<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?>
<?xml-stylesheet href="/vendor/feed/atom.xsl" type="text/xsl"?>
<feed xmlns="http://www.w3.org/2005/Atom" xml:lang="pt-BR">
                        <id>https://www.bs9.com.br/coluna/mauricio-juvenal/feed/atom</id>
                                <link href="https://www.bs9.com.br/coluna/mauricio-juvenal/feed/atom" rel="self"></link>
                                <title><![CDATA[BS9 - Maurício Juvenal]]></title>
                    
                                <subtitle>Feed de notícias de Maurício Juvenal do BS9</subtitle>
                                                    <updated>2026-10-18T16:48:49+00:00</updated>
                        <entry>
            <title><![CDATA[O preço da proximidade: o que Milei “ensina” ao Brasil]]></title>
            <link rel="alternate" href="https://www.bs9.com.br/coluna/mauricio-juvenal/2026/10/18/o-preco-da-proximidade-o-que-milei-ensina-ao-brasil.html" />
            <id>https://www.bs9.com.br/01a14fe8-a2b7-70bd-9659-6c6c870c3479</id>
            <author>
                <name><![CDATA[Maurício Juvenal]]></name>
            </author>
            <summary type="html">
                <![CDATA[As concessões econômicas da Argentina aos Estados Unidos levantam uma questão que também interessa aos brasileiros, ou seja, até que ponto a aproximação entre governos pode favorecer interesses estran...]]>
            </summary>
            
                        <content type="html"><![CDATA[<p class="MsoNormal"><em>As concess&otilde;es econ&ocirc;micas da Argentina aos Estados Unidos levantam uma quest&atilde;o que tamb&eacute;m interessa aos brasileiros, ou seja, at&eacute; que ponto a aproxima&ccedil;&atilde;o entre governos pode favorecer interesses estrangeiros sem assegurar benef&iacute;cios equivalentes &agrave; popula&ccedil;&atilde;o nacional?</em></p>
<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
<p class="MsoNormal">Em economia, assim como na pol&iacute;tica, nem toda aproxima&ccedil;&atilde;o representa converg&ecirc;ncia de interesses. Dois governos podem compartilhar convic&ccedil;&otilde;es ideol&oacute;gicas, celebrar acordos comerciais e anunciar uma parceria estrat&eacute;gica sem que os benef&iacute;cios dessa rela&ccedil;&atilde;o sejam distribu&iacute;dos de maneira equilibrada. A experi&ecirc;ncia recente da Argentina, sob a presid&ecirc;ncia de Javier Milei, oferece uma oportunidade para refletir sobre essa quest&atilde;o. E o Brasil, diante das propostas econ&ocirc;micas em discuss&atilde;o na elei&ccedil;&atilde;o presidencial, tem raz&otilde;es para acompanhar atentamente suas consequ&ecirc;ncias.</p>
<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
<p class="MsoNormal">Desde que assumiu a Presid&ecirc;ncia, em dezembro de 2023, Milei promoveu uma transforma&ccedil;&atilde;o profunda na economia argentina. Adotou um programa de ajuste fiscal, reduziu subs&iacute;dios, ampliou a abertura comercial, flexibilizou regula&ccedil;&otilde;es e estabeleceu incentivos para grandes investimentos privados. Os resultados apresentam contrastes importantes. A infla&ccedil;&atilde;o recuou expressivamente, as contas p&uacute;blicas registraram avan&ccedil;os e a economia voltou a crescer em 2025. Entretanto, setores produtivos enfrentaram dificuldades, empresas deixaram de integrar o cadastro de empregadores e os indicadores sociais continuaram revelando vulnerabilidades significativas. A estabiliza&ccedil;&atilde;o macroecon&ocirc;mica, embora necess&aacute;ria, n&atilde;o resolve automaticamente a quest&atilde;o de como seus benef&iacute;cios s&atilde;o distribu&iacute;dos.</p>
<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
<p class="MsoNormal">Uma dimens&atilde;o menos discutida dessa experi&ecirc;ncia &eacute; a rela&ccedil;&atilde;o econ&ocirc;mica estabelecida com os Estados Unidos. Em fevereiro de 2026, os dois pa&iacute;ses assinaram um acordo de com&eacute;rcio e investimentos que prev&ecirc; amplia&ccedil;&atilde;o do acesso de produtos norte-americanos ao mercado argentino, incluindo autom&oacute;veis, m&aacute;quinas, medicamentos e produtos agr&iacute;colas. O entendimento contempla tamb&eacute;m propriedade intelectual, com&eacute;rcio digital e reconhecimento de padr&otilde;es regulat&oacute;rios. Para as empresas norte-americanas, s&atilde;o oportunidades concretas de expans&atilde;o comercial, redu&ccedil;&atilde;o de obst&aacute;culos e maior seguran&ccedil;a para suas opera&ccedil;&otilde;es.</p>
<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
<p class="MsoNormal">N&atilde;o h&aacute; irregularidade intr&iacute;nseca nessas concess&otilde;es. A abertura comercial pode favorecer consumidores, ampliar a concorr&ecirc;ncia e estimular investimentos. A quest&atilde;o fundamental &eacute; saber quais contrapartidas s&atilde;o oferecidas, quais setores s&atilde;o beneficiados e quem suporta os custos de adapta&ccedil;&atilde;o. Afinal, um acordo comercial n&atilde;o deve ser avaliado apenas pelo volume de neg&oacute;cios que promete gerar, mas tamb&eacute;m por sua contribui&ccedil;&atilde;o efetiva ao desenvolvimento econ&ocirc;mico e social dos pa&iacute;ses envolvidos.</p>
<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
<p class="MsoNormal">&Eacute; nesse ponto que a experi&ecirc;ncia argentina merece aten&ccedil;&atilde;o. Em 2025, suas importa&ccedil;&otilde;es cresceram 24,5%, enquanto diferentes segmentos da produ&ccedil;&atilde;o nacional enfrentaram dificuldades diante da concorr&ecirc;ncia externa. Entre novembro de 2023 e julho de 2026, o pa&iacute;s registrou redu&ccedil;&atilde;o de aproximadamente 32 mil empregadores cadastrados. Esses n&uacute;meros n&atilde;o demonstram que as empresas norte-americanas tenham provocado diretamente tais perdas, nem que o acordo bilateral, assinado posteriormente, seja respons&aacute;vel por elas. Revelam, contudo, que o processo de abertura e reorganiza&ccedil;&atilde;o econ&ocirc;mica ocorreu em um ambiente de press&otilde;es relevantes sobre parte da estrutura produtiva nacional.</p>
<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
<p class="MsoNormal">Outra iniciativa merece exame. &Eacute; o caso do Regime de Incentivo para Grandes Investimentos, conhecido como RIGI. Institu&iacute;do em 2024, ele oferece benef&iacute;cios tribut&aacute;rios, aduaneiros e cambiais para projetos de grande porte, al&eacute;m de estabilidade fiscal por tr&ecirc;s d&eacute;cadas. Empresas estrangeiras, inclusive norte-americanas, podem beneficiar-se dessas condi&ccedil;&otilde;es. A l&oacute;gica &eacute; atrair capital, ampliar investimentos e estimular atividades estrat&eacute;gicas. Mas o regime tamb&eacute;m suscita uma pergunta leg&iacute;tima pra l&aacute; de leg&iacute;tima. Qual parcela da riqueza produzida permanecer&aacute; na Argentina, sob a forma de arrecada&ccedil;&atilde;o, empregos qualificados, inova&ccedil;&atilde;o e desenvolvimento de fornecedores locais? Incentivos fiscais podem ser instrumentos de crescimento. Sua qualidade depende dos resultados que proporcionam &agrave; sociedade.</p>
<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
<p class="MsoNormal">H&aacute; ainda uma dimens&atilde;o particularmente sens&iacute;vel e que trata da autonomia das decis&otilde;es econ&ocirc;micas. O acordo entre Argentina e Estados Unidos prev&ecirc; compromissos de alinhamento em determinadas medidas relacionadas &agrave; seguran&ccedil;a econ&ocirc;mica e nacional norte-americana. Tamb&eacute;m estabelece regras para o com&eacute;rcio digital e limita a ado&ccedil;&atilde;o de tributos discriminat&oacute;rios contra empresas dos Estados Unidos. N&atilde;o se trata de uma ren&uacute;ncia integral &agrave; soberania argentina, mas de compromissos que podem reduzir a liberdade de formular certas pol&iacute;ticas futuras. E essa &eacute; uma quest&atilde;o central para qualquer pa&iacute;s, isto &eacute;, perceber at&eacute; onde vale conceder vantagens imediatas em troca de restri&ccedil;&otilde;es duradouras &agrave; capacidade de decidir.</p>
<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
<p class="MsoNormal">&Eacute; importante reconhecer que a Argentina tamb&eacute;m negociou benef&iacute;cios para suas exporta&ccedil;&otilde;es e que os efeitos definitivos do acordo ainda dependem de sua implementa&ccedil;&atilde;o. Portanto, n&atilde;o seria rigoroso concluir que o pa&iacute;s sofreu preju&iacute;zo econ&ocirc;mico l&iacute;quido apenas porque concedeu vantagens a Washington. O que os documentos demonstram &eacute; a exist&ecirc;ncia de benef&iacute;cios espec&iacute;ficos aos interesses norte-americanos e de escolhas que precisam ser examinadas &agrave; luz de suas consequ&ecirc;ncias para a economia argentina.</p>
<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
<p class="MsoNormal">Essa discuss&atilde;o ganha relev&acirc;ncia no Brasil diante da candidatura presidencial de Fl&aacute;vio Bolsonaro. Sua agenda econ&ocirc;mica apresenta pontos de converg&ecirc;ncia com a orienta&ccedil;&atilde;o liberal adotada por Milei, especialmente nas propostas de ajuste fiscal, redu&ccedil;&atilde;o da interven&ccedil;&atilde;o estatal, privatiza&ccedil;&otilde;es e reformas administrativas. Isso n&atilde;o significa que exista um compromisso de reproduzir integralmente o modelo argentino ou de negociar com os Estados Unidos um acordo semelhante. A compara&ccedil;&atilde;o pertinente n&atilde;o est&aacute; na identidade dos programas, mas nas consequ&ecirc;ncias poss&iacute;veis de determinadas escolhas.</p>
<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
<p class="MsoNormal">O Brasil possui caracter&iacute;sticas econ&ocirc;micas muito diferentes das argentinas. Disp&otilde;e de um mercado consumidor maior, uma estrutura industrial mais diversificada, uma agricultura altamente competitiva e rela&ccedil;&otilde;es comerciais relevantes com diferentes regi&otilde;es do mundo. Essas caracter&iacute;sticas oferecem oportunidades, mas tamb&eacute;m tornam particularmente importantes as decis&otilde;es sobre tarifas, investimentos, pol&iacute;tica industrial e acordos internacionais. Uma abertura comercial negociada com equil&iacute;brio pode beneficiar a economia brasileira. Uma abertura assim&eacute;trica, sem contrapartidas adequadas e sem aten&ccedil;&atilde;o &agrave; capacidade de adapta&ccedil;&atilde;o da produ&ccedil;&atilde;o nacional, pode comprometer empregos, arrecada&ccedil;&atilde;o e investimentos em determinados setores.</p>
<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
<p class="MsoNormal">A experi&ecirc;ncia recente das rela&ccedil;&otilde;es comerciais com os pr&oacute;prios Estados Unidos recomenda prud&ecirc;ncia. Em 2025, os norte-americanos registraram super&aacute;vit de US$ 14,4 bilh&otilde;es no com&eacute;rcio de bens com o Brasil. Apesar disso, Washington adotou medidas tarif&aacute;rias restritivas contra produtos brasileiros. O epis&oacute;dio demonstra que afinidade pol&iacute;tica, parceria diplom&aacute;tica ou mesmo uma balan&ccedil;a comercial favor&aacute;vel aos Estados Unidos n&atilde;o garantem tratamento comercial privilegiado ao parceiro. Na economia internacional, interesses nacionais continuam exercendo influ&ecirc;ncia decisiva sobre as escolhas dos governos.</p>
<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
<p class="MsoNormal">N&atilde;o se trata, portanto, de defender o isolamento econ&ocirc;mico ou de atribuir aos investimentos estrangeiros uma natureza prejudicial. O capital internacional pode gerar desenvolvimento, transferir tecnologia, ampliar a produ&ccedil;&atilde;o e criar oportunidades. Tampouco se deve ignorar a import&acirc;ncia da responsabilidade fiscal, da efici&ecirc;ncia administrativa e da estabilidade monet&aacute;ria. A quest&atilde;o est&aacute; em compreender que nenhuma dessas pol&iacute;ticas constitui um fim em si mesma. Seu valor precisa ser medido tamb&eacute;m pela capacidade de melhorar as condi&ccedil;&otilde;es de vida da popula&ccedil;&atilde;o.</p>
<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
<p class="MsoNormal">Para o trabalhador, pouco importa se determinado programa econ&ocirc;mico &eacute; apresentado como liberal, desenvolvimentista ou reformista. Importam as oportunidades de emprego, o poder de compra, a qualidade dos servi&ccedil;os p&uacute;blicos e a possibilidade de construir uma vida melhor. Para o empres&aacute;rio nacional, importam condi&ccedil;&otilde;es de concorr&ecirc;ncia, acesso a cr&eacute;dito, seguran&ccedil;a jur&iacute;dica e perspectivas de crescimento. Para o pa&iacute;s, importa preservar a capacidade de transformar suas riquezas em desenvolvimento duradouro.</p>
<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
<p class="MsoNormal">O caso argentino n&atilde;o autoriza conclus&otilde;es simplistas. Milei obteve resultados relevantes na estabiliza&ccedil;&atilde;o econ&ocirc;mica, mas enfrenta desafios sociais e produtivos que n&atilde;o podem ser ignorados. Suas concess&otilde;es aos Estados Unidos oferecem vantagens identific&aacute;veis a empresas e setores norte-americanos, embora ainda n&atilde;o esteja demonstrado que tenham produzido perdas l&iacute;quidas equivalentes para a Argentina. Essa distin&ccedil;&atilde;o &eacute; indispens&aacute;vel para uma avalia&ccedil;&atilde;o respons&aacute;vel.</p>
<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
<p class="MsoNormal">O debate brasileiro deveria come&ccedil;ar exatamente a&iacute;, ou seja, identificar quais benef&iacute;cios concretos uma pol&iacute;tica econ&ocirc;mica oferece ao pa&iacute;s, quem os recebe, quais custos imp&otilde;e e quem os paga. S&atilde;o pontos que precisam ser analisados por qualquer governo, independentemente de sua orienta&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica.</p>
<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
<p class="MsoNormal">A experi&ecirc;ncia de Milei ensina que a proximidade entre presidentes pode facilitar negocia&ccedil;&otilde;es, mas n&atilde;o substitui a defesa criteriosa dos interesses nacionais. O desafio de um governante n&atilde;o &eacute; escolher entre aproximar-se ou afastar-se de uma pot&ecirc;ncia econ&ocirc;mica. &Eacute; negociar de modo que a rela&ccedil;&atilde;o produza benef&iacute;cios efetivos para sua pr&oacute;pria sociedade.</p>
<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
<p class="MsoNormal">Porque, ao final, a qualidade de uma pol&iacute;tica econ&ocirc;mica n&atilde;o se mede pelo entusiasmo dos investidores estrangeiros, pelos aplausos de outro governo ou pela afinidade entre seus presidentes. Mede-se tamb&eacute;m pela prosperidade que consegue produzir para a popula&ccedil;&atilde;o que dever&aacute; conviver com suas consequ&ecirc;ncias.</p>
<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
<p class="MsoNormal"><img src="https://cdn1.bs9.com.br/Folder/2026/07/66987f10-71ce-4f0e-9dcb-c1ae3afc42f5/mj.jpg"></p>
<p class="MsoNormal"><strong><em>Maur&iacute;cio Juvenal</em></strong> &eacute; jornalista, mestre em Letras e mestrando em Ci&ecirc;ncia Pol&iacute;tica e Rela&ccedil;&otilde;es Internacionais pelo IDP de Bras&iacute;lia. &Eacute; secret&aacute;rio nacional de Ambiente de Neg&oacute;cios, no Minist&eacute;rio do Empreendedorismo, e foi secret&aacute;rio estadual de Planejamento e Gest&atilde;o do Estado de S&atilde;o Paulo.</p>]]></content>
                                    <category term="Maurício Juvenal" />
                        <published>2026-10-18T16:39:00+00:00</published>
            <updated>2026-10-18T16:48:49+00:00</updated>
        </entry>
            <entry>
            <title><![CDATA[Antes da inteligência artificial, houve um professor]]></title>
            <link rel="alternate" href="https://www.bs9.com.br/coluna/mauricio-juvenal/2026/10/15/antes-da-inteligencia-artificial-houve-um-professor.html" />
            <id>https://www.bs9.com.br/01a13cd1-3ee7-715b-8f1c-e2456d46ad1c</id>
            <author>
                <name><![CDATA[Maurício Juvenal]]></name>
            </author>
            <summary type="html">
                <![CDATA[Há algo de extraordinariamente simbólico em celebrar o Dia dos Professores justamente quando a humanidade experimenta uma das maiores transformações de sua história, ou seja, a ascensão da inteligênci...]]>
            </summary>
            
                        <content type="html"><![CDATA[<p>H&aacute; algo de extraordinariamente simb&oacute;lico em celebrar o Dia dos Professores justamente quando a humanidade experimenta uma das maiores transforma&ccedil;&otilde;es de sua hist&oacute;ria, ou seja, a ascens&atilde;o da intelig&ecirc;ncia artificial. Nunca tivemos tanto conhecimento dispon&iacute;vel, tantas respostas ao alcance das m&atilde;os, tamanha capacidade de processar informa&ccedil;&otilde;es. Mas, em meio a essa revolu&ccedil;&atilde;o, talvez estejamos diante de uma oportunidade singular de reconhecer uma verdade que a velocidade das inova&ccedil;&otilde;es pode fazer passar despercebida. Antes de qualquer intelig&ecirc;ncia artificial, houve a intelig&ecirc;ncia humana. E, na forma&ccedil;&atilde;o dessa intelig&ecirc;ncia, houve sempre um professor.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>A afirma&ccedil;&atilde;o est&aacute; longe de ser apenas uma homenagem. &Eacute; tamb&eacute;m uma constata&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rica. As grandes conquistas da humanidade, da medicina &agrave; engenharia, da filosofia &agrave; computa&ccedil;&atilde;o, s&atilde;o resultados de conhecimentos constru&iacute;dos, compartilhados e aperfei&ccedil;oados ao longo de gera&ccedil;&otilde;es. Nenhum cientista come&ccedil;ou sua trajet&oacute;ria sabendo interpretar o mundo. Nenhum pesquisador nasceu dominando a linguagem matem&aacute;tica. Nenhum engenheiro chegou &agrave; universidade sem antes aprender a ler, escrever, perguntar e raciocinar. Por tr&aacute;s das descobertas que transformaram a civiliza&ccedil;&atilde;o, existe uma imensa e frequentemente an&ocirc;nima sucess&atilde;o de professores.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>No Brasil, essa presen&ccedil;a assume dimens&otilde;es monumentais. S&atilde;o milh&otilde;es de profissionais dedicados &agrave; educa&ccedil;&atilde;o b&aacute;sica, respons&aacute;veis por uma tarefa que ultrapassa em muito a transmiss&atilde;o dos conte&uacute;dos escolares. Ensinam matem&aacute;tica e l&iacute;ngua portuguesa, mas tamb&eacute;m conviv&ecirc;ncia, respeito, responsabilidade e pensamento cr&iacute;tico. Ajudam crian&ccedil;as e jovens a compreender n&atilde;o apenas como o mundo funciona, mas como podem participar dele. A educa&ccedil;&atilde;o, afinal, n&atilde;o &eacute; somente um instrumento de qualifica&ccedil;&atilde;o profissional. &Eacute; uma das principais condi&ccedil;&otilde;es para o exerc&iacute;cio da cidadania, para a mobilidade social e para a constru&ccedil;&atilde;o de uma sociedade democr&aacute;tica.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&Eacute; nesse contexto que a intelig&ecirc;ncia artificial precisa ser compreendida. N&atilde;o como antagonista da escola, tampouco como concorrente do professor, mas como uma nova e poderosa express&atilde;o da capacidade humana de produzir conhecimento. A tecnologia pode organizar conte&uacute;dos, personalizar exerc&iacute;cios, traduzir idiomas, identificar dificuldades de aprendizagem e oferecer caminhos alternativos para a compreens&atilde;o de temas complexos. Pode, inclusive, liberar tempo dos educadores para aquilo que exige maior aten&ccedil;&atilde;o individualizada. Trata-se de um avan&ccedil;o extraordin&aacute;rio, cujas possibilidades merecem ser exploradas com entusiasmo, responsabilidade e intelig&ecirc;ncia pedag&oacute;gica.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>A pr&oacute;pria comunidade acad&ecirc;mica vem reconhecendo esse potencial. Em seu relat&oacute;rio sobre perspectivas da educa&ccedil;&atilde;o digital de 2026, a Organiza&ccedil;&atilde;o para a Coopera&ccedil;&atilde;o e Desenvolvimento Econ&ocirc;mico (OCDE) observa que a intelig&ecirc;ncia artificial generativa pode favorecer a aprendizagem quando orientada por objetivos pedag&oacute;gicos claros. O documento distingue, contudo, a capacidade de produzir respostas da efetiva constru&ccedil;&atilde;o do conhecimento. Realizar uma tarefa com aux&iacute;lio tecnol&oacute;gico n&atilde;o significa, necessariamente, compreender aquilo que foi realizado. &Eacute; justamente nessa diferen&ccedil;a que a presen&ccedil;a do professor se torna decisiva.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>A Unesco, por sua vez, sustenta que a tecnologia educacional deve fortalecer a intera&ccedil;&atilde;o humana, e n&atilde;o ocupar seu lugar. Em 2024, a organiza&ccedil;&atilde;o apresentou um referencial de compet&ecirc;ncias em intelig&ecirc;ncia artificial para docentes, contemplando conhecimentos t&eacute;cnicos, fundamentos pedag&oacute;gicos e dimens&otilde;es &eacute;ticas. O reconhecimento &eacute; significativo ao propor que a transforma&ccedil;&atilde;o digital da educa&ccedil;&atilde;o n&atilde;o prescinde dos professores. Ao contr&aacute;rio, exige que sejam preparados, valorizados e incorporados &agrave;s decis&otilde;es sobre como as novas ferramentas devem ser utilizadas.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Existe, portanto, uma complementaridade promissora. A intelig&ecirc;ncia artificial pode ampliar o repert&oacute;rio de quem ensina e de quem aprende. O professor, por sua vez, oferece dire&ccedil;&atilde;o, contexto, interpreta&ccedil;&atilde;o e sensibilidade. Uma ferramenta pode apresentar diferentes explica&ccedil;&otilde;es para um mesmo problema matem&aacute;tico. Mas &eacute; o educador quem percebe que determinado aluno n&atilde;o precisa apenas de outra explica&ccedil;&atilde;o, muito mais, precisa recuperar a confian&ccedil;a na pr&oacute;pria capacidade de aprender. A tecnologia pode disponibilizar milhares de textos sobre democracia. Mas &eacute; na experi&ecirc;ncia educativa, no debate respeitoso e no confronto de argumentos que o estudante come&ccedil;a a compreender o significado de viver democraticamente.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Talvez seja essa uma das dimens&otilde;es mais importantes e menos mensur&aacute;veis da profiss&atilde;o. Todos guardamos, em algum lugar da mem&oacute;ria, a lembran&ccedil;a de um professor que nos apresentou uma possibilidade antes desconhecida. &Agrave;s vezes, foi uma palavra de incentivo. Outras vezes, uma exig&ecirc;ncia que parecia excessiva, uma pergunta desconcertante ou uma demonstra&ccedil;&atilde;o de confian&ccedil;a quando ainda duvid&aacute;vamos de n&oacute;s mesmos. H&aacute; professores que nos ensinaram conte&uacute;dos que esquecemos. Mas h&aacute; aqueles que nos ensinaram a pensar, e isso permanece.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Paulo Freire compreendia a educa&ccedil;&atilde;o como uma pr&aacute;tica profundamente humana, fundada no di&aacute;logo e na constru&ccedil;&atilde;o da autonomia. Sua contribui&ccedil;&atilde;o continua especialmente atual. Se o acesso &agrave; informa&ccedil;&atilde;o se tornou praticamente instant&acirc;neo, a capacidade de interpret&aacute;-la, question&aacute;-la e transform&aacute;-la em conhecimento adquiriu import&acirc;ncia ainda maior. Ensinar n&atilde;o &eacute; simplesmente oferecer respostas corretas. &Eacute; desenvolver a capacidade de formular boas perguntas, reconhecer contradi&ccedil;&otilde;es, compreender diferen&ccedil;as e construir ju&iacute;zos pr&oacute;prios. &Eacute; formar pessoas capazes de exercer a liberdade com responsabilidade.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Essa reflex&atilde;o tamb&eacute;m imp&otilde;e uma responsabilidade ao Brasil. N&atilde;o basta celebrar professores uma vez por ano enquanto persistirem dificuldades relacionadas &agrave; valoriza&ccedil;&atilde;o profissional, &agrave;s condi&ccedil;&otilde;es de trabalho, &agrave; forma&ccedil;&atilde;o continuada e &agrave;s desigualdades educacionais. Um pa&iacute;s que deseja participar da economia do conhecimento precisa compreender que sua capacidade de inova&ccedil;&atilde;o come&ccedil;a muito antes dos laborat&oacute;rios de tecnologia. Come&ccedil;a na alfabetiza&ccedil;&atilde;o bem realizada, na escola que acolhe, no professor que disp&otilde;e de condi&ccedil;&otilde;es para ensinar e no estudante que encontra oportunidades reais para desenvolver seu potencial.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>A chegada da intelig&ecirc;ncia artificial torna esse compromisso ainda mais necess&aacute;rio. Quanto mais sofisticadas forem as ferramentas dispon&iacute;veis, maior ser&aacute; a import&acirc;ncia de preparar pessoas capazes de utiliz&aacute;-las com discernimento, criatividade e consci&ecirc;ncia &eacute;tica. O futuro da educa&ccedil;&atilde;o n&atilde;o precisa ser pensado como uma escolha entre professores e tecnologia. O caminho mais promissor est&aacute; na combina&ccedil;&atilde;o entre a extraordin&aacute;ria capacidade das m&aacute;quinas de processar informa&ccedil;&otilde;es e a insubstitu&iacute;vel responsabilidade humana de atribuir significado ao conhecimento.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>H&aacute;, finalmente, uma justi&ccedil;a hist&oacute;rica que merece ser reconhecida neste 15 de outubro. Os cientistas que desenvolveram os sistemas de intelig&ecirc;ncia artificial tiveram professores. Tamb&eacute;m os tiveram os matem&aacute;ticos que formularam seus fundamentos, os pesquisadores que aperfei&ccedil;oaram seus algoritmos e os profissionais que constru&iacute;ram a infraestrutura tecnol&oacute;gica que hoje surpreende o mundo. A mais avan&ccedil;ada express&atilde;o da intelig&ecirc;ncia computacional &eacute;, em alguma medida, herdeira de incont&aacute;veis salas de aula, de livros abertos, de perguntas respondidas com paci&ecirc;ncia e de conhecimentos transmitidos de uma gera&ccedil;&atilde;o &agrave; seguinte.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Talvez nunca tenhamos disposto de tantas m&aacute;quinas capazes de responder &agrave;s nossas perguntas. Mas continuamos precisando, tanto quanto antes, de pessoas que nos ensinem a perguntar, a compreender e a pensar.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>A intelig&ecirc;ncia artificial &eacute; uma das mais impressionantes realiza&ccedil;&otilde;es do nosso tempo. O professor &eacute; parte essencial da hist&oacute;ria humana que tornou essa realiza&ccedil;&atilde;o poss&iacute;vel.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>E, se hoje as m&aacute;quinas parecem capazes de nos ensinar tantas coisas, conv&eacute;m n&atilde;o esquecer quem primeiro nos ensinou a aprender.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><img src="https://cdn1.bs9.com.br/Folder/2026/07/66987f10-71ce-4f0e-9dcb-c1ae3afc42f5/mj.jpg"></p>
<p><em><strong>Maur&iacute;cio Juvenal </strong>&eacute; jornalista, ex-professor universit&aacute;rio, mestre em Letras e mestrando em Ci&ecirc;ncia Pol&iacute;tica e Rela&ccedil;&otilde;es Internacionais pelo IDP de Bras&iacute;lia. &Eacute; secret&aacute;rio nacional de Ambiente de Neg&oacute;cios, no Minist&eacute;rio do Empreendedorismo, e foi secret&aacute;rio estadual de Planejamento e Gest&atilde;o do Estado de S&atilde;o Paulo.</em></p>]]></content>
                                    <category term="Maurício Juvenal" />
                        <published>2026-10-15T03:01:00+00:00</published>
            <updated>2026-10-14T23:52:04+00:00</updated>
        </entry>
            <entry>
            <title><![CDATA[Badra nas urnas: quando a técnica fala mais alto]]></title>
            <link rel="alternate" href="https://www.bs9.com.br/coluna/mauricio-juvenal/2026/10/05/badra-nas-urnas-quando-a-tecnica-fala-mais-alto.html" />
            <id>https://www.bs9.com.br/01a10dbb-2a22-7040-9f8a-71a4df35709a</id>
            <author>
                <name><![CDATA[Maurício Juvenal]]></name>
            </author>
            <summary type="html">
                <![CDATA[Há momentos em que uma pesquisa eleitoral deve ser julgada menos pelo que disse quando foi publicada e mais pelo que aconteceu depois dela. A eleição é um desses momentos. Quando as urnas são abertas,...]]>
            </summary>
            
                        <content type="html"><![CDATA[<p>H&aacute; momentos em que uma pesquisa eleitoral deve ser julgada menos pelo que disse quando foi publicada e mais pelo que aconteceu depois dela. A elei&ccedil;&atilde;o &eacute; um desses momentos. Quando as urnas s&atilde;o abertas, desaparecem as interpreta&ccedil;&otilde;es sobre tend&ecirc;ncias futuras e surge uma refer&ecirc;ncia objetiva contra a qual as pesquisas realizadas &agrave;s v&eacute;speras do voto podem ser examinadas.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Foi sob esse teste que a Badra Pesquisas chegou &agrave;s elei&ccedil;&otilde;es de 2026 em S&atilde;o Paulo.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>O desafio n&atilde;o era pequeno. Pesquisar o maior col&eacute;gio eleitoral do Pa&iacute;s significa tentar representar, em uma &uacute;nica amostra, um Estado de dimens&otilde;es territoriais, demogr&aacute;ficas, econ&ocirc;micas e pol&iacute;ticas extraordin&aacute;rias. Capital, Regi&atilde;o<br>Metropolitana, litoral e interior constituem realidades bastante diferentes. Produzir uma fotografia estat&iacute;stica desse universo exige desenho amostral, distribui&ccedil;&atilde;o territorial, controle de campo, treinamento, supervis&atilde;o e, sobretudo, disciplina metodol&oacute;gica.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>A pesquisa da Badra foi registrada na Justi&ccedil;a Eleitoral sob o n&uacute;mero SP- 01142/2026 e ouviu 2.496 eleitores entre 28 de setembro e 1&ordm; de outubro. O levantamento foi al&eacute;m das disputas majorit&aacute;rias. Mediu as prefer&ecirc;ncias para governador e senador e enfrentou duas das perguntas mais dif&iacute;ceis de uma pesquisa eleitoral: o voto espont&acirc;neo para deputado federal e deputado estadual.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Passada a elei&ccedil;&atilde;o, alguns resultados merecem ser registrados n&atilde;o como celebra&ccedil;&atilde;o, mas como objeto de an&aacute;lise.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Na disputa pelo Governo de S&atilde;o Paulo, a Badra encontrou Tarc&iacute;sio de Freitas com 60,1% das inten&ccedil;&otilde;es na pergunta estimulada. Retiradas as respostas que n&atilde;o constituiriam votos v&aacute;lidos, o percentual correspondia a aproximadamente 62,9%. Nas urnas, Tarc&iacute;sio obteve 62,65% dos votos v&aacute;lidos.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Mais do que a proximidade de um n&uacute;mero isolado, por&eacute;m, o conjunto do levantamento permite uma leitura sobre a capacidade da amostra de reproduzir movimentos existentes no eleitorado paulista.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Isso aparece de maneira especialmente interessante na elei&ccedil;&atilde;o para o Senado, uma disputa mais complexa porque cada eleitor dispunha de dois votos. A pesquisa precisava captar n&atilde;o apenas prefer&ecirc;ncias individuais, mas a distribui&ccedil;&atilde;o dessas duas escolhas. Depois da elei&ccedil;&atilde;o, a compara&ccedil;&atilde;o entre pesquisa e urna mostrou diferen&ccedil;as, como &eacute; natural em qualquer levantamento amostral, mas tamb&eacute;m registrou corretamente movimentos relevantes da disputa.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Consideradas conjuntamente as duas escolhas e retiradas as respostas que n&atilde;o constituiriam votos v&aacute;lidos, a Badra projetava 25,2% para Guilherme Derrite, 24,3% para Andr&eacute; do Prado e 19,1% tanto para Simone Tebet quanto para Marina Silva. As urnas registraram, respectivamente, 30,59% para Derrite, 29,28% para Andr&eacute;, 19,23% para Tebet e 18,12% para Marina. Houve, portanto, pequena diferen&ccedil;a nas duas candidaturas que terminaram eleitas, mas a pesquisa captou a configura&ccedil;&atilde;o central da disputa. Derrite e Andr&eacute; ocupavam as duas primeiras posi&ccedil;&otilde;es no agregado da Badra, enquanto Tebet e Marina formavam o bloco seguinte.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Em duas medi&ccedil;&otilde;es, a proximidade foi especialmente elevada: 19,1% contra 19,23% para Tebet e 19,1% contra 18,12% para Marina. A urna confirmou, assim, a ordena&ccedil;&atilde;o dos dois primeiros colocados indicada pelo levantamento. Nenhum outro instituto foi t&atilde;o preciso quanto a Badra na elei&ccedil;&atilde;o para o Senado por S&atilde;o Paulo. Os n&uacute;meros divulgados antes e os registros na Justi&ccedil;a Eleitoral emprestam o lastro documental para o qualificado desempenho.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>E talvez o teste mais incomum tenha ocorrido nas elei&ccedil;&otilde;es proporcionais.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Pesquisas para deputado federal e estadual s&atilde;o particularmente dif&iacute;ceis. O n&uacute;mero de candidatos &eacute; enorme, a decis&atilde;o de voto costuma amadurecer mais tarde e a dispers&atilde;o das respostas espont&acirc;neas &eacute; muito elevada. Ainda assim, quando a Badra perguntou espontaneamente em quem o eleitor paulista pretendia votar para deputado federal, o nome mais citado foi Lucas Pavanato, com 3,4%. Terminada a elei&ccedil;&atilde;o, Pavanato foi o candidato a deputado federal mais votado do Estado.&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Para deputado estadual ocorreu fen&ocirc;meno semelhante. Eduarda Campopiano apareceu na primeira posi&ccedil;&atilde;o da pesquisa espont&acirc;nea da Badra, com 2,0%. Nas urnas, foi tamb&eacute;m a candidata mais votada para a Assembleia Legislativa de S&atilde;o Paulo.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>S&atilde;o resultados que merecem aten&ccedil;&atilde;o justamente porque n&atilde;o nasceram de uma pergunta estimulada com poucos nomes apresentados ao entrevistado. Nas elei&ccedil;&otilde;es proporcionais, o eleitor precisa retirar o nome de sua pr&oacute;pria mem&oacute;ria. Em um universo de centenas de candidaturas, identificar na amostra justamente os nomes que depois ocupariam o topo da vota&ccedil;&atilde;o constitui um teste relevante para a capacidade de representa&ccedil;&atilde;o do levantamento.<br>H&aacute; ainda um antecedente recente.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Na elei&ccedil;&atilde;o municipal de S&atilde;o Paulo de 2024, a &uacute;ltima pesquisa Badra antes do segundo turno apontou Ricardo Nunes com 59,4% dos votos v&aacute;lidos e Guilherme Boulos com 40,6%. Aberta a totalidade das urnas, Nunes terminou com 59,35%. A diferen&ccedil;a entre pesquisa e resultado, naquele caso, foi de cinco cent&eacute;simos de ponto percentual para o vencedor.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Dois anos depois, uma pesquisa estadual submeteu o m&eacute;todo a uma escala muito maior.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&Eacute; tentador transformar resultados como esses em propaganda. Talvez seja justamente o caminho que deva ser evitado. Pesquisa eleitoral ganha credibilidade quando n&atilde;o precisa reivindicar infalibilidade. Nenhum instituto s&eacute;rio &eacute; infal&iacute;vel. Amostras possuem margem de erro, decis&otilde;es eleitorais podem mudar depois do campo e diferentes metodologias podem produzir fotografias distintas de uma popula&ccedil;&atilde;o em movimento.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>A pesquisa de opini&atilde;o &eacute; uma aplica&ccedil;&atilde;o de m&eacute;todo cient&iacute;fico, n&atilde;o um exerc&iacute;cio de adivinha&ccedil;&atilde;o.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Por isso, o aspecto mais relevante do desempenho observado em S&atilde;o Paulo talvez esteja menos na comemora&ccedil;&atilde;o do acerto e mais naquilo que o tornou poss&iacute;vel, ou seja, m&eacute;todo previamente definido, amostra constru&iacute;da para representar o universo pesquisado, trabalho presencial de campo, controle e supervis&atilde;o das entrevistas, tratamento estat&iacute;stico e independ&ecirc;ncia diante das expectativas produzidas pelo ambiente pol&iacute;tico.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Existe uma press&atilde;o silenciosa sobre todo instituto quando seus n&uacute;meros destoam do senso comum ou de pesquisas concorrentes. Nesses momentos, alterar interpreta&ccedil;&otilde;es para aproxim&aacute;-las do consenso pode parecer confort&aacute;vel. Mas<br>pesquisa n&atilde;o existe para confirmar expectativas. Existe para medir. Esse princ&iacute;pio &eacute; tamb&eacute;m uma quest&atilde;o &eacute;tica.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Um instituto n&atilde;o deve produzir o resultado que agrada ao contratante, ao candidato, &agrave; imprensa ou &agrave;s redes sociais. Tampouco deveria escolher n&uacute;meros porque parecem mais plaus&iacute;veis diante do ambiente pol&iacute;tico. Sua obriga&ccedil;&atilde;o &eacute;<br>construir a melhor amostra poss&iacute;vel, realizar corretamente o campo, processar os dados com rigor e publicar aquilo que encontrou.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Depois disso, cabe &agrave; urna fazer aquilo que somente ela pode fazer.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>O desempenho registrado pela Badra em S&atilde;o Paulo em 2026, somado &agrave; experi&ecirc;ncia da elei&ccedil;&atilde;o municipal de 2024, oferece assim uma conclus&atilde;o mais importante do que qualquer proclama&ccedil;&atilde;o de vit&oacute;ria institucional. Mostra que, em um ambiente no qual pesquisas s&atilde;o frequentemente julgadas por paix&otilde;es pol&iacute;ticas, existe algo mais s&oacute;lido a preservar, isto &eacute;, procedimento.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Pesquisa de qualidade n&atilde;o come&ccedil;a pelo resultado. Come&ccedil;a muito antes dele.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Come&ccedil;a no desenho da amostra, passa pela escolha dos munic&iacute;pios e pontos de coleta, pela sele&ccedil;&atilde;o dos entrevistados, pelo treinamento das equipes, pela fiscaliza&ccedil;&atilde;o do campo, pela formula&ccedil;&atilde;o neutra das perguntas e pelo tratamento estat&iacute;stico. E termina com uma obriga&ccedil;&atilde;o simples, embora nem sempre confort&aacute;vel, de aceitar aquilo que os dados dizem.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>A urna n&atilde;o transforma pesquisa em ci&ecirc;ncia. Tampouco torna um instituto infal&iacute;vel quando seus n&uacute;meros se aproximam do resultado eleitoral. Mas oferece uma oportunidade rara de submeter o trabalho realizado a uma refer&ecirc;ncia externa e objetiva.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Em S&atilde;o Paulo, esse confronto entre pesquisa e realidade produziu evid&ecirc;ncias importantes para a Badra como proximidade expressiva na principal disputa estadual, leitura relevante da elei&ccedil;&atilde;o para o Senado e identifica&ccedil;&atilde;o, antes da vota&ccedil;&atilde;o, dos nomes que terminariam como os mais votados para deputado federal e deputado estadual.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>N&atilde;o &eacute; necess&aacute;rio acrescentar adjetivos a esses fatos. Talvez a melhor maneira de celebrar a pesquisa seja justamente respeitar aquilo que est&aacute; em sua ess&ecirc;ncia, ou seja, deixar que os n&uacute;meros falem.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Porque, quando h&aacute; m&eacute;todo, independ&ecirc;ncia, &eacute;tica e rigor, o resultado mais importante n&atilde;o &eacute; acertar para poder dizer que acertou. &Eacute; demonstrar que a t&eacute;cnica funciona.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><img src="https://cdn1.bs9.com.br/Folder/2026/07/66987f10-71ce-4f0e-9dcb-c1ae3afc42f5/mj.jpg"></p>
<p><strong><em>Maur&iacute;cio Juvenal &eacute; jornalista, mestre em Letras e mestrando em Ci&ecirc;ncia Pol&iacute;tica e Rela&ccedil;&otilde;es Internacionais pelo IDP de Bras&iacute;lia. &Eacute; consultor em an&aacute;lise de dados do Instituto Badra de opini&atilde;o.</em></strong></p>]]></content>
                                    <category term="Maurício Juvenal" />
                        <published>2026-10-05T20:10:00+00:00</published>
            <updated>2026-10-05T20:27:06+00:00</updated>
        </entry>
            <entry>
            <title><![CDATA[Presidente assina decreto que recompõe benefícios do Bolsa Família em 15%]]></title>
            <link rel="alternate" href="https://www.bs9.com.br/brasil/2026/09/18/presidente-assina-decreto-que-recompoe-beneficios-do-bolsa-familia-em-15.html" />
            <id>https://www.bs9.com.br/01a0b417-9fe0-70ef-9684-d2175bb9fdb0</id>
            <author>
                <name><![CDATA[Adriana Lopes]]></name>
            </author>
            <summary type="html">
                <![CDATA[O presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou, nesta quinta-feira (17/9), o Decreto nº 13.120, publicado em edição extra do Diário Oficial da União, que recompõe em 15,04% os valores dos benefícios d...]]>
            </summary>
            
                        <content type="html"><![CDATA[<p>O presidente Luiz In&aacute;cio Lula da Silva assinou, nesta quinta-feira (17/9), o Decreto n&ordm; 13.120, publicado em edi&ccedil;&atilde;o extra do Di&aacute;rio Oficial da Uni&atilde;o, que recomp&otilde;e em 15,04% os valores dos benef&iacute;cios do Bolsa Fam&iacute;lia. Esta &eacute; a primeira atualiza&ccedil;&atilde;o pela infla&ccedil;&atilde;o realizada desde a retomada do programa, em 2023.<br><br>A norma corrige o valor dos benef&iacute;cios financeiros do programa pela varia&ccedil;&atilde;o acumulada do &Iacute;ndice Nacional de Pre&ccedil;os ao Consumidor (INPC) entre mar&ccedil;o de 2023 e agosto de 2026. Com a atualiza&ccedil;&atilde;o, o piso do programa, at&eacute; ent&atilde;o de R$ 600, ser&aacute; de R$ 691, e o benef&iacute;cio m&eacute;dio, quando se soma aos demais benef&iacute;cios inclu&iacute;dos no programa, sair&aacute; de R$ 675 para R$ 777, ou seja, uma varia&ccedil;&atilde;o nominal em torno de R$ 100. Os benefici&aacute;rios ter&atilde;o acesso ao novo valor a partir de 19 de outubro.<br><br>O Benef&iacute;cio de Renda de Cidadania, pago a cada integrante da fam&iacute;lia beneficiada, passar&aacute; de R$ 142 para R$ 164. O Benef&iacute;cio Primeira Inf&acirc;ncia, destinado &agrave;s fam&iacute;lias benefici&aacute;rias que possu&iacute;rem em sua composi&ccedil;&atilde;o crian&ccedil;as com idade entre zero e 7 anos incompletos, ser&aacute; atualizado de R$ 150 para R$ 173. J&aacute; o Benef&iacute;cio Vari&aacute;vel Familiar, pago a gestantes, nutrizes e a crian&ccedil;as e adolescentes entre 7 anos e 18 anos incompletos integrantes das fam&iacute;lias beneficiadas, passar&aacute; de R$ 50 para R$ 58.<br><br>JUSTI&Ccedil;A SOCIAL &ndash; Ministro do Planejamento e Or&ccedil;amento, Bruno Moretti ressaltou que a atualiza&ccedil;&atilde;o est&aacute; prevista em lei e destacou que a reposi&ccedil;&atilde;o inflacion&aacute;ria configura-se como uma medida de justi&ccedil;a social e visa garantir o poder de compra dos benefici&aacute;rios do Bolsa Fam&iacute;lia, compostos pela popula&ccedil;&atilde;o mais vulner&aacute;vel do pa&iacute;s.<br><br>Moretti frisou que a recomposi&ccedil;&atilde;o foi decidida inteiramente dentro das regras e levando-se em conta as quest&otilde;es fiscais. Segundo o ministro, a equipe econ&ocirc;mica identificou espa&ccedil;o fiscal para tanto nos termos previstos pela lei, o que permitir&aacute; acomod&aacute;-la integralmente por meio de remanejamentos, sem aumento do limite global de despesas do Governo Federal.<br><br>Segundo a Lei n&ordm; 14.601/2023, que recriou o atual modelo do Bolsa Fam&iacute;lia, os valores dos benef&iacute;cios podem ser corrigidos em um intervalo de, no m&aacute;ximo, 24 meses.<br><br>Ainda segundo Moretti, o governo divulgar&aacute;, nos pr&oacute;ximos dias, um relat&oacute;rio de avalia&ccedil;&atilde;o das despesas, que detalhar&aacute; o espa&ccedil;o fiscal identificado pela equipe econ&ocirc;mica.<br><br>O impacto do decreto para este ano, a partir da folha de outubro, &eacute; de R$ 5,8 bilh&otilde;es e, para o ano de 2027, em torno de R$ 22 bilh&otilde;es.<br><br>BRASIL LIVRE DO MAPA DA FOME &ndash; Ministro do Desenvolvimento e Assist&ecirc;ncia Social, Fam&iacute;lia e Combate &agrave; Fome, Wellington Dias lembrou que a retomada do Bolsa Fam&iacute;lia a partir de 2023 foi determinante para que o Brasil sa&iacute;sse do Mapa da Fome, relat&oacute;rio estat&iacute;stico da Organiza&ccedil;&atilde;o das Na&ccedil;&otilde;es Unidas (ONU) que identifica os pa&iacute;ses onde 2,5% ou mais da popula&ccedil;&atilde;o enfrenta a subalimenta&ccedil;&atilde;o cr&ocirc;nica.<br><br>O Brasil deixou o Mapa da Fome em 2025 e segue fora do levantamento, segundo o relat&oacute;rio "O Estado da Seguran&ccedil;a Alimentar e Nutri&ccedil;&atilde;o no Mundo 2026" (SOFI, na sigla em ingl&ecirc;s), divulgado em julho deste ano pela Organiza&ccedil;&atilde;o das Na&ccedil;&otilde;es Unidas para a Alimenta&ccedil;&atilde;o e a Agricultura (FAO-ONU). Wellington Dias frisou ainda que o mais recente relat&oacute;rio da FAO-ONU aponta a diminui&ccedil;&atilde;o da inseguran&ccedil;a alimentar severa no pa&iacute;s, cujo &iacute;ndice chegou a 0,6%, o menor patamar da s&eacute;rie hist&oacute;rica.<br><br>RENDA E SEGURAN&Ccedil;A ALIMENTAR &ndash; Ministro da Fazenda, Dario Durigan afirmou que o Bolsa Fam&iacute;lia &eacute; um programa central na estrat&eacute;gia do governo de cuidar das fam&iacute;lias mais vulner&aacute;veis. Ele somou-se aos ministros Bruno Moretti e Wellington Dias ao frisar que a atualiza&ccedil;&atilde;o de valores do programa reconhece a defasagem do poder de compra entre 2023 e 2026, e sua corre&ccedil;&atilde;o monet&aacute;ria permite assegurar o poder de compra por parte dos benefici&aacute;rios do Bolsa Fam&iacute;lia.<br><br>Dario Durigan afirmou ainda que o governo trabalha para aumentar a renda das pessoas em v&aacute;rias frentes no pa&iacute;s, entre elas com o est&iacute;mulo ao emprego. O ministro lembrou que o Brasil tem hoje o menor &iacute;ndice de desemprego, 5,3%, e o recorde de rendimento m&eacute;dio do trabalho.<br><br>Participantes da assinatura de Decreto com o presidente da Rep&uacute;blica:<br>- Ministra da Casa Civil, Miriam Belchior<br>- Ministro da Fazenda, Dario Durigan<br>- Ministro do Desenvolvimento e Assist&ecirc;ncia Social, Fam&iacute;lia e Combate &agrave; Fome, Wellington Dias<br>- Ministro do Planejamento e Or&ccedil;amento, Bruno Moretti<br>- Ministro da Secretaria de Comunica&ccedil;&atilde;o Social, Sid&ocirc;nio Palmeira<br>- Secret&aacute;rio-executivo do MDS, Ranni&ecirc;r Costa Cir&iacute;aco<br>- Secret&aacute;ria Nacional de Assist&ecirc;ncia Social do MDS, Rosilene Rocha<br>- Secret&aacute;ria Nacional de Renda de Cidadania do MDS, Eliane Cust&oacute;dio<br>- Secret&aacute;ria de Articula&ccedil;&atilde;o e Monitoramento da Casa Civil, Julia Rodrigues<br>- Secretaria de Avalia&ccedil;&atilde;o, Gest&atilde;o da Informa&ccedil;&atilde;o e Cadastro &Uacute;nico do MDS, Rafael Os&oacute;rio<br>- Secret&aacute;rio adjunto de Articula&ccedil;&atilde;o e Monitoramento da Casa Civil, Rog&eacute;rio da Veiga<br>&nbsp;</p>
<p><em>Secretaria de Comunica&ccedil;&atilde;o Social da Presid&ecirc;ncia da Rep&uacute;blica</em>&nbsp;</p>]]></content>
                                    <category term="Brasil" />
                        <category term="Maurício Juvenal" />
                        <published>2026-09-18T10:32:00+00:00</published>
            <updated>2026-09-18T10:37:22+00:00</updated>
        </entry>
            <entry>
            <title><![CDATA[Antes do voto, olhe além da tela do celular]]></title>
            <link rel="alternate" href="https://www.bs9.com.br/coluna/mauricio-juvenal/2026/08/15/antes-do-voto-olhe-alem-da-tela-do-celular.html" />
            <id>https://www.bs9.com.br/01a00782-f76a-7096-9e72-4641867d12cd</id>
            <author>
                <name><![CDATA[Maurício Juvenal]]></name>
            </author>
            <summary type="html">
                <![CDATA[*Por Maurício Juvenal Nunca tivemos tanta informação política ao alcance das mãos. E talvez nunca tenha sido tão difícil distinguir informação de exposição. Nas redes, candidatos aparecem todos os dia...]]>
            </summary>
            
                        <content type="html"><![CDATA[<p><em>*Por Maur&iacute;cio Juvenal </em></p>
<p>Nunca tivemos tanta informa&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica ao alcance das m&atilde;os. E talvez nunca tenha sido t&atilde;o dif&iacute;cil distinguir informa&ccedil;&atilde;o de exposi&ccedil;&atilde;o.</p>
<p>Nas redes, candidatos aparecem todos os dias. Opinam, provocam, indignam-se, fazem gra&ccedil;a e disputam nossa aten&ccedil;&atilde;o. Conhecemos seus rostos, bord&otilde;es e at&eacute; suas rotinas. Mas conhecemos suas ideias? Ser&aacute; que realmente sabemos o que fizeram, ou o que pretendem fazer, com o poder que est&atilde;o pedindo ao eleitor?</p>
<p>N&atilde;o se trata de demonizar as redes. Elas ampliaram vozes, reduziram dist&acirc;ncias e aproximaram representantes e representados. O problema come&ccedil;a quando confundimos visibilidade com representatividade.</p>
<p>Ser conhecido n&atilde;o &eacute; estar preparado. Seguidores n&atilde;o significam conhecimento dos problemas. V&iacute;deo viral n&atilde;o &eacute; pol&iacute;tica p&uacute;blica. Frase de efeito n&atilde;o &eacute; projeto. E indigna&ccedil;&atilde;o, por mais compartilh&aacute;vel que seja, n&atilde;o substitui capacidade de construir solu&ccedil;&otilde;es.</p>
<p>Por isso, antes de votar, uma pergunta deveria anteceder todas as outras: por que essa pessoa merece meu voto al&eacute;m do fato de eu conhec&ecirc;-la?</p>
<p>Quem busca a reelei&ccedil;&atilde;o chega ao eleitor com algo mais &nbsp;do que promessas, ou seja, chega com um mandato. O que entregou? Como votou? Que projetos apresentou? Que problemas prometeu enfrentar? Esteve presente apenas nas redes ou tamb&eacute;m onde as decis&otilde;es foram tomadas?</p>
<p>Quem ocupa um cargo e pretende outro tamb&eacute;m precisa explicar o que fez com a responsabilidade que j&aacute; recebeu. A pol&iacute;tica n&atilde;o deveria funcionar como uma escada autom&aacute;tica em que cada elei&ccedil;&atilde;o &eacute; apenas o pr&oacute;ximo degrau de uma carreira.</p>
<p>E o candidato de primeira viagem? N&atilde;o tem mandato para prestar contas, mas tem uma trajet&oacute;ria. Que experi&ecirc;ncia apresenta? Conhece os problemas sobre os quais fala? Suas propostas s&atilde;o fact&iacute;veis? Que lastro existe por tr&aacute;s da imagem que chegou &agrave; nossa tela?</p>
<p>A quest&atilde;o ganha import&acirc;ncia porque a pol&iacute;tica passou a obedecer tamb&eacute;m &agrave; economia da aten&ccedil;&atilde;o. Propostas sobre educa&ccedil;&atilde;o, seguran&ccedil;a, sa&uacute;de, saneamento ou desenvolvimento disputam espa&ccedil;o com memes, pol&ecirc;micas e v&iacute;deos de segundos. A l&oacute;gica das plataformas &eacute; conquistar aten&ccedil;&atilde;o. A l&oacute;gica da democracia deveria ser produzir representa&ccedil;&atilde;o.</p>
<p>H&aacute; ainda uma outra pergunta que parece andar esquecida e que d&aacute; conta se o candidato fala dos problemas que ter&aacute; poder para enfrentar? Um deputado estadual pode construir enorme audi&ecirc;ncia debatendo grandes quest&otilde;es nacionais, mas ser&aacute; eleito para exercer compet&ecirc;ncias estaduais. Conhecer as atribui&ccedil;&otilde;es do cargo tamb&eacute;m qualifica o voto.&nbsp;</p>
<p>Talvez, ent&atilde;o, o eleitor possa fazer um pequeno teste antes de escolher. Retire por alguns minutos os seguidores, as curtidas, os bord&otilde;es, os memes, a celebridade e a indigna&ccedil;&atilde;o do dia. Pergunte o que o candidato j&aacute; fez, o que prop&otilde;e, se poder&aacute; cumprir e se suas prioridades correspondem aos problemas de quem pretende representar.</p>
<p>Depois de retirar tudo isso, o que sobra? Se ainda sobra uma boa raz&atilde;o para votar nele, &oacute;timo. Talvez voc&ecirc; tenha encontrado um representante.</p>
<p>N&atilde;o h&aacute; problema em votar em algu&eacute;m famoso ou comunicativo. O problema come&ccedil;a quando fama se transforma em credencial suficiente para o exerc&iacute;cio do poder. Representar exige ouvir, negociar, fiscalizar, decidir e prestar contas. Exposi&ccedil;&atilde;o exige aten&ccedil;&atilde;o.</p>
<p>&Agrave;s vezes, a mesma pessoa re&uacute;ne as duas capacidades. Outras vezes, n&atilde;o. Cabe ao eleitor descobrir a diferen&ccedil;a.</p>
<p>Em tempos nos quais todos disputam nossa aten&ccedil;&atilde;o, talvez um pequeno ato de resist&ecirc;ncia democr&aacute;tica seja olhar menos para aquilo que um candidato parece ser e mais para aquilo que fez, sabe, prop&otilde;e e ser&aacute; capaz de fazer.</p>
<p>O voto continua sendo secreto. A escolha, por&eacute;m, n&atilde;o precisa ser feita de olhos fechados.</p>
<figure class="tinymce-image" data-media-id="019f806d-6b0d-73f5-bfc9-d88c3940fb15" data-single-image="true" data-align="left"><img src="https://cdn1.bs9.com.br/Folder/2026/07/66987f10-71ce-4f0e-9dcb-c1ae3afc42f5/mj.jpg" alt="">
<figcaption><em>Maur&iacute;cio Juvenal </em></figcaption>
</figure>
<p><em>Maur&iacute;cio Juvenal &eacute; jornalista, mestre em Letras e mestrando em Ci&ecirc;ncia Pol&iacute;tica e Rela&ccedil;&otilde;es Internacionais pelo IDP de Bras&iacute;lia. &Eacute; secret&aacute;rio nacional de Ambiente de Neg&oacute;cios, no Minist&eacute;rio do Empreendedorismo, e foi secret&aacute;rio estadual de Planejamento e Gest&atilde;o do Estado de S&atilde;o Paulo.&nbsp;</em></p>]]></content>
                                    <category term="Maurício Juvenal" />
                        <published>2026-08-15T22:25:00+00:00</published>
            <updated>2026-08-15T22:25:00+00:00</updated>
        </entry>
            <entry>
            <title><![CDATA[Termômetro não produz febre. E pesquisa não fabrica votos!]]></title>
            <link rel="alternate" href="https://www.bs9.com.br/coluna/mauricio-juvenal/2026/08/03/termometro-nao-produz-febre-e-pesquisa-nao-fabrica-votos.html" />
            <id>https://www.bs9.com.br/019fc825-db93-7339-acbf-6d5e92e48c46</id>
            <author>
                <name><![CDATA[Maurício Juvenal]]></name>
            </author>
            <summary type="html">
                <![CDATA[Há uma frase que se repete em praticamente toda eleição brasileira: "pesquisa não ganha eleição". É verdade. Nunca ganhou e nunca pretendeu ganhar. O problema é que, muitas vezes, essa constatação vem...]]>
            </summary>
            
                        <content type="html"><![CDATA[<p>H&aacute; uma frase que se repete em praticamente toda elei&ccedil;&atilde;o brasileira: "pesquisa n&atilde;o ganha elei&ccedil;&atilde;o". &Eacute; verdade. Nunca ganhou e nunca pretendeu ganhar. O problema &eacute; que, muitas vezes, essa constata&ccedil;&atilde;o vem acompanhada de outra, completamente equivocada dando conta de que se uma pesquisa n&atilde;o acerta integralmente o resultado final das urnas, ela n&atilde;o serve para nada. Nada poderia estar mais distante da realidade.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Pesquisa de opini&atilde;o jamais foi exerc&iacute;cio de futurologia. N&atilde;o existe instituto s&eacute;rio que prometa adivinhar o futuro. A finalidade de uma pesquisa &eacute; muito mais modesta e, justamente por isso, muito mais importante. Ela procura responder a uma &uacute;nica pergunta que &eacute; sobre como pensa a sociedade eleitora no momento em que os dados s&atilde;o coletados? Trata-se de um retrato estat&iacute;stico, constru&iacute;do a partir de m&eacute;todos cient&iacute;ficos, capaz de revelar tend&ecirc;ncias, percep&ccedil;&otilde;es, expectativas e inten&ccedil;&otilde;es existentes naquele exato instante e em rela&ccedil;&atilde;o aos cen&aacute;rios que s&atilde;o testados.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Assim como um term&ocirc;metro n&atilde;o produz a febre, apenas a mede, a pesquisa n&atilde;o cria opini&otilde;es nem fabrica votos. Ela observa, registra e organiza, segundo crit&eacute;rios cient&iacute;ficos, aquilo que j&aacute; existe na sociedade. Confundir pesquisa com previs&atilde;o absoluta do resultado eleitoral equivale a responsabilizar a meteorologia por toda mudan&ccedil;a inesperada do clima. A democracia &eacute; din&acirc;mica. Campanhas mudam, debates alteram percep&ccedil;&otilde;es, fatos novos surgem, alian&ccedil;as se formam e eleitores mudam de ideia. Nada disso invalida o retrato captado em determinado momento.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Infelizmente, parte do debate p&uacute;blico brasileiro passou a tratar pesquisas de opini&atilde;o como instrumentos de disputa pol&iacute;tica, quando, na realidade, elas s&atilde;o instrumentos de informa&ccedil;&atilde;o. O alvo deixa de ser a metodologia e passa a ser o resultado. Quando os n&uacute;meros agradam, a pesquisa &eacute; celebrada. Quando desagradam, torna-se automaticamente "fraudulenta", "comprada" ou "manipulada". A ci&ecirc;ncia cede lugar &agrave; conveni&ecirc;ncia pol&iacute;tica.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&Eacute; evidente que existem pesquisas boas e pesquisas ruins. Como em qualquer atividade t&eacute;cnica, h&aacute; profissionais qualificados e profissionais despreparados. Mas tamb&eacute;m &eacute; evidente que existem institutos que h&aacute; d&eacute;cadas atuam com rigor metodol&oacute;gico, possuem registro regular, contam com estat&iacute;sticos legalmente habilitados, seguem as normas da Justi&ccedil;a Eleitoral, submetem previamente seus question&aacute;rios ao Sistema PesqEle e permanecem sujeitos &agrave; fiscaliza&ccedil;&atilde;o permanente, inclusive com possibilidade de apresenta&ccedil;&atilde;o dos bancos de dados, question&aacute;rios, planos amostrais e demais documentos sempre que solicitado, formal ou informalmente.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&Eacute; justamente por isso que a cr&iacute;tica s&eacute;ria deve concentrar-se naquilo que realmente importa que &eacute; a qualidade t&eacute;cnica. Amostragem adequada. Plano estat&iacute;stico consistente. Transpar&ecirc;ncia metodol&oacute;gica. Registro correto. Controle de qualidade do trabalho de campo. Supervis&atilde;o da coleta. Disponibilidade para auditoria. &Eacute; nesse terreno que se protege a credibilidade das pesquisas e o direito do cidad&atilde;o &agrave; boa informa&ccedil;&atilde;o.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Hoje, o que de fato preocupa &eacute; o crescimento de um fen&ocirc;meno que poder&iacute;amos chamar de &ldquo;ind&uacute;stria da impugna&ccedil;&atilde;o das pesquisas eleitorais&rdquo;. A cada novo levantamento registrado, multiplicam-se a&ccedil;&otilde;es judiciais que, muitas vezes, pouco discutem o efetivo cumprimento das normas legais e muito menos apresentam fundamentos t&eacute;cnicos consistentes sobre metodologia estat&iacute;stica. Em diversas situa&ccedil;&otilde;es, a impress&atilde;o que fica &eacute; a de que o verdadeiro objetivo n&atilde;o &eacute; aperfei&ccedil;oar a pesquisa, mas impedir sua divulga&ccedil;&atilde;o quando seus resultados podem vir a desagradar determinados interesses pol&iacute;ticos ou at&eacute; mesmo de capta&ccedil;&atilde;o de recursos financeiros para campanhas.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>O problema torna-se ainda mais delicado quando discuss&otilde;es eminentemente t&eacute;cnicas passam a ser conduzidas por quem desconhece profundamente os fundamentos da pesquisa amostral. Questionar metodologia exige conhecimento espec&iacute;fico em estat&iacute;stica, amostragem, desenho de pesquisa, infer&ecirc;ncia probabil&iacute;stica e controle de qualidade. N&atilde;o basta discordar do resultado para concluir que existe v&iacute;cio metodol&oacute;gico. A diverg&ecirc;ncia pol&iacute;tica jamais pode substituir o rigor cient&iacute;fico.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Isso n&atilde;o significa, evidentemente, que pesquisas estejam imunes ao controle. Muito pelo contr&aacute;rio. Quanto maior a transpar&ecirc;ncia, maior a confian&ccedil;a p&uacute;blica. A Justi&ccedil;a Eleitoral exerce papel indispens&aacute;vel ao exigir o registro pr&eacute;vio das pesquisas, fiscalizar o cumprimento das normas e assegurar que toda a documenta&ccedil;&atilde;o necess&aacute;ria esteja dispon&iacute;vel para exame. Da mesma forma, os institutos devem estar permanentemente abertos &agrave; auditoria de seus bancos de dados, de seus procedimentos de campo, de seus planos amostrais e de seus registros t&eacute;cnicos. A credibilidade nasce justamente dessa possibilidade de permanente verifica&ccedil;&atilde;o.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Mas uma coisa &eacute; controlar a legalidade. Outra, completamente diferente, &eacute; transformar diverg&ecirc;ncias metodol&oacute;gicas, muitas vezes desacompanhadas de qualquer demonstra&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica, em instrumento para retirar da sociedade o acesso &agrave; informa&ccedil;&atilde;o. Quando pedidos de impugna&ccedil;&atilde;o passam a ser utilizados como estrat&eacute;gia recorrente para esconder resultados desfavor&aacute;veis, quem perde n&atilde;o &eacute; apenas o instituto de pesquisa. Perde o eleitor. Perde o debate p&uacute;blico. Perde a democracia.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>As pesquisas de opini&atilde;o s&atilde;o patrim&ocirc;nio das sociedades democr&aacute;ticas porque permitem compreender o que pensa a popula&ccedil;&atilde;o antes que ela se manifeste definitivamente nas urnas. Governos aperfei&ccedil;oam pol&iacute;ticas p&uacute;blicas a partir delas. Empresas compreendem mercados. Universidades produzem conhecimento. A imprensa informa melhor. E os pr&oacute;prios cidad&atilde;os conseguem enxergar, para al&eacute;m de suas bolhas, como diferentes segmentos sociais percebem a realidade.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Democracias maduras n&atilde;o t&ecirc;m medo das pesquisas. Exigem que sejam honestas, transparentes e tecnicamente corretas. Afinal, informa&ccedil;&atilde;o de qualidade nunca foi inimiga da democracia. Pelo contr&aacute;rio. Sempre foi uma de suas maiores garantias.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Quem teme pesquisas, muitas vezes n&atilde;o teme os n&uacute;meros. Teme que a sociedade conhe&ccedil;a os n&uacute;meros. E impedir que um retrato fiel da opini&atilde;o p&uacute;blica venha a p&uacute;blico nunca fortaleceu a democracia. Fortalece apenas a conveni&ecirc;ncia de quem prefere substituir fatos por narrativas.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><img src="https://cdn1.bs9.com.br/Folder/2026/07/66987f10-71ce-4f0e-9dcb-c1ae3afc42f5/mj.jpg"></p>
<p><strong><em>Maur&iacute;cio Juvenal &eacute; jornalista, mestre em Letras e mestrando em Ci&ecirc;ncia Pol&iacute;tica e Rela&ccedil;&otilde;es Internacionais pelo IDP de Bras&iacute;lia. &Eacute; consultor em an&aacute;lise de dados do Instituto Badra de opini&atilde;o.</em></strong></p>]]></content>
                                    <category term="Maurício Juvenal" />
                        <published>2026-08-03T14:40:00+00:00</published>
            <updated>2026-08-03T15:10:24+00:00</updated>
        </entry>
            <entry>
            <title><![CDATA[O orçamento de São Paulo e a pequena política]]></title>
            <link rel="alternate" href="https://www.bs9.com.br/coluna/mauricio-juvenal/2026/07/28/o-orcamento-de-sao-paulo-e-a-pequena-politica.html" />
            <id>https://www.bs9.com.br/019fa820-b948-7307-b2f1-7fd27a4b0524</id>
            <author>
                <name><![CDATA[Maurício Juvenal]]></name>
            </author>
            <summary type="html">
                <![CDATA[Foi às margens do Ipiranga que o Brasil proclamou sua Independência. Foi em suas fazendas que o café impulsionou a economia nacional. Foi em suas indústrias que o país experimentou sua modernização pr...]]>
            </summary>
            
                        <content type="html"><![CDATA[<p class="MsoNormal">Foi &agrave;s margens do Ipiranga que o Brasil proclamou sua Independ&ecirc;ncia. Foi em suas fazendas que o caf&eacute; impulsionou a economia nacional. Foi em suas ind&uacute;strias que o pa&iacute;s experimentou sua moderniza&ccedil;&atilde;o produtiva. Foi em suas universidades que parte importante da ci&ecirc;ncia brasileira encontrou abrigo. Foi em seu parque tecnol&oacute;gico, em seu sistema financeiro, em seu porto, em suas rodovias e em sua capacidade empreendedora que o Brasil aprendeu, muitas vezes, a pensar grande.</p>
<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
<p class="MsoNormal">Talvez por isso determinados acontecimentos recentes provoquem um desconforto que ultrapassa a disputa entre esquerda e direita. Eles suscitam uma pergunta mais profunda: S&atilde;o Paulo continua reconhecendo a si mesmo?</p>
<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
<p class="MsoNormal">A visita do presidente argentino Javier Milei ao Brasil poderia ter sido mais um cap&iacute;tulo da rela&ccedil;&atilde;o entre dois pa&iacute;ses cuja integra&ccedil;&atilde;o econ&ocirc;mica interessa a ambos. Argentina e Brasil s&atilde;o parceiros hist&oacute;ricos, compartilham cadeias produtivas, mercados e desafios comuns. Em vez disso, o epis&oacute;dio acabou transformado em um espet&aacute;culo de confronto pol&iacute;tico. Um chefe de Estado estrangeiro utilizou um evento partid&aacute;rio brasileiro para dirigir, entre outros, ataques ao Presidente da Rep&uacute;blica e ao Supremo Tribunal Federal, deslocando o foco da coopera&ccedil;&atilde;o diplom&aacute;tica para a polariza&ccedil;&atilde;o interna.</p>
<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
<p class="MsoNormal">O desconforto aumentou porque, poucas horas antes, Milei havia recebido a mais alta honraria concedida pelo Estado de S&atilde;o Paulo. N&atilde;o se discute aqui o direito de governantes cultivarem afinidades pol&iacute;ticas. O que merece reflex&atilde;o &eacute; outra quest&atilde;o, ou seja, qual interesse estrat&eacute;gico de S&atilde;o Paulo foi servido por esse gesto? O Estado que concentra o maior parque industrial do pa&iacute;s, que responde por parcela expressiva do PIB nacional e que depende intensamente do com&eacute;rcio internacional ganha quando associa sua imagem institucional a epis&oacute;dios dessa natureza? &Eacute; justamente nesse ponto que a pol&iacute;tica deixa de ser ideol&oacute;gica para tornar-se estrat&eacute;gica.</p>
<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
<p class="MsoNormal">Ora, h&aacute; n&uacute;meros que servem apenas para preencher planilhas. Outros t&ecirc;m a capacidade de desmontar narrativas inteiras. O or&ccedil;amento do Estado de S&atilde;o Paulo pertence a essa segunda categoria.</p>
<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
<p class="MsoNormal">Em 2026, o maior estado brasileiro aprovou um or&ccedil;amento da ordem de R$ 382 bilh&otilde;es. Um &uacute;nico ente federativo brasileiro administrar&aacute;, em um ano, recursos que equivalem a aproximadamente tr&ecirc;s quartos do or&ccedil;amento nacional de um pa&iacute;s como a Argentina, cuja popula&ccedil;&atilde;o &eacute; praticamente a mesma da paulista e cuja hist&oacute;ria econ&ocirc;mica sempre ocupou, convenhamos, posi&ccedil;&atilde;o de destaque na Am&eacute;rica Latina.</p>
<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
<p class="MsoNormal">A grande verdade &eacute; que ao longo da redemocratiza&ccedil;&atilde;o, o eleitor paulista jamais foi facilmente enquadrado por r&oacute;tulos simplistas. Em diferentes momentos apoiou governos de distintas orienta&ccedil;&otilde;es, mas preservou uma caracter&iacute;stica relativamente constante: valorizou capacidade administrativa, estabilidade institucional, responsabilidade fiscal, desenvolvimento econ&ocirc;mico e seguran&ccedil;a jur&iacute;dica. Em outras palavras, S&atilde;o Paulo nunca foi movido apenas por paix&otilde;es pol&iacute;ticas; sempre foi profundamente influenciado pelo pragmatismo.</p>
<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
<p class="MsoNormal">Essa talvez seja a principal armadilha em que parte da direita brasileira parece ter ca&iacute;do.</p>
<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
<p class="MsoNormal">Durante anos, o maior estado brasileiro construiu sua identidade p&uacute;blica associada &agrave; efici&ecirc;ncia administrativa, &agrave; boa gest&atilde;o, &agrave; previsibilidade econ&ocirc;mica e ao ambiente favor&aacute;vel aos neg&oacute;cios. Nos &uacute;ltimos meses, por&eacute;m, parcela significativa dessa agenda passou a disputar espa&ccedil;o com guerras culturais, confrontos institucionais e simbolismos importados. N&atilde;o h&aacute; problema em defender convic&ccedil;&otilde;es. O problema surge quando elas passam a ocupar o lugar do projeto de governo.</p>
<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
<p class="MsoNormal">N&atilde;o foram poucos os empres&aacute;rios, investidores e profissionais do setor produtivo, muitos deles distantes do campo progressista, que assistiram aos acontecimentos recentes com evidente desconforto. N&atilde;o porque tenham mudado de posi&ccedil;&atilde;o ideol&oacute;gica. Mas porque compreenderam algo que os mercados sempre compreenderam, isto &eacute;, economias convivem com governos de diferentes orienta&ccedil;&otilde;es. Convivem muito pior, no entanto, com instabilidade institucional, crises diplom&aacute;ticas desnecess&aacute;rias e aumento da imprevisibilidade.</p>
<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
<p class="MsoNormal">Enquanto isso, a conven&ccedil;&atilde;o que oficializou Fernando Haddad como candidato ao Governo de S&atilde;o Paulo procurou transmitir outra mensagem. O discurso de Geraldo Alckmin resgatou uma tradi&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica paulista fundada na capacidade de di&aacute;logo, na constru&ccedil;&atilde;o de consensos e na centralidade do desenvolvimento econ&ocirc;mico. M&aacute;rcio Fran&ccedil;a acrescentou um elemento simb&oacute;lico ao destacar que a coliga&ccedil;&atilde;o governista apresenta uma composi&ccedil;&atilde;o equilibrada entre homens e mulheres nas disputas majorit&aacute;rias, procurando comunicar pluralidade em contraste com uma chapa inteiramente masculina apresentada pelo campo advers&aacute;rio.</p>
<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
<p class="MsoNormal">N&atilde;o &eacute; preciso concordar com uma ou outra narrativa para perceber que elas dialogam com eleitores diferentes.</p>
<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
<p class="MsoNormal">A pol&iacute;tica ensina que campanhas raramente s&atilde;o decididas apenas pela for&ccedil;a de suas bases. Elas costumam ser vencidas por quem consegue interpretar o humor da sociedade antes dos demais. H&aacute; momentos em que a popula&ccedil;&atilde;o deseja ruptura. H&aacute; outros em que procura serenidade. H&aacute; momentos em que o confronto mobiliza. H&aacute; outros em que ele simplesmente cansa. Talvez estejamos entrando em um desses per&iacute;odos.</p>
<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
<p class="MsoNormal">Durante muito tempo, consolidou-se a impress&atilde;o de que S&atilde;o Paulo caminhava para uma elei&ccedil;&atilde;o previs&iacute;vel. Hoje, essa certeza j&aacute; n&atilde;o parece t&atilde;o s&oacute;lida. N&atilde;o porque qualquer candidatura tenha vit&oacute;ria assegurada. Ainda faltam mais de meses para que os eleitores se manifestem. Mas porque o ambiente pol&iacute;tico mudou. E a hist&oacute;ria mostra que, antes de mudar os resultados eleitorais, a pol&iacute;tica costuma mudar o ambiente em que esses resultados ser&atilde;o produzidos.</p>
<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
<p class="MsoNormal">Na pol&iacute;tica, h&aacute; ocasi&otilde;es em que um projeto vence por seus pr&oacute;prios m&eacute;ritos. Em outras, vence porque o advers&aacute;rio deixa de compreender o pa&iacute;s, ou o Estado, que pretende governar.</p>
<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
<p class="MsoNormal">Talvez seja cedo para afirmar qual dessas hip&oacute;teses prevalecer&aacute; em 2026. Mas uma coisa parece evidente: quando S&atilde;o Paulo come&ccedil;a a deixar de se reconhecer na pol&iacute;tica que lhe &eacute; apresentada, dificilmente permanece indiferente por muito tempo. E, quando S&atilde;o Paulo muda de humor, o Brasil costuma prestar aten&ccedil;&atilde;o.</p>
<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
<p class="MsoNormal"><strong><em><img src="https://cdn1.bs9.com.br/Folder/2026/07/66987f10-71ce-4f0e-9dcb-c1ae3afc42f5/mj.jpg"><br></em></strong></p>
<p class="MsoNormal"><strong><em>Maur&iacute;cio Juvenal</em></strong> &eacute; jornalista, mestre em Letras e mestrando em Ci&ecirc;ncia Pol&iacute;tica e Rela&ccedil;&otilde;es Internacionais pelo IDP de Bras&iacute;lia. Foi secret&aacute;rio estadual de Planejamento e Gest&atilde;o do Estado de S&atilde;o Paulo</p>]]></content>
                                    <category term="Maurício Juvenal" />
                        <published>2026-07-28T09:44:06+00:00</published>
            <updated>2026-07-28T09:49:04+00:00</updated>
        </entry>
            <entry>
            <title><![CDATA[O último mistério]]></title>
            <link rel="alternate" href="https://www.bs9.com.br/coluna/mauricio-juvenal/2026/07/20/o-ultimo-misterio.html" />
            <id>https://www.bs9.com.br/019f804d-75cc-7235-bbd2-57ce705a91fe</id>
            <author>
                <name><![CDATA[Maurício Juvenal]]></name>
            </author>
            <summary type="html">
                <![CDATA[Há perguntas que envelhecem. Outras atravessam os séculos sem perder a força. Mudam as tecnologias, os governos, as religiões e até a forma como nos relacionamos, mas uma delas permanece intacta desde...]]>
            </summary>
            
                        <content type="html"><![CDATA[<p>H&aacute; perguntas que envelhecem. Outras atravessam os s&eacute;culos sem perder a for&ccedil;a. Mudam as tecnologias, os governos, as religi&otilde;es e at&eacute; a forma como nos relacionamos, mas uma delas permanece intacta desde que o ser humano aprendeu a sepultar seus mortos: o que existe depois da morte?</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Pode parecer curioso que, em uma &eacute;poca marcada pela intelig&ecirc;ncia artificial, pelas viagens espaciais e por avan&ccedil;os cient&iacute;ficos que at&eacute; pouco tempo pertenciam &agrave; fic&ccedil;&atilde;o, continuemos mobilizados por uma pergunta t&atilde;o antiga. Mas talvez resida justamente a&iacute; uma das caracter&iacute;sticas mais permanentes da condi&ccedil;&atilde;o humana. A verdade &eacute; que quanto mais avan&ccedil;amos na compreens&atilde;o do mundo, mais percebemos que algumas respostas permanecem fora do alcance da ci&ecirc;ncia. E, diante desse vazio, homens e mulheres seguem fazendo aquilo que sempre fizeram, ou seja, constroem significados.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Foi exatamente isso que uma pesquisa in&eacute;dita realizada pelo Instituto Badra procurou compreender ao ouvir 1.060 moradores da cidade de S&atilde;o Paulo. N&atilde;o para descobrir o que existe depois da morte, tarefa imposs&iacute;vel para qualquer instituto de pesquisa, mas para conhecer aquilo em que as pessoas acreditam quando pensam sobre esse mist&eacute;rio.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Os resultados surpreendem. Quase nove em cada dez paulistanos afirmam acreditar na exist&ecirc;ncia de Deus. Ainda assim, a maioria declara n&atilde;o acreditar na vida ap&oacute;s a morte. Dois ter&ccedil;os acreditam em anjos e dem&ocirc;nios. Seis em cada dez acreditam em mau-olhado. Um quarto acredita que, depois da morte, nada acontece al&eacute;m da decomposi&ccedil;&atilde;o do corpo. Outro grupo espera o Ju&iacute;zo Final. H&aacute; quem acredite na reencarna&ccedil;&atilde;o. H&aacute; quem admita simplesmente n&atilde;o saber.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&Agrave; primeira vista, esses n&uacute;meros parecem contradit&oacute;rios. Mas talvez revelem exatamente o contr&aacute;rio. Eles mostram que as pessoas j&aacute; n&atilde;o organizam suas convic&ccedil;&otilde;es obedecendo, necessariamente, aos limites das doutrinas religiosas. Cada indiv&iacute;duo parece construir, ao longo da vida, uma esp&eacute;cie de mapa pessoal da transcend&ecirc;ncia, reunindo experi&ecirc;ncias familiares, tradi&ccedil;&otilde;es religiosas, d&uacute;vidas, leituras e viv&ecirc;ncias. A espiritualidade contempor&acirc;nea parece menos preocupada em repetir respostas prontas e mais inclinada a formular interpreta&ccedil;&otilde;es pr&oacute;prias.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Essa constata&ccedil;&atilde;o aproxima S&atilde;o Paulo de um fen&ocirc;meno observado em diferentes partes do mundo. Pesquisas do Pew Research Center, da Gallup e da Ipsos mostram que, embora a participa&ccedil;&atilde;o nas religi&otilde;es organizadas venha se transformando em muitos pa&iacute;ses, a busca por significado permanece extraordinariamente viva. De um lado, diminui a filia&ccedil;&atilde;o autom&aacute;tica. Do outro, n&atilde;o desaparece a necessidade de transcend&ecirc;ncia. Talvez a f&eacute; esteja mudando de linguagem, n&atilde;o de import&acirc;ncia.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&Eacute; interessante notar que essa mesma sociedade capaz de desenvolver algoritmos sofisticados, decifrar parte do genoma humano e enviar sondas ao espa&ccedil;o continua preservando perguntas que nenhuma tecnologia foi capaz de responder. E talvez nunca seja. H&aacute; mist&eacute;rios que pertencem menos ao campo da comprova&ccedil;&atilde;o do que ao da experi&ecirc;ncia humana. N&atilde;o porque a raz&atilde;o seja insuficiente, mas porque existem dimens&otilde;es da exist&ecirc;ncia que escapam aos instrumentos tradicionais da ci&ecirc;ncia.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Foi Viktor Frankl quem escreveu que "quem tem um porqu&ecirc; enfrenta quase qualquer como". Talvez seja exatamente isso que as diferentes cren&ccedil;as procuram oferecer. Mais do que explicar a morte, procuram tornar a vida suport&aacute;vel. Afinal, imaginar que existe algo al&eacute;m do &uacute;ltimo suspiro, ou mesmo admitir honestamente que n&atilde;o sabemos o que existe, s&atilde;o maneiras distintas de lidar com a mesma inquieta&ccedil;&atilde;o.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>No fundo, talvez a grande descoberta da pesquisa n&atilde;o esteja nos percentuais. Ela est&aacute; na constata&ccedil;&atilde;o de que continuamos perguntando. A humanidade jamais deixou de interrogar o desconhecido. E talvez isso aconte&ccedil;a porque essa nunca foi apenas uma pergunta sobre a morte. Sempre foi uma pergunta sobre a vida.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Enquanto existirem homens e mulheres tentando compreender quem s&atilde;o, por que est&atilde;o aqui e qual o sentido da pr&oacute;pria exist&ecirc;ncia, a quest&atilde;o permanecer&aacute; aberta. E por certa essa &eacute; a &uacute;nica resposta da qual realmente dispomos.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><img src="https://cdn1.bs9.com.br/Folder/2026/07/66987f10-71ce-4f0e-9dcb-c1ae3afc42f5/mj.jpg"></p>
<p><em><strong>Maur&iacute;cio Juvenal&nbsp;</strong>&eacute; jornalista, mestre em Letras, mestrando em Ci&ecirc;ncia Pol&iacute;tica e Rela&ccedil;&otilde;es Internacionais, pelo IDP de Bras&iacute;lia, e consultor em an&aacute;lise de dados do Instituto Badra.</em></p>]]></content>
                                    <category term="Maurício Juvenal" />
                        <published>2026-07-20T16:09:12+00:00</published>
            <updated>2026-07-20T18:34:40+00:00</updated>
        </entry>
            <entry>
            <title><![CDATA[O Brasil que empreende estará no centro das eleições]]></title>
            <link rel="alternate" href="https://www.bs9.com.br/coluna/mauricio-juvenal/2026/07/04/o-brasil-que-empreende-estara-no-centro-das-eleicoes.html" />
            <id>https://www.bs9.com.br/019f5cd7-1d8e-71a6-93f5-8e6d80a01ce6</id>
            <author>
                <name><![CDATA[Maurício Juvenal]]></name>
            </author>
            <summary type="html">
                <![CDATA[Quando os brasileiros forem às urnas em 2026, quatro temas devem dominar o debate público: segurança, economia, corrupção e empreendedorismo. Os três primeiros são previsíveis. O quarto, nem tanto. Ma...]]>
            </summary>
            
                        <content type="html"><![CDATA[<p>Quando os brasileiros forem &agrave;s urnas em 2026, quatro temas devem dominar o debate p&uacute;blico: seguran&ccedil;a, economia, corrup&ccedil;&atilde;o e empreendedorismo. Os tr&ecirc;s primeiros s&atilde;o previs&iacute;veis. O quarto, nem tanto. Mas talvez seja justamente o tema que melhor ajude a explicar o Brasil contempor&acirc;neo.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Durante d&eacute;cadas, a discuss&atilde;o sobre trabalho no pa&iacute;s esteve concentrada na rela&ccedil;&atilde;o entre empregado e empregador. Essa continua sendo uma agenda fundamental. O problema &eacute; que o Brasil mudou.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Hoje convivemos com cerca de 45 milh&otilde;es de trabalhadores com carteira assinada e um contingente semelhante de brasileiros que atuam como microempreendedores, aut&ocirc;nomos ou trabalhadores informais. Estamos falando de dezenas de milh&otilde;es de pessoas que acordam todos os dias sem a garantia de um sal&aacute;rio ao final do m&ecirc;s e cuja renda depende diretamente da pr&oacute;pria capacidade de produzir, vender, negociar e sobreviver. &Eacute; imposs&iacute;vel compreender o Brasil sem compreender esse universo.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>H&aacute; quem enxergue o empreendedorismo apenas como uma hist&oacute;ria de sucesso individual. Nos &uacute;ltimos anos, uma ind&uacute;stria de promessas vendeu a ideia de que basta acreditar para prosperar. Como se houvesse f&oacute;rmulas m&aacute;gicas para transformar qualquer pessoa em um empres&aacute;rio bem-sucedido. A realidade &eacute; mais complexa.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Boa parte dos empreendedores brasileiros n&atilde;o abriu um neg&oacute;cio porque identificou uma oportunidade extraordin&aacute;ria de mercado. Abriu porque precisava continuar vivendo. S&atilde;o empreendedores da sobreviv&ecirc;ncia. Homens e mulheres que transformaram a necessidade em atividade econ&ocirc;mica.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Eles n&atilde;o aparecem nas capas de revistas de neg&oacute;cios. Est&atilde;o nas periferias, nos bairros, nos pequenos munic&iacute;pios. Vendem alimentos, prestam servi&ccedil;os, consertam equipamentos, cortam cabelo, reformam casas, dirigem ve&iacute;culos de aplicativo e movimentam a economia real. S&atilde;o brasileiros que muitas vezes vendem o almo&ccedil;o para garantir a janta. Por isso, o verdadeiro debate sobre empreendedorismo n&atilde;o &eacute; sobre motiva&ccedil;&atilde;o. &Eacute; sobre produtividade.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>O desafio nacional n&atilde;o &eacute; criar mais CNPJs. O Brasil j&aacute; demonstrou enorme capacidade de formaliza&ccedil;&atilde;o. O desafio &eacute; fazer com que os pequenos neg&oacute;cios cres&ccedil;am, produzam mais, acessem novos mercados, utilizem melhor a tecnologia e gerem renda de maior qualidade.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Hoje, cerca de 80% das empresas brasileiras possuem faturamento bruto anual de at&eacute; R$ 360 mil. Uma parcela significativa sequer ultrapassa R$ 180 mil por ano. Quando descontados custos operacionais, impostos e despesas diversas, sobra uma renda que, em muitos casos, varia entre R$ 4 mil e R$ 8 mil mensais, quando o neg&oacute;cio &eacute; bem administrado. &Eacute; pouco para quem sustenta uma fam&iacute;lia. &Eacute; pouco para quem pretende investir. &Eacute; pouco para quem sonha crescer.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>A pergunta central que surge, ent&atilde;o, &eacute; sobre como transformar sobreviv&ecirc;ncia em prosperidade? A resposta passa por cinco agendas que deveriam interessar a qualquer governo, independentemente de ideologia.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>A primeira &eacute; cr&eacute;dito. N&atilde;o apenas mais cr&eacute;dito, mas cr&eacute;dito orientado. Recursos financeiros desacompanhados de planejamento podem se transformar em endividamento. Quando associados &agrave; capacita&ccedil;&atilde;o e a mecanismos garantidores, tornam-se instrumentos de expans&atilde;o.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>A segunda &eacute; acesso a mercado. Nenhuma empresa cresce sem clientes. A amplia&ccedil;&atilde;o da participa&ccedil;&atilde;o dos pequenos neg&oacute;cios nas compras governamentais e a redu&ccedil;&atilde;o de barreiras comerciais podem criar oportunidades in&eacute;ditas para milh&otilde;es de empreendedores.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>A terceira &eacute; simplifica&ccedil;&atilde;o burocr&aacute;tica. O Simples Nacional representou uma revolu&ccedil;&atilde;o ao facilitar a formaliza&ccedil;&atilde;o. Mas ainda existe um longo caminho para reduzir custos de conformidade, integrar sistemas e tornar o ambiente de neg&oacute;cios mais amig&aacute;vel para quem produz.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>A quarta &eacute; produtividade. Nem toda inova&ccedil;&atilde;o precisa ser disruptiva. &Agrave;s vezes, produtividade significa uma planilha financeira bem-organizada, um maquin&aacute;rio simples que reduz desperd&iacute;cios ou uma ferramenta digital que melhora a gest&atilde;o.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>A quinta &eacute; internacionaliza&ccedil;&atilde;o. Durante muito tempo, exportar foi visto como privil&eacute;gio de grandes empresas. Essa percep&ccedil;&atilde;o precisa mudar. O pequeno empreendedor brasileiro tamb&eacute;m pode alcan&ccedil;ar mercados globais. Em um mundo conectado por acordos comerciais e cadeias produtivas cada vez mais integradas, exportar deixou de ser exce&ccedil;&atilde;o para se tornar possibilidade concreta.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>O acordo entre Mercosul e Uni&atilde;o Europeia ilustra a dimens&atilde;o dessa oportunidade. Estamos falando de um mercado que re&uacute;ne centenas de milh&otilde;es de consumidores e uma das maiores &aacute;reas econ&ocirc;micas do planeta. Para acess&aacute;-lo, por&eacute;m, ser&aacute; necess&aacute;rio elevar padr&otilde;es de qualidade, sustentabilidade e competitividade. E isso beneficia tanto quem vende para fora quanto quem atende o mercado interno.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>No fundo, o empreendedorismo brasileiro n&atilde;o pede privil&eacute;gios. Pede condi&ccedil;&otilde;es. Condi&ccedil;&otilde;es para produzir. Condi&ccedil;&otilde;es para competir. Condi&ccedil;&otilde;es para crescer.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>O Brasil que empreende n&atilde;o &eacute; um nicho. &Eacute; uma das maiores for&ccedil;as econ&ocirc;micas e sociais do pa&iacute;s. Est&aacute; presente nas capitais e no interior, nos bairros populares e nos centros comerciais, nas oficinas, nos sal&otilde;es, nas padarias, nos pequenos com&eacute;rcios e nas empresas que sonham se tornar m&eacute;dias e grandes. E por isso mesmo, empreendedorismo estar&aacute; no centro das pr&oacute;ximas elei&ccedil;&otilde;es.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>N&atilde;o como slogan. N&atilde;o como pe&ccedil;a publicit&aacute;ria. N&atilde;o como promessa f&aacute;cil. Mas como uma das respostas mais concretas para o desafio permanente de gerar renda, ampliar oportunidades e construir um pa&iacute;s onde o trabalho continue sendo o principal instrumento de mobilidade social.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Quem compreender essa realidade ter&aacute; melhores condi&ccedil;&otilde;es de compreender o Brasil.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><img src="https://cdn1.bs9.com.br/Folder/2026/07/66987f10-71ce-4f0e-9dcb-c1ae3afc42f5/mj.jpg"></p>
<p><strong>Maur&iacute;cio Juvenal</strong> <em>&eacute; jornalista, mestre em Letras, mestrando em Ci&ecirc;ncia Pol&iacute;tica e Rela&ccedil;&otilde;es Internacionais, pelo IDP de Bras&iacute;lia, e secret&aacute;rio nacional de Ambiente de Neg&oacute;cios, do Minist&eacute;rio do Empreendedorismo, da Microempresa e da Empresa de Pequeno Porte.</em></p>]]></content>
                                    <category term="Maurício Juvenal" />
                        <published>2026-07-04T11:00:00+00:00</published>
            <updated>2026-07-20T18:32:23+00:00</updated>
        </entry>
            <entry>
            <title><![CDATA[A erosão do cuidado]]></title>
            <link rel="alternate" href="https://www.bs9.com.br/coluna/mauricio-juvenal/2026/06/14/a-erosao-do-cuidado.html" />
            <id>https://www.bs9.com.br/019f5cd7-1cb5-706a-93b3-ade951a63b17</id>
            <author>
                <name><![CDATA[Maurício Juvenal]]></name>
            </author>
            <summary type="html">
                <![CDATA[A morte de uma jovem de apenas 21 anos durante uma atividade de bungee jump, neste fim de semana, provocou comoção e perplexidade. Naturalmente, a Justiça deverá apurar responsabilidades e definir se...]]>
            </summary>
            
                        <content type="html"><![CDATA[<p>A morte de uma jovem de apenas 21 anos durante uma atividade de bungee jump, neste fim de semana, provocou comoção e perplexidade. Naturalmente, a Justiça deverá apurar responsabilidades e definir se houve negligência, imprudência ou mesmo crime. Mas, para além dos autos e dos laudos, o episódio parece lançar luz sobre uma inquietação mais ampla: o que está acontecendo com nossa relação com a responsabilidade?</p>

<p> </p>

<p>Há algo no espírito do nosso tempo que parece ter se distanciado perigosamente do cuidado. Cuidado com o trabalho, com a palavra dada, com a vida alheia e até com a própria vida. Tudo corre. Tudo é urgente. Tudo precisa ser feito, entregue, publicado, compartilhado. E, nesse ritmo acelerado, a atenção aos detalhes,  justamente aquilo que separa a segurança do desastre, tornou-se um bem escasso.</p>

<p> </p>

<p>Curiosamente, uma das palavras mais celebradas da contemporaneidade é "experiência". Já não viajamos; vivemos experiências. Não compramos produtos; adquirimos experiências. E até  o espetáculo esportivo ou artístico deixou de ser  espetáculo para se tornar uma experiência. A educação, o lazer, os relacionamentos, tudo foi reembalado sob essa lógica.</p>

<p> </p>

<p>Mas há uma ironia inquietante nisso. De experiência em experiência, estamos construindo uma sociedade de experimentos. E experimentos, por definição, envolvem riscos. O problema surge quando a busca incessante pelo novo, pelo impacto e pela sensação substitui o compromisso com a preparação, a competência e a prudência.</p>

<p> </p>

<p>O sociólogo Zygmunt Bauman observou que a modernidade líquida dissolveu muitas das estruturas estáveis que organizavam a vida social. O filósofo Byung-Chul Han descreve uma sociedade exausta pela necessidade permanente de desempenho. Talvez ambos estivessem descrevendo, cada um a seu modo, um mundo em que o cuidado deixou de ser virtude para se tornar obstáculo.</p>

<p> </p>

<p>A consequência não aparece apenas em acidentes trágicos. Ela se manifesta nas pequenas violências cotidianas. Na promessa feita sem intenção de cumprir. Na tarefa delegada sem reconhecimento. No favor exigido com urgência e imediatamente esquecido, depois de realizado. Na incapacidade crescente de perceber o outro como alguém dotado de expectativas, sentimentos e dignidade.</p>

<p> </p>

<p>Hannah Arendt alertava para a banalização do mal, expressão frequentemente mal compreendida. O mal nem sempre se apresenta sob a forma de grandes atrocidades. Muitas vezes ele nasce da ausência de reflexão, da incapacidade de se colocar no lugar do outro, da simples renúncia ao dever de pensar sobre as consequências dos próprios atos.</p>

<p> </p>

<p>Talvez estejamos assistindo à banalização da indiferença.</p>

<p> </p>

<p>A pedra que machuca alguém na calçada permanece onde está porque seu proprietário concluiu que removê-la não é problema seu. O erro evidente deixa de ser corrigido porque alguém acredita que a responsabilidade pertence a outra pessoa. O compromisso assumido perde valor tão logo o interesse particular seja satisfeito.</p>

<p> </p>

<p>Se o individualismo foi uma das marcas do século XX, o que parece emergir agora é algo mais severo: o exclusivismo. Não apenas o indivíduo no centro, mas apenas o indivíduo. Meus interesses primeiro. Minha ascensão primeiro. Minha conveniência primeiro. Mesmo que, para isso, seja necessário sacrificar a verdade, a consideração ou a ética.</p>

<p> </p>

<p>O resultado é uma sociedade progressivamente desprovida de confiança. E nenhuma comunidade sobrevive por muito tempo sem confiança. O contrato social de que falavam Rousseau e tantos outros pensadores não é apenas um conjunto de leis. É um pacto invisível de responsabilidade recíproca. É a convicção de que alguém verificou a corda antes do salto. De que alguém conferiu os números antes da assinatura. De que alguém removerá a pedra do caminho porque sabe que outra pessoa pode tropeçar nela.</p>

<p> </p>

<p>Quando esse pacto se rompe, resta apenas a convivência desconfiada entre indivíduos que dividem o mesmo espaço, mas já não compartilham os mesmos deveres.</p>

<p> </p>

<p>A pergunta que fica não é apenas qual foi o erro que levou à morte daquela jovem. A pergunta é mais desconfortável: quanto estamos perdendo, como sociedade, ao substituir o cuidado pela pressa, a responsabilidade pela conveniência e o compromisso pela performance?</p>

<p> </p>

<p>Talvez o preço final ainda não tenha sido totalmente calculado. Mas os sinais da conta já começaram a chegar. E a sociedade da experiência vai se apresentando, cada vez mais, como a sociedade da indiferença.</p>

<p> </p>

<p><img src="https://cdn.bs9.com.br/upload/dn_arquivo/2026/05/whatsapp-image-2026-05-30-at-220502.jpeg" style="height:200px; width:200px" /></p>

<p><strong><em>Maurício Juvenal </em></strong><em>é jornalista, mestre em Letras e mestrando em Ciências Políticas e Relações Internacionais pelo IDP-Brasília</em></p>
]]></content>
                                    <category term="Maurício Juvenal" />
                        <published>2026-06-14T16:25:00+00:00</published>
            <updated>2026-07-13T19:43:46+00:00</updated>
        </entry>
            <entry>
            <title><![CDATA[Pernambuco em transição eleitoral?]]></title>
            <link rel="alternate" href="https://www.bs9.com.br/coluna/mauricio-juvenal/2026/06/11/pernambuco-em-transicao-eleitoral.html" />
            <id>https://www.bs9.com.br/019f5cd7-1d71-713e-a219-8efa534c8d8f</id>
            <author>
                <name><![CDATA[Maurício Juvenal]]></name>
            </author>
            <summary type="html">
                <![CDATA[A recuperação de Raquel Lyra, a resistência de João Campos e os fatores que transformaram uma eleição aparentemente definida em uma das disputas mais competitivas do país. A disputa pelo Governo de Pe...]]>
            </summary>
            
                        <content type="html"><![CDATA[<p><em>A recuperação de Raquel Lyra, a resistência de João Campos e os fatores que transformaram uma eleição aparentemente definida em uma das disputas mais competitivas do país.</em></p>

<p> </p>

<p>A disputa pelo Governo de Pernambuco entrou definitivamente em uma nova fase. Se há poucos meses predominava no ambiente político estadual a percepção de que João Campos caminhava para uma eleição relativamente confortável, os números da Pesquisa de Intenção de Votos, do Instituto Badra, mostram que a realidade eleitoral se tornou muito mais complexa e competitiva. O que se observa agora é um cenário de equilíbrio, marcado menos por uma redução consistente da vantagem do pré-candidato socialista e muito mais pela consolidação da recuperação eleitoral da governadora Raquel Lyra.</p>

<p> </p>

<p>No principal cenário estimulado do levantamento, João Campos registra 44,2% das intenções de voto, enquanto Raquel Lyra aparece com 41,1%. A diferença de apenas 3,1 pontos percentuais está integralmente inserida na margem de erro da pesquisa, de três pontos para mais ou para menos, configurando um quadro de empate técnico. Mais do que a fotografia isolada do momento, o dado revela uma mudança importante na dinâmica da disputa, uma vez que a eleição que parecia caminhar para uma confirmação antecipada de favoritismo transformou-se numa competição aberta, sem vencedor definido.</p>

<p> </p>

<p>Politicamente, esse talvez seja o principal fato produzido pelo levantamento. Em campanhas majoritárias, não é apenas a distância numérica entre os candidatos que importa, mas a percepção coletiva sobre a competitividade da eleição. E Pernambuco passou a viver exatamente esse momento. A simples existência de uma disputa equilibrada altera comportamentos, reorganiza alianças, estimula mobilizações e aumenta a disposição de lideranças regionais em aguardar o desenrolar dos acontecimentos antes de assumir compromissos definitivos.</p>

<p> </p>

<p>João Campos continua apresentando atributos relevantes. Seu desempenho espontâneo alcança 29,3%, índice elevado para uma eleição ainda distante do dia da votação e que demonstra força de imagem, reconhecimento popular e associação direta entre o eleitorado e sua candidatura. Trata-se de um patrimônio político construído a partir de sua trajetória à frente da Prefeitura do Recife, da força histórica do PSB em Pernambuco e do capital simbólico associado ao legado político da família Campos.</p>

<p> </p>

<p>Entretanto, os números sugerem que a candidatura socialista já não navega em águas tão tranquilas quanto no início do ciclo eleitoral. A diferença observada na espontânea, de 6,6 pontos sobre Raquel Lyra, reduz-se para apenas 3,1 pontos quando os nomes são apresentados ao eleitor. Isso indica que parte importante do eleitorado que ainda não associa imediatamente seu voto a um candidato demonstra disposição para considerar a atual governadora quando confrontada com os nomes efetivamente colocados na disputa.</p>

<p> </p>

<p>Do outro lado, Raquel Lyra parece colher os frutos de uma estratégia política construída com disciplina e persistência. Desde o início do ano, a governadora intensificou agendas regionais, ampliou a exposição institucional do governo e passou a combinar duas narrativas simultâneas. A primeira é a da gestora firme, da mulher que assumiu o comando do Estado e enfrentou dificuldades administrativas relevantes. A segunda é a da liderança acessível e próxima do cotidiano da população, imagem reforçada pela comunicação digital que frequentemente a mostra em situações de interação espontânea com os eleitores.</p>

<p> </p>

<p>Os números sugerem que essa estratégia vem produzindo resultados. Raquel alcança desempenho particularmente competitivo entre eleitores mais velhos, segmento tradicionalmente mais propenso a valorizar atributos relacionados à experiência administrativa e estabilidade. Entre os eleitores com 60 anos ou mais, ela registra 48,3% contra 42,0% de João Campos. Também apresenta desempenho expressivo entre eleitores de renda mais elevada, onde chega a 41,4%, mantendo competitividade em praticamente todos os segmentos analisados.</p>

<p> </p>

<p>João, por sua vez, preserva vantagens importantes entre eleitores de renda mais alta e sobretudo entre o eleitorado evangélico, onde alcança 46,6% contra 40,8% da governadora. Também mantém desempenho robusto entre os eleitores de 45 a 59 anos, segmento em que supera Raquel por larga margem. Os cruzamentos revelam, portanto, que ambos possuem bases eleitorais relativamente sólidas e distribuídas, reforçando o caráter competitivo da disputa.</p>

<p> </p>

<p>Outro dado relevante é o nível de consolidação das escolhas. Entre os eleitores que já declararam voto em algum candidato, 70,5% afirmam que sua decisão é definitiva, enquanto apenas 23% admitem a possibilidade de mudança até a eleição. O percentual é elevado e sugere que a campanha tende a ser menos uma disputa por conversão de adversários e mais uma batalha pela conquista dos eleitores ainda não plenamente engajados ou que permanecem em posição de neutralidade política.</p>

<p> </p>

<p>As taxas de rejeição também ajudam a explicar o equilíbrio observado. João Campos aparece com 22,8% de rejeição e Raquel Lyra com 22,7%, configurando praticamente um empate absoluto nesse indicador. Em termos práticos, isso significa que nenhum dos dois carrega hoje um passivo eleitoral capaz de inviabilizar sua expansão. Ambos possuem espaço para crescimento e ambos encontram limitações semelhantes para avançar sobre parcelas do eleitorado ainda indecisas.</p>

<p> </p>

<p>Há ainda uma variável que continua pairando sobre toda a disputa pernambucana: o posicionamento do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Em poucos estados brasileiros essa questão possui peso tão relevante quanto em Pernambuco. João Campos construiu sua estratégia de aproximação permanente com o presidente e não esconde sua identificação política com o campo lulista. Raquel Lyra, por outro lado, enfrenta uma equação mais delicada. Embora tenha buscado manter uma relação institucional positiva com o governo federal, sua posição política exige equilíbrio para não produzir desgastes junto a parcelas de seu eleitorado que rejeitam uma associação explícita ao presidente.</p>

<p> </p>

<p>Essa situação cria um cenário singular. Lula permanece potencialmente capaz de influenciar a disputa, mas ao mesmo tempo encontra dificuldades objetivas para escolher um único lado sem gerar custos políticos relevantes. A percepção predominante entre observadores da política pernambucana é que o presidente tende a buscar uma convivência pragmática com ambos os campos, adiando ao máximo qualquer definição que possa produzir rupturas locais. A depender do momento e da forma como essa equação for resolvida, o impacto eleitoral poderá ser significativo.</p>

<p> </p>

<p>Por fim, a lembrança de voto da eleição de 2022 ajuda a compreender a força da atual governadora. Entre os entrevistados, 47,8% afirmam ter votado em Raquel Lyra no segundo turno daquele pleito, contra 32,4% que declaram voto em Marília Arraes. Mais importante do que isso, observa-se que Raquel retém 55,8% dos seus antigos eleitores, enquanto João Campos captura impressionantes 75,6% dos que afirmam ter votado em Marília. O desafio da governadora nos próximos meses será ampliar sua capacidade de reconquistar parte desse eleitorado progressista e popular que migrou para a candidatura socialista. Já João precisará preservar sua elevada capacidade de agregação sem permitir que a narrativa de crescimento da adversária continue se consolidando.</p>

<p> </p>

<p>Em síntese, Pernambuco vive hoje uma das disputas estaduais mais interessantes do país. João Campos segue liderando numericamente, mas já não desfruta da sensação de inevitabilidade que cercava sua candidatura no início do processo. Raquel Lyra, por sua vez, transformou uma condição inicialmente defensiva em uma posição de efetiva competitividade. O cenário permanece aberto, o ambiente político encontra-se em crescente polarização e os próximos meses tendem a ser decisivos para definir qual das duas narrativas prevalecerá junto ao eleitorado pernambucano.</p>

<p> </p>

<p><img alt="" src="https://cdn.bs9.com.br/upload/dn_arquivo/2026/05/whatsapp-image-2026-05-30-at-220502.jpeg" style="height:200px; width:200px" /></p>

<p>Maurício Juvenal</p>

<p>Consultor em Análise de Dados do Instituto Badra</p>

<p>É jornalista, Mestre em Letras, e Mestrando em Ciências Políticas e Relações Internacionais no IDP-Brasília</p>
]]></content>
                                    <category term="Maurício Juvenal" />
                        <published>2026-06-11T22:59:00+00:00</published>
            <updated>2026-07-13T19:43:48+00:00</updated>
        </entry>
            <entry>
            <title><![CDATA[Mongaguá: quando a crise deixa de ser administrativa e passa a ser institucional]]></title>
            <link rel="alternate" href="https://www.bs9.com.br/coluna/mauricio-juvenal/2026/06/08/mongagua-quando-a-crise-deixa-de-ser-administrativa-e-passa-a-ser-institucional.html" />
            <id>https://www.bs9.com.br/019f5cd7-1d67-73f9-acb9-8519e3ac5848</id>
            <author>
                <name><![CDATA[Maurício Juvenal]]></name>
            </author>
            <summary type="html">
                <![CDATA[Há momentos em que uma pesquisa de opinião mede apenas satisfação ou insatisfação com um governo. Há outros em que ela captura algo mais profundo: uma ruptura política. O levantamento realizado pelo I...]]>
            </summary>
            
                        <content type="html"><![CDATA[<p>Há momentos em que uma pesquisa de opinião mede apenas satisfação ou insatisfação com um governo. Há outros em que ela captura algo mais profundo: uma ruptura política. O levantamento realizado pelo Instituto Badra em Mongaguá, entre os dias 2 e 4 de junho, parece pertencer a esta segunda categoria.</p>

<p> </p>

<p>A prefeita Cristina Wiazowski chegou ao comando da Prefeitura em circunstâncias incomuns. Eleita em eleição suplementar, depois da inelegibilidade de Paulo Wiazowski, seu marido e principal liderança política do grupo, ela venceu amparada por uma forte expectativa de renovação. Era a primeira mulher eleita para chefiar o Executivo municipal. Era também a aposta de parte expressiva da cidade em uma virada de página após o desgaste da administração anterior.</p>

<p> </p>

<p>Mas a curva de opinião mostra que essa expectativa se desfez com velocidade rara.</p>

<p> </p>

<p>Em agosto de 2025, Cristina tinha 57,1% de aprovação e 23,5% de reprovação. Em dezembro, o quadro já havia se invertido: 23,4% aprovavam e 64,0% reprovavam. Em abril de 2026, a reprovação chegou a 76,2%. Agora, em junho, alcança 84,1%, enquanto a aprovação recua para apenas 12,2%.</p>

<p> </p>

<p>Não se trata, portanto, de oscilação conjuntural. Trata-se de deterioração contínua.</p>

<p> </p>

<p>O dado mais grave, porém, não é apenas a reprovação. Governos podem ser mal avaliados. O ponto politicamente decisivo é que a população parece ter passado a questionar a própria permanência da prefeita no cargo. Segundo a pesquisa, 78,0% dos moradores-eleitores entendem que Cristina deveria pedir afastamento voluntário da Prefeitura. Em outra pergunta, 79,5% afirmam que os vereadores deveriam propor seu afastamento.</p>

<p> </p>

<p>Aqui, a crise muda de natureza. Ela deixa de ser apenas administrativa e passa a ser institucional.</p>

<p> </p>

<p>Também chama atenção a transversalidade do desgaste. A defesa do afastamento aparece em patamar elevado entre homens e mulheres, jovens e idosos, menos e mais escolarizados. Entre os homens, 79,0% defendem que Cristina se afaste; entre as mulheres, 77,2%. Entre os eleitores de 25 a 44 anos, o índice é de 79,6%; entre os de 60 anos ou mais, 76,7%. Ou seja: não há um único segmento isolado puxando o resultado. O sentimento atravessa praticamente toda a cidade.</p>

<p> </p>

<p>O recorte mais expressivo aparece na ocupação. Entre a população ocupada, 86,5% defendem o afastamento voluntário, contra 65,0% entre os não ocupados. No pedido de afastamento pela Câmara, a diferença também é forte: 87,3% entre ocupados, contra 67,6% entre não ocupados. Isso sugere que o desgaste do governo é especialmente intenso entre aqueles que estão mais diretamente conectados à rotina econômica da cidade.</p>

<p> </p>

<p>Outro dado é ainda mais revelador. Caso a prefeita se afaste ou seja afastada, 70,1% preferem nova eleição, enquanto apenas 18,0% defendem que o vice-prefeito assuma. Essa resposta indica que a insatisfação não está restrita à figura pessoal de Cristina. Ela atinge o arranjo político que governa Mongaguá.</p>

<p> </p>

<p>O eleitor parece dizer: não basta trocar a pessoa na cadeira; é preciso devolver a decisão às urnas.</p>

<p> </p>

<p>Mas há uma contradição importante. Quando perguntados espontaneamente em quem votariam se houvesse nova eleição, 46,6% respondem “ninguém” e 43,5% dizem não saber. Quase nove em cada dez eleitores não indicam espontaneamente uma alternativa de poder.</p>

<p> </p>

<p>Este talvez seja o ponto mais sofisticado do levantamento. Mongaguá vive, ao mesmo tempo, uma crise de governo e uma crise de representação. O governo perdeu sustentação social. A oposição, por sua vez, ainda não converteu esse colapso em liderança natural.</p>

<p> </p>

<p>Cristina Wiazowski venceu como símbolo de renovação. Menos de um ano depois, a cidade parece não discutir mais como seu governo deve continuar, mas se ele deve continuar.</p>

<p> </p>

<p>Essa é a mensagem central da pesquisa. E ela é politicamente contundente.</p>

<p> </p>

<p><img src="https://cdn.bs9.com.br/upload/dn_arquivo/2026/05/whatsapp-image-2026-05-30-at-220502.jpeg" style="height:200px; width:200px" /></p>

<p><strong>*Maurício Juvenal</strong> <em>é jornalista, mestre em Letras, mestrando em Ciências Políticas e Relações Internacionais pelo IDP – Brasília e consultor em análise de dados do Instituto Badra</em></p>

<p> </p>
]]></content>
                                    <category term="Maurício Juvenal" />
                        <published>2026-06-08T03:01:00+00:00</published>
            <updated>2026-07-13T19:43:48+00:00</updated>
        </entry>
            <entry>
            <title><![CDATA[São Paulo nunca é apenas São Paulo!]]></title>
            <link rel="alternate" href="https://www.bs9.com.br/coluna/mauricio-juvenal/2026/06/04/sao-paulo-nunca-e-apenas-sao-paulo.html" />
            <id>https://www.bs9.com.br/019f5cd7-1d60-7286-9b73-40c283f3f5c5</id>
            <author>
                <name><![CDATA[Maurício Juvenal]]></name>
            </author>
            <summary type="html">
                <![CDATA[Maior colégio eleitoral do País, responsável por mais de um quinto do eleitorado brasileiro, o Estado costuma antecipar tendências nacionais, consolidar lideranças e, não raramente, definir os contorn...]]>
            </summary>
            
                        <content type="html"><![CDATA[<p>Maior colégio eleitoral do País, responsável por mais de um quinto do eleitorado brasileiro, o Estado costuma antecipar tendências nacionais, consolidar lideranças e, não raramente, definir os contornos do debate político brasileiro.</p>

<p> </p>

<p>Não por acaso, a mais recente pesquisa realizada pelo Instituto Badra revela muito mais do que simples intenções de voto. Ela captura um momento de transição, de reacomodação de forças e de redefinição das narrativas que deverão conduzir a disputa eleitoral de outubro.</p>

<p> </p>

<p>Como toda pesquisa eleitoral, o levantamento representa uma fotografia do momento. Mas algumas fotografias registram momentos comuns; outras capturam instantes de inflexão. Os números encontrados em São Paulo parecem pertencer à segunda categoria.</p>

<p> </p>

<p>Na corrida pelo Palácio dos Bandeirantes, Tarcísio de Freitas mantém a liderança. Com 36,7% das intenções de voto no cenário estimulado, o governador conserva posição privilegiada na disputa. Entretanto, a vantagem de 7,7 pontos sobre Fernando Haddad, que registra 29,0%, está longe de representar uma situação de conforto eleitoral.</p>

<p> </p>

<p>A principal leitura dos números não está na liderança de Tarcísio, mas na redução do espaço que separa governo e oposição. A distância entre ambos já não traduz a ampla superioridade observada em outros momentos da trajetória recente da direita paulista. Ao contrário, sugere uma disputa competitiva, aberta e sujeita a fortes oscilações nos próximos meses.</p>

<p> </p>

<p>O ambiente político ajuda a explicar esse movimento.</p>

<p> </p>

<p>Nos últimos meses, uma sucessão de acontecimentos retirou do governo estadual parte da capacidade de controlar a agenda pública. A privatização da Sabesp, inicialmente apresentada como símbolo da modernização administrativa, passou a conviver com reclamações sobre qualidade dos serviços e aumentou o espaço para críticas da oposição. Paralelamente, episódios envolvendo a atuação policial ampliaram o debate sobre segurança pública e proporcionalidade do uso da força, tema historicamente sensível para o eleitor paulista.</p>

<p> </p>

<p>A isso soma-se a repercussão política do caso envolvendo o Banco Master, Daniel Vorcaro e setores do bolsonarismo nacional, particularmente Flávio Bolsonaro. Ainda que os impactos eleitorais sejam difíceis de mensurar isoladamente, o episódio produz desgaste sobre um campo político que, até recentemente, conseguia pautar o debate quase exclusivamente a partir de temas econômicos e de segurança.</p>

<p> </p>

<p>Também merece atenção o reposicionamento internacional provocado pelo novo tarifaço anunciado por Donald Trump. A proximidade política e ideológica frequentemente demonstrada por lideranças da direita brasileira em relação ao ex-presidente norte-americano acaba incorporando ao debate local discussões que transcendem as fronteiras do Estado e afetam diretamente setores produtivos paulistas.</p>

<p> </p>

<p>Nenhum desses fatores, isoladamente, explica o atual cenário. Em conjunto, porém, ajudam a compreender por que a vantagem governista se mostra hoje menos robusta do que aparentava há poucos meses.</p>

<p> </p>

<p>Do outro lado da disputa, a esquerda encontra razões para comemorar, mas também obstáculos importantes.</p>

<p> </p>

<p>O principal ativo eleitoral continua sendo Lula.</p>

<p> </p>

<p>A pesquisa revela o petista abrindo vantagem próxima de dez pontos em São Paulo. Trata-se de um dado politicamente relevante porque o Estado, historicamente, nunca foi terreno simples para o lulismo. Quando Lula cresce em São Paulo, cresce também a capacidade de transferência de votos para candidaturas associadas ao seu campo político.</p>

<p> </p>

<p>Nesse contexto, Fernando Haddad surge como beneficiário direto desse movimento. Sua aproximação em relação a Tarcísio parece decorrer não apenas de méritos próprios ou dificuldades do adversário, mas também do fortalecimento do ambiente nacional favorável ao governo federal entre parcelas importantes do eleitorado.</p>

<p> </p>

<p>Contudo, seria precipitado concluir que o caminho está livre para a oposição.</p>

<p> </p>

<p>A indefinição em torno da composição da chapa majoritária ainda representa um desafio para o PT. Além disso, o Governo Federal continua convivendo com um problema estrutural que aparece de forma recorrente nas pesquisas qualitativas realizadas em todo o País: o elevado nível de endividamento das famílias brasileiras. Em política, percepção econômica frequentemente vale mais do que indicadores macroeconômicos. E parte significativa do eleitorado ainda associa dificuldades financeiras ao Governo Federal.</p>

<p> </p>

<p>É justamente por isso que o cenário paulista permanece aberto.</p>

<p> </p>

<p>Tarcísio lidera, mas já não lidera sozinho o debate público. Haddad cresce, mas ainda precisa converter ambiente favorável em consolidação eleitoral. O governador conserva musculatura administrativa, visibilidade institucional e estrutura política. O adversário dispõe da força eleitoral de Lula e de um contexto que, neste momento, parece mais favorável à oposição do que ao governo.</p>

<p> </p>

<p>A disputa para o Senado reforça a percepção de fragmentação.</p>

<p> </p>

<p>Os diferentes cenários testados revelam um quadro extremamente embolado, sem hegemonias estabelecidas e com elevado potencial de movimentação ao longo da campanha. Marcio França aparece em posição de destaque em alguns cenários, mas divide espaço com nomes competitivos como Guilherme Derrite, Simone Tebet e André do Prado.</p>

<p> </p>

<p>O quadro sugere que a corrida pelas duas vagas senatoriais permanece em estágio de formação, sem candidaturas capazes de monopolizar preferências ou construir favoritismo definitivo.</p>

<p> </p>

<p>Nas disputas proporcionais, o comportamento do eleitorado reproduz fenômeno semelhante.</p>

<p> </p>

<p>Celso Russomanno segue demonstrando força de lembrança e capacidade de mobilização eleitoral para a Câmara Federal. Ao mesmo tempo, nomes como Ana Carolina Oliveira e Tabata Amaral ocupam espaços relevantes em segmentos distintos do eleitorado. Chama atenção ainda a presença de José Luiz Datena entre os mais lembrados, demonstrando que notoriedade pública continua sendo ativo importante em eleições proporcionais.</p>

<p> </p>

<p>Para a Assembleia Legislativa, o destaque de Caio França evidencia o potencial eleitoral de pautas emergentes, especialmente aquelas relacionadas à Cannabis Medicinal, tema que vem ampliando seu alcance para além dos nichos tradicionalmente envolvidos no debate. Ana Carolina Serra e Bruna Furlan também aparecem posicionadas de forma competitiva, indicando uma disputa estadual bastante pulverizada.</p>

<p> </p>

<p>A quatro meses da eleição, portanto, a principal conclusão não é quem está ganhando.</p>

<p> </p>

<p>A principal conclusão é que São Paulo voltou a ter disputa.</p>

<p> </p>

<p>O governador segue na dianteira, mas já não desfruta da ampla tranquilidade que costuma acompanhar candidatos à reeleição. A oposição encontrou espaço para crescer e demonstra capacidade de transformar acontecimentos recentes em narrativa política. Enquanto isso, a definição do Senado permanece aberta e as eleições proporcionais seguem altamente fragmentadas.</p>

<p> </p>

<p>Na política, existe uma máxima antiga segundo a qual eleição não se vence na largada, mas pode começar a ser perdida nela.</p>

<p> </p>

<p>Os números encontrados pelo Instituto Badra indicam que ninguém perdeu a eleição paulista. Mas também revelam que ninguém, absolutamente ninguém, pode considerá-la ganha.</p>

<p> </p>

<p><img src="https://cdn.bs9.com.br/upload/dn_arquivo/2026/05/whatsapp-image-2026-05-30-at-220502.jpeg" style="height:200px; width:200px" /></p>

<p><strong><em>*Maurício Juvenal é jornalista, mestre em Letras, mestrando em Ciências Políticas e Relações Internacionais pelo IDP – Brasília e consultor em análise de dados do Instituto Badra</em></strong></p>
]]></content>
                                    <category term="Maurício Juvenal" />
                        <published>2026-06-04T20:31:00+00:00</published>
            <updated>2026-07-13T19:43:48+00:00</updated>
        </entry>
            <entry>
            <title><![CDATA[Direita avança, mas eleitor sem rótulo ideológico revela a complexidade política da Baixada Santista]]></title>
            <link rel="alternate" href="https://www.bs9.com.br/coluna/mauricio-juvenal/2026/05/31/direita-avanca-mas-eleitor-sem-rotulo-ideologico-revela-a-complexidade-politica-da-baixada-santista.html" />
            <id>https://www.bs9.com.br/019f5cd7-1d5a-73e0-8453-6d266375c545</id>
            <author>
                <name><![CDATA[Maurício Juvenal]]></name>
            </author>
            <summary type="html">
                <![CDATA[Por trás dos números consolidados, da pesquisa do Instituto Badra, das nove cidades da Baixada Santista existe uma realidade mais complexa do que a simples predominância da direita. Embora 34% dos ent...]]>
            </summary>
            
                        <content type="html"><![CDATA[<p>Por trás dos números consolidados, da pesquisa do Instituto Badra, das nove cidades da Baixada Santista existe uma realidade mais complexa do que a simples predominância da direita. Embora 34% dos entrevistados se identifiquem com esse campo ideológico, o levantamento mostra que a região está longe de apresentar um comportamento político homogêneo.</p>

<p> </p>

<p>A primeira conclusão é pra lá de evidente e esperada a olho nu: a direita tornou-se a principal identidade política da Baixada Santista. Ela lidera isoladamente o ranking regional e aparece à frente da esquerda e do centro em todos os municípios pesquisados. Em cidades como Bertioga, Santos e São Vicente, a identificação com a direita supera com folga a marca dos 35%, demonstrando uma consolidação de valores políticos mais associados ao conservadorismo, à segurança pública, ao empreendedorismo e à rejeição de pautas tradicionalmente vinculadas à esquerda.</p>

<p> </p>

<p>Entretanto, a segunda conclusão talvez seja ainda mais importante. O segundo maior grupo político da região não é a esquerda e nem o centro. É formado pelos eleitores que afirmam não possuir ideologia predominante. São quase 26% dos entrevistados, um contingente que se aproxima do tamanho do próprio eleitorado de direita.</p>

<p> </p>

<p>Esse dado sugere uma transformação silenciosa do comportamento eleitoral. Uma parcela crescente da população não se reconhece nas categorias ideológicas tradicionais e tende a fazer escolhas mais pragmáticas, avaliando governos, lideranças e resultados concretos antes de aderir a um campo político específico.</p>

<p> </p>

<p>A geografia política da Baixada talvez também ajude a compreender o fenômeno.</p>

<p> </p>

<p>No eixo formado por Santos, São Vicente e Praia Grande, observa-se um eleitorado mais claramente identificado com a direita. Santos apresenta o maior percentual de eleitores de direita entre as grandes cidades da região, enquanto São Vicente e Praia Grande acompanham essa tendência. Trata-se de municípios com forte dinâmica econômica, maior urbanização e intensa exposição ao debate político nacional, fatores que ajudam a explicar uma definição ideológica mais consolidada.</p>

<p> </p>

<p>Já no Litoral Sul, especialmente em Itanhaém, Mongaguá e Peruíbe, surge um cenário diferente. Embora a direita também lidere, cresce significativamente o número de pessoas que rejeitam qualquer classificação ideológica. Em Itanhaém, por exemplo, mais de um terço dos entrevistados afirma não possuir ideologia predominante. O fenômeno sugere um eleitorado mais influenciado por lideranças locais, pela avaliação dos governos municipais e por demandas práticas do cotidiano do que por disputas ideológicas nacionais.</p>

<p> </p>

<p>Cubatão ocupa uma posição singular dentro da Baixada Santista. Historicamente associada ao movimento sindical e às organizações de trabalhadores ligadas ao polo industrial, a cidade continua sendo o município em que a esquerda apresenta desempenho mais competitivo em relação à direita. Ainda assim, mesmo ali o campo conservador mantém vantagem numérica, evidenciando que as transformações observadas no eleitorado brasileiro nos últimos anos também alcançaram o principal reduto operário da região.</p>

<p> </p>

<p>O Guarujá, por sua vez, aparece como um retrato intermediário. A cidade combina presença relevante da direita, percentual expressivo de eleitores sem identidade ideológica definida e um desempenho da esquerda próximo à média regional. O resultado indica um eleitorado mais fragmentado e menos previsível do que o observado em cidades como Santos ou Bertioga.</p>

<p> </p>

<p>Outro aspecto relevante é a fragilidade do centro político. Apenas 16,3% dos entrevistados se identificam como eleitores de centro. Historicamente, o centro costumava funcionar como espaço de convergência dos moderados e dos eleitores independentes. Hoje, entretanto, parte desse eleitorado parece migrar para o grupo dos que afirmam não possuir ideologia predominante, reduzindo o peso das classificações tradicionais.</p>

<p> </p>

<p>O retrato que emerge da pesquisa é o de uma Baixada Santista predominantemente inclinada à direita, mas marcada por um elevado contingente de eleitores independentes. Isso significa que, embora exista uma direção ideológica clara na região, os resultados eleitorais continuam fortemente dependentes da avaliação de governos, da credibilidade das lideranças locais e da capacidade dos candidatos de dialogar com um grande grupo de cidadãos que não se vê representado por nenhum rótulo político. E está aí a palavrinha mágica para a próxima eleição: representação. Quem convencer o eleitor de que pode cumprir bem esse papel, certamente sairá vitorioso das urnas.</p>

<p> </p>

<p>Em outras palavras, a Baixada Santista de 2026 não é apenas uma região mais à direita. É também uma região cada vez mais pragmática.</p>

<p> </p>

<p><img alt="" src="https://cdn.bs9.com.br/upload/dn_arquivo/2026/05/whatsapp-image-2026-05-30-at-220502.jpeg" style="height:200px; width:200px" /></p>

<p><strong><em>Maurício Juvenal é jornalista, mestre em Letras e mestrando em Ciências Políticas e Relações Internacionais pelo Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP), de Brasília </em></strong></p>

<p> </p>
]]></content>
                                    <category term="Maurício Juvenal" />
                        <published>2026-05-31T03:01:00+00:00</published>
            <updated>2026-07-13T19:43:48+00:00</updated>
        </entry>
            <entry>
            <title><![CDATA[A preservação da vida como fator comum]]></title>
            <link rel="alternate" href="https://www.bs9.com.br/coluna/mauricio-juvenal/2023/04/18/a-preservacao-da-vida-como-fator-comum.html" />
            <id>https://www.bs9.com.br/019f5cd7-157e-7347-946c-589e8e551885</id>
            <author>
                <name><![CDATA[Maurício Juvenal]]></name>
            </author>
            <summary type="html">
                <![CDATA[Maurício Juvenal é jornalista, mestre em Letras, secretário de Governo de Mogi das Cruzes e ex-secretário de Planejamento e Gestão do Estado de São Paulo.]]>
            </summary>
            
                        <content type="html"><![CDATA[<p>Não deve haver cidadão, de bem, que não venha assistindo com especial atenção e preocupação esse momento de explícita fragilidade ao qual a sociedade brasileira está exposta. Sem exagero algum, ataques a escolas e consequentemente a pessoas se traduzem, na prática, em afronta à vida, num duelo fatal estabelecido entre o ser próprio e o ser próximo.</p>

<p>Muito se tem falado sobre o tema nos últimos dias, por motivos óbvios, e com intenso movimento de cobrança aos atores políticos, nas três esferas de poder, como se tudo fosse fruto exclusivamente da inércia e da falta de capacidade do gestor público, o ser político, em fazer das unidades de ensino um lugar de acolhida e sobretudo de proteção da comunidade escolar.</p>

<p>Tem parcial razão quem pensa assim. Mas só parcial. A escola jamais poderia ser vista como um espaço ou equipamento de repressão e controle do pensar-pulsar humano. Escolas transformadas em quartéis ou agências bancárias, com detectores de metal e cercas concertinas em todo seu contorno, atestam sim o fracasso da política enquanto “arma” eficaz de resolução dos problemas da sociedade, mas revelam tristemente – ainda que não queiramos ver e admitir – a incapacidade das famílias em trabalhar valores e comportamentos sociais apropriados.</p>

<p>E assim, no território das cidades, do Monte Caburaí ao Arroio Chuí, identificamos olhares perplexos, mentes preocupadas, corações cortados como resultado de um estado-sensação de alerta permanente: quando e onde acontecerá o próximo ataque? A ideia da escola como segundo lar, como extensão da própria casa, está em xeque. Em xeque pela ação de terroristas eletrônicos que muitas vezes se escondem no cômodo ao lado, em nossas próprias casas.</p>

<p>A qualidade das relações interpessoais no seio de boa parte das famílias está prejudicada e comprometida. A escola só será de fato a segunda casa de seus alunos, quando a casa for, antes de tudo, a primeira escola na vida e na percepção de cada um deles. A família e a escola, a política e os governos, não podem mais permitir que a internet se transforme no principal espaço de interação social de crianças e jovens.</p>

<p>Não são poucos os levantamentos de dados que já demostraram que comportamentos de violência e preconceito na internet estão diretamente conectados a violências estruturais que acontecem em outros espaços da sociedade.</p>

<p>E é exatamente aí que a boa política tem papel preponderante, devendo ir muito além do direcionamento de recursos, efetivos e equipamentos que acabam por transformar os portões das escolas em <em>portcullis, </em>aqueles robustos gradeados de ferro, dotados de lanças pontiagudas em sua base, normalmente encontrados em fortificações medievais, cujo papel principal era o de dificultar ao máximo o acesso. Escola tem que ser, sempre, um lugar de porta e portões abertos.</p>

<p>Em Mogi das Cruzes, a Escola Municipal Coronel Almeida desenvolve de modo orgânico um projeto denominado “Cultura da Paz” que, entre outros, transita pela construção junto ao alunado de um senso crítico que colabore para o uso seguro e responsável da internet e das tecnologias. Espelha em muito a proposta da própria Secretaria Municipal de Educação, que constitui um grupo de trabalho que discute e amplifica o debate em torno da linguagem não violenta, do <em>bullying</em> e do <em>cyberbullying, </em>da promoção de uma convivência baseada na valorização da diversidade e, o mais importante, no estímulo para que cada escola desenvolva uma parceria efetiva com as famílias de seus alunos, estabelecendo relações simétricas e de corresponsabilidade com os pais, oferecendo a eles espaços de reflexão sobre as questões que vivenciam com seus filhos.</p>

<p>O papel da política e dos governos não pode ser o de armar para o combate. Mas, sim, o de estruturar soluções que lhes tirem o propósito. Como acontece em Mogi das Cruzes, numa ação que aponta para a importância de preparar os estudantes para lidar com o mundo digital: em sua forma, em suas oportunidades e em seus riscos.</p>

<p>O próprio Marco Civil da Internet e a Base Nacional Comum Curricular dispõem sobre a importância do desenvolvimento de competências e habilidades relacionadas ao uso responsável, crítico e seguro das tecnologias digitais nas práticas pedagógicas e educacionais.</p>

<p>A equação está posta: governos + famílias + escolas. E o fator comum todos nós bem sabemos qual é.</p>
]]></content>
                                    <category term="Maurício Juvenal" />
                        <published>2023-04-18T03:00:00+00:00</published>
            <updated>2026-07-13T19:43:19+00:00</updated>
        </entry>
            <entry>
            <title><![CDATA[Os muitos pecados do ex-tudo, Sergio Fernando Moro]]></title>
            <link rel="alternate" href="https://www.bs9.com.br/coluna/mauricio-juvenal/2022/04/07/os-muitos-pecados-do-ex-tudo-sergio-fernando-moro.html" />
            <id>https://www.bs9.com.br/019f5cd7-140f-7019-92f9-c1037726c4a7</id>
            <author>
                <name><![CDATA[Maurício Juvenal]]></name>
            </author>
            <summary type="html">
                <![CDATA[Maurício Juvenal - Jornalista, especialista em Pesquisa Social e mestre em Letras]]>
            </summary>
            
                        <content type="html"><![CDATA[<p>Sempre olhei para o ex-juiz federal Sergio Moro com um tremendo sentimento de desconfiança. Quando digo sempre, me refiro aos primórdios dos julgamentos, em primeira instância, dos crimes identificados na Operação Lava Jato, há cerca de oito anos.<br />
<br />
Ele sempre adotou um tom mesmo de magistrado, professor, de doutor da razão e dos bons costumes. Um cara acima de toda e qualquer suspeita. A versão brasileira do procurador italiano Antonio Di Pietro, que coordenou a Operação Mãos Limpas. Versão, aliás, cuspida e escarrada, já que ambos trocaram a toga pela política. E o mais engraçado, ambos dando a mesma justificativa, ou seja, dar continuidade à luta contra a corrupção por outros meios.<br />
<br />
Não gostaria de entrar em juízo de valor sobre os processos julgados por Sergio Fernando Moro. Na verdade, porque me parece desnecessário. Tanto esforço, tanta energia, tanto gasto de dinheiro na operação – vale lembrar que ela custou cerca de R$ 16 milhões aos cofres públicos – para terminar de forma melancólica com a “absolvição” do principal réu, o ex-presidente Lula, por incontáveis falhas processuais, vícios de origem e outras coisinhas mais. E aí, ou o petista é de fato inocente ou o ex-juiz se mostrou um baita incompetente ao admitir esse mundaréu de erros.<br />
<br />
Lava Jato à parte, o resto da história a gente meio que já sabe. De juiz implacável com políticos e empresários corruptos, se encantou com o convite para virar Ministro da Justiça, abrindo mão de uma carreira que lhe garantia ganhos vitalícios. Não deu certo e ganhou um novo “ex”. Virou, então, consultor em um escritório que prestava assessoria jurídica para empresas e empresários com nomes envolvidos em crimes de corrupção, algumas das quais que ele mesmo enfrentara enquanto juiz.<br />
<br />
Logo veio a notícia que todos, no fundo, no fundo, já esperavam: Moro candidato à Presidência da República e evocando para si a responsabilidade de ser a “terceira via”, àquela que deixando Lula e Bolsonaro de lado, reuniria tantos quantos partidos fossem necessários para enfrentar a bendita, ou maldita, polarização. Partidos esses, é bom lembrar, rotulados pelo então juiz federal, como quadrilhas organizadas, prontas para assaltar os cofres públicos.<br />
<br />
Bom, tudo isso para dizer que o “bom moço” de Curitiba mostra sua pior face agora, a pior até agora, quero dizer, ao trocar seu domicílio eleitoral para concorrer, por São Paulo, ao cargo de deputado federal pelo União Brasil, a fusão do DEM de Antônio Carlos Magalhães, Filho e Neto, com o PSL, de Bolsonaro, Zero 01, Zero 02, Zero 03... e companhia.<br />
<br />
Mas que mal há nisso? Primeiro que ele não tem residência efetiva no Estado de São Paulo; segundo, que aceita se tornar puxador de votos no melhor estilo Tiririca. Como o maior colégio eleitoral do País é de São Paulo, quer ser campeão de votos e assim ajudar a eleger gente que não tem votos suficientes para se eleger. <br />
<br />
Sim, é verdade. Moro não é culpado pelos vícios de origem do sistema eleitoral, onde os mais votados nem sempre são eleitos. Mas é de uma cara de pau fazer isso com o respeitado eleitor paulista e brasileiro. Costumo dizer e entender que peca mais quem conhece as escrituras. Em tese, Moro é um homem da lei, no caso dele com “éle” minúsculo mesmo, mas é um homem da lei. E não se furta, nem por isso, a tratá-la do modo mais grosseiro e ilegítimo que existe. Oportunismo político barato e de mau gosto.<br />
<br />
Aos nossos leitores do BS9, não custa lembrar que ele faz toda essa troca a convite e tendo como padrinho um deputado federal que representa a nossa região da Baixada Santista e do Vale do Ribeira, o ex-vereador vicentino Júnior Bozzella, que se elegeu graças ao fenômeno eleitoral Bolsonaro e que pouco tempo depois abandonou seu presidente, passando a fazer ferrenha oposição. Bozzella é o principal responsável pela versão paulista de Moro. Os dois de fato devem ter muito em comum.<br />
<br />
Cabe aos eleitores paulistas darem, nas urnas, em 2 de outubro, a resposta. O “ex” candidato à presidência Sergio Moro, ex-juiz, ex-ministro, ex-consultor, ex-candidato à presidência, merece de nós o título de “candidato derrotado, por São Paulo, à Câmara Federal”. Oportunismo eleitoral com a gente não. Com São Paulo não se brinca, ex-excelência. Com um pouquinho de capacidade de se envergonhar, o conselho, do Dr. Moro, é que o senhor abandone a vida pública. Opa, é claro, o senhor está morrendo de medo de ficar sem uma possível, mas pra lá de necessária, imunidade parlamentar. Dá para entender. Ver o sol nascer quadrado não deve mesmo ser lá muito agradável.</p>

<p> </p>
]]></content>
                                    <category term="Maurício Juvenal" />
                        <published>2022-04-07T03:00:00+00:00</published>
            <updated>2026-07-13T19:43:10+00:00</updated>
        </entry>
            <entry>
            <title><![CDATA[Você já pensou em vender o seu voto?]]></title>
            <link rel="alternate" href="https://www.bs9.com.br/coluna/mauricio-juvenal/2022/03/07/voce-ja-pensou-em-vender-o-seu-voto.html" />
            <id>https://www.bs9.com.br/019f5cd7-13ea-712e-a409-4283bbae4495</id>
            <author>
                <name><![CDATA[Maurício Juvenal]]></name>
            </author>
            <summary type="html">
                <![CDATA[Maurício Juvenal - Jornalista, especialista em Pesquisa Social e mestre em Letras]]>
            </summary>
            
                        <content type="html"><![CDATA[<p>Eu sei, a pergunta soa mais do que politicamente incorreta. E, portanto, já deixo claro que não estou sugerindo nada nesse sentido. Muito pelo contrário.<br />
Mas é obvio que em ano de eleições, como esse, de 2022, fazer alguns exercícios de raciocínio e de reflexão sobre o cenário político-eleitoral parece algo muito bem-vindo.</p>

<p>Eu sei que vou chatear parte da classe política, obviamente entre os que tiverem acesso a esse artigo. Alguns vão até dizer que estou dando tiro no pé, afinal de contas, minha atividade final, hoje, tem muito a ver com política e eleições. Nenhum problema. No fundo no fundo, a gente é o que a gente pensa, ainda que vivamos escondendo nossos pensamentos, até como forma de sobrevivência.</p>

<p>A motivação número 1 para eu escrever sobre esse tema é a recente decisão do Supremo Tribunal Federal, por 9 votos a 2, de manter o fundo eleitoral para 2022 em R$ 4,9 bilhões. Dinheiro nosso, dos impostos que a gente paga, e que na prática será utilizado para bancar campanhas políticas.</p>

<p>Simples assim: parte do que o governo arrecada com os impostos que a gente paga é destinada para viabilizar a campanha deles, os políticos. São R$ 4.900.000.000,00 divididos por 147.586.338 eleitores, conforme dados do TSE, de fevereiro de 2022. Cada voto vale, portanto, R$ 33,20. E isso só de Fundo Eleitoral (FE). Nessa matemática nem entra o Fundo Partidário (FP).</p>

<p>O FP é distribuído às siglas anualmente, e é composto por dotações orçamentárias da União, multas e penalidades pecuniárias de natureza eleitoral, doações de pessoas físicas depositadas diretamente nas contas dos partidos (aquelas específicas para o Fundo) e outros recursos que eventualmente forem atribuídos por lei.</p>

<p>Já o FE, desse que estamos falando agora, foi criado em 2017 pelas leis 13.487 e 13.488, aprovadas pelo Congresso Nacional. O total de recursos deste fundo é definido pela LOA - Lei Orçamentária Anual. Com a proibição de doações de pessoas jurídicas estabelecida por decisão do STF de 2015, o Fundo Eleitoral tornou-se uma das principais fontes de receita para a realização das campanhas eleitorais. Mas, só entre nós: você acredita mesmo que as empresas não continuam doando recursos para campanhas?</p>

<p>Agora veja que coisa. Em 2021, o Executivo, no caso a Presidência da República, do capitão Jair Bolsonaro, enviou ao Congresso a LDO - Lei de Diretrizes Orçamentárias - para 2022. Naquele texto, a verba do fundo eleitoral foi prevista em R$ 2 bilhões. Acontece que o Congresso, por meio de emendas, alterou a fórmula de cálculo do FE e estabeleceu um teto para ele, o que poderia chegar a um montante de R$ 5,7 bilhões. Para se ter uma ideia, o valor do FE para 2022 equivale a aumento de R$ 3,2 bilhões sobre o praticado em 2018, uma alta de quase 200%.</p>

<p>O mais interessante é o jogo de cena, e nesse caso envolvendo os três poderes. Veja se o meu raciocínio está errado: o Poder Executivo envia proposta para um Fundo Eleitoral de R$ 2 bilhões, ou seja, R$ 300 milhões a mais do que em 2018. No Legislativo, deputados e senadores entendem que é pouco e mexem no dispositivo legal possibilitando um Fundo de até R$ 5,7 bilhões. Bolsonaro chia, diz que não vai dar, que não aceita e “veta” o aumento, a essa altura, de acordo com a Lei Orçamentária Anual (LOA), estipulado em R$ 4,9 bilhões. Os parlamentares derrubam o veto e fica, portanto, valendo os R$ 4,9 bi. A cartada final: um dos partidos, o Novo, aciona o Supremo e questionando o dispositivo da LDO de 2022 (aquele com o novo cálculo). A legenda defende que, para além da imoralidade que representa destinar bilhões para financiar as campanhas eleitorais em 2022, o dispositivo é formalmente inconstitucional. Para o Novo, a alteração do cálculo se deu através de flagrante vício de iniciativa, uma vez que é da competência privativa do Executivo a submissão ao Parlamento do projeto da LDO. O STF, Poder Judiciário, discorda da tese do Novo, e consagra, bate o martelo, no valor de R$ 4,9 bilhões.</p>

<p>Eu até sei que parece confuso, que é um tema chato, e que no “Brasil é assim mesmo”. Mas não dá, gente. Não dá para tirar dinheiro do povo para bancar campanha política. Na real, no papo reto, é isso, ainda que a classe política adore formular e formatar discursos prontos tentando explicar essa bagaça com uma linda roupagem, achando que vai convencer alguém. E prestem bem atenção: vamos ver se o Novo vai devolver o dinheiro do Fundo Eleitoral, afinal de contas, não adianta recorrer ao Supremo e, em sendo voto vencido, ainda assim fazer uso do dinheiro.</p>

<p>É meio que em tom de revolta que eu conto toda essa história pra vocês. Executivo, Legislativo e Judiciário vão, ao longo de todo esse ano, gastar uma baita grana para orientar você a não vender o seu voto. Vão dizer que o voto é ferramenta da democracia, da mudança e a única coisa que você tem que tem o mesmo valor que o de qualquer outro cidadão, do mais pobre ao mais rico, do gari ao presidente. Mas não é bem assim. Eles, os representantes dos três poderes, já colocaram preço no seu voto. O resto é conversa fiada, pra eleitor dormir.</p>

<p>E como tem conversa. Logo voltaremos a ela, mas em episódios, para fazer coro com as séries disponíveis hoje. O próximo já tem título: “O eleitor do político de janela”.</p>
]]></content>
                                    <category term="Maurício Juvenal" />
                        <published>2022-03-07T03:00:00+00:00</published>
            <updated>2026-07-13T19:43:09+00:00</updated>
        </entry>
            <entry>
            <title><![CDATA[Aos “cretinos” nossos de cada dia]]></title>
            <link rel="alternate" href="https://www.bs9.com.br/coluna/mauricio-juvenal/2022/02/07/aos-cretinos-nossos-de-cada-dia.html" />
            <id>https://www.bs9.com.br/019f5cd7-13c8-712f-b1c1-e59ee66a2d9e</id>
            <author>
                <name><![CDATA[Maurício Juvenal]]></name>
            </author>
            <summary type="html">
                <![CDATA[Maurício Juvenal - Jornalista, especialista em Pesquisa Social e mestre em Letras]]>
            </summary>
            
                        <content type="html"><![CDATA[<p>Não sei se acontece com muito mais gente, mas meu processo criativo (estou me achando, né?), e também o decisório, em geral se dão no meu banho matinal. A Sabesp que não me ouça, mas acabo por consumir uns bons litros a mais de água enquanto penso, crio e decido sobre as atividades diversas que terei de lidar ao longo do dia.</p>

<p>Hoje, mas não sei por que cargas d’água, ou talvez até saiba, acordei com o termo cretino na cabeça. E o levei para o banho comigo. É possível que seja resultado do balanço semanal, durante aquele banho de domingo, quando a gente avalia como foi a semana que passou e começa a se preparar para a atual.</p>

<p>Corpo lavado, fui ao dicionário. Cretino é um adjetivo substantivo masculino. Putz: masculino! Tem de fato tudo a ver. Há muito mais cretinos homens no mundo, do que mulheres. E disso eu não tenho dúvidas. Por definição, cretino é o que ou quem sofre de cretinismo, que age de modo imbecil, idiota ou inconvenientemente; que se apresenta de modo desrespeitoso. Fala a verdade: te veio ou não alguém na cabeça?</p>

<p>Importante deixar claro aqui que não me refiro ao cretinismo que a medicina aponta como deficiência mental causada pelo hipotiroidismo congênito, em geral durante o desenvolvimento do recém-nascido, quando a ausência do hormônio tiroxina atrapalha o amadurecimento cerebral. É um estado patológico nesse caso, doença mesmo.</p>

<p>Me refiro aqui a um outro tipo de cretinismo e que coincidente também decorre da falta de amadurecimento, mas, no caso, de amadurecimento de caráter. Uma “doença” providencial e que acomete aqueles que, sem um pingo de vergonha na cara, percorrem seus dias e sua existência na terra produzindo todo tipo de pilantragem, esperteza, enganação, inadimplência, calote.</p>

<p>Alguns se revestem de lobo em pele de cordeiro, carregam um terço no retrovisor do carro e usam o nome de Nossa Senhora como se ela fosse a supermãe a orientá-los e protegê-los. É em geral a máscara que usam para aplicar seus golpes. Falam em Deus e santidade o tempo todo, acreditando assim pecarem com uma reserva de perdão já garantida. Enganam, furtam, constrangem e incomodam, pois, vivem a suplicar por migalhas e atenção, porque o produto de suas enganações se vai com a mesma facilidade que vem. </p>

<p>Mas há também os cretinos cujo amadurecimento cerebral foi tanto, que passou do ponto. Se tornaram professores, advogados, filhos de pai promotores, com sobrenome pomposo e aí se sentem à vontade para aplicarem todo tipo de golpe. Ora nomeados em cargos públicos aqui, ora nomeados em cargos públicos ali, não possuem qualquer tipo de linha ideológica. São em geral preguiçosos, não afeitos ao batente, até bons de conversa, mas vendem a mãe, a filha e seja lá o que for quando o objetivo é enganar. Em comum com o outro tipo, o fato de irem à missa, professarem a sua fé.</p>

<p>Mas há, também, os cretinos com mandato. Esses sequer amadureceram, no cérebro e no caráter. São tomados pelo mal da vaidade, constroem o discurso da origem humilde, compõem o enredo de filhos de pais trabalhadores, que venceram todas as dificuldades e então ascenderam ao poder. E chegando lá sentam-se no trono da soberba. Consideram-se tão poderosos que acreditam ter o direito de definir e decidir como as pessoas devem avaliá-los. E se o resultado for contrário ao que acreditam, ou se calam ou sorrateiramente passam a desacreditar o carteiro, como se ele fosse o responsável pela má notícia. Esse tipo de cretino também se apresenta como religioso e crente a Deus.</p>

<p>Vocês vão dizer que há um certo azedume em minhas palavras. Eu, humildemente, sugiro olhar no entorno. Vão descobrir que há um montão de cretinos que nos cercam no dia a dia. A boa notícia: eles são em quantidade infinitamente menor do que as pessoas “gente boa”, que vivem da prática do bem e da solidariedade e da generosidade. Ao contrário de alguns cretinos jornalistas, advogados e políticos, esses outros seres jornalistas, advogados e políticos – digo de novo, em maior quantidade – compensam a ofensa que os cretinos fazem à vida e à boa existência.</p>

<p>Recorro a uma frase do escritor italiano Cesare Pavese, em “Il Mistere di Vivere”, para um lembrete a esses nossos cretinos de cada dia: “as desgraças não bastam para fazer de um cretino uma pessoa inteligente”. Mas também não dá para, nesse momento, não lembrar de Nelson Rodrigues: “Nada mais cretino e mais cretinizante do que a paixão política. É a única paixão sem grandeza, a única que é capaz de imbecilizar o homem”.</p>

<p>Vai um cretino aí?</p>

<p> </p>
]]></content>
                                    <category term="Maurício Juvenal" />
                        <published>2022-02-07T03:00:00+00:00</published>
            <updated>2026-07-13T19:43:09+00:00</updated>
        </entry>
            <entry>
            <title><![CDATA[O valor do gesto]]></title>
            <link rel="alternate" href="https://www.bs9.com.br/coluna/mauricio-juvenal/2022/01/07/o-valor-do-gesto.html" />
            <id>https://www.bs9.com.br/019f5cd7-127a-7007-8f51-82680b1e5346</id>
            <author>
                <name><![CDATA[Maurício Juvenal]]></name>
            </author>
            <summary type="html">
                <![CDATA[Maurício Juvenal - Jornalista, especialista em Pesquisa Social e mestre em Letras]]>
            </summary>
            
                        <content type="html"><![CDATA[<p>Foi com a satisfação de irmão mais velho coruja que li, na última segunda-feira, dia 6, artigo publicado nesse mesmo espaço sob o título “O valor das palavras”. Baita texto bem escrito, bem estruturado, fundamentado naquilo que muitos acham que o mundo tem de melhor: a fala, o discurso, o texto, a expressão verbal.<br />
 <br />
Não há quem não tenha ao longo da vida escutado frases do tipo “as palavras têm força”; “usam a palavra como arma”; “não diga isso, porque atrai”. É a mais pura verdade e prova disso é que as religiões, em geral, se sustentam pela força das palavras, quando não pelo valor delas. E me refiro, de forma provocativa, ao valor financeiro mesmo, já que não são poucas que costumam “cobrar” pelo socorro espiritual propagado na forma do verbo.<br />
 <br />
E por falar em religião aproveito a oportunidade para sustentar o meu argumento, em favor do gesto, citando o bíblico livro de Tiago, capítulo 2, versículo 26. Lá está: “a fé, sem obras, é morta”. Pouco antes, no versículo 14, o texto é ainda mais objetivo: “Meus irmãos, que interessa se alguém disser que tem fé em Deus e não fizer prova disso através de obras?”.<br />
 <br />
É o Deus racional que alguns carregam, acreditando de fato que uma palavra repetida mil vezes, como o Bom Bril do velho comercial, é capaz de ter mil e uma utilidades, inclusive a de transformar em verdade, o que mentiroso é.<br />
 <br />
A verdade é que palavras se perdem ao vento, mesmo quando perpetuadas em páginas de livros, jornais, revistas ou sites. Palavras variam no tempo e no espaço. Tinham um valor há décadas ou séculos e hoje já têm outro. Têm um sentido no mundo ocidental e outro no mundo oriental. Valem aqui o bastante e lá nada valem.<br />
 <br />
O que de certo modo me incomoda nos que defendem a força, o valor e o vigor das palavras, é justamente a contradição de propor que se for para dizer algo que nada construa, que ofenda o outro, que promova algum tipo de prejuízo material ou moral, que se opte pelo silêncio. Ora ora, se há valor nas palavras e se elas são proferidas de modo a retratar o princípio da verdade, pois verdade não carrega a condição de valor e sim de princípio, optar pelo silêncio, jamais! O silêncio não carrega o dom da parcimônia, propondo que “menos é melhor”. Nem as palavras têm sempre o condão da beligerância, de estado permanente de guerra. Por que silenciar-se então? Comodismo, zona de conforto, omissão, covardia? Que se solte o verbo e que dele se faça carne.<br />
 <br />
O silêncio oferece muitos mais riscos que o livre fluxo de ideias e informações. Aqueles que partem do princípio de que o silêncio se em nada acrescenta em nada prejudica, esquecem-se de que tal postura conduz ao atrofiamento de suas relações com o mundo exterior, às quais ninguém, ninguém, pode prescindir.<br />
 <br />
Isto posto, recorro ao célebre pensamento de Martin Luther King para concordar com meu irmão mais novo, que com competência nos propôs seu artigo, sobre o valor das palavras: “O que me preocupa não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons”.<br />
 <br />
Por isso mesmo eu defendo o valor dos gestos, da entrega, do que é concreto, do que é fato, e não versão. Do que é real, e não opinião. Palavras acrescentam, orientam, ensinam, perturbam, esclarecem, enganam, e tudo na mesma dimensão. Gestos materializam, ainda que possam ser julgados se são para o bem ou se são para o mal.<br />
 <br />
Conhecedor da Palavra, apóstolo de Cristo, Tomé precisou ver para crer: “Se eu não vir a marca dos pregos nas mãos de Jesus, se eu não colocar o meu dedo na marca dos pregos, e se eu não colocar a minha mão no lado dele, eu não acreditarei”. Em palavras, Pedro, outro apóstolo, “pescador de homens”, negou a Cristo por três vezes, mas jamais o fez em gestos e foi a partir dele que Jesus edificou a sua Igreja.<br />
 <br />
Longe de querer desmerecer o valor das palavras, o poder que elas detêm, proponho uma reflexão se o valor que atribuímos às pessoas não deveria estar mais condicionado ao que elas efetivamente fazem, do que ao que elas dizem. Sou do tempo em que a palavra, lastreada no comportamento e no ser, valia mais do que a palavra expressa no contrato.<br />
 <br />
Em defesa do gesto, em defesa do ser, me rendo à poesia de Isolda e Milton Carlos: “Palavras são palavras e a gente nem percebe o que disse sem querer (...), eu tento achar um jeito pra explicar (palavras), você bem que podia me aceitar (gestos), eu sei que eu tenho um jeito meio estúpido de ser, mas é assim que eu sei te amar”.<br />
 <br />
Enfim, declare seu amor, mais do que em palavras, em gestos.<br />
 <br />
<em>*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal BS9</em></p>
]]></content>
                                    <category term="Maurício Juvenal" />
                        <published>2022-01-07T18:57:00+00:00</published>
            <updated>2026-07-13T19:00:52+00:00</updated>
        </entry>
            <entry>
            <title><![CDATA[O valor do gesto]]></title>
            <link rel="alternate" href="https://www.bs9.com.br/coluna/mauricio-juvenal/2021/12/13/o-valor-do-gesto.html" />
            <id>https://www.bs9.com.br/019f5cd7-1374-72f5-960c-ea66cdfb9324</id>
            <author>
                <name><![CDATA[Maurício Juvenal]]></name>
            </author>
            <summary type="html">
                <![CDATA[Maurício Juvenal - Jornalista, especialista em Pesquisa Social e mestre em Letras]]>
            </summary>
            
                        <content type="html"><![CDATA[<p>Foi com a satisfação de irmão mais velho coruja que li, na última segunda-feira, dia 6, artigo publicado nesse mesmo espaço sob o título “O valor das palavras”. Baita texto bem escrito, bem estruturado, fundamentado naquilo que muitos acham que o mundo tem de melhor: a fala, o discurso, o texto, a expressão verbal.<br />
 <br />
Não há quem não tenha ao longo da vida escutado frases do tipo “as palavras têm força”; “usam a palavra como arma”; “não diga isso, porque atrai”. É a mais pura verdade e prova disso é que as religiões, em geral, se sustentam pela força das palavras, quando não pelo valor delas. E me refiro, de forma provocativa, ao valor financeiro mesmo, já que não são poucas que costumam “cobrar” pelo socorro espiritual propagado na forma do verbo.<br />
 <br />
E por falar em religião aproveito a oportunidade para sustentar o meu argumento, em favor do gesto, citando o bíblico livro de Tiago, capítulo 2, versículo 26. Lá está: “a fé, sem obras, é morta”. Pouco antes, no versículo 14, o texto é ainda mais objetivo: “Meus irmãos, que interessa se alguém disser que tem fé em Deus e não fizer prova disso através de obras?”.<br />
 <br />
É o Deus racional que alguns carregam, acreditando de fato que uma palavra repetida mil vezes, como o Bom Bril do velho comercial, é capaz de ter mil e uma utilidades, inclusive a de transformar em verdade, o que mentiroso é.<br />
 <br />
A verdade é que palavras se perdem ao vento, mesmo quando perpetuadas em páginas de livros, jornais, revistas ou sites. Palavras variam no tempo e no espaço. Tinham um valor há décadas ou séculos e hoje já têm outro. Têm um sentido no mundo ocidental e outro no mundo oriental. Valem aqui o bastante e lá nada valem.<br />
 <br />
O que de certo modo me incomoda nos que defendem a força, o valor e o vigor das palavras, é justamente a contradição de propor que se for para dizer algo que nada construa, que ofenda o outro, que promova algum tipo de prejuízo material ou moral, que se opte pelo silêncio. Ora ora, se há valor nas palavras e se elas são proferidas de modo a retratar o princípio da verdade, pois verdade não carrega a condição de valor e sim de princípio, optar pelo silêncio, jamais! O silêncio não carrega o dom da parcimônia, propondo que “menos é melhor”. Nem as palavras têm sempre o condão da beligerância, de estado permanente de guerra. Por que silenciar-se então? Comodismo, zona de conforto, omissão, covardia? Que se solte o verbo e que dele se faça carne.<br />
 <br />
O silêncio oferece muitos mais riscos que o livre fluxo de ideias e informações. Aqueles que partem do princípio de que o silêncio se em nada acrescenta em nada prejudica, esquecem-se de que tal postura conduz ao atrofiamento de suas relações com o mundo exterior, às quais ninguém, ninguém, pode prescindir.<br />
 <br />
Isto posto, recorro ao célebre pensamento de Martin Luther King para concordar com meu irmão mais novo, que com competência nos propôs seu artigo, sobre o valor das palavras: “O que me preocupa não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons”.<br />
 <br />
Por isso mesmo eu defendo o valor dos gestos, da entrega, do que é concreto, do que é fato, e não versão. Do que é real, e não opinião. Palavras acrescentam, orientam, ensinam, perturbam, esclarecem, enganam, e tudo na mesma dimensão. Gestos materializam, ainda que possam ser julgados se são para o bem ou se são para o mal.<br />
 <br />
Conhecedor da Palavra, apóstolo de Cristo, Tomé precisou ver para crer: “Se eu não vir a marca dos pregos nas mãos de Jesus, se eu não colocar o meu dedo na marca dos pregos, e se eu não colocar a minha mão no lado dele, eu não acreditarei”. Em palavras, Pedro, outro apóstolo, “pescador de homens”, negou a Cristo por três vezes, mas jamais o fez em gestos e foi a partir dele que Jesus edificou a sua Igreja.<br />
 <br />
Longe de querer desmerecer o valor das palavras, o poder que elas detêm, proponho uma reflexão se o valor que atribuímos às pessoas não deveria estar mais condicionado ao que elas efetivamente fazem, do que ao que elas dizem. Sou do tempo em que a palavra, lastreada no comportamento e no ser, valia mais do que a palavra expressa no contrato.<br />
 <br />
Em defesa do gesto, em defesa do ser, me rendo à poesia de Isolda e Milton Carlos: “Palavras são palavras e a gente nem percebe o que disse sem querer (...), eu tento achar um jeito pra explicar (palavras), você bem que podia me aceitar (gestos), eu sei que eu tenho um jeito meio estúpido de ser, mas é assim que eu sei te amar”.<br />
 <br />
Enfim, declare seu amor, mais do que em palavras, em gestos.</p>
]]></content>
                                    <category term="Maurício Juvenal" />
                        <published>2021-12-13T20:26:00+00:00</published>
            <updated>2026-07-13T19:00:53+00:00</updated>
        </entry>
            <entry>
            <title><![CDATA[Bolsonaro: ai, que vergonha que dá!]]></title>
            <link rel="alternate" href="https://www.bs9.com.br/coluna/mauricio-juvenal/2021/11/07/bolsonaro-ai-que-vergonha-que-da.html" />
            <id>https://www.bs9.com.br/019f5cd7-1298-7375-91c3-2133bde1bbaf</id>
            <author>
                <name><![CDATA[Maurício Juvenal]]></name>
            </author>
            <summary type="html">
                <![CDATA[Maurício Juvenal - Jornalista, especialista em Pesquisa Social e mestre em Letras]]>
            </summary>
            
                        <content type="html"><![CDATA[<p>Quando a gente ocupa uma posição em uma atividade jornalística ou empresarial, a inteligência emocional sugere, por vezes, um certo silenciar para evitar problemas, ataques e intimidações mil dos jagunços eletrônicos de um lado ou de outro, sempre à serviço dessa ou daquela corrente ideológica.<br />
 <br />
Mas tem hora que não dá. Corre sangue nas veias e é tanta bobagem atrás de tanta bobagem, que fica difícil se isentar de manifestar uma opinião. O sangue que corre nas veias vendo tanta incompetência atrás de tanta incompetência não consegue assistir calado a tudo isso. Porque existem momentos em que se calar é quase como concordar... Como naquela velha história em que um homem espanca uma mulher, ou uma pessoa branca maltrata uma pessoa negra ou alguém com muito dinheiro humilha alguém sem posses e bens: não dá para ver e não fazer nada, dizendo que nada tem a ver com isso; quem assiste uma violência ou uma injustiça calado acaba agindo como cúmplice, como quem, lá no fundo, acha aceitável aquele tipo de cena...<br />
 <br />
Em conversas cotidianas com familiares e amigos é impressionante como não há uma pessoa sequer que não esteja estupefata com o desandar da economia brasileira. A coisa degringolou, e pra todo mundo. O preço do litro da gasolina afeta mais diretamente a quem tem carro – aos olhos de alguns uma certa “elite” privilegiada e que, portanto, não deveria reclamar. Mas e o preço do gás de cozinha? Pois é, afeta a todo mundo que come, e, em geral, impacta mais justamente a quem menos têm para saciar a própria fome e que, com imensa dificuldade, consegue um dinheirinho para comprar um quilo de arroz ou feijão e meia dúzia de ovos. Mas, sem gás, tudo perde o sentido.<br />
 <br />
E ninguém aqui está falando de mercado financeiro nervosinho. Não, não é disso não, desses aí não. Esses estão sempre bem e por cima da carne seca em todo e qualquer governo. Esses são protegidos e preservados em todo e qualquer governo. Foi assim com Collor, foi assim com FHC, foi assim com Lula, foi um pouco menos assim com Dilma, foi assim com Temer e está sendo escandalosamente assim com o capitão Jair Bolsonaro, tá ok?<br />
 <br />
Esse mercado que Bolsonaro acusou de reagir nervosinho a tudo e a toda e qualquer medida, tem sua indisfarçável proteção e atenção, quando mantém à frente da política econômica brasileira (se é que dá para chamar de política econômica) esse homem do mercado, especulador e “offshorento”, que atende pelo nome de Paulo Guedes. Um cara “especialista” que é contra pobre e remediado ir para a Disney. Um cara “sabe-tudo” que é contra filho de porteiro cursar universidade. Para esse cara “profundamente conhecedor de economia”, servidor público é parasita. Esse cara “expert do mundo financeiro” coleciona diariamente milhões e milhões em lucro, por meio de seus investimentos pessoais em paraísos fiscais, e fica mais e mais rico a cada vez que ele próprio quebra mais e mais um pouco a economia aqui, fazendo o dólar disparar. Esse cara é o cara do Jair Bolsonaro.<br />
 <br />
E óbvio que nem tudo vai mal na economia porque o Paulo Guedes tem interesse na política econômica do “quanto pior, melhor”. Tem muito de burrice mesmo, de limitação e até, contraditoriamente, de (mau uso da) academia: as famosas teorias macroeconômicas que só funcionam no papel, que não têm aplicabilidade alguma no mundo real, que não conseguem fazer chegar na ponta, em quem mais precisa, suas engenharias matemáticas e financeiras. E o cálculo nunca bate, a conta nunca fecha, e o país caminha para trás. Em três anos de governo Bolsonaro, o abismo que já separava pobres e ricos nos governos anteriores ao dele, praticamente dobrou de profundidade. Nunca antes na história desse país a desigualdade foi tão acentuada como agora.<br />
 <br />
Ao detonar a classe média, permitindo os abusivos aumentos da conta luz, dos planos de saúde, dos combustíveis, das mensalidades escolares, o governo federal empurra para o sistema público oficial (sistema?) milhões de brasileiros que até então davam um jeito de, a duras penas e ainda que pagando horrores em impostos, bancar a escola e a saúde da família nas redes privadas. Empurra para um já combalido e falido sistema que, se ainda hoje está de pé, é justamente graças aos servidores tachados de “parasitas”, que incansavelmente emprestam seu suor ao serviço público de saúde e de educação. E para piorar o cenário, não basta aumentar a demanda da rede estatal que já estava com a capacidade de atendimento comprometida: é preciso aumentar a demanda e reduzir a verba. Assim o governo do capitão Jair garante mais público precisando de um serviço público que é feito cada vez com menos recursos públicos e, portanto, menor qualidade. Sabe o que acontecerá depois? Ele e seu “brilhante” ministro dirão: “Viram? Serviço público não funciona... Precisa privatizar tudo!...”<br />
 <br />
A bem da verdade prefeitos e governadores, de todas as matizes políticas, também não colaboram e ajudam a afundar um pouco mais a classe média quando estabelecem reajustes no IPTU na casa dos dois dígitos e no IPVA em quase 50%. Ano que vem não tem eleição. Não custa observar como João Doria e Eduardo Leite, por exemplo, presidenciáveis que são, estão se comportando na questão do IPVA. O que eles falam pouco importa. É preciso observar como eles agem.<br />
 <br />
A verdade é que ouvi uma frase essa manhã, antes de redigir este artigo, que soou como música em meu ouvido, tal a sua assertividade. “A direita saiu do armário para passar vergonha. E para fazer a gente passar vergonha”.<br />
 <br />
Pois é. O Brasil virou motivo de piada no mundo todo. Esse governo foi desde o início assim. É só lembrar aquele ministro da educação (sic!) que troca o nome de um escritor, referência literária, pelo nome de um prato de comida. Franz Kafka virou kafta, o prato de origem árabe, semelhante a um espetinho de carne. De lá para cá, são inumeráveis os deslizes, o desleixo com o conhecimento, a falta de noção. Na disputa por quem é capaz de imprimir a maior pérola, Bolsonaro não aceitou ficar para trás e trocou o nome do enviado dos Estados Unidos para o Clima, John Kerry, pelo nome do ator e humorista Jim Carrey. É sério isso???<br />
 <br />
Confesso que em um diálogo com meus lençóis, entendi o que levou Bolsonaro à terrível gafe. Jim Carrey é o protagonista da famosa comédia O Mentiroso. “Me entende?”, diria Pelé. Como brasileiro, estou vermelho (e não é vermelho PT não) de vergonha de ter que conviver com um presidente que mente compulsivamente. Pensem se isso é admissível: “vacinação contra a Covid provoca Aids”; “água de coco na veia substitui transfusão de sangue”; “não rejeito integralmente o terraplanismo (a possibilidade da terra ser plana)”; “A Covid-19 é só uma gripezinha”. Mais de 608.000 brasileiros já morreram devido a essa doença e Bolsonaro segue rejeitando as máscaras, defendendo o direito de usar um tratamento comprovamente ineficaz e colocando a vacinação em dúvida.<br />
 <br />
Essa direita que saiu do armário e que faz todo mundo rir, piada que é, e por vezes de mau gosto, é óbvio que usa a própria limitação intelectual e cultural também como tática, como estratégia, ao buscar destruir os fundamentos do conhecimento. Daí dá para mentir melhor e tudo não passa de teorias da conspiração contra o capitão Jair, que de tudo sabe, que todas as certezas tem e carrega. O Brasil vai mal, gente. Vai mal na economia, vai mal na educação, vai mal na cultura, vai mal saúde, vai mal na Amazônia, vai mal no combate ao racismo e à violência contra a mulher, vai mal na assistência social. O Brasil com Bolsonaro vai de mal a pior. Ai, que vergonha que dá!<br />
 <br />
Impossível não terminar esse artigo, que tem a economia como pano de fundo, sem fazer referência à frase do matemático britânico Bertrand Russell, que dá conta de que "o problema do mundo é que os inteligentes estão cheios de dúvidas, e os idiotas estão cheios de certezas."<br />
 <br />
Um lembrete para 2022: se é que existe uma terceira via, ela atende pelo nome de todos nós.<br />
 </p>

<p><em>Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal BS9</em></p>

<p> </p>
]]></content>
                                    <category term="Maurício Juvenal" />
                        <published>2021-11-07T19:30:00+00:00</published>
            <updated>2026-07-13T19:00:52+00:00</updated>
        </entry>
            <entry>
            <title><![CDATA[Lute como um/a nordestino/a]]></title>
            <link rel="alternate" href="https://www.bs9.com.br/coluna/mauricio-juvenal/2021/10/07/lute-como-uma-nordestinoa.html" />
            <id>https://www.bs9.com.br/019f5cd7-12b9-709e-947f-81e193f72e11</id>
            <author>
                <name><![CDATA[Maurício Juvenal]]></name>
            </author>
            <summary type="html">
                <![CDATA[Maurício Juvenal - Jornalista, especialista em Pesquisa Social e mestre em Letras]]>
            </summary>
            
                        <content type="html"><![CDATA[<p>O “nordestino” é, antes de tudo, um forte. Recorro aqui, talvez imprudentemente, a uma ligeira adaptação a uma das frases ícones da literatura brasileira, em “Os Sertões”, uma das três grandes epopeias da língua portuguesa, obra do por vezes pouco festejado Euclides da Cunha.</p>

<p>Disse ele: “O sertanejo é, antes de tudo, um forte. Não tem o raquitismo exaustivo dos mestiços neurastênicos do litoral. A sua aparência, entretanto, ao primeiro lance de vista, revela o contrário. Falta-lhe a plástica impecável, o desempeno, a estrutura corretíssima das organizações atléticas. É desgracioso, desengonçado, torto. Hércules-Quasímodo, reflete no aspecto a fealdade típica dos fracos. O andar sem firmeza, sem aprumo, quase gingante e sinuoso, aparenta a translação de membros desarticulados. Agrava-o a postura normalmente abatida, num manifestar de displicência um caráter de humildade deprimente. A pé, quando parado, recosta-se invariavelmente ao primeiro umbral ou parede que encontra; a cavalo, se sofreia o animal para trocar duas palavras com um conhecido, cai logo sobre um dos estribos, descansando sobre a espenda da sela. Caminhando, mesmo a passo rápido, não traça trajetória retilínea e firme.</p>

<p>Avança celeremente, num bambolear característico, de que parecem  ser o traço geométrico os meandros das trilhas sertanejas. É o homem permanentemente fatigado.”</p>

<p>Impossível, a partir de um texto como esse, não se perceber mergulhado no exercício da visualização mental desse nosso sertanejo-nordestino de cada dia. Tomo por empréstimo, nesse<br />
momento, como forma de celebrar a presença e a força nordestina entre nós, vivida em cada palmo desse nosso chão litorâneo de meu Deus.</p>

<p>É possível que alguns proponham o debate da separação entre nordestino e sertanejo. Pode ser que tenham razão. Mas eu, particularmente, vejo o sertanejo como o habitante do sertão, no caso se referindo exclusivamente aos habitantes do sertão nordestino, do agreste, das áreas rurais castigadas pela seca extrema.</p>

<p>Aos meus olhos, os habitantes dos campos dos interiores paulista, paranaense, mineiro, entre outros, pelo certo deveriam ser conhecidos e reconhecidos como caipira ou matuto, a exemplo de nós, ora caiçara e ora até calunga. A verdade é que a onda comercial da música sertaneja acabou por imprimir tal definição errada de sertanejo.</p>

<p>Eu, particularmente, sou filho de dois nordestinos. Sou fruto orgulhoso da mistura de uma maranhense com um pernambucano. O Maranhão do “bumba meu boi” e do português pronunciado de forma corretíssima, da marrom, Alcione. O Pernambuco de Paulo Freire, patrono da educação brasileira, e da congada e do maracatu.</p>

<p>Pelas Alagoas, Marechal Deodoro da Fonseca, proclamador da República. Da Bahia, nossa Santa Dulce dos Pobres, a primeira santa brasileira. É do Ceará a ativista Maria da Penha Maia Fernandes, que empresta nome à Lei Maria da Penha, e em nome das vítimas de violência doméstica. Outro símbolo de resistência vem do Piauí, o jornalista e escritor Carlos Castelo Branco, ganhador de vários prêmios internacionais por sua luta pela liberdade de imprensa. No Sergipe, Tobias Barreto, filósofo, escritor e jurista e um dos cinco únicos brasileiros a integrar o Dicionário dos Maiores Juristas da Humanidade, da Universidade Wolfgang Goethe, na Alemanha. Os irmãos Schmidt, Oscar (do basquete) e Tadeu (do Fantástico), são do Rio Grande do Norte. Ah, e da Paraíba o inigualável Ariano Suassuna, escritor, poeta, dramaturgo e professor, autor de nada menos do que “O Auto da Compadecida”.</p>

<p>É ele sim, presidente Jair Bolsonaro, um dos tantos paraíbas aos quais o senhor se referiu com irretratável desdém. Xenofobia contra o Nordeste: “daqueles governadores de ‘paraíba’, o pior é o do Maranhão”. Ataque gratuito, desnecessário, desrespeitoso, mas imensamente compreensível vindo de quem vem, ou seja, alguém que não tem a mínima estatura, estudo, conhecimento, equilíbrio e racionalidade para estar no cargo que está. Sem dúvida, daqueles políticos cariocas, o pior é o seo Jair, tá ok?</p>

<p>Os dados do Censo de 2010, divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas, o IBGE, revelam que Cubatão é, dos nove municípios da Baixada Santista, o que proporcionalmente abriga o maior número de nordestinos, algo em torno de 32 mil. Guarujá, por sua vez, é a cidade da região com a maior quantidade absoluta, são quase 58 mil. Estima-se que 1/6 de toda a população residente, algo em torno de 300.000 pessoas, seja composta por migrantes nordestinos que, juntos com seus familiares, representam quase a metade do contingente populacional local. É gente pra caramba.</p>

<p>Gente que veio para abrir estradas. Gente que veio para erguer indústrias. Gente que veio para levantar prédios. Gente que veio para construir uma vida melhor. Gente que construiu uma vida melhor, pra muitas outras gentes.</p>

<p>O Oxente bichinho cabra da peste, em sua infinidade de sotaques e regionalidades, garante um brilho maior a nossa forma de ser e viver. A engenharia financeira, ao mesmo tempo genial e solidária, para garantir o sustento de suas famílias sempre trabalhadoras, é outro exemplo de força e fé. As cores, as dores, o chique e o brega, os artesanatos e os pratos: do camarão seco salgado ao bejú derivado da mandioca, também!</p>

<p>A grande verdade é que tem pelo menos um pouco do muito do que o nordestino é, em cada um de nós. E que bom que seja assim. Se seca, fome e miséria são referenciais que nos ativam a lembrança, superação, genialidade e solidariedade são os outros referenciais próprios que nos encantam o coração.</p>

<p>Por fim, tem sempre um nordestino pra lá de porreta e especial perto de você, no seu caminho ou até mesmo sua vida. Amanhã, dia do nordestino, arriégua, dá uma de buliçoso, deixa de fuleragem, e manda um cheiro gostoso nele ou nela. Iapoi?<br />
 </p>
]]></content>
                                    <category term="Maurício Juvenal" />
                        <published>2021-10-07T19:22:00+00:00</published>
            <updated>2026-07-13T19:00:52+00:00</updated>
        </entry>
            <entry>
            <title><![CDATA[Essa brava gente brasileira!]]></title>
            <link rel="alternate" href="https://www.bs9.com.br/coluna/mauricio-juvenal/2021/09/07/essa-brava-gente-brasileira.html" />
            <id>https://www.bs9.com.br/019f5cd7-1247-7080-b1b3-8b588a8e0442</id>
            <author>
                <name><![CDATA[Maurício Juvenal]]></name>
            </author>
            <summary type="html">
                <![CDATA[Maurício Juvenal - Jornalista, especialista em Pesquisa Social e mestre em Letras]]>
            </summary>
            
                        <content type="html"><![CDATA[<p>Fui buscar no dicionário a inspiração inicial para a redação desse artigo que, por sorte ou azar, é publicado hoje, 7 de setembro, quando se “comemora” 199 anos, quase dois séculos, da proclamação da Independência do Brasil, às margens do Ipiranga. Tudo meio romance-político-histórico. E só.</p>

<p>Substantivo feminino, por independência entenda-se o estado, condição, caráter do que ou de quem goza de autonomia, de liberdade com relação a alguém ou algo. Pode ser entendido também como o caráter daquilo ou daquele que não se deixa influenciar, que é imparcial.</p>

<p>Pois então: o quanto cada um de nós é verdadeiramente independente?</p>

<p>É claro que essa é uma resposta pra lá de difícil. Já nascemos dependentes das relações. De modo clássico, a filosofia meio que define o homem como um ser dependente e associativo. No primeiro plano, quer fazer referência à relação de interdependência que estabelecemos, uns com os outros – é verdade que uns mais que outros – em função da condição de seres humanos.</p>

<p>No segundo, que os vínculos que se formam derivados dessa relação é que vão compor o jeito básico e os valores que vão dar o tom da nossa existência, que vão reger a nossa vida.</p>

<p>Independência nua e crua, portanto, neca de pitibiriba. E há tanta gente que teima em reconhecer isso e, em geral, em nome de uma suposta liberdade de ser, de exclusivamente controlar sua própria vida, de sentir que não precisa de nada e de ninguém para alcançar seus próprios objetivos. A má notícia: por mais que os animadores sociais digam o contrário, liberdade individual e plena, não existe.</p>

<p>Ora, nós dependemos de tudo e de todos o tempo todo e para quase tudo. Reconhecer isso não só facilita o processo da existência como dói menos, bem menos. O pior é que eu mesmo, na condição de pai de três crianças do cacete, daquelas que é impossível não se apaixonar, tenho erroneamente trabalhado no viés de torná-los independentes, ou seja, de proporcionar um nível de qualidade de vida, presente e futuro, que a eles empreste autonomia.</p>

<p>Desenhei a fórmula, preparei a equação, reuni os fatores e acreditei piamente que estabilidade mais qualidade de vida era igual a autonomia, essa por sua vez equivalente a independência. Tudo lindo e maravilhoso e pronto. E ponto.</p>

<p>Ponto não, vírgula. Um tal de coronavírus apresentou para mim e para o mundo, em fevereiro ou março do ano passado, uma outra equação, perversa. Algo mais ou menos assim estava estampado em uma matéria do jornal Folha de São Paulo: “Os primeiros casos contaminaram de duas a três pessoas. Agora a progressão é geométrica, não tem jeito. É um para dois, dois para quatro, quatro para oito, oito para 16”.</p>

<p>Com a mesma força de um soco no estômago, o que vimos a partir daí foi o fato de que mais do que nunca vivemos todos, e sobrevivemos, juntos e misturados. A autonomia dos meus filhos – e consequentemente a liberdade – foi colocada à prova quando na prática já não se podia mais nada, a não ser o isolamento social. E antecipo que não há qualquer contradição nisso.</p>

<p>A pandemia nos trouxe, sim, esse tal confinamento, mas trouxe sobretudo a realidade mais original do mundo que a da interdependência das relações humanas e em seus muitos e diferentes estágios. Ao ter que me proteger de você, com máscara, álcool gel e o escambau, eu tive que, ao mesmo tempo, me preocupar com você, exigir que por respeito às relações e ao bem de todos, de todos e não só o meu, você também se protegesse de mim, da minha tosse, do meu espirro, da minha pele.</p>

<p>Muitas vezes de casa, assistimos um exército de abnegados profissionais da saúde desenvolvendo o exercício do associativismo social na prática, ou seja, anjos em forma de pessoas reunidos com o objetivo de salvar, de curar, de superar o desafio, de vencer a batalha. Sabe a história da minha vida em suas mãos? Eita brava gente brasileira.</p>

<p>O propagado novo normal simplesmente não existe, não se consolidou e ouso dizer que nem necessário ele se faz. O novo normal é o de sempre, ou que deveria ser o de sempre. Da vida que gera vida, do leite materno que empresta vida, da ausência de autonomia nas idades iniciais que nos força, para nos mantermos e nos desenvolvermos e explorarmos o espaço, a construirmos relações, primeiramente no bojo familiar e, depois, na depressão do mundo, onde interagir é condição irrefutável para garantir desenvolvimento pessoal.</p>

<p>E como seres afetivos que somos, e somos, a grande verdade é que nos tornamos indispensáveis, essenciais, uns aos outros e até naquilo que nos influencia, ou que influenciamos no outro. Autonomia? Independência? Estão longe de ser possíveis, plenas. O bom e bem existir reside exatamente na volatilidade da vida, numa espécie de fluidez aleatória que impõe que algo que é hoje, pode simplesmente não ser mais nada amanhã. Inclusive nós mesmos. Somos só o produto das relações e interações cotidianas, portanto somos o presente. Lembrete: que se modifica numa fração de segundo.</p>

<p>Soltemos ora pois o grito: independência na dependência!</p>
]]></content>
                                    <category term="Maurício Juvenal" />
                        <published>2021-09-07T03:00:00+00:00</published>
            <updated>2026-07-13T19:00:52+00:00</updated>
        </entry>
            <entry>
            <title><![CDATA[Meu "utensílio" favorito]]></title>
            <link rel="alternate" href="https://www.bs9.com.br/coluna/mauricio-juvenal/2021/08/07/meu-utensilio-favorito.html" />
            <id>https://www.bs9.com.br/019f5cd7-1346-7364-870b-d6c00910e79f</id>
            <author>
                <name><![CDATA[Maurício Juvenal]]></name>
            </author>
            <summary type="html">
                <![CDATA[Maurício Juvenal - Jornalista, especialista em Pesquisa Social e mestre em Letras]]>
            </summary>
            
                        <content type="html"><![CDATA[<p>Não sei exatamente o motivo, mas acordei no final dessa madrugada – entre outros com o compromisso de escrever esse artigo mensal e que pra variar deixei para o último dia do prazo – com a palavra utensílio na cabeça. Não lembro de ter sonhado, não lembro de ter sido esse um tema presente na minha jornada de ontem, ter lido ou ouvido algo a respeito, mas ele está aqui, circundando meu pensamento, nesse início de manhã.</p>

<p>Pois, então, cederei à pressão. Dá conta o dicionário que utensílio é um substantivo masculino, por definição qualquer objeto que facilite a vida diária, que tenha utilidade. São tantos, não é mesmo? Não sei se é por conta do horário, mas me vem à cabeça, de bate pronto, aquele suporte plástico para coador de café, em geral vermelho, comum em qualquer cozinha, até mesmo nas que já adotaram as modernas máquinas de café em cápsula.</p>

<p>É óbvio que em termos de real utilidade nem um outro utensílio supera hoje o aparelho celular. Ele dorme com a gente, acorda com a gente, confortavelmente acomodado ali no criado mudo, ao lado da cama. E nos acompanha até no banheiro. Reformas mais moderninhas já estão contemplando uma tomada USB ao lado do vaso sanitário. Não é, confesso, o meu utensílio preferido, mas sem dúvida é o mais utilizado por mim.</p>

<p>Tenho observado nesse vai e vem da vida cotidiana, relações diversas que têm transformado pessoas em utensílios, o que é pior do que transformá-las em objeto. Na objetificação, tratamos as pessoas de fato como se elas fossem uma matéria pronta para o uso e descarte, incapazes de despertar em nós qualquer sentido de utilidade que vá além daquele específico que está composto e firmado em nosso imaginário.</p>

<p>Impossível não fazer referência aqui à questão da “mulher objeto”, expressão bastante abordada ao longo da década 90 e até hoje – ainda que com um tratamento linguístico e verbal mais moderno – como reflexo de uma cultura patriarcal que entendia o homem como provedor e a mulher como dele dependente. O contrato social, celebrado de forma tácita, previa que as mulheres, por serem sustentadas pelos maridos, cuidassem dos afazeres domésticos, da prole, e os satisfizessem sexualmente. E nada mais!</p>

<p>Ainda nesse viés da objetificação, um exemplo clássico, mas que graças a Deus vem perdendo espaço, é a forma como a mulher durante muito tempo foi retratada em campanhas publicitárias, com a literal objetificação do corpo feminino, atribuindo a ele a função exclusiva, ou emprestando o singular papel, de mero objeto de prazer sexual masculino.</p>

<p>Claro, é horrível tudo isso, e a evolução da sociedade tem permitido, ainda que não seja na velocidade desejada,  identificar as atitudes que reforçam essa cultura e ao mesmo tempo combatê-las.</p>

<p>O problema é que surge agora um novo comportamento, tão ou mais nocivo quanto, que imprime o status de “utensilização” das pessoas. Nesse cenário, o agressor reconhece no outro todas as suas capacidades, possibilidades e potencialidades e empreende uma série de estratégias de controle e manipulação, com o objetivo exclusivo de ver e ter seus interesses atendidos.</p>

<p>Uma dessas estratégias, muito comum no mundo da política e dos negócios, é conhecida como  “teoria da cenoura”. Em linguagem figurada, o manipulador amarra uma haste a partir do pescoço do manipulado, e que passa sobre a cabeça, com uma cenoura amarrada na ponta. A cenoura seria o prêmio pelo desempenho, pela entrega compromissada. O problema é que a recompensa pelo trabalho, pela ajuda, pelo fazer, nunca é alcançada ou entregue. A cenoura é mantida ali na frente, fora do alcance da boca. E assim as pessoas vão sendo usadas, mediante promessas ou propostas de troca que nunca se concretizam.</p>

<p>E você pode estar se questionando se alguém é tão ingênuo assim, nos dias de hoje, de ficar correndo atrás da cenoura, sem nunca a alcançar. Respondo que muitos de nós, o tempo todo, em muitas das nossas relações. Somos naturalmente alimentados pela esperança, por boas expectativas, somos sonhadores e solidários, acreditamos, apostamos e em geral temos imensa dificuldade de dizer não. Acabamos usados. E acabamos usando os outros também.</p>

<p>A questão que tento colocar é justamente a de um chamado à consciência sobre o quanto temos utilizado as pessoas como utensílios. O quanto temos cedido ao mecanismo de sedução do mal que nos leva a tratar os outros como instrumentos e não como pessoas. Satisfeitos nossos desejos e aspirações, graças aos esforços e suor do outro, não praticamos a reciprocidade.</p>

<p>É preciso não perder de vista que quando a gente se nega a enxergar o outro para além do que nele vemos de utilidade, o reduzimos exatamente a um utensílio, negando sua dimensão mais ampla e livre, o tratando, é verdade, como algo mais do que um objeto, mas que só pode ser isso ou aquilo, subtraindo toda a sua pessoalidade e riqueza mental e emocional.</p>

<p>Objetos podem ou não ter utilidade. Utensílios são sempre úteis para alguma coisa. E pessoas são pessoas, com dores, amores, sentimentos, tremores, delícias e horrores. Mas são pessoas antes de tudo, nem objeto e nem utensílio. Recorrendo a uma expressão muito comum no inglês, wearable, vestíveis, como a potencialidade de serem vestíveis, portanto, sem qualquer espaço para uso singular ou descarte.</p>

<p>Por fim, ainda que o poder que o mal nos proporciona nos seduza, o flerte despretensioso e ou inocente de tratar o outro como utensílio pode nos permitir, num primeiro momento, conseguir o que desejamos. Mas já a curto prazo não nos trará consciência tranquila e paz de espírito. Nem todas as mães fazem filhos espertos, é verdade, mas todas as mães fazem filhos que merecem e devem ser enxergados como indivíduos capazes, autônomos e iguais.</p>
]]></content>
                                    <category term="Maurício Juvenal" />
                        <published>2021-08-07T18:51:00+00:00</published>
            <updated>2026-07-13T19:00:52+00:00</updated>
        </entry>
            <entry>
            <title><![CDATA[Conta corrente espiritual: como anda o seu saldo?]]></title>
            <link rel="alternate" href="https://www.bs9.com.br/coluna/mauricio-juvenal/2021/07/07/conta-corrente-espiritual-como-anda-o-seu-saldo.html" />
            <id>https://www.bs9.com.br/019f5cd7-13a9-7251-a994-61bffbc7a7a0</id>
            <author>
                <name><![CDATA[Maurício Juvenal]]></name>
            </author>
            <summary type="html">
                <![CDATA[Maurício Juvenal - Jornalista, especialista em Pesquisa Social e mestre em Letras]]>
            </summary>
            
                        <content type="html"><![CDATA[<p>Em minha humilde opinião, são três os tipos principais de contas correntes que possuímos: a financeira, que em geral mantemos em um banco ou instituição financeira; a emocional, decorrente das relações que mantemos no dia a dia com as pessoas; e a espiritual, a principal delas, fruto da interação com nós mesmos e, também, com Deus.<br />
 <br />
Todas têm um denominador comum que é o saldo. Ora ele pode estar positivo, ora negativo.  Depende única e exclusivamente do modo como lidamos com os nossos valores.<br />
 <br />
Particularmente costumo dizer que por valores se entenda o resultado das perdas e ganhos que acumulamos, como experiências de vida, ao longo de nossa trajetória. E isso, de novo, vale para os três tipos de contas correntes. Valor é algo inclusive que varia no tempo e no espaço, podendo ganhar novas formas e cores a partir dos acontecimentos cotidianos e até mesmo de uma simples mudança de endereço. <br />
 <br />
É o barato que de repente se torna caro. A alegria que se transforma em frustração. A ausência de fé que se traduz em medo e escuridão.<br />
 <br />
Dos três tipos de contas correntes a mais fácil de lidar é, sem dúvida, a financeira. Administrando bem receitas e despesas, gastando menos do que se recebe, a tendência é fechar a equação sempre no azul, com saldo positivo. É claro que no Brasil, onde tudo sobe a toda hora, a missão é mais ingrata.<br />
 <br />
Já a conta corrente emocional exige um esforço concentrado em praticar, mais do que qualquer outra coisa, a tolerância objetiva, algo que é maior que a tolerância. Tolerância é um termo que vem do latim, tolerare, e que significa suportar ou aceitar. Caminha pari passu com aquilo que a gente entende por contrato social, isto é, aceitar normalmente opiniões e ou comportamentos diferentes ao que você possui ou pratica. Em tempos de intolerância por qualquer coisa e à flor da pele, já parece algo muito valoroso.<br />
 <br />
É que a tolerância objetiva qualifica. Quando realmente manifesta, ainda que não seja dos exercícios mais fáceis, é aquela onde mais do que suportar ou aceitar o jeitão do outro, somos capazes de entender e compreender tal postura. De forma concreta, é quando a gente consegue se colocar no lugar do outro e perceber que o comportamento divergente decorre dos limites naturais que a condição humana impõe, no cômpito do enredo de vida de cada um.<br />
 <br />
Assim, se der para suportar e aceitar, suporte e aceite, o saldo será positivo. Mas se der para ir além e praticar a tolerância objetiva, o resultado será ainda melhor, com você conquistando uma espécie de cheque especial.<br />
 <br />
E a bendita conta corrente espiritual? Pois é, há de ser bendita mesmo, desde que destinemos um olhar atento para ela.<br />
 <br />
E o fluxo não é nada diferente do que acontece em uma conta corrente bancária. Na conta corrente espiritual os depósitos estão representados pelos exemplos de fé, de vida em comunhão, de obras e gestos concretos e, sobretudo, de orações.<br />
 <br />
No sentido mais conceitual da palavra dizemos que oração é o mesmo que prece ou reza. Já no mais espiritual que é um ato que visa ativar uma ligação, um diálogo, um contato com o Divino. Pode ser em forma de agradecimento, de súplica, de louvor, entre outros, mas deve ser sempre fruto de um ato consciente do relacionamento com Deus. Vai além da mecânica das mãos ao fazer o sinal da cruz quando passamos em frente a uma igreja. Ou quando respondemos instantânea e intelectualmente, e não com coração, que acreditamos em Deus. Cada oração é um depósito em nossa conta corrente espiritual.<br />
 <br />
Mas há também os saques, que numa análise mais objetiva seriam representados pelos pecados. Não é só isso. Na verdade, os saques são tudo aquilo que nos afasta de Deus, como a ausência de fé, o se rebelar contra Ele, a omissão na ajuda ao próximo e, sobretudo, os pensamentos negativos. Esses últimos, aliás, têm a impressionante capacidade de zerar e jogar para o vermelho a conta corrente espiritual.<br />
 <br />
E não são só os pensamentos negativos contra nós mesmos, que nos tiram a força e a vontade, mas principalmente aqueles em relação às outras pessoas. E, convenhamos, eles estão bem presentes em nosso dia a dia em forma de inveja, de egoísmo, de ganância, de intolerância, de ira descontrolada, de autoritarismo, de fofoca, de enganação. Saques no caixa automático, que que por vezes realizamos sem raciocinar, mas que se constituem em pensamentos-atitudes que ferem a nossa relação com o bem e com o Bem.<br />
 <br />
No mundo atual temos sido mestres da enganação, daquelas que julgamos pequenas e sem importância, como a alteração do nome de um contato no celular ou uma mentirinha para faltar ao trabalho, às que destroem histórias, relacionamentos, reputações e vidas. Contraditoriamente, apostamos no enganar como forma até mesmo de preservar relações, como se fosse possível que tudo passasse desapercebido. Esquecemos do Cara lá de cima, e empurramos para saldo devedor a conta corrente espiritual.<br />
 <br />
A dica é olhar o extrato ao início e ao final de cada dia. E então perceber que o bem-estar e o conforto espiritual são produtos da contabilidade dos bons e maus pensamentos que dispensamos ao longo daquela jornada. Precisamos observar com atenção a movimentação e analisar os saques que poderiam ter sido evitados. E, indo além, avaliar se a quantidade de depósitos realizados – caso depósitos tenham sido realizados – foram suficientes para fechar a conta no azul.<br />
 <br />
Longe de querer ser esse um argumento de pregação, ainda que nenhum mal eu veja nisso, mas sinceramente não sei se sou exemplo, destaco um dos trechos bíblicos que mais gosto e tento perseguir: "Finalmente, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é respeitável, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se alguma virtude há e se algum louvor existe, seja isso o que ocupe o vosso pensamento". (Filipenses 4:8)</p>
]]></content>
                                    <category term="Maurício Juvenal" />
                        <published>2021-07-07T14:13:00+00:00</published>
            <updated>2026-07-13T19:00:53+00:00</updated>
        </entry>
            <entry>
            <title><![CDATA[A pandemia dos que ouvem, mas não escutam]]></title>
            <link rel="alternate" href="https://www.bs9.com.br/coluna/mauricio-juvenal/2021/06/07/a-pandemia-dos-que-ouvem-mas-nao-escutam.html" />
            <id>https://www.bs9.com.br/019f5cd7-132c-706f-9927-fb37ed4bf61c</id>
            <author>
                <name><![CDATA[Maurício Juvenal]]></name>
            </author>
            <summary type="html">
                <![CDATA[Maurício Juvenal - Jornalista, especialista em Pesquisa Social e mestre em Letras]]>
            </summary>
            
                        <content type="html"><![CDATA[<p>É possível que alguns achem que há um certo exagero, mas, hoje, o mundo enfrenta uma outra pandemia – é verdade, com efeitos menos danosos que a do coronavírus – e que tem assolado, sobretudo, as relações humanas. Trata-se da surdez providencial ou seletiva.</p>

<p>Na prática, ela se resume à imensa incapacidade que as pessoas demonstram em ouvir as outras pessoas: por vezes por impaciência, por vezes por ansiedade, por vezes por menosprezo, por vezes por pura e absoluta surdez valorativa.</p>

<p>E essa última, a mim me parece, é a mais grave de todas, mesmo que não seja a de maior incidência. É aquela cujo diagnóstico mostra que você até ouve o interlocutor, mas não o escuta. A audição, como um dos cinco sentidos até se estabelece, o ouvido capta o som, mas o escutar, enquanto ato de ouvir, de entender o que está sendo captado pela audição, não é compreendido e muito menos a informação é processada.</p>

<p>Há, então, um bloqueio? Exatamente. Os valores acumulados, a bagagem de vida, os sofrimentos vividos, as possíveis más experiências anteriores com a pessoa que está falando, o prévio conhecimento e julgamento das características que o outro possui, funcionam como uma espécie de filtro transformador de conteúdo. A pessoa fala pau e você entende pedra. Mas a pessoa falou pau, e você continua entendendo pedra.</p>

<p>Um exemplo engraçadinho dessa surdez valorativa é um vídeo que circula na internet e que mostra um marido, com todo jeitinho, explicando para a esposa que está saindo para encontrar um amigo, para jogar futebol, que vai demorar no máximo uma horinha e que ela pode ligar quando quiser. A mulher, no entanto, ouve que ele está indo encontrar a ex, para ir ao motel, que vai virar a noite fora e que nem adianta telefonar porque o celular estará sem bateria. E o pau come!</p>

<p>Ainda que esse possa ser apenas um exemplo cômico, mas que vive acontecendo, fica clara a necessidade de pararmos para ouvir o que o outro tem a nos dizer, sem que seja essa uma ação desafiadora àquilo que sentimos e acreditamos. Comunicação efetiva, e afetiva, diga-se de passagem, requer antes de mais nada disposição para entender e valorizar o real conteúdo do que está sendo dito. Ouvir vem antes do falar. É o bem ouvir, com os dois ouvidos que temos, que nos possibilita relações mais consistentes.</p>

<p>Já a surdez por menosprezo é bem mais fácil de entender. Não é aquela em que você se distrai, viaja na maionese, e não presta atenção. É aquela que a pessoa está ali na sua frente ou ao seu lado, falando, e você prefere atender ao telefone, ficar no joguinho do celular, ou simplesmente dizer hã hã, sem prestar qualquer atenção ao conteúdo. Pior, em geral você termina o “diálogo” pedindo para que a pessoa repita o que disse ou perguntando se é possível vocês falarem em outro momento. Um recado: isso dói na alma do outro.</p>

<p>A surdez por ansiedade é literalmente uma loucura. Em geral, é você quem provoca a conversa, ou a proposta de conversa, fazendo uma pergunta. O interlocutor começa a explicar, a responder ao questionamento que você fez. Mas, antes mesmo que ele termine a primeira frase, você já o interrompe com falas do tipo “não, eu sei”, ou “isso tá claro”, ou “não é bem assim”. Opa, não é bem assim? Ora, se você já sabe a resposta, por que perguntou? O pior é que na prática você pergunta e você mesmo responde ao que perguntou, o que, convenhamos, não faz o menor sentido.</p>

<p>“Diz logo”, acelera você revelando toda o seu grau de surdez por impaciência. Em geral você quer determinar o ritmo, a forma, a fluidez do pensamento e do argumento do outro, impondo uma espécie de vá direto ao ponto, sem rodeios. É o famoso vamos lá, desembucha. Para cada pessoa, a construção do pensamento e, portanto, da fala é um processo que se dá de maneira diferente. E se é diferente, é preciso aprender a respeitar o modo, a forma e o tempo do outro.</p>

<p>Por mais óbvia pareça a afirmação, e ela realmente o é, ouvir está intrinsicamente ligado à fala e é o significado das palavras que une pensamento e linguagem. Assim, é por meio das palavras que o ser humano pensa. E isso merece ser respeitado.</p>

<p>A grande verdade é que todos querem muitos ser ouvidos, mas poucos demonstram a mesma disposição em escutar. E se engana quem acredita que bem ouvir é um exercício passivo. Não, não é. Bem ouvir requer pulsação, curiosidade e até imaginação. Dispensa julgamentos, opiniões e, sobretudo, interrupções.</p>

<p>A boa notícia é que há sim um certo grau de doação por parte de quem ouve. Mas há, também, uma bela retribuição, representada pela satisfação do outro em perceber e sentir que você se importa com ele e que mantém o dom de partilhar ideias.</p>
]]></content>
                                    <category term="Maurício Juvenal" />
                        <published>2021-06-07T18:03:00+00:00</published>
            <updated>2026-07-13T19:00:52+00:00</updated>
        </entry>
    </feed>
