />\r\n<br />\r\nHá décadas era mais difícil identificar o autor de uma agressão nas mídias sociais, mas hoje esta não é mais a realidade. Somos monitorados, vigiados, olhados e identificados facilmente.<br />\r\n<br />\r\nNo entanto, ainda há muita gente agindo de forma agressiva, discriminatória e violenta como se nada lhes fosse acontecer. Fico me perguntando: o que será que aconteceu nas vidas dessas pessoas para que elas reajam dessa maneira? São tantas pessoas! Também percebo que se um sujeito escreve algo truculento, numa postagem, em qualquer destes sites na mídia social, acontece o fenômeno que chamo de: “porteira aberta”, isso é, um monte de comentários, não menos agressivos, são escritos na sequência. Parece uma metralhadora desgovernada. <br />\r\n<br />\r\nO que está acontecendo conosco? <br />\r\n<br />\r\nCreio que a raça humana sempre teve um forte traço de raiva, de prepotência e arrogância, mas todos estes são sentimentos construídos e aprendidos. Não nascemos orgulhosos, vaidosos e discriminadores. Tornamo-nos. <br />\r\nHistoricamente não fomos levados a aprender a conversar, negociar. Pelo contrário, temos sido estimulados a enfrentar, brigar e não levar “desaforo para casa”. Mas esta postura vem mudando. Não somos felizes e adoecemos numa sociedade que se manifesta de forma tão violenta, por isso temos reagido. Precisamos repensar o que queremos e melhorar nossa prática do diálogo. Se, por um lado, criamos vários canais de comunicação e neles demonstramos nossa contrariedade, frustração, raiva, indignação, aquela velha vontade de matar o “amiguinho”, por outro lado, também manifestamos nestas mesmas mídias nossa solidariedade, nossas alegrias e afetos.<br />\r\n<br />\r\nAlgo a confessar neste momento: tenho dificuldade para lidar, no meu dia a dia, com pessoas adultas que têm comportamentos infantilizados. <br />\r\n<br />\r\nSe compreendemos e aceitamos que nossa espécie precisa de ajuda para tornar-se humana é porque reconhecemos que quando somos crianças pequeninas temos baixa resistência à frustação e não compreendemos regras sociais nem acordos. O outro é para nós como um objeto, não o reconhecemos como um semelhante. Por exemplo, não emprestamos um brinquedo, porque não sabemos se o outro o devolverá. Não lidamos bem com as negativas que recebemos do outro e insistimos e brigamos para que nossos desejos, vontades e caprichos, sejam atendidos prontamente.<br />\r\n<br />\r\nSe atingimos o pensamento abstrato, planejamos e registramos nossa história, foi porque conseguimos avançar nos níveis de linguagem. É natural que crianças de três ou quatro anos ainda mantenham monólogos coletivos, isso é, aparentemente estejam conversando entre si, mas não se importam com as respostas que os amiguinhos da conversa lhe dão, está tudo bem. Afinal, são crianças pequenas; seres imaturos que, com o tempo e o convívio social, mudarão suas atitudes e comportamentos.<br />\r\n<br />\r\nA questão é exatamente essa: por que alguns adultos parecem que não foram capazes de aprender e mudar suas atitudes e comportamentos? <br />\r\n<br />\r\nPor que alguns adultos se comportam como se pudessem se esconder atrás de um cavalinho de pau, que mal esconde seu nariz?<br />\r\n<br />\r\nTeriam sido isolados do convívio? Não. Porque isolados não estariam nas mídias sociais...<br />\r\n<br />\r\nTeriam sido tão mimados, tão poupados das dores e tantas vezes atendidos em suas vontades e querências que não aprenderam a lidar com a contrariedade? Impossível. Porque são adultos e, ainda que o mundo familiar tenha feito esse desserviço em suas relações, eles também estiveram no mundo da escola, da rua, do trabalho e diante de tantos outros convívios que, com certeza, trouxeram contrariedades. <br />\r\n<br />\r\nConviver com muitos e em diversos ambientes é ter que lidar com não ser atendido, às vezes ser desprezado, ignorado, humilhado, perseguido, ameaçado. Enfim, se tudo isso também acontece nas relações familiares, no mundo maior muitas vezes acontece sem que os outros tenham qualquer pudor ou complacência.<br />\r\n<br />\r\nPorém, não há nada que nos obrigue a tomarmos atitudes violentas. Não há nada que nos obrigue a assistir um ato de violência e ficarmos calados, imóveis. Podemos agir. Podemos fazer a diferença.<br />\r\n<br />\r\nPor isso, mesmo que você se sinta ameaçado, não é necessário ameaçar. Mesmo que você se sinta ignorado ou humilhado, não precisa responder com a mesma violência. Porque se eu paro de reagir de maneira intempestiva e você para e o outro e o outro e o outro param, podemos transformar nossas relações sociais. Se pensarmos por um momento antes de reagir com violência, poderemos achar outra saída.<br />\r\n<br />\r\nNão nascemos prontos. Como também nos ensinou Paulo Freire: (podemos) “reconhecer que somos seres condicionados, mas não determinados. Reconhecer que a história é tempo de possibilidade e não de determinismo, que o futuro (...) é problemático e não inexorável”.<br />\r\n<br />\r\nPorque a vida é movimento e podemos mudar, alterar, transformar nossas atitudes e comportamentos. Só depende de aceitarmos que somos finitos e vamos errar. Também vamos acertar, ensinar, trocar. Podemos escolher amar.</p>\r\n",
            "summary": "Mônica Ferreira Costa - Pedagoga, Psicóloga, Mestranda em Educação na Unisantos",
            "date_published": "2022-02-12T03:00:00+00:00",
            "date_modified": "2026-07-13T19:00:52+00:00",
            "authors": [
                {
                    "name": "Mônica Ferreira Costa"
                }
            ],
            "tags": [
                "Mônica Ferreira Costa"
            ]
        },
        {
            "id": "https://www.bs9.com.br/019f5cd7-12e2-73ce-8864-aafc881a6685",
            "title": "Quantas pessoas tem no mundo?",
            "url": "https://www.bs9.com.br/coluna/monica-ferreira-costa/2022/01/12/quantas-pessoas-tem-no-mundo.html",
            "content_html": "<p>Sempre que um ano se inicia muitas pessoas -  e incluo-me nesta lista - passam a planejar muitas mudanças em suas vidas. Você já reparou que não é incomum que façamos diversos planos/promessas para cumprir no decorrer do ano? Uma lista que inclui o que foi “deixado” para trás, mas que “agora vai”! Essa energia do primeiro mês do ano é, normalmente, compreendida como ponto de largada e nela fazemos acordos de toda natureza: este ano vou aprender inglês (essa é clássica!), vou fazer regime (essa é clássica e triste porque, normalmente, está apenas associada a atender o padrão do corpo “bonito” e estereotipado), este ano mudo de emprego, entro na faculdade, faço aquela viagem, vou parar de fumar, aprender a ....</p>\r\n\r\n<p>Fazemos listas a serem cumpridas. Algumas tolices. Muitos desejos. Grande esperança de dar conta e “resolver” velhos problemas, apenas quando o calendário muda do dia 31 de dezembro para o dia primeiro do ano; como se neste momento ocorresse um pequeno milagre. Buscamos coragem no início do ano. Buscamos automotivação para seguir. No entanto, penso que essas listas estão predeterminadas a não serem cumpridas, basicamente, porque estamos falando com o espelho. Olhamos para nosso umbigo e isso nos leva a fingir um pouco, sonhar um pouco, acreditar que, agora que o ano começou, seremos capazes de dar conta de um monte de coisas que não resolvemos num ano inteirinho que terminou.</p>\r\n\r\n<p>Poderíamos chamar de: síndrome do ano novo. Ano novo, vida nova!</p>\r\n\r\n<p>A verdade é que pouca coisa muda, ou quase nada, além de um novo calendário na parede.</p>\r\n\r\n<p>É comum desejarmos mudanças “mágicas”, porque sabemos que transformações reais são muito, muito mais difíceis de acontecerem, pois para que possam se concretizar elas exigem nossa energia, planejamento, recursos, enfim, exigem nossa presença, nossa participação.<br />\r\n <br />\r\nPor tudo isso fiquei pensando que talvez a gente pudesse tentar outra estratégia neste janeiro de 2022. Na tentativa de melhorar nossas chances de sucesso na realização das nossas listas de desejos, fiquei imaginando: o que aconteceria se passássemos a compartilhar nossas listas? Sim. Poderíamos escolher duas ou três pessoas do nosso convívio que nos conhecem e com quem podemos contar para lidar com todas as coisas da vida. Se compartilhássemos nossas listas também assumiríamos o compromisso de ajudar o outro a realizar aquilo que ele elegeu como importante e o inverso seria verdadeiro, isto é, os outros iriam se comprometer a nos ajudar a realizar nossas querências.</p>\r\n\r\n<p>Lendo assim parece fácil, não é?</p>\r\n\r\n<p>Pois é, pode ser, realmente, bem mais fácil se soubermos a resposta certa para a pergunta: quantas pessoas tem no mundo?</p>\r\n\r\n<p>Você sabe quantas pessoas tem no mundo?</p>\r\n\r\n<p>Se você respondeu: “algo em torno de 10 bilhões” ou coisa parecida está distante da resposta necessária para iniciar 2022 numa outra “pegada”, isto porque é necessário pensarmos que no mundo sempre há duas pessoas:  eu e o outro.</p>\r\n\r\n<p>Assim, se mudamos a perspectiva para vivermos além do nosso umbigo e passamos a agir para estarmos, verdadeiramente, presentes na vida de alguém para atendermos sem julgar e sem ficarmos definindo o que o outro tem ou não que fazer, aumentamos nossas chances de também sermos atendidos.</p>\r\n\r\n<p>O famoso exercício do amar. Aquela ação real e sem alarde que muitos parecem acreditar que é algo fora de moda, mas que, no entanto, tem feito toda a diferença em nossas vidas desde sempre...</p>\r\n\r\n<p>Por isso, desejo que neste início de 2022, você e eu sejamos capazes de montar a lista de desejos para o ano, mas que ao “mudar a chave” estejamos juntos de alguém para compartilhar a vida. Que possamos nos responsabilizar amorosamente uns pelos outros e que o amor não seja um sentimento, mas ações conscientes. Ações que não precisam ser compreendidas apenas por aqueles que têm uma religião ou fé, pois, afinal, o amor se põe à mesa para que quem quiser possa se servir.</p>\r\n\r\n<p>Feliz 2022 para todas, todos e todes!</p>\r\n\r\n<p><em>*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal BS9</em></p>\r\n",
            "summary": "Mônica Ferreira Costa - Pedagoga, Psicóloga, Mestranda em Educação na Unisantos",
            "date_published": "2022-01-12T19:41:00+00:00",
            "date_modified": "2026-07-13T19:00:52+00:00",
            "authors": [
                {
                    "name": "Mônica Ferreira Costa"
                }
            ],
            "tags": [
                "Mônica Ferreira Costa"
            ]
        },
        {
            "id": "https://www.bs9.com.br/019f5cd7-1361-70cf-8b1e-772373b101a4",
            "title": "Quando a escola fez silêncio",
            "url": "https://www.bs9.com.br/coluna/monica-ferreira-costa/2021/12/12/quando-a-escola-fez-silencio.html",
            "content_html": "<p>Dedico este texto a todas professoras e professores, agentes indispensáveis na formação do humano.<br />\r\n </p>\r\n\r\n<p>Se há um lugar barulhento por natureza esse lugar é a escola. Sem dúvida há outros espaços nos quais o barulho rola solto, como nos campos de futebol, em dias de jogo, boates, nos finais de semana ou as feiras de rua, de terça a domingo. Lugares onde tudo é gritaria e confusão. Mas escola tem um barulho diferente, um barulho que ri, grita e corre. Barulho que nem precisa de música, jogo, peixe ou coisa alguma para ser assim: barulhenta.</p>\r\n\r\n<p>São as crianças. São elas que produzem, carregam e mantem esse barulho risada e correria, que na verdade acontece mais solto quando é recreio. Explico aos novinhos que recreio é um nome das antigas, dado há muito tempo para o famoso momento do intervalo.</p>\r\n\r\n<p>Aqui rendo singela homenagem à revista que carregava esse nome bom: Recreio. Adorava a Revista Recreio, que durou um tempão e em sua primeira edição, lá pelos idos de 1969, era vendida nas bancas de jornal. Difícil era na minha infância esperar um mês inteirinho para comprar a Recreio e ter nas mãos diversão garantida, pelo menos por uma semana.<br />\r\n        <br />\r\nDigo tudo isso só para lembrar que num momento esquisito lá pelos idos de março de 2020 algo que há muito não acontecia aconteceu: por ordem e decreto do governador; as escolas pararam.</p>\r\n\r\n<p>A pandemia da Covid 19 estava no Brasil fazendo um grande estrago e o risco de atingir às crianças era uma possibilidade, por isso a ordem foi: fiquem em casa. A princípio foi muito bom, pareciam férias inesperadas. Pleno março e podíamos dormir até mais tarde, almoçávamos tarde e dormíamos tarde, novamente. Tudo fora da ordem.</p>\r\n\r\n<p>Período cuja estranheza deu lugar, rapidamente, à preocupação, ao medo e à tristeza. As tais férias não duraram dez dias. Nós professoras e professores tínhamos agora pela frente muito trabalho a fazer, uma vez que a Secretaria da Educação havia resolvido que o ano letivo teria que acontecer de forma remota, isso é, passaríamos a lecionar via internet. Passamos a nos perguntar: como? Será que as crianças têm recursos? Será que todas as famílias têm computadores, celulares? Montamos grupos nos aplicativos para descobrir muitas coisas. Como atender os alunos que não tinham computadores, notebook ou celulares? Para os que tinham algum equipamento, como era o pacote de dados, qual internet utilizavam e qual a qualidade dessa rede? Enfim, um mundo todo que se impunha e era chamado do “novo normal”. </p>\r\n\r\n<p>Montamos novos calendários, porque ficou claro que não conseguiríamos atender todas as crianças de uma única vez, muito menos por tantas horas. Passamos a trabalhar mais horas para aprender e poder ensinar às crianças como acessarem e ficarem nas salas de aula virtual. Nosso trabalho agora estava dentro de casa, precisávamos isolar um espaço e prepara-lo, para pendurar o celular, sem que ele caísse, balançasse, tinha que ter luz, um fone de ouvido e, ainda, tentar um certo silêncio...</p>\r\n\r\n<p>Mas nossos filhos também estavam em casa, assim como a roupa na máquina, o cachorro latindo e a campainha tocando; tudo junto e misturado. Uma loucura que acreditávamos iria acabar logo e, então, teríamos muitas histórias para contar e juntos rirmos das peripécias que cada um teve que montar para continuar lecionando e vivendo. Sim, porque viver agora, em tempos de pandemia, exigia muita atenção. Esquemas para sair e voltar de casa, levando máscara e álcool gel como os imprescindíveis companheiros de trajeto.</p>\r\n\r\n<p>Nada foi rápido. Nada foi fácil. Nada foi bom.</p>\r\n\r\n<p>Se no começo as crianças achavam engraçado dizer toda aula: “professora liga o som”, depois não tinha mais graça. Se tudo no começo era novidade e mostrar o gato, o cachorro, o peixinho era importantíssimo, ou se contavam que estavam de pijama assistindo aula e todos riam, depois de meses tudo era desanimo, cansaço e tristeza pela faltava do contato.</p>\r\n\r\n<p>Faltava o barulho. Faltava o jogo de bola, as conversas, a correria do recreio, fazia falta até os gritos dos inspetores: “Não corre fulano. Desce daí cicrano. Vai lavar a mão, beltrano”...  As crianças não queriam mais “brincar” de aula no computador. Não abriam as câmeras, se distraiam com qualquer coisa e a pergunta de todos os dias era: “quando a gente vai voltar pra escola, professora?”</p>\r\n\r\n<p>Mas um dia foi pior.  Uma aluna com muita raiva disparou: “será que nunca mais a gente vai ficar junto? Eles não têm vacina pras crianças? Então, a gente vai morrer?”</p>\r\n\r\n<p>É muito difícil responder para uma criança, de oito anos, coisas que você, como adulto, também não sabe. Não por prepotência ou arrogância de pensar que professores devem saber tudo. Não. A questão era que ao não ter aquelas respostas tive medo de contar para ela que eu me perguntava as mesmas coisas, todos os dias.</p>\r\n\r\n<p>Foi assim, dizendo dos meus medos, que as crianças, naquele dia, voltaram a abrir suas câmeras e a prestar mais atenção no que eu estava tentando dizer a elas.</p>\r\n\r\n<p>Respondi com meu coração: “Eu não sei. Eu não sei quanto tempo vai demorar para que a gente se veja novamente, de bem pertinho e eu possa abraçar vocês como eu fazia quando chegavam. Eu não sei se a vacina que está começando a ser dada agora, para os velhinhos, também será dada para as crianças. O que eu sei é que esse vírus é tão ruim que nem gosta de criança. Imagina que “bicho” ruim é esse, que não gosta de crianças... Vocês viram que poucas crianças ficaram doentes? Então, vamos fazer um acordo? De hoje em diante a gente vai contar de alguém que ficou doente. Vamos dividir o que estamos sentindo e pensando e quando a gente estiver muito triste, como eu estou agora, a gente vai poder chorar junto. O que vocês acham?”</p>\r\n\r\n<p>Foi uma choradeira total!<br />\r\nFoi bom.<br />\r\nChoramos juntos e nos consolamos...</p>\r\n\r\n<p>Naquele dia inauguramos um novo ciclo, entre nós. Passamos a dividir mais nossas intimidades, curiosidades; e novas parcerias para ensinar e aprender aconteceram. Ensinar matemática era também discutir os números de mortos, porque as crianças passaram a perguntar o que era “média móvel”, “porcentagem”, “número de infectados”; palavras e expressões diárias que ouviam na TV e em casa, mas não compreendiam e também não haviam perguntado a ninguém.</p>\r\n\r\n<p>Assim, fomos nos ajudando, diariamente, a superar os gráficos e os trágicos. Eu perdi meus amigos e contei para eles e as crianças que perderam seus parentes também contaram. Encontramos, ou melhor, construímos a nossa sala de aula que era esse lugar de aprender, ensinar e chorar. Conseguimos falar sobre a morte, suas consequências nossos medos e raivas. Um aluno perdeu a mãe para a Covid e deixou nossa escola, pois foi morar com a avó em outra cidade. Sem cabimento, uma vez que estávamos com aulas online, mas a velhinha achou melhor levar o neto para uma escola mais perto da casa nova. Coisas assim: tristes, reais e irreparáveis.</p>\r\n\r\n<p>Conseguimos terminar o ano letivo. Desisti de tentar saber o quê e quanto, realmente, aquelas crianças haviam aprendido dos conteúdos de matemática, de língua portuguesa ou de qualquer outra disciplina. O que eu sei é que elas aprenderam muitas coisas neste ano. Eu também, aprendi muito sobre como ser professora e o quanto dói quando uma escola fica em silêncio.</p>\r\n\r\n<p>*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal BS9</p>\r\n",
            "summary": "Mônica Ferreira Costa - Pedagoga, Psicóloga, Mestranda em Educação na Unisantos",
            "date_published": "2021-12-12T20:24:00+00:00",
            "date_modified": "2026-07-13T19:00:53+00:00",
            "authors": [
                {
                    "name": "Mônica Ferreira Costa"
                }
            ],
            "tags": [
                "Mônica Ferreira Costa"
            ]
        }
    ]
}
