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            "title": "A face crua do mal",
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            "content_html": "<p>Lembro de uma cena do filme &ldquo;Opera&ccedil;&atilde;o Final&rdquo;, de 2018, que mostra a miss&atilde;o de uma equipe do Mossad, no in&iacute;cio dos anos sessenta, em Buenos Aires, para capturar o criminoso de guerra Adolf Eichmann, um dos arquitetos da &ldquo;Solu&ccedil;&atilde;o Final&rdquo;, que acelerou a morte de prisioneiros judeus em campos de concentra&ccedil;&atilde;o, quando a balan&ccedil;a de for&ccedil;as da guerra come&ccedil;ou a pender para o lado dos Aliados. Eichmann ajudou a implementar a morte em escala industrial nesse per&iacute;odo, para, no p&oacute;s-guerra, virar um pacato cidad&atilde;o de classe m&eacute;dia, vivendo na Argentina.</p>\n<p>&nbsp;</p>\n<p>Os agentes conseguem capturar o criminoso nazista e o filme recria o suspense para conseguir embarcar Eichmann em um avi&atilde;o para Israel, onde seria julgado. Nessa espera, tem uma cena em que est&atilde;o ouvindo uma m&uacute;sica que toca profundamente o nazista e ele se emociona &agrave;s l&aacute;grimas. Um dos agentes n&atilde;o se cont&eacute;m e pergunta: se voc&ecirc; &eacute; capaz de sentir essas emo&ccedil;&otilde;es e amar sua fam&iacute;lia, como p&ocirc;de matar tanta gente que n&atilde;o te fez nada? Eichmann respondeu calmamente que &ldquo;eram judeus, n&atilde;o eram pessoas&rdquo;.</p>\n<p>&nbsp;</p>\n<p>Essa cena coloca em relevo uma forma de realizar o Mal, que &eacute; tirar da v&iacute;tima a sua condi&ccedil;&atilde;o de ser: no caso, de ser humano. Uma caracter&iacute;stica universal da Psicopatia &eacute; a perda da capacidade de Empatia pelo Outro, tornando-o uma Coisa, um objeto de explora&ccedil;&atilde;o.</p>\n<p>&nbsp;</p>\n<p>A Neuroci&ecirc;ncia descreveu nas &uacute;ltimas d&eacute;cadas os Neur&ocirc;nios-Espelho, que s&atilde;o respons&aacute;veis pela vontade de bocejar quando algu&eacute;m est&aacute; bocejando. Esses neur&ocirc;nios e redes neurais permitem que algu&eacute;m sinta o que o Outro est&aacute; sentindo, o que faz que a gente grite &ldquo;Ai&rdquo; quando algu&eacute;m se machuca feio num jogo de futebol. Essas sensa&ccedil;&otilde;es dependem de uma capacidade de prever e perceber como &eacute; a experi&ecirc;ncia que outra pessoa est&aacute; vivendo. Esse &eacute; o primeiro passo da percep&ccedil;&atilde;o do Outro e da capacidade de ajudar algu&eacute;m que est&aacute; sofrendo. O monstro nazista bloqueou seus neur&ocirc;nios-espelho da percep&ccedil;&atilde;o do sofrimento negando a essas pessoas a sua pr&oacute;pria humanidade.</p>\n<p>&nbsp;</p>\n<p>Outro mecanismo da maldade &eacute; o &ldquo;Schadenfeude&rdquo;, palavra alem&atilde; para a sensa&ccedil;&atilde;o de contentamento que temos quando algu&eacute;m que fez algo errado e acaba se ferrando. Quando o time que eu n&atilde;o gosto toma uma goleada, por exemplo. A identifica&ccedil;&atilde;o com o Agressor gera essa satisfa&ccedil;&atilde;o, al&eacute;m do al&iacute;vio de n&atilde;o estar na situa&ccedil;&atilde;o de fragilidade. H&aacute; um gosto de ver o outro sofrendo, e um al&iacute;vio por n&atilde;o estar naquela situa&ccedil;&atilde;o.</p>\n<p>&nbsp;</p>\n<p>Desde os primeiros homin&iacute;deos que h&aacute; provas de cuidados com os doentes e velhos, e respeito pelos mortos. O que fez aqueles proto humanos escaparem da extin&ccedil;&atilde;o foi a capacidade de colabora&ccedil;&atilde;o e prote&ccedil;&atilde;o m&uacute;tua. Cuidar da vida de todos talvez seja uma experi&ecirc;ncia fundamental em nos tornarmos humanos.</p>\n<p>&nbsp;</p>\n<p>O bilion&aacute;rio americano Jeffrey Epstein chefiou durante d&eacute;cadas uma rede de prostitui&ccedil;&atilde;o e tr&aacute;fico de crian&ccedil;as e adolescentes, com atos de fazer inveja aos agentes nazistas. A caracter&iacute;stica de falta de empatia e desumaniza&ccedil;&atilde;o das v&iacute;timas est&aacute; estampada nos milh&otilde;es de e-mails onde descuidadamente ele oferecia uma menina assim ou assado para um pol&iacute;tico ou um guru de autoajuda. Com a certeza de ser intoc&aacute;vel pela lei, j&aacute; que foi protegido por muitos anos por pessoas muito poderosas.</p>\n<p>&nbsp;</p>\n<p>Existe o ditado que &ldquo;O Poder corrompe, o Poder absoluto corrompe absolutamente &ldquo;. O poder que realmente corrompe &eacute; o que subtrai das pessoas seu sentimento de humano, da sensa&ccedil;&atilde;o fundamental de proteger quem n&atilde;o consegue se proteger da covardia e do abuso.</p>\n<p>&nbsp;</p>\n<p>Os Arquivos Epstein abrem um buraco na fechadura de quem, por ter recursos quase ilimitados, passam a se julgar semi deuses que n&atilde;o precisam respeitar os limites de sua condi&ccedil;&atilde;o humana. Estranhamente, ao adotar esse comportamento, d&atilde;o passagem para a bestialidade que tentamos superar desse os neandertais. A bestialidade que bloqueia as sensa&ccedil;&otilde;es de empatia e cuidado com os fracos.</p>\n<p>&nbsp;</p>\n<p>Em nossa civiliza&ccedil;&atilde;o digital, o tempo passado no mundo virtual apaga as fronteiras do que &eacute; e do que n&atilde;o &eacute; Real. Isso bloqueia o acesso aos sentimentos que nos tornam humanos. Ouvir as hist&oacute;rias desses e-mails de bilion&aacute;rios e multi milion&aacute;rios sem se enojar, sem gritar para nossos filhos que isso &eacute; muito, muito errado, &eacute; cair na grande vala onde o Mal pode se esconder e prosperar, que &eacute; a vala da Indiferen&ccedil;a. Isso me faz perguntar se estamos sendo treinados a perder a sensibilidade diante do horror e da desumanidade. Espero que possamos gritar, e nos inconformar com quem quer tirar a nossa capacidade de empatia.</p>\n<p>&nbsp;</p>\n<p>Comece a&iacute;, na sua casa e no seu grupo de WhatsApp, a gritar contra a cultura da indiferen&ccedil;a. Porque a viol&ecirc;ncia pode vir a bater em nossas portas, atrav&eacute;s de gente que parecia do Bem.</p>\n<p><br><strong><em>Marco Antonio Spinelli &eacute; m&eacute;dico, com mestrado em psiquiatria pela Universidade S&atilde;o Paulo, psicoterapeuta de orienta&ccedil;&atilde;o junguiana e autor do livro &ldquo;Stress o coelho de Alice tem sempre muita pressa&rdquo;.</em></strong></p>",
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